Um fic do universo de Sailor Moon NDK. Bishoujo Senshi Sailor Moon Tsuki no Senshi Dragon Kishi LIVRO IV: Sobrevida As Senshi e fatos relacionados a elas são criação de Takeuchi Naoko, enquanto Chris, Andrea e Maury são criação de Strike Fiss. O resto ou é meu ou é de alguém dentro da Exodus... O prólogo era o capítulo 3 de um outro fic meu, Tales of Ryu and Minako, mas acho que será mais útil aqui, como referência. Ele se passa durante o período que Ryu e Minako atuaram juntos, antes do Livro I. O corpo principal dessa história se passa imediatamente após o fim do Livro III. Comentários e críticas serão muito apreciados. E peço, desde já, desculpas pelo atraso. Finalmente, os eventos em Star Knights que se passam aqui ocorrem após o fim da segunda temporada (capítulo 40) dessa outra série minha. Falas entre <> serão em inglês. Henrique "Ranma" Loyola hloyola@uol.com.br ranma@exodusfanfictions.net gyrum@exodusfanfictions.net 'Há caminhos que ele não deve trilhar. Há exércitos que ele não deve atacar. Há fortalezas que ele não deve sitiar. Há territórios que ele não deve disputar. Há certas ordens do rei que ele não deve obedecer.' - Sun Tzu, "A Arte da Guerra" Prólogo Satori Ryu sorriu de leve para si mesmo. Era raro ele permitir-se essas pequenas expressões de prazer, mas era inevitável. Até mesmo ele não conseguia negar que existia um ar mágico e encantador nas ruas escuras da cidade de Atenas. Ele flexionou suas pernas, e saltou para o próximo telhado, não fazendo som algum ao aterrisar. Orgulhoso de seu próprio silêncio, ele ergueu-se, e pôs- se a observar o movimento da viela abaixo dele. O seu momento particular foi interrompido pelo alto ruído de sandálias atingindo o chão atrás dele. - Por que você estava sorrindo? - Aino Minako, treze anos e vestindo o uniforme de Sailor V, perguntou. Com um suspiro, e sabendo que seu momento havia sido quebrado, o jovem Moon Dragon voltou-se para sua parceira e respondeu: - Nada. Que não a satisfez. - Não é nada! - ela insistiu, aproximando-se dele, e movendo o rosto para ficar observando as reações dele. O sorriso de Ryu sumiu, e ele encarou-a longamente, tentando intimidá-la com seus olhos vermelhos. Minako sequer percebeu: - Hein, Ryu-kun? - Não me chame assim. - ele rosnou. Sailor V mexeu os ombros, e com uma risada satisfeita saltou para o próximo telhado, obviamente se divertindo. Ryu suspirou para si mesmo. Ele já havia lembrado Minako quatro vezes de que estavam caçando o que quer que estivesse se passando por Zeus na cidade, e que eles deviam ser discretos. Ela só pode fazer isso para me irritar, ele pensou com irritação. E com sucesso. Balançando a cabeça, Ryu voltou a olhar para a viela, recordando-se dos detalhes da reportagem que ele lera em Londres. Duas vítimas tinham sido atacadas por uma figura enorme, grisalha e barbada, vestindo uma toga e comandando relâmpagos. Nenhuma havia sofrido quaisquer ferimentos, mas haviam sido hospitalizadas por fraqueza e mal-estar. Todos os sinais de um youma em ação. - Moon! - gritou Sailor V. Ryu olhou. Ela estava a quatro telhados de distância e, provavelmente, fora ouvida por toda vizinhança. Ele cobriu seu rosto com as mãos, e contou até dez. - MOON! - ela chamou, mais alto. Resignado, ele começou a mover-se. - Por que você não respondeu? - ela perguntou, quando ele aproximou-se. - Porque queremos ser discretos. - ele retrucou. - Nós estamos na Grécia! - ela proclamou, com aquele enorme e maníaco sorriso que ela fazia tão bem. - Nós devíamos aproveitar um pouco! - Tem um youma a solta, Minako. - ele retrucou. - Sim, sim. - ela falou, com um ar de desinteresse. - Ele não está matando ninguém, diferente do doido de Londres. Nisso, Moon Dragon era obrigado a concordar. Ele e Minako não estavam trabalhando juntos há tanto tempo, e só tiveram dois grandes "casos". O primeiro, quando se conheceram em Tóquio, e o segundo, quando chegaram em Londres. Um breve arrepio percorreu o corpo do jovem Kishi quando ele lembrou do velho Jack, mas ele não falou nada. - Ainda assim, - ele falou, soando menos convincente. - nós temos que fazer alguma coisa. - Eu sei. - disse Minako, com um tom resignado. - Mas nós não precisamos ser tão chatos no processo! - o sorriso, que desaparecera por um instante, retornou com força total. - Ainda mais que nós conseguimos deixar os dois velhotes para trás! Ela se referia, é claro, a Artemis e Lockheed. Ryu abriu a boca para discutir, mas fechou-a, percebendo que seria um esforço inútil. Um sorriso formou-se no seu rosto, despercebido, e ele caminhou até a beira do telhado, olhando para o movimento nas ruas abaixo dele. Ele sentiu uma cutucada nas costas, e virou-se. - Sabia que você estava se divertindo! - Minako falou, ainda sorrindo como uma louca, e saltou em seguida. Ryu perseguiu-a, falando: - A gente tem que achar o youma! - E você realmente acha que nós precisamos ficar observando um monte de gente pra achar ele? Ele é um velho grande e vestindo toga! Moon Dragon parou. Ele percebeu que, incrivelmente, Sailor V tinha toda a razão. Balançando a cabeça sem acreditar, ele saltou, acompanhando-a na sua corrida louca e secretamente divertindo-se. Os dois moveram-se em silêncio pela noite, ficando pouco tempo parados. Sem conhecer a cidade, eles não tinham como construir uma rota coerente de patrulha, então estavam cruzando a cidade de Leste a Oeste. Foi quando chegaram na região de Egaleo que o bom humor dos dois começou a desaparecer. A região era industrializada, e as belas casas esbranquiçadas e ruínas foram substituídas por fábricas, galpões e casa menores, de baixa renda. O cheiro do ar também era diferente. Ryu parou. - V-chan, acho que nossa busca não vai dar muito resultado. - É. - ela concordou, olhando ao redor. - Será que não é melhor perguntar pras pessoas durante o dia? Moon Dragon mexeu os ombros. Provavelmente, mas nenhum dos dois falava uma palavra só de grego. Espero, ele pensou, que o inglês seja bem difundido aqui. Ele abriu a boca para responder que sim, era uma boa idéia, quando um relâmpago cruzou o céu, atingindo o chão numa região próxima dali. Alguns instantes depois, um trovão ecoou pelo ar. Os dois pararam e olharam para o céu. - Sugoi. - disse Sailor V. - Com o céu limpo? - Ryu questionou, e começou a correr na direção onde o relâmpago atingira o chão, internamente sorrindo. Eles estavam com sorte naquela noite. - Eu queria passar um tempo aqui. - Sailor V resmungou, seguindo o Dragon Kishi. - Matar o youma e voltar pra Londres não é divertido! Ryu ignorou a loira, guiando-se pelos telhados desconhecidos o mais rápido possível. Um grito agudo pareceu rasgar o silêncio da noite, e ele apressou o passo, ouvindo um xingamento de Sailor V, e um aumento de velocidade por parte dela. Moon Dragon já tinha saltado da beira de uma fábrica, pretendendo usar um poste como apoio para continuar sua jornada, quando notou uma jovem correndo, desesperada, pela viela exatamente abaixo dele. Dando uma cambalhota, o Kishi equilibrou-se no poste, e observou. Um enorme homem, vestindo um sobretudo e com longos cabelos negros, a perseguia, movendo-se muito mais devagar que a jovem. Ryu franziu a testa. Os movimentos do perseguidor estavam lentos demais para uma pessoa com aquela musculatura e aquele tamanho. Ele parou, e ergueu a mão. Um relâmpago caiu do céu, atingindo o chão diante da jovem, que caiu para trás com um grito apavorado. - Toga. - resmungou Ryu, irritado. - Até parece. - PARADO AÍ! - Sailor V gritou, e Moon Dragon suspirou. - As mulheres lutaram duro pelos seus direitos iguais, e devem poder caminhar pela noite em tranquilidade! Como se ATREVE a perseguir uma jovem inocente? Eu sou a bela e misteriosa guerreira Sailor V! - ela fez uma pose. - E vou punir você em nome da Lua! Com isso, Sailor V saltou, colocando-se entre o perseguidor e a vítima. Ela olhou para a moça, e falou: - Não se preocupe! Eu vou cuidar de tudo! A moça apenas gritou, afastando-se de Sailor V. - Ela não fala japonês. - Moon Dragon comentou secamente, aterrisando ao lado de Sailor V. - A jovem novamente gritou. Ela, aparentemente, não falava inglês. Moon Dragon empurrou a vítima um pouco, fazendo o gesto universal para que fosse embora: - - ele podia jurar que ouviu uma risada de Minako. - Sailor V? - o enorme homem perguntou, sua voz como um trovão distante. - Eu já ouvi falar de você. Sei que há muito interesse pela sua morte! - com isso, ele ergueu o braço. - Pule! - Ryu gritou, saltando para o lado. Minako saltou na outra direção, e, instantes depois, um relâmpago caiu do céu, atingindo o lugar onde eles estiveram poucos momentos antes. Rolando no chão, o jovem Dragon Kishi sacou sua katana, colocando-a em guarda por um momento, depois pulou na direção do gigante. Sailor V rolou no chão, rapidamente colocando-se em pé, e apontou seu dedo para o homem, gritando: - Crescent Beam! Uma rajada luminosa cortou a escuridão da noite, atingindo o homem no braço. Ele gritou de dor, e recuou alguns passos, colocando sua outra mão sobre o ferimento. Ryu notou, com um sorriso, que um líquido esverdeado escorria por entre os dedos dele. - Youma! - Moon Dragon gritou, recuando sua espada, e atacando. - Moon Light Blade Slash! O youma saltou, dessa vez esquivando-se do ataque com certa facilidade. Ele pareceu considerar suas chances por um instante, depois virou as costas e fugiu, correndo muito mais rápido que quando perseguira a jovem. Moon Dragon hesitou apenas um instante antes de lançar-se atrás do youma, correndo com toda sua velocidade. Ele ouviu os passos de Sailor V atrás dele, e sorriu. O sorriso sumiu quando uma enorme sensação estranha tomou conta dele. O instante que Ryu levou para decifrá-la foi o suficiente. O relâmpago atingiu o chão entre os dois heróis, e o cheiro de ozônio inundou os sentidos de ambos. O mundo clareou-se por um momento, e Ryu lutou para manter-se consciente. Os milésimos de segundo que o impacto durou pareceram horas. Finalmente, o clarão luminoso sumiu, e o mundo ao redor de Moon Dragon voltou a ser noite. Ele balançou sua cabeça, tentando clarear sua visão e audição, e levantou-se, suas pernas tremendo. O youma tinha escapado. Xingando, Moon Dragon preparou-se para perseguir, quando lembrou-se de algo. Olhando ao seu redor, ele viu Sailor V, inconsciente, caída no chão. Ele lançou um último olhar ao redor, procurando seu inimigo, depois desistiu com um suspiro. O Dragon Kishi abaixou-se, recolheu sua companheira nos braços, e começou a caminhar de volta para a cidade e o hotel onde eles estavam hospedados. **** Sailor V abriu seus olhos, subitamente assustada. Ela estava sendo carregada. Quase como por instinto, ela começou a erguer sua mão, sua mente já tateando seus poderes para um disparo de energia. Quando os olhos vermelhos da pessoa que a carregava voltaram-se para ela, ela relaxou. - Acordou? - Moon Dragon perguntou. - Un. - ela respondeu. - O youma...? - Escapou. Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos. Não ocorreu a Minako sugerir que ele a colocasse no chão. A sensação de ser carregada era boa, e correr por conta própria simplesmente não era tão confortável. Aparentemente, Ryu também não pensou em falar nada a respeito, pois ele só abriu a boca muito depois: - Chegamos no hotel. - ele falou, parando. Mais um salto, e os dois estavam numa rua deserta, a menos de cem metros do seu destino. - Nós precisamos reverter para entrar. Ela fez que sim, e suspirou quando ele a colocou no chão. Um comando mental depois, e Sailor V tornou-se simplesmente Aino Minako. Ela piscou, sentindo a súbita falta de energia que vinha com o retorno à sua forma normal, e voltou-se para Ryu, notando que ele, também, já tinha voltado ao normal. Em silêncio, os dois caminharam até a entrada, sem falar com ninguém. Continuaram quietos até entrar no hotel e fechar a porta. Foi só então que Minako falou: - Você devia ter ido atrás dele! Ryu, que estava caminhando até o banheiro, parou e virou-se para ela: - Como assim? Você que desmaiou com um raiozinho de nada! - Agora ele ainda está a solta, e preparado para nós! - Ah, como se você quisesse voltar para Londres logo. - Ryu respondeu, sorrindo de leve. Ele virou-se, entrou no banheiro, e fechou a porta sem esperar pela resposta da loira. Minako ficou parada, de boca aberta, olhando para onde o Kishi estivera há pouco. Furiosa, ela caminhou até o frigobar, abrindo-o com muito mais força que necessária, e rapidamente selecionando um alimento apropriadamente doce e caro para aplacar sua irritação. Afinal, Ryu quem iria pagar. - De todo jeito, não foi uma perda total. - Ryu gritou, ao mesmo tempo que o chuveiro ligou-se. - Nós sabemos o que procurar. Minako fez que sim, esquecendo-se que ele não podia vê-la, e ligando a televisão. - E onde. - Ryu completou. Mas a atenção de Minako já estava totalmente dedicada a um show de uma cantora ou outra na televisão e não respondeu. **** O dia seguinte foi longo e árduo para Ryu. Minako decidira que iria bancar a turista no que poderia ser o primeiro e último dia dos dois em Atenas, e ele foi forçado a caminhar por todos os pontos turísticos de lá. Superficialmente, ele manteve-se distante e desinteressado, mas as ruínas gregas tinham uma familiaridade tão grande que sua atitude era totalmente superficial. Ele morreria antes de admitir, mas gostara de passar o dia com Minako. O turismo dos dois também foi organizado de tal forma que terminasse próximo de Egaleo. Com isso, a noite mal tinha caído, quando Moon Dragon e Sailor V chegaram no lugar onde enfrentaram o youma na noite anterior. - Nada. - disse Ryu, terminando de patrulhar as redondezas. - Ele podia estar aqui somente de passagem. - disse Minako, mexendo os ombros. - Não sei. - Ryu respondeu, duvidoso. - Regiões industriais não costumam ter muitas moças passeando durante a noite. - Mas também são isoladas. - Sailor V lembrou-o. - Mais fácil achar uma moça desacompanhada e distante de multidões. - Un. - Ryu concordou, um pouco relutante. Os dois ficaram parados, em silêncio, como se esperando que algo acontecesse. Ryu aproveitou para examinar o lugar com mais cuidado, prestando atenção nos detalhes ao seu redor. Minako tem razão, ele pensou. Uma moça podia se matar de tanto gritar aqui que ninguém ouviria. Longos minutos passaram-se, e nenhum sinal de atividade na região presenteou-se. Ryu podia notar claramente que Minako estava ficando impaciente. Com um suspiro, ele sugeriu: - Talvez devamos seguir o caminho por onde perseguimos o youma ontem? - Ótima idéia! - Sailor V concordou, claramente aliviada em sair um pouco daquele ponto. - E depois podemos voltar a patrulhar o resto da cidade! Ela não esperou mais nenhuma colocação de Ryu para sair andando. O Kishi ficou olhando para ela um pouco, e seguiu, mantendo seus sentidos atentos. Enquanto Sailor V caminhava rapida e impacientemente, Moon Dragon seguia devagar, seus olhos pregados no chão, como se estivesse procurando por rastros no asfalto. Ele tinha consciência de que não encontraria pegadas ou coisas parecidas no asfalto, mas recusava-se a acreditar que o youma tivesse desaparecido de forma tão absoluta. De tempos em tempos, ele ouvia Minako apressá-lo, mas ignorava a Senshi. Pouco a pouco, o asfalto tornou-se uma estrada de terra, e, depois, uma trilha. Ele piscou quando sentiu um cutucão no seu ombro, e olhou para sua companheira, que estava encarando-o com uma expressão irritada: - Nós saímos da cidade, já. Tem só esse morro aí em frente, e mais nada. Vamos voltar. Moon Dragon ergueu os olhos. Começava uma subida íngreme logo adiante, num morro rochoso que subia algumas centenas de metros. Ele suspirou. De fato, não tinha notado qualquer coisa estranha, e eles certamente já tinham passado há muito do lugar onde o youma nocauteou Sailor V. Resignado, Ryu virou-se, abrindo a boca para concordar com Minako em ir até a cidade. Então, algo chamou sua atenção. Ele parou de mover-se, não se atrevendo a mover sua cabeça. Minako falou alguma coisa, mas ele ergueu a mão, silenciando- a, e começou a andar. Uma pedra, na base da montanha, parecia coberta por limo. Olhando ao redor, Ryu notou apenas uma delas estava assim. Ele sorriu de leve. - O quê? - perguntou Minako, olhando para ele. - Ali. - ele apontou, e aproximou-se da pedra. Chegando perto, ele percebeu que estivera certo. Não era limo. Era sangue seco. - Sangue verde. Sailor V aproximou-se, e olhou para as pedras. Os olhos dela arregalaram- se por trás da máscara, e Ryu sabia que ela entendera. Ela olhou ao redor, e rapidamente saltou, aterrisando em outra pedra, alguns metros acima. Ela olhou ao seu redor, brevemente, depois falou: - Aqui também. Menos, umas gotas, mas é a mesma coisa. Moon Dragon saltou até lá, olhando para a pedra, depois para cima. Ele saltou: - Mais uma. Poucos minutos depois, os dois estavam quase no cume da montanha, seguindo uma trilha de gotas de sangue seco esverdeado. Foi Minako, entretanto, quem achou a última pedra: - Essa tem mais. - ela disse, já olhando ao seu redor em busca da próxima pista. Ryu saltou até a sua parceira, e ajoelhou-se na rocha, fazendo que sim para si mesmo. Realmente, havia quase tanto sangue seco ali quanto na primeira pedra que ele encontrara. Era como se o youma tivesse passado mais tempo naqueles dois pontos. Ele se levantou e começou a olhar ao seu redor. - Nada. - ele disse, depois de quase um minuto procurando. - Nem sinal. - Sailor V confirmou. - Por que ele pararia aqui em cima? - Ryu perguntou em voz alta. Minako apenas mexeu os ombros, e sentou-se na pedra limpa ao lado da manchada de sangue. - Por que o sangue continua aqui? - Minako perguntou, também soando como se estivesse apenas falando consigo. Ryu piscou. Minako tinha razão. O sangue dos youmas costumava desaparecer meras horas após ter sido derramado, virando pó. Como poderia estar lá desde o dia anterior? Os dois chegaram à resposta no exato mesmo momento, trocando olhares surpresos. E um relâmpago caiu do céu, exatamente onde eles estavam. Moon Dragon reagira com mais velocidade, tendo saltado assim que a luminosidade surgiu. Sailor V fora mais lenta, e estivera exatamente no local onde o relâmpago atingiu. Ryu foi lançado para trás com o deslocamento do ar que a explosão do relâmpago causou, e rolou pela lateral da montanha por alguns metros antes de conseguir segurar-se em uma das rochas. Rosnando, ele lançou-se ao ar, conseguindo equilibrar-se na pedra onde aterrisou. Ele olhou para o lugar onde Sailor V estava, notando que ela estava se levantando, claramente atordoada. Foi então que uma figura enorme, subiu no rochedo onde ela estava, e ergueu as enormes mãos, preparando-se para golpeá-la. Os olhos de Ryu arregalaram-se, e ele deu dois rápidos passos para pegar impulso, depois pulou. O Dragon Kishi colocou-se entre o youma e Sailor V, segurando o golpe com suas mãos. Ryu preparou-se para contra-atacar, quando a rocha sob seus pés tremeu. As três figuras ficaram imóveis, como se esperando que a movimentação cessasse. Então, aconteceu. As rochas começaram a rolar, numa pequena avalanche. Obviamente, o impacto do relâmpago foi muito para a montanha, e o peso dos combatentes terminara o serviço. Pensando rápido, Ryu agarrou Minako pela cintura com seu braço esquerdo, chutou com força o youma e, usando-o como apoio, lançou-se para cima. Ele pisou numa pedra que ainda não começara a cair, e saltou de novo, buscando algum lugar que parecesse mais sólido. Novamente, ele pisou num apoio instável, e saltou, dessa vez vendo uma formação que parecia sair da montanha em si. Parando lá em cima, ele colocou Sailor V no chão, que cambaleou um pouco mas se manteve em pé. Os dois olharam para baixo, vendo o youma cair junto com as pedras. Exceto que... - Aquelas pedras não estão deslizando para baixo! - Ryu falou, apontando. Minako fez que sim: - Elas estão caindo em algum buraco na montanha. Ryu piscou. Finalmente, a montanha estava estabilizando-se, e as pedras paravam de rolar. Ele forçou os olhos, tentando ver na escuridão, e ficou surpreso ao notar que Minako estava certa. Tinha uma espécie de abertura na montanha, como se ela fosse oca. Obviamente, a abertura estivera oculta pelo monte de rochas que cobria o lado da montanha. - O youma caiu lá dentro. - Ryu observou, flexionando as pernas para um salto. - Tinha que ser. - Sailor V falou, com um tom resignado. Ryu saltou, ignorando o comentário da loira, e aterrisou na beira do buraco, examinando o interior com cuidado. Ele ouviu o som das sandálias de V tocando o chão ao seu lado. - Eu vou iluminar um pouco. - ela falou, sorridente. - CRESCENT BEAM! Moon Dragon abriu a boca para dizer que ela esperasse, mas a rajada dourada rasgou as trevas dentro da montanha, iluminando tudo por um momento. Ryu virou a cabeça, lentamente, para Sailor V, preparando-se para dizer o que pensava daquela atitude impulsiva, quando um brilho de dentro da montanha chamou sua atenção. Piscando, ele virou o rosto para o buraco. Era como se estivessem acendendo as luzes de um corredor, uma a uma. Esferas de vidro sustentadas por colunas de uma pedra esbranquiçada estavam acendendo-se como se eletricidade estivesse correndo por elas. O buraco, aparentemente, terminava um pouco abaixo deles, numa escada. O topo dela estava coberta pelas pedras que desmoronaram, mas os degraus alvos como a neve podiam ser vistos apenas alguns metros abaixo. Surpresos, os dois jovens trocaram olhares. Foi Sailor V que falou primeiro, surpreendentemente: - Precisamos ir atrás do youma. Moon Dragon sabia que as intenções reais de Sailor V eram muito mais relacionadas à curiosidade da loira que ao monstro, mas não falou nada. Ele pulou dentro do buraco, evitando as pedras e chegando na escada. Ele olhou para cima, fixando seus olhos vermelhos na loira, esperando. Minako deu um sorriso radiante, e saltou, juntando-se a ele. Ele virou-se, e começou a caminhar pela escada, lentamente. - Incrível. - Sailor V suspirou, seus olhos cheios com o que viam. Ryu era forçado a concordar. As escadarias que eles desciam eram longas, e a pequena caverna ia, pouco a pouco, abrindo-se numa enorme câmara. Tudo era feito daquela mesma pedra esbranquiçada, que, apesar de lembrar mármore, era algo que o Kishi nunca vira antes. Os pilares com luzes eram cada vez mais frequentes, e os olhos vermelhos de Ryu podiam enxergar alguns globos presos à parte superior do lugar. Finalmente, no centro da câmara, algo que parecia um arco clássico, com aproximadamente dois metros de altura, repousava. Símbolos estranhos estavam gravados ao longo do arco, mas sem aparentar qualquer coerência. Ryu estava tão distraído com o que via, que não notou a presença do corpulento youma até ser agarrado pela cintura e arremessado contra o arco. Os reflexos do Kishi entraram em ação, e ele agarrou a estrutura, girando nela e equilibrando-se no seu topo. Sailor V foi igualmente arremessada, mas baixo demais para segurar-se. Ela acertou o chão, deslizando pelo liso piso antes do atrito pará-la. Rosnando, Moon Dragon saltou sobre o youma, atingindo-o com um chute na face. O youma tentou agarrá-lo novamente, mas o Kishi esquivou-se, aproveitando-se da sua estatura menor que seu oponente. Na primeira oportunidade, Ryu atingiu o peito do youma com um chute com as pernas. O youma foi lançado para trás com o impacto, atingindo o solo sob o arco. O youma levantou-se lentamente, encarando Ryu o tempo todo. Moon Dragon franziu a testa e sacou sua katana. O youma estava demorando tempo demais. Uma sensação súbita de emergência surgiu na mente do jovem, e ele saltou o mais alto que conseguia. Um relâmpago invocado pelo monstro entrou pela abertura na montanha, e passou por baixo dos pés do Kishi. Era óbvio que ele deveria ter sido atingido pelas costas. Rosnando, Ryu moveu sua espada: - MOON LIGHT BLADE SLASH! - e lançou sua rajada de energia. - CRESCENT BEAM! - a voz de Sailor V gritou. O relâmpago e os ataques dos dois heróis atingiram o arco ao mesmo tempo. Todos os símbolos do arco acenderam-se ao mesmo tempo, três deles em vermelho. Ryu novamente olhou os símbolos, tentando compreender o significado. Por um momento, ninguém se mexeu, todos mesmerizados pelo artefato. Então, a energia no arco explodiu. O youma gritou, estando exatamente no centro. Ryu lançou-se no chão, gritando: - SAILOR V! PRO CHÃO! E o mundo ficou branco. **** Aino Minako não estava inconsciente, disso ela tinha certeza. Entretanto, o mundo estava completamente escuro. Lentamente, ela levantou-se, cambaleando, e balançou a cabeça. Ela conseguia ouvir o som do vento soprando pela entrada da câmara na caverna, e sentir a leve brisa. A possibilidade da entrada ter sido selada logo foi descartada, o que deixava, então, apenas uma outra. - Ryu-kun? - ela chamou, assustada. - Eu estou cega. Ryu não respondeu. Será que ele está bem, ela se perguntou. Minako tentou dar um passo, logo amaldiçoando as sandálias de Sailor V. Ela quase virou o pé. Respirando fundo, ela começou a dar outro passo, quando alguém a agarrou por trás, e saltou com ela. Ela abriu a boca para dar um grito, mas uma mão calejada impediu. A voz familiar de Ryu sussurrou no seu ouvido: - Fique quieta. O youma ainda pode estar aqui. Ela fez que sim, sentindo seu pulso acelerar, como sempre acontecia quando ela era carregada por ele. Minako manteve-se absolutamente imóvel, sentindo-se segura nos braços do Kishi. - Você está vendo alguma coisa? - ela perguntou, sua voz tão baixa quanto o vento. - Não. - ele respondeu. - Mas logo voltará. Minako fez que sim, e relaxou. Longos minutos passaram-se, enquanto os dois esperavam. Finalmente, Ryu falou: - Eu estou começando a ver um pouco. Nesse instante, uma menina gritou. Minako piscou, surpresa. Não havia ninguém na caverna antes. Ela abriu a boca para observar isso, quando Ryu colocou-a no chão, e moveu-se para longe. Cega, Sailor V ficou imóvel, apenas esperando. Ela ouviu mais um grito feminino, e depois sons de briga. Ryu xingou, e a voz rosnada do youma também disse algo menos que polido. - V-chan! - Ryu gritou. - Salve a menina! Cega, Minako começou a correr na direção da voz: - - Minako gritou, em inglês. - Socorro! - gritou a menina, em japonês. Surpresa, Sailor V dirigiu-se até a voz, agarrando a cintura fina da menina e saltando para trás: - Você vai ficar bem. - ela falou. - Sailor V? - perguntou a menina, parecendo surpresa. - A única. - Minako respondeu, com um sorriso largo. O negrume começou a sumir da sua vista, e ela encontrou-se olhando para uma menina de longos cabelos loiros. Colocando ela no chão, Sailor V olhou na direção de Ryu e do youma, vendo que os dois ainda estavam atracados num confronto. Apontando seu dedo, ela concentrou-se em mirar o melhor que podia: - CRESCENT BEAM! Moon Dragon jogou-se no chão ao ouvir o ataque, mas o youma não foi tão rápido. A rajada atingiu o gigante em cheio, lançando-o para trás e queimando as roupas que ele estava usando. Urrando um insulto, o youma saltou, correndo pela escada e pulando para fora. Ryu fez menção de seguir, mas hesitou, olhando para trás e vendo Minako e a menina. Ele pareceu dividido por um momento, depois seguiu o youma. Aliviada, Minako voltou-se para a menina, examinando-a com mais cuidado. Ela era pequena, mais baixa que Minako, mas parecia ter sua mesma idade. Ela estava olhando para Sailor V com enormes olhos azuis, e tinha longos cabelos loiros, ambos um pouco mais escuros que os de Minako. O mais curioso era o penteado dela, que pareciam ser dois enormes rabos de cavalo saindo de duas bolas no topo da sua cabeça. Ela deve ter um monte de cabelo para fazer isso, pensou Minako. - Obrigada. - a menina falou, olhando ao redor. - Eu... posso pegar o seu autógrafo? Sailor V sorriu largamente: - Claro! - Eu só tenho uma pergunta. - a voz baixa de Ryu interrompeu. As duas viraram-se para ele, e a menina deu um grito, surpresa. - O que uma estudante japonesa está fazendo na Grécia? E de uniforme ainda por cima? A menina piscou: - Grécia? - Sim. - disse Sailor V. - Estamos em Atenas. - Mas... eu estava voltando para casa... - os olhos da menina começaram a se encher de lágrimas. - EU NUNCA VOU VOLTAR PARA CASA! - ela gritou, caindo no chão e começando a chorar. Ryu e Minako trocaram olhares, e a loira entendeu exatamente o que o menino queria. Com um suspiro, ela caminhou até a menina, ajoelhando-se ao lado dela, ao mesmo tempo que Ryu começou a caminhar até o arco, e começou a examiná- lo. Os símbolos ainda brilhavam fracamente. - Calma... Nós vamos dar um jeito. - disse Minako. A menina parou de chorar imediatamente, virando-se para a heroína com olhos esperançosos: - Mesmo? - Mesmo. - Sailor V confirmou, parecendo segura. - Como é seu nome? - Serena. - a loira respondeu. - Serena Tsukino. - Bom. - disse Sailor V. - Eu sou Sailor V, mas você pode me chamar de V- chan. O menino assustador ali é o Moon Dragon. Meu ajudante. - Parceiro. - Ryu colocou. - Parceiro. - Sailor V concordou, sorrindo para Serena. - Vamos voltar para a cidade, e você pode ligar para sua casa, Tsukino-chan. - Pode me chamar de Serena. - disse Serena, sorrindo. - Quando você me chama de Tsukino, parece que tá falando com a minha mãe. Minako piscou, surpresa: - Como assim? Você não é japonesa? - Sou. - Serena respondeu, confusa. Minako mexeu os ombros, sem entender, mas decidida a deixar o assunto de lado. Ela levantou-se, e oferceu a mão para Serena: - Certo, Serena-chan. Serena aceitou a ajuda, e levantou-se: - As meninas não vão acreditar que eu conheci você! - ela falou, com um sorriso empolgado. Sailor V apenas sorriu de volta, e voltou-se na direção de Ryu: - Podemos ir, Moon Dragon? Ryu olhou para ela, e mexeu os ombros: - Acho que sim. - ele olhou para o arco que estivera examinando. - Isso aqui é algum tipo de portal. Explicaria como Serena-san chegou aqui. - ele olhou para a menina em questão, franzindo a testa. - Mas por que ela? Serena piscou, e rapidamente moveu-se para trás de Minako, escondendo-se de Ryu. Sailor V olhou para a menina atrás dela, depois para seu parceiro: - Não sei, mas não fique assustando ela. Moon Dragon mexeu os ombros: - Vamos para a cidade. Você pode ligar pros seus pais de lá, e a gente arranja um jeito de você voltar pra casa. Serena sorriu largamente para ele, agarrou-o num abraço: - Obrigada! **** Moon Dragon cruzou seus braços e encostou contra a parede, tentando ignorar os olhares que ele estava atraindo das pessoas que passavam. Sailor V estava no topo de um telhado próximo, longe dos olhos do público. Previsivelmente, a população reconheceria ela com mais facilidade que ele. Os olhos vermelhos do Kishi estavam fixos na cabine telefônica diretamente na sua frente, onde Serena, a estranha menina loira, estava telefonando para seus pais. A parte mais insensível de Ryu achava que ela não era problema deles, mas algo nele achava a menina estranhamente familiar. Além disso, ele pensou, ela está aqui por culpa nossa. O jovem suspirou, e mudou um pouco de posição, esfregando seus olhos. Ele ainda estava com um pouco de fotossensibilidade, o que era profundamente irritante. Ele piscou, notando que Serena parecia estar chorando na cabine telefônica. Olhando ao redor, instintivamente buscando alguma ameaça, ele caminhou até lá, e bateu no vidro. Serena abriu, e agarrou-se nele: - ELE NÃO ME RECONHECEU! - ela gritou, chorando. Ryu olhou ao redor, notando que algumas pessoas estavam parando para observar a cena. Sem saber o que mais fazer, ele abraçou Serena, e murmurou: - Calma. Me explica melhor o que houve. Serena, fungando o nariz, falou: - Eu liguei, e o meu pai atendeu. Quando eu falei que estava na Grécia, ele ficou bravo, e disse que não era engraçado, que a filha dele estava no quarto, e que não era pra eu incomodar ele mais! - ela estava começando a chorar de novo. - Eu disse que não era brincadeira, e ele me falou boa noite e desligou! - Não chore. - rosnou Ryu. - Me diga seu telefone. E como é o nome do seu pai? - Ken Tsukino. - Serena respondeu, falando os números em seguida. Ryu tirou o telefone do gancho, e discou o número, tomando o cuidado de inserir o cartão telefônico que compraram para Serena antes. - Sr. Tsukino? - Ryu perguntou. - Sim? - respondeu a voz do outro lado. - Por acaso sua filha se encontra? - Sim. - ele respondeu, soando desconfiado. - Quem gostaria? - Ryu. - Ryu falou. - Um conhecido dela. - Um minuto. - ele falou. Alguns instantes passaram-se, e uma voz idêntica à de Serena atendeu: - Alô? - Serena? - perguntou Ryu. - Não, aqui é Usagi. - a voz respondeu. - Engano. - Ryu falou, e desligou o telefone. Ele ficou olhando para o aparelho por longos minutos, tentando entender o que estava acontecendo. - E então? - perguntou Serena, ansiosa. Ryu olhou para ela, sem saber o que dizer. Mais que isso, ele não sabia o que estava acontecendo, exceto que... - Você não é daqui. - ele falou, subitamente entendendo. - Claro. - Serena respondeu. - Sou do Japão. Ryu agarrou a menina pela cintura, e saltou, ignorando o grito que ela deu. Apoiando-se brevemente num poste, ele saltou novamente, finalmente aterrisando ao lado de Sailor V. Ele colocou a jovem no chão e falou: - Você não é deste mundo. - Como assim? - Serena perguntou, olhando para ele. - Como aquele desenho, Shurato? - perguntou Minako, subitamente curiosa. Os dois olharam para ela, que sorriu. - Sobre o menino que é levado para outro mundo? - Outro mundo? - perguntou Serena, confusa. - Aqui não é a Terra? - É outra Terra! - explicou Minako, subitamente empolgada. - Você veio de outro mundo, igual a esse! E tem uma outra Serena aqui... - Usagi. - Ryu corrigiu. - ... que se chama Usagi! - Sailor V terminou. - Não é demais? Serena ficou parada, boquiaberta, olhando para Sailor V por um longo momento. Depois, ela suspirou: - Então você não é a minha Sailor V? Moon Dragon conteve uma risada, e Minako olhou para ele por um momento antes de responder: - Acho que não. - Droga. - disse Serena. - Mas... como eu volto para casa? - Como? - Minako perguntou, olhando para Ryu. Ryu piscou, e olhou para as duas, antes de responder: - Eu não tenho idéia. Os três ficaram em silêncio, com Ryu olhando para Serena, com uma sensação de desconforto conforme a expressão da menina evoluía de surpresa para choro. Diferente dos anteriores, entretanto, ela estava apenas soluçando. Ryu olhou para Minako, que parecia igualmente perdida, depois de novo para Serena. Ele piscou. Havia algo naquela menina que era familiar demais... Ryu deu dois passos na direção da jovem, e envolveu-a num abraço: - Calma. - ele sussurrou no ouvido dela, com uma voz mais suave que a que costumava usar. - Nós vamos dar um jeito. Serena agarrou-se nele, enterrando seu rosto no ombro do Dragon Kishi, e soluçou: - Minha mãe! Meu pai! Ryu apenas abraçou a jovem com força, ficando em silêncio. Nenhum dos dois notou Sailor V saltar para longe, ou a expressão irritada no rosto da loira. **** Aino Minako, a Sailor V, não estava irritada. Ela não estava brava. Ela já estava em estágios de raiva muito além desses. A cidade era um borrão de cores abaixo dela enquanto ela praticamente voava de telhado a telhado. Caso alguém pudesse alcançá-la na velocidade que ela se movia, e caso essa mesma pessoa conseguisse chamar a atenção da loira por tempo o suficiente para perguntar-lhe por que ela estava tão brava, a possibilidade da resposta ser uma rajada de energia entre os olhos era considerável. Minako recusava-se a admitir que estava realmente irritada, mas a fúria no seu coração era impossível de ignorar. Diante dos olhos da menina, a imagem de Satori Ryu abraçando a outra menina praticamente fazia a Senshi espumar de ódio. Não, claro, que ela se importasse com o que Ryu fizesse com quem fosse. Absolutamente. Minako descontou a raiva momentânea que ela sentia numa chaminé no seu caminho, desferindo um chute que arrancou um pedaço do concreto. Sem sequer notar isso, ela continuou correndo, seus olhos instintivamente vasculhando os arredores, procurando por qualquer coisa para descontar sua raiva em. Um grito cortou o ar, e Sailor V virou-se naquela direção. Um bandido apontava uma arma para um casal com uma criança. Sem parar para se apresentar, Sailor V saltou do telhado, dando uma cambalhota no ar, e aterrisando ao lado do assaltante. Ele virou-se para ela com um grito de surpresa, mas o soco no estômago dele que ela desferiu foi tão rápido que o criminoso sequer puxou o gatilho. Antes dele cair no chão, já inconsciente, Minako já tinha saltado para o telhado mais próximo, e prosseguia sua patrulha. Trinta minutos depois, Sailor V tinha impedido quatro assaltos, um acidente de carro e salvado uma criança que caíra da janela do terceiro andar de um prédio. Em nenhum dos casos ela parou para conversar ou apresentar-se, sempre prosseguindo de forma frenética. Mais um grito ecoou pela noite, e Minako, novamente, saltou até o chão, preparando-se para ajudar. Ela parou abruptamente, olhando o enorme youma que caçava terminando de drenar a energia de uma jovem loira. Um lado malicioso do inconsciente de Minako torceu para que fosse Serena, mas ela logo percebeu que se tratava de outra moça. O corpo dela atingiu o chão, e Sailor V piscou. A moça parecia mais pálida que as outras vítimas de drenagem de energia. Os olhos azuis da Senshi desviaram-se da jovem, e fixaram-se no youma, que, agora, encarava-a de volta. Minako permitiu-se um sorriso, depois saltou na direção do youma. O monstro urrou como uma besta descontrolada, e moveu-se para enfrentá-la. **** Moon Dragon olhou ao seu redor, certificando-se uma última vez que ninguém mais estava olhando. Ele estava na mesma esquina onde ele e Minako reverteram na noite anterior, antes de entrar no hotel onde estavam hospedados. Satisfeito que não haviam testemunhas, ele virou-se para a jovem que o acompanhava, e falou: - Não fale pra ninguém disso. Serena apenas fez que sim, olhos fixos no Dragon Kishi. Uma luz pareceu envolver o menino por um momento, e, em seguida, ele era uma pessoa normal. - Nossa. - Serena comentou, olhos arregalados. - Meu nome é Ryu Satori. - ele falou, invertendo a ordem dos nomes para a loira. Serena fez que sim, sem saber como responder. Ryu virou as costas, e começou a caminhar na direção do hotel. Ele parou por um momento, e virou-se, esperando a jovem seguí-lo. Quando ela o fez, ele continuou caminhando. Poucos minutos depois, eles estavam no quarto de hotel onde Ryu e Minako estavam hospedados. Ryu indicou uma poltrona, e Serena sentou-se obedientemente. - Eu vou tomar um banho. - Ryu falou. - Nós não devíamos ir atrás de V-chan? - perguntou Serena, soando preocupada. - Eu não sei o que deu nela, mas ela sabe chegar aqui. - Ryu respondeu, despreocupado. - E sabe se cuidar. Serena fez que sim, mas ele não prestou atenção, já tendo virado as costas e trancado-se no banheiro. Quando Ryu levantou os braços para tirar a camiseta que estava usando, percebeu o quanto estava cansado. Todos os músculos do seu corpo protestaram. Ele rapidamente descartou o resto das suas roupas e entrou no pequeno chuveiro, ligando a água. O jato de água fria que veio antes não o incomodou, mas o calor que seguiu foi um alívio bem-vindo ao seu corpo. Ele fechou os olhos, permitindo-se aproveitar a sensação da água na sua pele, quando alguém bateu na porta. Ryu olhou para a porta por um momento, depois retornou sua atenção ao seu banho. Novamente, bateram na porta, dessa vez acompanhado pelo chamado de Serena: - Ryu-kun! Rápido! Percebendo a urgência na voz da jovem, ele desligou o chuveiro, e enrolou- se numa toalha, destrancando a porta com mais força que o necessário: - Que foi? - sua voz era seca e irritada. Serena, sem perceber o tom dele, apontou para a televisão. Ryu deu alguns passos para perto dela, para colocar-se numa posição onde pudesse ver a tela. Um rastro molhado ficou no tapete por onde ele passou. Assim que ele viu as imagens na televisão, entretanto, um xingamento escapou-lhe os lábios. Ele correu para dentro do banheiro, vestiu sua calça, sem se importar em secar-se, e correu para fora, olhando de novo para a tela. Ele levou alguns segundos para reconhecer o lugar, mas logo falou: - Espere aqui, Serena. - e saltou pela janela, gritando: - Moon Dragon Power! Na mente do Dragon Kishi, as imagens de Sailor V enfrentando o youma estavam vívidas, e uma expressão determinada surgiu no rosto dele enquanto ele rumava para o local do combate. **** Sailor V levantou-se do chão, apoiando-se na parede que atingira, e olhou na direção do youma. Ela começou a se arrepender da sua decisão de descontar sua irritação no monstro. Ela respirou fundo, e concentrou-se em manter suas pernas estáveis. Os últimos minutos de combate não estavam favorecendo ela. O youma, entretanto, não parecia estar com os mesmos problemas que ela. Com um grito, ele começou a correr na direção dela, mãos estendidas diante de si, pronto para agarrar a Senshi novamente. Desesperada, Minako concentrou-se em saltar, e suspirou, aliviada, quando conseguiu fazê-lo antes do youma agarrá-la. Ela apontou seu dedo para a enorme figura abaixo dela, e gritou: - Crescent Beam! Nada aconteceu. Claro, ela falou para si mesma. Você já lutou com o youma hoje mais cedo, ontem e acha que ainda vai ter energia? O youma olhou na direção dela, e esticou sua mão direita para cima, agarrando-a pelo calcanhar. Por um momento, a Senshi ficou imóvel, parada no ar. Em seguida, ela sentiu o monstro puxá-la com força, descendo-a como se fosse uma clava contra o chão. Minako abraçou-se e preparou-se para o impacto. Sua vista encheu-se de estrelas e ela sentiu os músculos das suas costas protestarem sob o golpe. Um novo puxão no seu calcanhar e ela estava voando contra outra parede. A dor não foi tão grande, mas ela já não conseguia levantar-se do chão. Pelo menos não tenho nada quebrado, ela pensou, erguendo seu rosto e olhando na direção do youma. Ele avançava lentamente na direção dela, sem pressa alguma. - V-chan! - Minako ouviu. Ela forçou-se a olhar para cima, sua irritação com Ryu substituída por um alívio incalculável. Ela observou o Dragon Kishi atingir o youma com os pés por trás, seguido por um golpe com sua espada. O youma virou-se na direção de Ryu, que parecia fluir entre os movimentos do monstro, desferindo golpes com as mãos, pés e espada. Sangue verde era lançado para os lados, manchando o asfalto. O youma, parecendo perceber que estava em desvantagem enquanto combatia tão próximo, tentou afastar-se, mas Moon Dragon não permitia. Ele parecia orbitar o gigante, saltando de um lado para o outro, sempre em contato com seu oponente. Sailor V suspirou, e um sorriso surgiu nos seus lábios antes dela desmaiar. **** Ryu estava tão preocupado quanto furioso, mas mantinha ambas emoções sob controle. Ele não podia se dar ao luxo de lutar por puro impulso. O enorme youma claramente tinha dificuldade para atingí-lo de tão perto, bem como representava, com seu grande porte, um alvo fácil para qualquer golpe que o Kishi tentasse desferir. Então, Ryu manteve-se próximo do seu oponente, contentando-se com golpes rápidos e fracos, mas contando que eles seriam o suficiente para sobrepujar o youma eventualmente. Os segundos se passaram, e o monstro parecia estar cansado. Sorrindo de leve, Moon Dragon afastou-se quando o youma caiu de joelhos. A katana do Dragon Kishi colocou-se em posição, e ele se preparou para dar o golpe de misericórdia no seu oponente. Então, o youma levantou a cabeça, sorrindo largamente. Foi uma armadilha. Ryu xingou alto e começou a correr, tentando diminuir a distância entre os dois novamente. Foi tarde demais, entretanto, e um relâmpago caiu do céu entre ele e seu inimigo. A luz cegou-o momentamente e o impacto lançou-o alguns passos para trás. Quando Moon Dragon ergueu o rosto, o youma tinha desaparecido. Seus olhos rapidamente percorreram os arredores e ele suspirou, aliviado, ao ver que Sailor V ainda estava lá. Um repórter começou a gritar algo para ele e começou a aproximar-se. Ryu subitamente se lembrou que estava sendo filmado e correu até Minako, pegando-a no colo e saltando para a segurança dos telhados. **** Quando Moon Dragon entrou pela janela do quarto do hotel, Serena estava chorando novamente, encolhida na cama de Ryu. Ela também tinha tomado um banho e parecia estar usando uma camiseta e shorts de Minako. O Kishi rapidamente olhou ao seu redor, por puro instinto, procurando por alguma ameaça. Não encontrando nenhuma, ele falou: - O que houve? Serena piscou e voltou seus olhos para ele. Eles estavam vermelhos de chorar, mas a menina respondeu: - Nada. - Não foi nada. - disse o Dragon Kishi, enquanto caminhava até a cama de Minako e depositou a loira lá. Ele não tinha como reverter a transformação dela, então contentou-se tirar os calçados dela, cobrí-la e tirar a máscara. Se alguém entrasse, não reconheceria Aino Minako, mas também não perceberia que se tratava de Sailor V. Satisfeito, ele olhou para Serena. - O que houve? Serena pareceu pensar um pouco antes de responder, como se estivesse debatendo consigo mesma se devia. Finalmente, ela começou a soluçar novamente e falou: - Eu liguei para os meus pais. - Eles não são seus pais. - Ryu falou, mais agressivamente que pretendia. Ele reverteu sua transformação. - Talvez passem a ser! - Serena chorou. - Se não conseguirmos me mandar de volta! - Uma combinação dos ataques meu e de Sailor V, assim como do youma ativaram o portal. - Ryu falou, lembrando. - Acho que podemos repetir isso. - Mas como você vai convencer aquele... monstro a colaborar? - Serena perguntou, olhando para ele. Ryu piscou. Ele não tinha pensado nisso antes. Reagindo com velocidade, entretanto, ele suprimiu sua surpresa, e respondeu: - Nós podemos capturá-lo e forçá-lo. Serena olhou para ele, subitamente esperançosa: - Mesmo? - Claro. - Ryu mentiu, sem entender por que o fazia. Ele costumava ser brutalmente sincero com as pessoas. Alguma coisa em Serena, entretanto, era incrivelmente familiar para ele, como uma memória que ele perdera há muito. Ele simplesmente sentia um impulso incontrolável de protegê-la de todo o sofrimento. - Mas você não falou o que conversou com seus pais. - ele disse, tentando mudar de assunto e, ao mesmo tempo, distrair-se da linha de pensamento que sua mente trilhava. Serena deitou-se na cama e suspirou. Novamente, ela hesitou um pouco, mas finalmente falou: - Eu queria saber se eles eram diferentes dos meus. - ela franziu a testa, antes de continuar. - Sabe, pra me convencer que não são os meus pais. - ela levantou-se com um sobressalto, e voltou-se para Ryu. - Então eu fingi ser uma amiga da... Usagi. Falei que era uma entrevista pra escola. Mas eles parecem iguais! Na voz, no jeito! Meu pai trabalha na mesma empresa que ele! Minha mãe também é dona de casa! E... - ela hesitou. - Você falou com Usagi. - Ryu acusou. - Não. - Serena admitiu. - Eu desliguei quando eles passaram pra ela. - ela olhou para o chão, e seus olhos voltaram a encher-se de lágrimas. - Eu... - Eu entendo. - Ryu falou, subitamente gentil. - Não se preocupe. Nós vamos mandar você de volta. Serena olhou para ele, procurando algum sinal de falcatrua nos seus olhos. Ela pareceu satisfeita com o que viu e sorriu abertamente: - Sim! Ryu mentalmente suspirou, aliviado. Ele não estava tão confiante quanto aparentava, mas não iria deixar que Serena percebesse isso. Ao contrário, ele faria o possível e impossível para mandá-la de volta para casa. Com esse pensamento em mente, ele voltou ao banheiro e terminou seu banho. Quando ele saiu, Serena estava dormindo na cama dele. Ele olhou para ela por um momento, depois para Sailor V. Ele caminhou até a cama da Senshi e olhou para ela, prestando atenção nos detalhes do rosto dela. Ele já tinha percebido quão bela a Minako era. Ele tocou o rosto dela, deixando seus dedos traçarem a linha suave da mandíbula da loira, apreciando a suavidade da pele dela. Subitamente, toda a atenção do Dragon Kishi estava nos detalhes das feições de Minako. Ele memorizou cada sinal, cada posição do fino cabelo loiro dela. Nesse momento, Minako se mexeu e Ryu congelou, assustado. A jovem, entretanto, não acordou e o Dragon Kishi voltou a respirar, rapidamente afastando sua mão do rosto dela. Ele recuou alguns passos e sentou-se na confortável poltrona ao lado da janela, perguntando-se o que acontecera. Os olhos dele continuaram fixos nos cabelos dourados de Minako, enquanto ele tentava entender por que estivera tão interessado na textura da pele e do cabelo dela. Finalmente, ele desistiu, encostando-se e fechando seus olhos. Ele começou a utilizar algumas das técnicas de meditação que Tatsumaki-sensei o ensinara anos antes, tentando limpar sua mente das questões que a assolavam. Em pouco tempo, seu corpo e mente estavam relaxados. Logo depois, Satori Ryu dormiu, sonhando com cabelos dourados. **** Quando Ryu abriu seus olhos, o Sol já estava alto no horizonte e o ruído de televisão, ainda que baixo, preenchia o quarto. Ele piscou algumas vezes, tentando tirar o sono dos seus olhos e levantou-se. Minako, ainda na forma de Sailor V, estava sentada na beira da cama, olhando para a televisão. Serena ainda parecia estar dormindo, com a coberta da cama puxada até seu pescoço. - Minako? - Ryu chamou, sonolentamente. Ela virou-se para ele e abriu um sorriso radiante: - Bom dia, Ryu-kun! - Bom dia. - ele respondeu, levantando-se. O Dragon Kishi começou a fazer uma sequência de alongamentos, tentando diminuir a rigidez que dormir no sofá trouxe. - O que está passando? Por que você está transformada? - BBC. - Minako respondeu, voltando-se novamente para a televisão. - E por que eu prefiro que ela não saiba quem eu sou. - ela disse, indicando Serena. - Que diferença faz? - perguntou Ryu, curioso. - Ela é de outra dimensão. - Mas se ficar aqui, pode se tornar um problema. - Minako falou, parecendo resoluta. Ryu apenas mexeu os ombros, voltando sua atenção brevemente para a televisão. Nada interessante parecia estar passando, então ele caminhou até o frigobar, abaixando-se diante da pequena geladeira e abrindo-a. Ele começou a procurar alguma coisa para comer ali dentro, subitamente consciente que não jantara na noite anterior. - Ryu. - Sailor V chamou, com um pouco de urgência na sua voz. Ryu levantou-se e olhou para a loira. Ela estava com os olhos fixos na televisão. Levando um instante para entender, Ryu quase perdeu a cena que estava chamando a atenção de sua parceira. - A cena de ontem? - ele perguntou, reconhecendo as imagens do combate dele com o youma. - A menina. - Minako esclareceu. - Morreu. Ryu levantou-se com rapidez, e colocou-se diante da televisão. Não só a menina que eles tentaram salvar tinha morrido, como mais quatro vítimas tinham sido feitas durante a madrugada. O punho do Kishi cerrou-se involuntariamente e um sentimento de culpa abateu-se sobre ele. Ele assumira que o youma tinha se ferido demais na noite anterior para continuar suas atividades. Evidentemente, assumira errado. - Eu vou procurá-lo. - Ryu disse, sua voz baixa. - Eu vou com você. - Sailor V disse, tentando levantar-se. Ela cambaleou e caiu de volta na cama. - Você mal consegue se levantar, V-chan. - Ryu falou, olhando para ela. - Além disso, preciso que você fique de olho em Serena. Minako abriu a boca para argumentar, para dizer que estava bem e que não era babá de ninguém, mas não o fez. Ela pareceu pensar a respeito, olhou para a jovem deitada na cama, depois de novo para Ryu. Finalmente, ela fez que sim. - Ótimo. - disse Ryu, virando-se para a janela. - Fique acompanhando quaisquer notícias sobre o youma. Se tiver alguma novidade, vá atrás dele. Eu vou acompanhar notícias na rua também. Minako fez que sim. Sem falar mais nada, Ryu vestiu uma camiseta, calçou um par de tênis e saiu pela porta, intento em achar o youma o mais rápido possível e impedir que mais mortes acontecessem. **** O Sol já tinha atingido seu zênite e começava a rumar em direção ao Oeste quando a busca desesperada de Moon Dragon permitiu que ele retornasse ao hotel. Ele tinha percorrido todos os cantos da cidade, saltando de telhado em telhado num ritmo alucinado. Ainda assim, ele não vira um sinal sequer do youma. Ryu não estava acostumado com isso. Era como se o monstro estivesse correndo tanto quanto eles, movendo-se tanto quanto eles. O Kishi, entretanto, não conseguia entender a lógica. O youma estava drenando energia freneticamente, deixando uma trilha de cadáveres atrás de si. Nos breves instantes que Ryu parava, ele via um ataque num novo local, um novo corpo projetado na televisão. Ele imediatamente rumaria para lá, sempre um passo atrás de sua presa. Frustrado com isso, Ryu saltou para dentro do quarto de hotel, atravessando a janela graciosamente. Ele olhou ao redor. A televisão estava ligada e as camas, desfeitas. Mas não havia ninguém no quarto. Um sentimento de desespero surgiu no seu peito por um instante. Ele virou sua cabeça com velocidade, abrindo a porta do banheiro com um estrondo. Nada. A sensação aumentando, Ryu voltou ao quarto, aproximando-se das camas e começando a arrancar as cobertas. O tempo todo, ele ouvia a voz da repórter da BBC. Os noticiários estavam passando incessantemente novidades sobre o chamado "vampiro diurno" de Atenas. A repórter da BBC dizia algo sobre a velocidade do ataque e como um homem gigante estava atacando as mulheres em qualquer lugar, mesmo no meio de multidões, lhe roubando de sua vida e fugindo numa velocidade impossível. Estado de sítio estava sendo decretado. Doze mulheres já tinham perdido sua vida. - Nove? - Ryu murmurou, assustado, virando-se para a televisão por um momento. Os lugares dos ataques e os horários apareceram num mapa da cidade. O Kishi franziu a testa. Era impossível. Nem mesmo ele conseguirira mover-se tão rápido de um ponto a outro da cidade. Isso apenas aumentou seu desespero. Ele olhou ao seu redor, procurando alguma pista. Então, ele viu um pedaço de papel preso ao trinco da porta. A caligrafia distinta de Minako tinha deixado uma curta mensagem. Ele xingou a si mesmo. A sua parceira tinha assumido que ele entraria pela porta, por onde saíra. Ryu pegou o bilhete, e leu em voz alta, tentando entender: - "Só matou loiras e jovens. Ele está atrás dela. Precisamos atraí-lo para um lugar longe da cidade. Vou terminar o tour com ela. Minako." Ele voltou a olhar para o bilhete. Visitar a cidade... Subitamente, Ryu lembrou-se do caminho que percorrera com Minako no dia anterior. E ele entendeu. Minako pretendia terminar tudo onde a batalha começou. Ele já tinha saltado pela janela antes do bilhete flutuar até o chão. Saltando de telhado em telhado, ele relaxou um pouco. Era um bom plano. Lutar na caverna que descobriram era uma boa idéia. Somente uma entrada, longe da cidade. Por que então, ele perguntou-se, tem alguma coisa me incomodando? Na sua mente, Ryu viu o mapa que a televisão mostrara. Então, as peças caíram no lugar. O sentimento de urgência voltou com força total, e o Moon Dragon correu como o vento. **** Sailor V estava em pé, com os olhos fixos na entrada da caverna. Ela estava mentalmente congratulando-se pelo excelente plano. Por um lado, tinha Moon Dragon virando a cidade do avesso atrás do youma. Por outro, ela estava no único lugar absolutamente seguro para se combater e defender em toda região. Especialmente porque as luzes tinham apagado-se lá dentro, tornando especialmente difícil enxergar quem estivesse dentro da caverna. - Será que demora muito? - perguntou Serena, soando cansada. - Não sei. - respondeu Sailor V, com sinceridade. - Mas estamos mais seguras aqui. Minako voltou-se para Serena, abaixando-se perto da loira, e pegando uma das garrafas de água que trouxera. O calor da Grécia era insuportável, e ficar dentro de uma montanha de pedras exposta diretamente ao Sol não tornava o interior da caverna exatamente fresco. A Senshi derramou um pouco de água sobre suas mãos, molhando sua nuca e testa, em seguida bebendo um longo gole da garrafa. Nada disso pareceu aliviar o mal-estar que ela sentia. O mundo pareceu girar por um momento e Sailor V caiu no chão, sentada. Ela baixou a cabeça por um instante, tentando recuperar seus sentidos. Deve estar uns quarenta graus aqui dentro, ela pensou letargicamente. Ela sentiu uma mão agarrar seu ombro e, subitamente, seus olhos abriram- se com um estalo. Instinto tomou conta dela e Sailor V desferiu um chute na direção de seu atacante. O chute passou longe, mas ela já tinha preparado-se para desferir um soco, quando a voz familiar de Ryu interrompeu-a: - MINAKO! Ela parou, piscando. Moon Dragon estava olhando para ela, com uma expressão de preocupação no rosto. - Ryu...? - ela perguntou, piscando. - Minako, sua idiota! - ele falou, abraçando-a. - O plano é bom...! - ela falou, tentando gritar. Faltou-lhe forças. - Excelente. - Ryu falou secamente. - Exceto que o youma já está aqui. Sailor V piscou, levantando-se com um sobressalto. O susto lhe deu uma força nova e ela finalmente reconheceu sua fadiga como sinal de drenagem de energia. Ela lançou um olhar na direção de Serena, vendo que a loira estava desacordada no chão. - Você se teletransporta, não é? - Ryu perguntou, colocando-se entre Minako e as trevas no fundo da caverna. - Desde o acidente no portal. O youma finalmente deu um passo adiante, pulsando de energia. Ele pareceu borrar por um momento, como uma imagem saindo e entrando em foco. - Mas não de propósito. - Ryu concluiu, fazendo que sim. O youma apenas encarou-o com ódio. - Por isso eu achei a Serena tão familiar. Eu estava sentindo um pedaço de você nela. - ele fechou os olhos por um momento, abrindo- os em seguida e sorrindo de leve. - Sim, eu posso perceber claramente agora. O youma rosnou, o som ecoando pelas paredes ocas do lugar. - Você não se atrevia a enfrentar Sailor V nesse estado, não é? - Ryu falou, avançando um passo. - Você está drenando meninas na esperança de recuperar seu pedaço perdido... - o sorriso de Ryu tornou-se sinistro. - Para tampar o vazamento de energia. - Você está quase totalmente certo. - murmurou o youma, falando pela primeira vez. Ryu piscou. Não achou que o monstro era capaz de tal feito. - Exceto que eu já drenei o que era meu de volta da menina. E muito mais energia. - ele sorriu maliciosamente. - Ela é deliciosamente poderosa. - V-chan, - Ryu chamou. - tire Serena daqui. Sailor V hesitou por um momento, mas obedeceu. O youma fez menção de seguir, mas Moon Dragon se colocou no caminho: - Sua luta é comigo. - ele disse, sacando sua espada. A mão direita do youma estalou com energia negra, formando uma espada lá. Os dois encararam-se por um longo instante, depois saltaram ao mesmo tempo, chocando-se no meio do caminho. Logo no primeiro cruzar de espadas, Ryu percebeu que a luta seria muito mais difícil que imaginara. O youma era infinitamente mais forte e o máximo que o jovem Kishi conseguiu fazer foi desviar o devastador golpe, inclinando sua espada para que a arma do inimigo deslizasse para longe. Movendo-se como um relâmpago, Ryu saltou para sua direita, movendo sua espada com velocidade, saltando novamente para trás do youma, como se seguindo um triângulo. O golpe de espada foi defendido e um chute atingiu o Dragon Kishi no meio do seu percurso, lançando-o rolando escadas a baixo. Ryu ainda não tinha se levantado quando o youma desceu mais um golpe na direção da sua cabeça. Rolando para sua esquerda, o Dragon Kishi golpeou a espada do youma, tentando danificá-la. A lâmina sequer foi arranhada, mas o monstro girou, golpeando Ryu no rosto com sua mão livre. O jovem guerreiro sentiu o seu nariz estalar e foi lançado para trás, atingindo uma parede distante com força suficiente para esmagar os ossos de uma pessoa comum. Ryu caiu no chão de frente. Na escuridão, ele não conseguia ver, mas a dor e a viscosidade sob suas mãos deixava claro que ele estava sangrando. Algo em Ryu gritou para que ele pulasse e ele obedeceu. Um objeto passou por baixo dele com uma bala, seguido pelo barulho de pedra sendo esmigalhada. Novamente, Ryu obedeceu uma súbita vontade de chutar a parede e cair rolando para frente e, novamente, ele escapou de um poderoso golpe de espada. A aterrisagem com cambalhota do Kishi tornou-se um salto rápido para frente e uma corrida, tentando voltar para a região iluminada. Dessa vez, foi o som que o alertou e Ryu jogou-se no chão. A espada do youma passou por cima dele, cravando-se no meio das escadas. Moon Dragon ficou olhando para a espada por um instante a mais que devia e logo amaldiçoou sua distração. Ele começou a levantar-se, quando sentiu a enorme mão do youma fechar-se ao redor do seu tornozelo. Ele sentiu-se ser puxado do chão em seguida e arremessado para cima. O teto da caverna era evidentemente mais baixo que o topo da montanha e o Kishi atingiu a rocha sólida, sentindo seu corpo gritar de dor. Uma parte distante da sua mente suspirou aliviado por não haver qualquer estalactite. Ele começou a cair, sem conseguir achar forças para mudar seu percurso. - E pensar que o Reino Negro considera vocês um ameaça! - o youma riu, preparando-se para golpear o Dragon Kishi em queda. - E com razão. - uma voz falou, de trás do monstro. Ele virou-se, surpreso e sentiu um dedo tocar sua testa. - CRESCENT BEAM! O youma não teve tempo de gritar antes da rajada dourada atravessar sua cabeça. O corpo do monstro tornou-se pó antes de tocar o chão, liberando uma explosão de energia luminosa. A rajada de Sailor V atingiu uma das paredes da caverna e, subitamente, todas as luzes do lugar acenderam-se. Minako olhou para cima e estendeu os braços, agarrando Moon Dragon antes que ele tocasse o chão. Ryu piscou, olhando para a Senshi com uma expressão surpresa. Um sorriso largo abriu-se na face da loira, que falou: - O quê? Preferia cair no chão? - Absolutamente. - Ryu falou, com seus olhos fixos nos de Sailor V. Subitamente, a Senshi tornou-se consciente da proximidade dos dois, do calor do corpo de Ryu nos seus braços. Ela manteve seus olhos azuis fixos nos rubros dele por um longo momento, antes de colocá-lo no chão, virando-se para o outro lado. Ela sentiu seu rosto arder. - Acabou? - perguntou uma voz da porta da caverna. Os dois guerreiros olharam na direção de Serena. Minako olhou para Ryu com o canto dos olhos e teve a impressão de ter visto uma leve coração no rosto dele. Ele olhou para ela e Minako balançou sua cabeça. Devia ser um truque da luz ou, talvez, um inchaço causado pelo nariz quebrado dele. Ryu sorriu de leve para ela, em seguida virando-se novamente para Serena. - Vocês... mataram ele. - Serena falou, seus olhos azuis fixos na pilha de pó no chão. Os olhos dela encheram-se de lágrimas. - O que eu vou fazer? - Bom... - Minako começou, tentando pensar em algo para dizer. - O portal! - Ryu falou subitamente. As duas viraram-se para o objeto no centro da sala. Os símbolos pareciam pulsar levemente. - Como...? - perguntou Minako, surpresa. - Eu posso voltar? - perguntou Serena. Ryu olhou para ela, uma expressão séria no seu rosto. Ele alternou entre a menina e o portal, depois suspirou: - Não sei. Pode ser que sim. - ele olhou para Minako. Sailor V mexeu os ombros e apontou o dedo para o portal. Moon Dragon colocou-se em posição com sua espada. Ao mesmo tempo, os dois atacaram: - Crescent Beam! - Moon Light Blade Slash! Os dois ataques de energia atingiram a estrutura do arco e os símbolos pareceram acender com vida, três deles, os mesmos de antes, pulsando numa cor mais forte. O espaço sob o arco pareceu torcer-se e uma escuridão profunda surgiu ali. Serena ficou olhando para aquela passagem negra, subitamente assustada. Será que...? - Será que leva para sua casa? - Minako ecoou seus pensamentos. Serena respirou fundo, seus olhos ainda presos no portal. Ela pensou em seus pais. Na sua casa, nas suas amigas do colégio. Pensou até mesmo no seu irmão. Em Andrew, o menino do fliperama. Com uma expressão determinada, ela limpou as lágrimas dos seus olhos. - Serena, você pode ficar aqui. - propôs Ryu, sua voz amigável. A jovem balançou a cabeça, seus rabos jogando-se de um lado para o outro. Ela sorriu para Ryu e Sailor V, sinceramente grata: - Obrigada, Ryu-kun, V-chan. Eu nunca vou esquecer do que fizeram por mim. - ela sorriu abertamente. - Se o portal não me levar para casa, acharei meu caminho. Ryu fez que sim, com uma expressão séria no seu rosto. Ele deu um passo adiante e entregou cinco pequenos shurikens em formato de crescente dourada na mão de Serena: - Pode precisar. Ela fez que sim, colocando no bolso da sua saia: - Obrigada, Ryu-kun. - ela sorriu. - Por tudo. Ryu apenas sorriu de volta. Serena voltou-se para Sailor V: - V-chan... - Minako. - Sailor V falou, tirando sua máscara. Ela entregou-a para Serena, com um largo sorriso no rosto. - Uma lembrança. - Obrigada, Minako-chan. - Serena falou, abraçando a Senshi num impulso. Minako piscou, sentindo uma familiaridade ali. Sua mente começou a buscar algo, uma lembrança... Mas Serena logo tinha se afastado. A jovem sorriu novamente, abertamente, e correu para dentro do portal, segurando a máscara de Sailor V na sua mão. Assim que ela passou, os símbolos brilharam mais, e apagaram-se. O portal emitiu um pulso de energia, e, subitamente, a caverna toda começou a vibrar. Pensando rápido, Ryu agarrou Minako, e correu para a saída. Os dois olharam para trás a tempo de ver uma nova avalanche na montanha. As pedras, rolando, caíram para dentro da entrada, selando a entrada e bloqueando o portal. Moon Dragon e Sailor V ficaram ali, parados, olhando para o lugar onde a caverna estivera a pouco. - Espero que ela chegue bem. - Minako pensou em voz alta. - Ela vai chegar. - Ryu assegurou-a, estranhamente certo disso. Ele virou- se, e começou a caminhar para a cidade. Sailor V olhou para a caverna obstruída por um momento a mais, depois começou a seguir seu parceiro. Um sorriso malicioso surgiu no seu rosto, e ela chamou: - Ryu-kun? - Hmm? - Não vai me agradecer? - ela perguntou, com um ar esnobe. - Pelo quê? - perguntou Ryu, sem olhar para ela. - Por salvar a sua vida. - ela falou, saboreando o momento. Ryu parou de andar, e Minako trombou nas costas dele, caindo sentada no chão. Ela abriu a boca para reclamar, mas parou quando ele virou-se para ela, com o sorriso mais sincero que ela já viu no rosto dele. Ela perdeu o fôlego, e ficou olhando para o menino, boquiaberta. - Não. - ele respondeu e correu. Minako piscou. Seu cérebro demorou um segundo para voltar a funcionar. Logo, porém, ela levantou-se, também sorrindo largamente, e começou a seguí-lo, sabendo, no fundo, que ele não podia estar mais grato. Fim do Prólogo. Capítulo 1: Admirável Mundo Novo Nos breves instantes que Satori Ryu, líder dos Dragon Kishi, ficou no espaço entre dimensões, ele quase desejou que não tivesse escapado. Em um momento, sua ligação estava em plena sintonia com o mundo ao seu redor. A situação que ele deixara, é verdade, não tinha sido das mais animadoras, mas ao menos ele podia sentir o mundo com o sentido que herdara da parte kalyriana de seu ser. A ligação era um sentido especificamente ligado ao ambiente ao seu redor. Era uma percepção de toda energia ao seu redor, inclusive a que compunha a matéria, e das suas tendências naturais. Quando algo desviava do seu percurso natural, o kalyriano percebia. O resultado final era uma espécie de premonição imediata. Sendo, entretanto, algo que contava com um ambiente familiar e com mudanças suaves, qualquer deslocamento abrupto causava desorientação. Se um kalyriano fosse teletransportado, por exemplo, ele levaria alguns instantes até sua ligação se reestabelecer com sua nova localidade. O próprio Ryu já tinha sido submetido a essa desagradável sensação. Viajar entre universos, entretanto, era algo completamente diferente. No espaço entre os dois mundos não havia absolutamente nada parecido com o lugar de onde Ryu tinha saído. Subitamente, seus sentidos estavam tentando absorver uma infinidade de informações que nunca tinham visto antes. Era como se alguém tivesse ligado o cérebro dele em um reator nuclear. Era compreensível, portanto, que ao sair do outro lado do portal, Ryu caiu de joelhos e vomitou sonoramente no chão. Sua cabeça girava e latejava, e ele era incapaz de perceber qualquer coisa ao seu redor. - Ryu? - chamou Akai. O líder dos Dragon Kishi tentou erguer o rosto para responder, mas outra onda de náusea o atingiu. Ryu tentou vomitar novamente, mas seu estômago, já vazio, não tinha nada para ceder ao mundo. Ele acabou apenas fazendo um som absolutamente nojento. - Ryu! - Akai chamou, mais enfaticamente. - Ken! Ele precisa... Num instante, o híbrido se levantou e foi até seu amigo. O braço dele sangrava desproporcionalmente, e algo precisava ser feito para parar aquilo. Sem hesitar, o Kishi rasgou uma tira do sua camiseta e fez um torniquete no braço de Ken, esperando que aquilo fosse o suficiente. Ryu ainda sentia um enjôo desmedido, mas não se atrevia a tirar os olhos ou a atenção de sua tarefa. Longos segundos se passaram, em silêncio. Finalmente, Ryu conseguiu amarrar satisfatoriamente a tira de pano, e o sangramento de Ken diminuiu. Ele teria que ser levado a um hospital mas não estava em perigo imediato. Ryu suspirou, aliviado. E sentiu algo cutucar a sua perna. Ele olhou, e viu que a mão do youma que havia agarrado a perna de Ken ainda se movia. Franzindo a testa, ele chutou o membro para longe, e voltou sua atenção ao seu amigo. Ele estava pálido. - Ryu... - Akai começou. - Ele vai ficar bem. - Ryu respondeu, notando que sua garganta doía. - Só precisa de um médico. - Eu percebi. - Akai respondeu, ainda soando preocupada. - Mas a minha pergunta é outra. Onde estamos? Ryu olhou para ela por um momento e, pela primeira vez, levantou os olhos para a paisagem que o cercava. Eles estavam em Tóquio. No meio de uma rua movimentada. Parecia ser cedo, já que a luz ainda tinha aquela qualidade azulada. Ainda que a maioria dos transeuntes estivesse simplesmente passando por eles, ignorando-os, algumas pessoas começaram a parar ao redor do trio, apontando para a condição física deles e murmurando. Por um breve instante, Ryu ficou chocado. Talvez pela desorientação, talvez pelo cansaço. Sua mente automaticamente recapitulou a invasão, as mortes. Ele lembrou das ruas desertas por onde eles fugiram dos youmas. Ele se lembrou de ensinar os códigos para Ken, de correr para o Ginzuishou. Ele enfiou a mão no bolso da sua calça, e tirou a esfera cristalina, examinando-a. Finalmente, ele lembrou de onde eram os códigos e o alívio foi maior. - Nós estamos a salvo. - ele respondeu para Akai, relaxando. Akai abriu a boca para contestar, mas não teve a oportunidade. Uma das pessoas que tinham formado o círculo ao redor deles soltou um grito. Instantaneamente, Ryu e Akai estavam em pé, olhando na direção de onde o som veio. A mão youma que o Dragon Kishi descartara poucos instantes antes tinha agarrado a perna de uma das pessoas. Energia começou a pulsar por ele e a mão pareceu afundar na sua carne. O homem caiu de joelhos no chão, cobrindo o rosto com as mãos e urrando. Uma aura negra o envolveu. Mais gritos começaram a surgir, e a multidão dispersou-se, fugindo para todos os lados. Ryu sacou sua espada, mas o homem já tinha se levantado. Sua pele tinha se tornado metálica, numa cor acinzentada, e seus olhos, amarelos. Sua mão cresceu, tornando-se uma garra negra e incompatível com o seu porte físico. O recém-formado youma fixou os olhos em Ryu e Akai, sorriu e urrou. - Merda. - Ryu falou com sinceridade. O youma lançou-se sobre os dois. A primeira reação de Ryu seria esquivar- se, mas se lembrou de Ken aos seus pés e preferiu apoiar o seu pé no peito do youma, lançando-o para trás com seu próprio impulso. A criatura caiu no meio do trânsito, e carros buzinaram por alguns instantes. Akai correu e lançou uma voadora contra o youma, que a agarrou em pleno ar e bateu no carro com ela. As buzinas cessaram e os motoristas começaram a descer de seus veículos, apavorados. Ryu hesitou por um momento, com medo de deixar Ken sozinho, mas sabia que não tinha escolha. Ele sacou sua katana, lançando-se contra o youma e decidido a terminar o combate rapidamente. Ele esqueceu-se, porém, que sua ligação ainda não tinha normalizado e estava completamente despreparado para a rajada de energia que saiu da garra mutante do monstro. Ryu foi atingido em cheio e jogado para trás. Ele atingiu o teto de um carro, rolando por cima dele e caindo no chão em seguida. Normalmente, Ryu estaria em pé instantaneamente. Contudo, o cansaço das batalhas para recuperar o Ginzuishou e a vertigem causada pela viagem tinham deixado seu corpo exausto. O Kishi lutou para levantar-se, consciente que estava demorando demais para fazê-lo. Ele ergueu a cabeça com o som do youma saltando em cima de um carro, olhando para a criatura. O monstro saltou, erguendo sua garra e preparando um ataque, quando uma esfera de energia vermelha atingiu-o no flanco esquerdo, lançando-o para o chão. - Não posso permitir que ataque uma pessoa inocente! - uma voz gritou. Ryu piscou e olhou para sua direita. Uma menina estava em pé em um dos carros. Ela era baixa, vestindo um uniforme de Senshi com a saia e detalhes negros e os laços em vermelho escuro, com uma bota parecia com a de Makoto, porém negra. Ela não parecia com nenhuma das Senshi do universo de Ryu. - Eu sou Sailor Earth, e vou puní-lo em nome da Mãe-Terra! Bom, pensou Ryu, isso explica por que não reconheci o uniforme. Ele se levantou com dificuldade, sorrindo ao notar que conseguia sentir a presença do youma. Sua ligação ainda estava incapaz de sentir as sutilezas do ambiente, mas estava melhorando. Ele colocou sua katana em guarda e virou-se para o seu oponente. - Ei. - Sailor Earth chamou. - Essa é a sua deixa para correr! - Não posso fazer isso. - ele respondeu. - Esse youma vai acabar com você. Sailor Earth deu uma risada: - Não se preocupe. Sou profissional nesse negócio de matar youmas. Ryu olhou para ela por um momento, vagamente notando que o uniforme dela não tinha as modificações que surgiam quando as Senshi atingiam os níveis superiores de poder. Ele sorriu de leve para ela: - Prefiro ajudar. - voltando-se para o youma em seguida. O monstro já estava em pé e seu braço monstruoso estava apontado para Sailor Earth. Energia pareceu acumular-se lá por um instante e um disparo seguiu. Sailor Earth saltou, esquivando-se com facilidade do ataque. A rajada, entretanto, fez uma curva ao passar por ela, desviando seu curso para as costas da jovem. - Cuidado! - Ryu gritou, saltando contra a guerreira, e atingindo-a com seu corpo. O ataque do monstro acertou-o em cheio, e o Kishi soltou um grito, caindo no chão, inconsciente, em seguida. **** Serena Tsukino poderia clamar, com certa facilidade, que já vivera mais que qualquer pessoa da sua idade. Quando ela se colocava no direito de dizer algo assim, ela não se referia ao fato de ser uma das Sailor Scouts, guerreiras que secretamente enfrentavam as ameaças ao mundo humano. Ela estava pensando, na verdade, na outra pessoa que vivia com ela no seu corpo. Sentada na sua cama, às sete horas da manhã de uma nublada quarta-feira de férias, a jovem princesa estava tendo dificuldades para acalmar o seu coração disparado. A lembrança do seu sonho ainda estava vívida na sua mente, e, fechando os olhos, Serena voltou a sentir o vento golpeando seu corpo enquanto ela enfrentava Morte, a forma verdadeira de Wiseman, no castelo do Clã Black Moon. Ela estremeceu, ouvindo a voz de Serenity no seu ouvido, e lembrando de entregar o controle do Cristal de Prata a ela. Ao contrário do que aconteceu de fato, Serena, no seu sonho, não conseguiu retomar seu corpo. Ela sentiu calafrios, se lembrando de sentir-se uma passageira em seu próprio corpo. Balançando a cabeça, ela deixou de lado seus pensamentos. Ela olhou ao seu redor, ainda tentando despertar completamente. O horário chamou sua atenção, mas a jovem não sentia vontade de voltar a dormir. Ela se levantou, jogando suas cobertas de lado, e caminhou pelo seu quarto. Serena sorriu ao sentir o material de seu pijama esfregando contra sua pele. Ela tinha adquirido a vestimenta, feita com seda e num tom que parecia flutuar entre prateado e azul claro, durante sua estadia com os Star Knights, sob o nome de Jennifer. O sorriso sumiu de seu rosto quando ela lembrou-se de como a estadia terminara. Já fazia uma semana desde a volta do futuro, e Serena não entrou em contato com nenhuma das Sailor Scouts ou Knights depois do dia seguinte. Ela acordara no apartamento que dividira com Rachel, apenas para receber a chocante notícia do que houve entre Helen e Hg. Serena foi embora em seguida, voltando para casa, e não voltou a falar com nenhum Knight ou Scout desde então. Lita tentou, algumas vezes, falar com ela para marcar um encontro com o grupo, mas Serena postergou o máximo que pôde. Ela se olhou no espelho do seu quarto, sentindo-se sozinha pela primeira vez em uma semana. Ela evitara Darien também, ainda incerta de como se sentia em relação a ele. Luna também não havia voltado para casa com ela. A gata inventara alguma desculpa que Serena sequer lembrava, mas a jovem sabia que o motivo real era a atração que sua guardiã sentia por Hades. Um sorriso surgiu nos lábios da princesa. O gato, por sua vez, parecia não perceber. - Típico. - ela murmurou. Serena se sentou diante do seu espelho, e começou a cuidadosamente escovar seus cabelos. Ela iria encontrar as Scouts em algumas horas e esperava, ao mesmo tempo, que muito tivesse e não tivesse mudado. Ela perguntou-se, por um momento, se ela própria estaria tão diferente para elas. Então, seu comunicador tocou, sinalizando uma emergência. Ela hesitou por um instante, mas logo atendeu. A voz de May Terrae, a Sailor Earth e atual líder das Scouts, falou sobre um grupo de estranhos e youmas que surgiram na frente do apartamento dela. Serena levou exatamente dois minutos para se trocar e pular pela janela do seu quarto, pensando como ela nunca teria feito isso tão rapidamente no passado. Ela gritou suas palavras mágicas em pleno ar, e sentiu uma onde de energia preencher seu corpo. Sorrindo abertamente, Sailor Moon aterrisou em cima do muro da casa dela, e saltou novamente, rumando para um dos telhados baixos da região, e começando a escalar até os mais altos. Correndo, a princesa da Lua notou que isso era outra coisa diferente nela. Ela nunca gostou de ser Sailor Moon antes, nem da responsabilidade que isso trazia. De alguma forma, a paixão que Mercury Knight tinha pelo trabalho dele contaminou ela. O coração dela estava disparado, ansioso pelo desafio que vinha. Mais que isso, ela não sentia mais aquela vontade desesperadora de virar as costas e voltar para casa. O sorriso dela se alargou, e Serena colocou mais velocidade na sua corrida, quase soltando um grito de empolgação ao saltar do topo de um pequeno prédio, dando uma cambalhota em pleno ar e aterrisando no topo de um dos postes de luz. Sem perder seu ritmo, ela começou a correr pelos fios de luz como se estivesse caminhando pela calçada. Menos de cinco minutos tinham se passado quando ela começou a ouvir os gritos na distância. O sorriso sumiu de seu rosto e Sailor Moon acelerou ainda mais o seu passo, sabendo que cada instante podia significar uma vida perdida. Finalmente, ela chegou. Rapidamente, a Scout examinou a situação, notando que Sailor Earth enfrentava sozinha um youma. Ela piscou. Ela não esperava encontrar um youma atacando a cidade. Serena ergueu sua mão direita, retirando sua tiara da testa, e canalizou sua energia para o adorno. A tiara tornou-se um disco de energia, e Sailor Moon saltou, arremessando-o: - Moon Tiara Action! Sailor Earth, reconhecendo o ataque, jogou-se no chão. A tiara rasgou o ar e atingiu o braço demoníaco do youma. Ao invés de cortá-lo, o ataque perdeu sua energia e a tiara caiu no chão, inútil. Sailor Moon saltou até o carro onde Sailor Earth estava, sem demonstrar muita surpresa. Era o seu ataque mais fraco, afinal. - Eu nunca imaginei que você viria. - Sailor Earth falou com uma voz neutra. - Especialmente tão cedo. - Eu andei pegando uns bons hábitos. - Serena respondeu, sem olhar para a outra Scout. - MARS FIRE IGNITE! - VENUS CRESCENT BEAM SMASH! Os dois ataques juntaram-se, tornando-se uma massa de energia e atingindo o youma com uma explosão de chamas e luz. O monstro recuou alguns passos, obviamente sentindo o impacto dos golpes, mas continuou em pé. Sailor Mars e Sailor Venus aterrisaram ao lado de Sailor Earth. - Serena? - perguntou Venus, claramente surpresa. Um sorriso surgiu no rosto da loira, quase que involuntariamente. - Demorou para voltar. - resmungou Sailor Mars. - Podemos conversar depois? - Serena perguntou, seus olhos ainda fixos no youma. - Temos uma luta para terminar. As três Scouts piscaram, surpresas, mas fizeram que sim. O youma rosnou e ergueu seu braço, novamente carregando energia nele. - O disparo pode mudar de direção no meio do caminho. - Sailor Earth murmurou. - Deixem comigo. - Sailor Moon disse, dando um passo adiante. Novamente, as Scouts ficaram olhando para ela como se fosse outra pessoa. - O quê? Vamos, saiam de perto! - Serena, eu... - Mars começou, mas o disparo do youma a interrompeu. Sem outras opções, as três Scouts saltaram, cada uma para um lado. Sailor Moon recuou alguns passos, descendo do carro e, aparentemente, parando para esperar o ataque atingí-la. - SERENA! - Sailor Venus gritou. Instantes antes do ataque atingí-la, porém, Serena pisou com força na beira da tampa de bueiro onde ela estava. O pedaço de metal levantou, girando, e Serena agarrou-o, virando-se de lado e rebatendo o disparo para dentro do buraco no chão. Quando o impacto era inevitável, ela largou seu escudo improvisado e saltou, observando à distância a pequena explosão que aconteceu. Satisfeita, ela fixou os olhos no youma e sacou seu cetro: - Ataquem com tudo agora! As três Scouts reagiram mais por instinto que por razão, obedecendo sem questionar: - EARTH BIOSPHERE BLAST! - MARS CELESTIAL FIRE SURROUND! - VENUS LOVE CHAIN! Sailor Moon aterrisou a alguns metros do youma, observando com satisfação os três ataques atingirem o youma. Como ela imaginou, ele não sofreu quaisquer danos permanentes. Ele ficou, entretanto, atordoado o suficiente para que ela agisse: - MOON SCEPTER ELIMINATION! A rajada de energia do cetro de Sailor Moon atingiu o youma em cheio. Ao invés de se desfazer imediatamente, o monstro resistiu, rosnando para a princesa da Lua. Serena ocultou sua surpresa e concentrou-se, colocando mais poder no ataque. Sua mão já tinha começado a tremer com o esforço de sustentar a descarga quando a rajada atravessou o corpo do seu inimigo, transformando-o em pó. As quatro Scouts ficaram em silêncio, olhando para a pilha de poeira que outrora fora o youma, cada uma tentando entender de onde aquele monstro viera. Finalmente, Sailor Venus quebrou o silêncio, correndo até Sailor Moon e abraçando-a com força: - SAILOR MOON! Serena sorriu e retornou o abraço. - Podemos continuar isso em algum lugar particular? - Mars falou, tentando soar ranzinza e falhando miseravelmente. Até mesmo ela estava sorrindo. Ignorando a Scout de Marte, Venus afastou-se um pouco de Sailor Moon e perguntou: - E como você pensou naquilo? Foi demais! - Eu realmente... - Mars começou, mas Earth a interrompeu: - Tem um homem aqui com um ferimento meio sério. Sailor Moon, Sailor Mars e Sailor Venus correram até Sailor Earth. Ela estava apontando para um jovem caído no chão. Serena ajoelhou-se ao lado dele, pegou o braço esquerdo dele e franziu a testa. Não parecia algo que o youma que enfrentaram pudesse ter feito. Olhando para o rosto, viu cortes e ferimentos ali. - Isso é mais sério que só o braço. - ela falou. - Tinha esse outro rapaz enfrentando o youma também. E aquela menina. - Earth apontou. Sailor Moon se levantou, caminhando até o rapaz que Sailor Earth estava apontando. Ela parou no caminho para pegar sua tiara. - Ele é bonitinho. - disse Sailor Venus. Finalmente, Serena chegou perto do rapaz. Ela piscou. Ele era estranhamente familiar. Ela ouviu Sailor Mars comentar algo sobre Darien e fidelidade, mas não prestou atenção, ajoelhando-se ao lado do rapaz e deitando-o de barriga para cima. Ela examinou o rosto dele, notando a cicatriz na face. Então, seus olhos caíram na crescente lunar na testa dele e se arregalaram. Ela sentiu uma sensação gelada no seu estômago. - Oh, meu Deus. - falou Serena. A discussão das outras Scouts parou com a exclamação dela. - Eu conheço ele. - Você... conhece? - perguntou Sailor Mars, estupefata. Serena abriu a boca para responder, mas não teve tempo. O jovem caído abriu os olhos, vermelhos como sangue, e empurrou a Scout de cima dele, saltando para longe e colocando-se em guarda. Uma rajada de fogo quase atingiu o estranho, que conseguiu esquivar-se no último momento possível. Sailor Moon se levantou e gritou: - Parem! Sailor Earth e Sailor Venus pararam de concentrar seus ataques, virando-se surpresas para Serena. Ela olhou para o jovem e perguntou: - Ryu? Ele virou-se para ela. Levou alguns instantes para reconhecê-la, transformada e tudo, mas logo falou: - Serena? E Sailor Moon, de forma bem pouco digna, correu até ele e o agarrou num abraço apertado. **** - Então. - falou Amy Mizuno, entrando pela porta do consultório e fixando seus olhos azuis diretamente nos de Serena. - Como você esteve? Serena permitiu-se um sorriso nervoso, sentindo a pressão de todos no lugar. Ela olhou ao seu redor, analizando a expressão de cada uma das ocupantes, tentando entender a opinião delas a seu respeito. A sala em si era pequena, com um sofá de dois lugares, uma poltrona e um leito. Não havia espaço para todas sentarem, mas Serena tinha sido depositada na poltrona, claramente visível para todas as outras ocupantes do quarto. Raye fixou seus olhos nos dela e passou um encorajamento silencioso. Ela era, ironicamente, o único suporte que Serena encontrou. May olhava para ela com desconfiança. Lita e Amy tinham aquela expressão de quem tinha sido traído. Mina observava-a de forma totalmente neutra. Respirando fundo, Serena preparou-se para o que estava por vir: - Acho que todas sabem onde estive. Todas fizeram que sim. - Sinto muito se demorei tanto para voltar. - Serena falou. - Mas acho que todas já perceberam que os sonhos que tiveram foi um plano dos Quatro. Eu precisei me manter escondida, primeiro, para que vocês não roubassem o Cristal de Prata. Depois, para que os Quatro achassem que o plano foi bem sucedido. - Podia ter confiado um pouco mais em nós. - disse Lita, sua voz amarga. - Eu... sinto muito. - a voz de Serena era fraca. - Eu estava tentando protegê-la! - Lita falou, aumentando a voz. - Eu vi o Cristal te matando! - Todas nós vimos. - a voz calma de Amy acrescentou. - Era difícil imaginar aquilo como uma coincidência. Mina fez que sim, seus olhos tristes enquanto ela se lembrava do seu sonho: - Era terrível, Serena. Ver você morrendo daquele jeito, dizendo que o Cristal... - E ver você fugindo! - Lita falou, aproximando-se da poltrona de Serena e agarrando-a pelos braços. - Eu pensei que o Cristal tinha te dominado! Serena levantou-se, afastando-se de Lita e recuando contra a parede: - Vocês não queriam me ouvir! - Você podia ter nos avisado. - disse Amy. - Depois. Em segurança. - Mas o Clã Black Moon... - Serena começou. - Não importa! - Lita disse. - Eu pensei que tinha perdido você! - Era sua responsabilidade nos avisar. - Amy colocou, sua voz baixa. - De alguma forma. O que nós passamos... - Você era... é a nossa líder. - falou May. - Nos abandonar desse jeito... - Chega! - Raye gritou. Todas viraram para ela. - Nós a abandonamos primeiro. - a Scout de Marte se levantou e caminhou até Serena, colocando-se entre a princesa e as outras. - Nós juramos protegê-la e defendê-la e traímos esse juramento. - ela fixou seus olhos negros em cada um dos rostos no quarto. Nenhuma das outras conseguia olhá-la nos olhos. - Cada uma de nós errou mil vezes mais com Serena que ela conosco. Chega de acusações. - a temperatura do quarto pareceu subir, e Raye terminou, sua voz baixa e ameaçadora. - Eu não vou deixar que falem assim com a minha... a nossa princesa. Um longo silêncio seguiu a declaração fervorosa de Raye. Nenhuma das outras Scouts sabia como reagir ao que foi dito. Todas subitamente perceberam que estava descontando suas frustrações em Serena. Virando as costas, Raye voltou-se para Serena, ajoelhando-se aos seus pés. A loira piscou, surpresa, quando Raye pegou sua mão: - Eu aqui reafirmo meu juramento de obedecer a Coroa Lunar. - por um momento, o símbolo de Marte brilhou na testa de Raye. - Que eu nunca erga a mão contra a família real. As outras Scouts ficaram olhando, boquiabertas, incertas de como reagir. Finalmente, Lita ajoelhou-se ao lado de Raye, repetindo o juramento feito. Mina e Amy seguiram. May ficou olhando por alguns momentos, antes de fitar os olhos de Serena longamente. Finalmente, ela falou: - Eu, entre todas aqui, devia ter pensado duas vezes. - Serena abriu a boca para retrucar, mas May balançou a cabeça. - É a terceira vez que eu faço isso. - Com Hg... - Serena falou, reconhecimento nos seus olhos. May fez que sim: - Quando Saturn Knight surgiu e quando deixei o grupo para não ajudar o Negaverso. - ela suspirou. - Eu fui tola, minha princesa. - sem dizer mais nada, May ocupou seu lugar ao lado das outras Scouts e repetiu o juramento. - Levantem-se, minhas amigas. - Serena disse, recuando. - Eu não quero ver vocês assim. Raye sorriu para ela, mas não fez menção de mudar de posição: - Talvez por isso que mereça nos ter de joelhos, Serena. - Acho que falo por todas - disse May, sem erguer o rosto. - quando peço desculpas pelo nosso comportamento. Serena, sentindo seu rosto esquentar, balançou a cabeça: - Não tem o que desculpar. Levantem-se. - ela sorriu. - Por favor. Uma a uma, as cinco Scouts levantaram-se, erguendo seus rostos e olhando para Serena. Nenhuma atrevia-se a se mexer ou a falar, incertas de como se portar. Finalmente, foi Lita quem avançou, agarrando Serena num abraço forte: - Eu senti sua falta! - ela falou, com uma voz chorosa. As outras Scouts repetiram o gesto, abraçando sua líder a declarando a falta que ela fazia. Todas, exceto Raye, que observou com um sorriso nos olhos. Os olhos de Serena buscaram os dela, e a Scout de Marte meramente abaixou a cabeça, num gesto de reverência. Serena, então, mostrou a língua. Raye piscou, e pareceu ponderar por um momento. Então, ela mostrou a língua também, complementando com uma careta. Então, alguém bateu na porta. As Scouts afastaram-se com pressa, voltando para seus lugares. A porta abriu-se em seguida. Era a mãe de Amy, Judith. - Com licença? - ela perguntou, olhando ao seu redor. Ela não perguntou nada a respeito dos olhos vermelhos das meninas. - Eu examinei os seus amigos e fiz o que pude pelo que perdeu a mão. - ela disse, olhando para Serena. - O de olhos estranhos... Ryu? - ela perguntou. A princesa fez que sim. - Ele quer falar com você. Vocês. **** Quase uma hora tinha se passado desde o combate entre as Sailor Scouts e o youma naquele local. A população de Tóquio ainda evitava passar por lá, fosse a pé ou em seus carros, porque os reparos ainda não tinham sido concluídos. A rua, portanto, estava muito mais deserta do costumava estar próximo às oito horas da manhã. Não foi surpresa alguma, portanto, que ninguém percebeu quando um buraco surgiu no meio do ar. Era como se fosse um pequeno círculo onde a luz não batia, escuro como a noite. Ninguém percebeu, também, quando uma esfera cristalina, sua superfície num tom de azul escuro, caiu de dentro do pequeno portal. O pequeno cristal atingiu o chão com um ruído agudo e começou a rolar, como esferas tendem a fazer, para a parte mais baixa do pavimento. Após alguns instantes rolando, ela caiu dentro do bueiro que Sailor Moon abrira durante o combate. Ele atingiu o fundo, despercebido, e começou a ser carregado pelas correntes do sistema de esgoto. Eventualmente, ele caiu na Baía de Tóquio, ainda despercebido. Fim do Capítulo 1 Capítulo 2: O Êxodo Tsukino Usagi encostou-se no fino parapeito a diante de si e observou a cidade onde estavam. O "Gin no Umi" finalmente aportara em Vancouver, no Canadá. Eles tinham finalmente terminado sua jornada de vinte dias. Eles fizeram em bom tempo, segundo Haruka. A temperatura era menor que em Tóquio e a jovem sabia que teria que se acostumar com a nova realidade. Mais importante, eles estavam a salvo. Ainda assim, Usagi não estava feliz. Ela olhava para aquela cidade estranha, para seus não tão numerosos prédios, para a montanha que se erguia no horizonte. Era noite e as luzes da cidade talvez fossem a maior diferença que ela via. Em Tóquio, as luzes seriam infinitas, cegantes. O céu estaria claro com o reflexo das iluminação urbana. Vancouver era mais comedida. Não haviam inúmeros outdoors ou anúncios luminosos poluindo tudo. Usagi não sabia se conseguiria ver aquilo como casa. Ou Calgary, no caso. Ela suspirou, pensando em Tóquio, na sua casa e escola, em Mamoru. Uma súbita vontade de chorar tomou conta do seu íntimo, mas ela se controlou. Ela não conseguia se imaginar derramando lágrimas enquanto seus amigos e seu amado estavam combatendo pelas suas vidas. Saudade não parecia ser um bom motivo. Quando uma mão se apoiou no seu ombro, Usagi deu um sobressalto. Ela se virou, dando de cara com os olhos verdes de Ten'ou Haruka. - Hime-sama, - Haruka falou, sutilmente abaixando a cabeça. Usagi odiava aquilo. - todos já desceram do navio. As bagagens também. - ela sorriu para Usagi. - Só faltamos eu e você. - Como é ali embaixo? - perguntou Usagi com curiosidade. - Temos que passar pela imigração. - Haruka falou, enconstando-se no parapeito ao lado de Usagi e olhando para a cidade. - Eles vão anotar nossos nomes e o local onde ficaremos e vão nos mandar a papelada que mostra que nós somos cidadãos canadenses. Usagi fez que sim, sem desviar os olhos da cidade. Ela não queria a cidadania, não queria a mudança, não queria nada do que estava acontecendo. A única coisa que ela queria era sua vida de volta, com Tóquio, com Mamoru. - Não podemos voltar, princesa. - Haruka falou, sem olhar para ela. - Eu falei em voz alta? - perguntou Usagi, corando um pouco. - Sim. As duas ficaram em silêncio, sem pressa para dar aquele passo final no êxodo delas. Atravessar a alfândega era o mesmo que assumir as mudanças. - O que nós faremos, Haruka-san? Haruka olhou para a jovem princesa por um longo momento, como se pesando o quanto ela podia ouvir, o quanto ela podia saber. Finalmente, uma expressão cansada se abateu sobre as feições da Senshi e ela falou: - Odango, a decisão tem que ser sua. - ela desviou os olhos para as águas abaixo do navio. - O que você fez durante a viagem... Assumir o comando... Foi certo. Você é a única que pode ouvir todas nós, pesar o que realmente importa e decidir o que faremos. - Haruka olhou para Usagi novamente. - Nós estamos sob o seu comando, Tsuki no Hime-sama. Usagi voltou-se para Haruka, fitando o rosto da mulher mais velha por longos momentos. Finalmente, ela fez que sim, muito mais aceitando em si mesma o inevitável que concordando com as palavras que ouviu, e disse: - Haruka-san, eu gostaria que fôssemos para Calgary. - a expressão de Usagi pareceu assumir uma gravidade maior. - É onde a família de Chris e Andrea está e eu acho que eles deveriam ficar próximos dos seus familiares. Você pode nos levar até lá? - Não podemos ir de avião. As companhias aéreas estão em absoluto pânico pelos "eventos inexplicáveis" no Japão. Nenhum vôo levantará por mais uma semana. - Você pode nos levar até lá? - Usagi repetiu. Haruka fez que sim. - Haruka-san, por favor, faça os arranjos. Nós teremos que ter algum lugar para morar lá, também. - Eu vou cuidar disso, Hime-sama. - Haruka falou. - Usagi, Haruka-san. - Usagi corrigiu. - Sou uma princesa sem reino e sem coroa. Eu espero que me sigam pela amizade que temos, não por um título que perdeu o valor. - Odango, eu seguiria você até o Inferno se me pedisse. - Haruka falou, um sorriso sincero no seu rosto. - Eu sugiro um ônibus para levar todas essas pessoas. - Parece ótimo. Haruka fez que sim, virou as costas e caminhou em direção à rampa de desembarque. Usagi observou-a por um momento, depois voltou a olhar para a cidade de Vancouver. Ela não se apoiou no parapeito dessa vez. Seus olhos azuis absorveram todos os detalhes do país que seria seu novo lar. Ela virou-se, lançou um último olhar na direção que ela imaginava ser o Japão e desejou, silenciosamente, que todos os que ficaram lá estivessem bem. Uma expressão determinada passou pelo seu rosto e Usagi caminhou até a rampa, descendo-a com passos firmes e seguros. Lá embaixo, Haruka, Rei e Makoto a aguardavam. Ela sorriu para as três, tentando passar uma segurança e força que não sentia. **** Dark Angel levantou os olhos de seu trabalho quando a porta de seu laboratório se abriu. Tão logo reconheceu a sua visitante, ele retornou ao seu trabalho. Lethe, por sua vez, hesitou ao entrar, seus olhos pousando longamente no enorme corpo na mesa de seu mestre. O laboratório de Dark Angel era enorme, mas o espaço útil de trabalho era muito menor que a maioria dos cientistas apreciaria. A mesa de experimentos, naquela noite servindo como mesa de cirurgia, era a única parte bem iluminada. O resto do recinto, as longas prateleiras e bibliotecas, ficavam encobertos por uma meia luz decididamente sinistra. Respirando fundo, a ex-Senshi caminhou lentamente. - Stalker? - Lethe, surpresa. - De certa forma. - Dark Angel respondeu, sem tirar os olhos da sua tarefa. - Ele morreu nas mãos de Silver. - Lethe afirmou, ainda surpresa. - Satori Ryu. - Dark Angel disse. - Nas mãos de Satori Ryu. Lethe fez que sim. - Digamos que Stalker é um projeto pessoal meu. - algo estalou dentro do corpo do youma, onde ele mexia, e Dark Angel balançou a cabeça, com um suspiro. Ele jogou fora um bisturi, pegou outro da sua mesa e continuou sua tarefa. - Como é possível? - Lethe questionou. - Como disse, Stalker é um experimento meu. - um sorriso surgiu no rosto de Dark Angel. - Apesar do corpo youma, não é um youma. Lethe não entendeu, mas decidiu que não vinha ao caso. Sem tirar os olhos da cirurgia que estava acontecendo, ela falou: - Um dos técnicos conseguiu abrir um portal para onde Satori Ryu e seus Dragon Kishi fugiram. - Hmm. - Dark Angel concordou, ainda distraído. - Gostaria de levar a luta até lá. Dark Angel parou seu procedimento, ficando imóvel por alguns momentos. Ele calmamente retirou suas mãos de dentro de Stalker, colocou seus instrumentos na mesa ao seu lado e olhou para Lethe, seus olhos penetrantes: - Você quer tentar caçá-los lá. Lethe fez que sim. - Você sabe que não será como na outra vez, certo? - Dark Angel perguntou. - Os Dragon Kishi não cairão nas mesmas armadilhas. E as Senshi desse mundo, com certeza, estarão preparadas para seu ataque. - Eu também não pretendo seguir a mesma estratégia. Dark Angel fitou os olhos de Lethe por um longo momento, como se medindo algo. Finalmente, ele riu, mais de si mesmo que dela, e falou: - Você pode continuar com o seu plano. Lethe piscou, surpresa: - Eu não me atreveria a... - Poupe-me, Lethe. - Dark Angel interrompeu. - Você já começou a sua missão. A ex-Senshi piscou, claramente chocada com Dark Angel, e recuou um passo. Ela gaguejou: - D-Dark Angel-sama... - Eu não me importo com o que você faz no seu tempo livre. - Dark Angel disse. - E se você capturar os Dragon Kishi novamente, tornará algumas coisas mais fáceis. - S-sim. - Enviarei Stalker para auxiliá-la em alguns dias. Estou certo que relatórios frequentes serão enviados esclarecendo os métodos que você está utilizando. - Claro. Dark Angel fez que sim, satisfeito: - Ótimo. Quero deixar claro que não é nossa prioridade invadir e dominar esse outro universo. Ainda não. - os olhos dele se estreitaram. - Nós precisamos dar o passo que podemos dar. Lethe fez que sim. - Finalmente, eu ainda espero a pesquisa sobre o Dragon Kishi Endymion. Novamente, Lethe concordou. - Logo. Você não sabe quão importante isso é, Lethe. Ela fez que sim uma terceira vez. - Ótimo. - ele falou, satisfeito. Dark Angel alcançou suas ferramentas na mesa e retornou sua atenção para Stalker. - Cuide de tudo, Lethe. - Sim. - ela respondeu, mas ele não pareceu ouvir. Com um suspiro, Lethe virou as costas e saiu do laboratório, sua mente girando com o que aprendeu no encontro. Enquanto ela caminhava a passos rápidos, sua mente repassava cada momento do curto confronto que tivera com os três Dragon Kishi. De alguma forma, os três guerreiros sem poderes eram uma ameaça muito maior que os com poderes que ela enfrentara na ascensão do Império Negro. Ela balançou a cabeça, tirando aquilo da sua cabeça. Ela teria todo o poder que precisaria para o próximo encontro com eles. **** - Bem-vinda, princesa Serenity. Usagi sentiu olhos que ela não controlava piscarem enquanto ela olhava para cima, fitando o rosto do jovem que a cumprimentou. Ela sentiu seu rosto sorrir para ele e uma voz, tão parecida com a sua quanto diferente, respondeu: - Obrigada. O jovem vestia um uniforme militar negro e tinha a cabeça baixa, sem olhar para ela. Usagi estranhou essa reação, mas sentiu que Serenity achou perfeitamente normal. A princesa simplesmente caminhou, discretamente lançando um olhar ao seu redor. Para ela, a paisagem era assustadora. Seu caminhar falseou por um instante, mas uma queda foi evitada por uma mão firme no seu ombro. Usagi teria piscado se pudesse, mas Serenity não pareceu surpresa. Ao contrário, ela virou-se e sorriu na direção de Silver, que impedira que ela se colocasse numa situação vergonhosa. As feições do aprendiz de Dragon Kishi eram familiares para a princesa, mas Usagi ficou surpresa com a suavidade no rosto dele. A cicatriz não estava lá e os olhos rubros dele pareciam menos cansados. O cabelo de Silver era curto e prático. Usagi decidiu que achava Ryu, de alguma forma, mais atraente. - Cuidado. - a voz de Silver, baixa e gentil, sussurrou no seu ouvido. Usagi sentiu um calor na face de Serenity e sorriu mentalmente. A princesa, claramente, tinha uma queda violenta pelo futuro Moon Dragon. Todos os pensamentos românticos de Usagi sumiram, entretanto, com a força da surpresa de Serenity ao olhar para a paisagem da Terra pela primeira vez. Eles estavam descendo da nau espacial por uma rampa de madeira. O pier era de pedras acinzentadas e um gramado verde parecia extender-se para sempre pelas margens do rio onde pousaram. Usagi, claro, não via nada de especial nisso, mas Serenity tinha crescido exclusivamente na Lua e seu conceito de paisagem envolvia cinzas e prateados. A idéia de um gramado verde como aquele era completamente nova para a princesa. Foi um leve toque nas costas de Serenity que fez ela sair de sua estupefação. Novamente, fora Silver quem impedira que ela se passesse por tola. - Alteza. - um homem alto e forte, vestindo uma armadura esverdeada, falou enquanto curvava-se. - Majestade. - a princesa Serenity retornou, fazendo uma cortesia baixa. Usagi, entretanto, estava ocupada observando o jovem menino ao lado do rei. Ela reconheceria o jovem em qualquer lugar, em qualquer época. - Príncipe Endymion. - a princesa Serenity falou em seguida. O jovem príncipe curvou-se em resposta. - Imagino que estejam cansados da viagem. - disse o rei, erguendo-se. - Muito, Majestade. - uma voz velha e cansada veio de trás de Serenity e Silver. Usagi levou um minuto para recordar-se a quem ela pertencia, logo trazendo a imagem do velho e fiel Azure, criado de Eclypse, à sua mente. - Azure. - disse o rei, com um sorriso familiar. - É um prazer vê-lo. - Eu não poderia deixar os dois jovens viajarem sozinhos, Majestade. - respondeu Azure, um sorriso claro na sua voz. - Eles, afinal, só têm onze anos. Usagi finalmente entendeu o motivo para estar estranhando o corpo de Serenity tanto. A memória era antiga até mesmo para a sua encarnação passada. foi a primeira vez que ela viajou para fora da Lua e, mais importante, foi quando ela encontrou Endymion pela primeira vez. - E quem é esse jovem? - perguntou o rei. Silver ajoelhou-se, baixando a cabeça, e respondeu: - Sou Silver Litgerbrin, Majestade. Aprendiz de Moon Dragon Eclypse. - É uma honra conhecê-lo, Silver. Eclypse fala muito bem de você. - falou o rei. - Filho, você pode conduzí-los até o palácio? Eu ainda tenho alguns afazeres aqui. - Sim, Majestade. - o príncipe Endymion respondeu, finalmente erguendo o rosto. Usagi sentiu o pulso de Serenity acelerar e o calor subir novamente ao seu rosto. Ela encontrou-se perdida nos olhos azuis do futuro monarca e, subitamente, ela entendeu que o que sentia por Silver era meramente um afeição infantil. Serenity caminhou alguns passos, como se num sonho, na direção do príncipe. Ela tropeçou e toda a magia foi quebrada. Usagi sentiu a vergonha dominar todos os sentidos da sua versão passada por um instante. Então, uma mão forte agarrou seu braço e segurou-a em pé. Serenity ergueu os olhos, esperando ver Silver novamente. Ao invés dele, entretanto, a princesa encontrou-se perdida nos mesmos olhos azuis de antes. Usagi mentalmente sorriu, as emoções de todos seus encontros com Mamoru voltando à tona. - A gravidade aqui é diferente, Serenity. - a voz do príncipe era suave e baixa e a intimidade do nome dela chocou e agradou a menina. Ela levou um instante para perceber que ele falara baixo demais para os outros ouvirem. - O...obrigada. - ela agradeceu, usando a mão forte dele como apoio para erguer-se. - É meu dever e uma honra, Alteza. - o príncipe respondeu. Eles continuaram em silêncio até o palácio e Usagi não conseguia se recordar de um detalhe sequer da viagem. **** - Moça? - o agente de imigração chamou pela terceira vez. Usagi piscou, subitamente se dando conta que tinha se perdido em seus pensamentos por um momento. Ela colou um sorriso no seu rosto e respondeu em seu inglês quebrado: - Sim? - Bem-vinda ao Canadá. - o rapaz disse, com um sorriso. - Qual o nome da senhorita? - Usagi. - ela respondeu. - Usagi Tsukino. - ela lembrou-se de que precisava dizer o seu nome antes do sobrenome. - Usagi é o nome, correto? - Sim. - Data de nascimento? - Trinta de Junho de mil novecentos e setenta e oito. - Estado civil é solteira, correto? Usagi hesitou, a imagem de Mamoru aparecendo na sua mente. Ela suspirou: - Sim. - Podemos enviar a documentação para a casa do Sr. Stover? - Sim. - Obrigado pelo seu tempo e seja bem-vinda ao Canadá, senhorita Tsukino. Usagi sorriu em agradecimento e caminhou, atordoada. Ela sentia-se em outro mundo. Era exatamente como a primeira vez que pisara na Terra como Serenity. Ela tropeçou, exatamente como naquela ocasião. Dessa vez, nem Endymion nem Silver estavam lá para ajudá-la e Usagi caiu de joelhos no chão. - Odango! - Haruka gritou, correndo até ela. A Senshi de Urano ajoelhou-se ao lado da princesa e segurou-a pelos ombros. - Tudo bem com você? - Sim. - Usagi respondeu. Haruka olhou intensamente nos olhos da menina mais jovem e balançou a cabeça: - Não está. - Não. - Usagi confirmou. - Não está. - lágrimas acumularam-se nos olhos dela, mas nenhuma escorreu. Ela esfregou a manga do seu casaco no rosto, enxugando. - Mas não podemos fazer nada. Haruka pareceu, por um momento, pronta para discordar, mas não parecia achar as palavras certas para fazê-lo. Ela olha para trás, claramente procurando alguém para ajudá-la com aquele momento delicado, depois retornou seu olhar para trás. - Eu estou bem, Haruka-san. - Usagi assegurou sua amiga. - Rei! - Haruka chamou, virando-se. - Makoto! - Haruka-san, não precisa chamar ninguém. - Usagi falou. - Eu estou bem. - Por isso que eu estou preocupada. - Haruka rosnou. As duas meninas que Haruka chamou chegaram correndo, imediatamente ajoelhando-se ao redor de Usagi e examinando-a. A princesa piscou, olhando para suas duas amigas. Quando que elas começaram a se preocupar assim com ela? Quando que ela deixou de ser só "Usagi" e se tornou "princesa"? - Usagi-chan, tudo bem? - perguntou Makoto. - ... sim. Rei ficou olhando para Usagi por alguns momentos, claramente pensando em algo. Finalmente, ela falou: - Mako-chan, Haruka-san. Pode deixar que eu cuido de Usagi. Haruka prontamente fez que sim e afastou-se, ainda precisando negociar o ônibus. - Rei-chan... - Pode deixar, Makoto. - Rei falou, com mais força que era realmente necessário. Ela encarou a Senshi de Júpiter por um longo instante, até que sua companheira fez que sim e afastou-se. Rei observou por um momento, depois olhou para Usagi. - Usagi? - Sim? - Pare com isso. - Rei falou, claramente irritada. - Não é a hora de você ser fraca. Usagi piscou, olhando para sua amiga. As sobrancelhas da sacerdotisa estavam franzidas: - Você, entre todas nós, tem que ser forte. Eu sei que Mamoru-san está em perigo e eu sei que a situação parece ruim. Mas é a sua força que sempre nos ajudou a continuar. - Rei-chan... - E eu não vou deixar você ficar miserável pelos cantos. Eu... Nós precisamos de você. - a Senshi de Marte falou, corando um pouco. Subitamente, Usagi sorriu. Pela primeira vez em dias, ela sentiu como se Tsukino Usagi fosse necessária. Ela se levantou, olhando ao seu redor com novos olhos. O Canadá, então, parecia um lugar novo e desconhecido e ela não se deixou abalar como sua encarnação passada deixaria. A tristeza ainda estava lá, assim como as dúvidas e o medo. Ainda assim, ela iria colocar aquilo tudo de lado, como fizera durante toda sua carreira como Sailor Moon. Além disso... - Tudo vai ficar bem. - Usagi declarou. - Sim. - Rei concordou, se levantando. - Nós precisamos que você acredite nisso. - ela sorriu, triste. - Senão nenhuma de nós vai acreditar. Usagi apenas sorriu para Rei e começou a caminhar na direção que Haruka tinha ido pouco antes. Rei ficou lá, observando, por longos segundos. Finalmente, ela piscou, balançou sua cabeça e permitiu que seus lábios se curvassem para cima. Respirando fundo, a Senshi de Marte seguiu sua líder. **** Chris Stover acordou quando sua cabeça atingiu o vidro da janela do ônibus. Ele piscou e olhou ao redor, franzindo a testa. Sua face direita estava gelada, tendo ficado encostada no vidro frio. Ao seu redor, todos pareciam estar passando por um processo similar ao dele de despertar. Finalmente, o jovem canadense olhou para fora. As luzes de Calgary já podiam ser vistas na distância, familiares mas, ao mesmo tempo, antigas ao jovem. Faziam poucos meses que deixara a cidade mas uma eternidade parecia ter passado. Ele sentia-se, de certa forma, velho. Mais antigo que a cidade para onde voltava. Por um instante, perguntou-se como seria falar de novo com seus pais. Em seguida, ele se perguntou como Rei e as outras podiam sobreviver daquele jeito. Ele foi Strike Fiss e Saturn Dragon por pouco tempo e já se sentia completamente desconectado de sua humanidade. Ele pensou nos outros Dragon Kishi e suspirou. Talvez fosse algo que tivesse mais a ver com o grupo. Ou com a morte do seu melhor amigo. - Acordou? - perguntou a voz melódica de Rei. Chris piscou e virou para ela. Tinha esquecido que ela adormecera ao seu lado. No fundo dos olhos violetas dela, ele viu um sentimento de possessão. Ele ainda não tinha se acostumado com o conceito de Rei ter Reconhecido ele. Aliás, todo aquela idéia de Reconhecimento parecia algo saído de um livro ruim. Provavelmente que tivesse elfos loiros no meio. - Você ouviu o que eu disse? - perguntou Rei, arrancando Chris das suas fantasias com elfos loiros. - Claro. - Chris mentiu. - E então? - Não acho nada. - ele tentou. - Boa tentativa. - disse Rei. Chris mexeu os ombros. - Eu perguntei se você ia falar com os pais de Maury hoje. - Eu... não sei. - o Kishi respondeu, seu humor deteriorando-se rapidamente. - Acho que sim. Rei fez que sim: - Conte comigo, se precisar. - Obrigado. - Chris surpreendeu-se ao ouvir sua voz. Subitamente, ele notou que contaria e precisaria. - Chris-kun? - Haruka chamou. Chris e Rei olharam na direção da Senshi de Urano. - Onde devo deixar você e Andrea? O canadense levou alguns instantes para lembrar-se do endereço, mas logo falou e indicou o melhor caminho, observando atentamente enquanto eles trafegavam pelas familiares ruas. Estava escuro e nevando. Quando Rei contou para ele que Haruka era uma piloto de corrida, ele não levou muito a sério. Vendo o jeito que ela guiava o ônibus, ele era forçado a reconsiderar sua opinião. Eles moviam-se rapidamente pela cidade mas, em momento algum, a sensação de insegurança os ameaçava. - Eu gostaria de conhecer os seus pais. - Rei falou. Chris não desviou seu olhar da sua contemplação da cidade que por tanto chamara de lar. As palavras de Rei pareciam inapropriadas para o momento. - Posso? - perguntou Rei, com a voz um pouco insegura. Ela, obviamente, tomou o silêncio dele por negação. Chris preparou-se para responder, para dizer que não havia problema algum, mas pegou-se hesitando. O que ele diria? Como? Rei tinha Reconhecido ele, mas ele não tinha esse luxo. O relacionamento deles para Chris não tinha mudado e a Senshi de Marte não tinha, subitamente, se tornado no único ser humano interessante para ele. Cansaço instalou-se no Dragon Kishi de Saturno, pesando nos seus ombros como chumbo. - Claro. - ele respondeu, mesmo assim. Chris, pela primeira vez, desejou que nada daquilo tivesse acontecido. Que ele não tivesse ido ao Japão, que não tivesse descoberto seus poderes. Ele subitamente se lembrou do velho vendedor de espadas, Yamato. Ele o esqueceu no Japão. O punho do jovem se fechou e a vontade de golpear a janela do ônibus era quase sobrepujante. Ainda assim, Chris se controlou. Ele respirou fundo e pensou em Maury. Involuntariamente, sua mente trouxe os outros seis Dragon Kishi que ficaram no Japão e ele sentiu-se envergonhado. Eles não tinham se tornado amigos mas Chris não conseguia deixar de sentir um forte companherismo com relação a eles. A morte de Maury, o combate dos Dragon Kishi. O canadense balançou sua cabeça, subitamente envergonhado por querer fugir das suas responsabilidades. Finalmente, ele virou-se para Rei. A Senshi estava olhando para ele. Preocupação coloria os traços do rosto dela e seus olhos estavam inseguros. Chris sorriu, sentindo seu coração acelerar ao olhar para a Senshi. Impulsivamente, ele abraçou-a, enterrando seu rosto nos longos e sedosos cabelos negros. A jovem pareceu surpresa por um momento, mas retornou o gesto em seguida, relaxando. O Kishi apertou Rei com força contra si. - Nós devíamos nos casar. - Chris disse. Rei afastou-se dele com um sobressalto, voltando olhos escuros para ele. - Como assim? - Não é como se você tivesse escolha. - ele respondeu, com um meio sorriso. A Senshi abriu a boca para argumentar, mas conteve-se sua expressão passando de surpresa para chocada e, finalmente, brincalhona. - Stover-san, se acha que vai conseguir isso com uma proposta dessas, pode esquecer. - um sorriso surgiu no rosto da jovem. - Minha resposta, aqui, é não. Você pode fazer melhor que isso. Chris ficou olhando, boquiaberto, para a sua namorada. Finalmente, ele sorriu e fez que sim. - Eu vou fazer uma proposta irrecusável, então. - Sei que vai. - Rei falou. - Outro dia. - Sim. - ele concordou, segurando as mãos dela. - Outro dia. **** Hino Rei fez menção de bater na porta e, pela terceira vez, baixou sua mão, desistindo. Ela afastou-se um pouco e olhou ao seu redor, examinando o corredor com cuidado, quase procurando um motivo para evitar a conversa que estava prestes a ter. Não havia motivo real para abordar o assunto ou mesmo se expor àquela situação, mas a Senshi de Marte simplesmente não conseguia relaxar. Ela fechou os olhos, focando nos seus sentidos e confirmando as presenças dentro do quarto. Finalmente, um olhar decidido cobriu seu rosto e Rei bateu na porta rapidamente, quase que como se tivesse medo de desistir. - Já vai. - a voz do seu pai falou. Longos instantes passaram e Rei manteve-se parada, diante da porta. Sem virar a cabeça, ela olhou para os lados, examinando, novamente, o corredor do hotel onde estavam hospedados. Foi difícil achar um lugar com o número de vagas adequado ao grupo com eles, mas longe de impossível. Especialmente com os recursos que Haruka e Michiru pareciam dispor. A porta se abriu. - Rei-chan? - a voz surpresa de seu pai, Hino Tsubasa, indagou. - Sim. - ela respondeu. - Eu gostaria de conversar, papai. - Seu avô está aqui. - foi a resposta neutra. - Eu sei. Eu senti. Tsubasa olhou para ela por um longo momento, depois fez que sim, afastando- se da porta. Rei caminhou para dentro, tirando seus calçados por reflexo. Seu pai fechou a porta atrás dela, travando por dentro. A Senshi aproveitou para olhar ao redor do quarto. Era maior que o dela, mas ela sabia que isso era meramente porque ele abrigaria duas pessoas. Além disso, o quarto de Rei, assim como de todas as outras Senshi, ficava adjacente ao de Usagi. Nenhuma delas queria afastar-se demais da princesa. No meio de tudo que aconteceu, ela era como uma chama de esperança nas trevas que cercavam o mundo. - Então. - Tsubasa falou. - A que devo a honra da visita da Senshi de Marte? - Tsubasa, não seja grosso. - o avô de Rei falou. - Olá, querida. - Vovô. - Rei curvou-se. - Apesar de mal-educado, meu filho tem certa razão. - o sacerdote falou. - Não é tarde? - Sim. - Rei respondeu. - Mas nós precisamos conversar. Eu não toquei no assunto durante toda a viagem porque Usagi e a nossa sobrevivência precisavam ser minhas prioridades. Eu não podia me distrair com isso. - ela olhou nos olhos de Tsubasa, que recuou um passo ao ver os sentimentos ocultos lá. - Eu preciso saber como posso ter nascido kalyriana, preciso saber como você pôde deixar Ryu crescer como cresceu. Preciso saber da minha mãe. - Rei... - começou o avô dela. - Não, pai. - interrompeu Tsubasa. - É justo que ela saiba. - ele caminhou até uma das camas e sentou-se. Rei caminhou para perto, mas manteve-se em pé. - Por onde começar? - Pelo começo. - Rei disse. - O começo. - Tsubasa repetiu. - O começo, imagino, foi quando eu fui recrutado pela Interpol. - Interpol? - Rei perguntou, piscando. - Sim. Imaginei que Mizuno-san teria lhe contado. - ele mexeu os ombros. - Mas não importa. Eu fui selecionado, com dezesseis anos, para trabalhar na Interpol. Era um programa de combate à pornografia infantil. - ele fechou os olhos, como se lembrando. - A pornografia como nós conhecemos hoje só surgiu no Japão após a Segunda Guerra. O mercado de venda de peças de roupa íntima de exploração de menores estava em franca ascensão por lá. Rei fez que sim, sentindo seu rosto corar. Tsubasa abriu os olhos e, vendo isso, sorriu: - Pode parecer impróprio, mas o combate à pornografia infantil sempre foi uma das principais metas da Interpol. - o sorriso dele se alargou. - Eu gostaria de dizer que tinha sido contratado para procurar espiões nazistas ou algo assim, mas a verdade é o que é. Aparentemente, minhas boas notas, conduta exemplar e disciplina foram os fatores principais. Tsubasa se levantou e caminhou até o frigobar, pegando uma garrafa de água e abrindo. Ele deu um longo gole e continuou falando, seus olhos perdidos em algum ponto da parede: - Foi assim que eu conheci sua mãe. Koika. - Koika? - ecoou Rei. - Hino Koika? - Satori Koika. - corrigiu Tsubasa. - Eu assumi o nome da família dela por um tempo, mas reverti para Hino quando nos divorciamos. - Como você conheceu a mamãe? - perguntou Rei. - A sua mãe era um espírito rebelde, Rei-chan. - Tsubasa falou. - Ela era quase o completo oposto do que eu sou e um problema gigantesco para a família dela. Koika trocava as roupas íntimas dela por notas com os professores do colégio. - Papai! - Rei falou, escandalizada. - É a mais pura verdade. - ele se defendeu. - Eu comecei a investigá-la na esperança que ela se voltasse para pornografia e, por ela, encontrar as pessoas que encabeçavam isso. - ele sorriu. - Claro, eu nunca consegui segui-la sem ser notado. E eu comecei a preencher isso nos meus relatórios. - E foi isso que indicou para a Interpol que algo era diferente nela. - o avô de Rei falou. - Exato. Eles poderiam entender se uma menina conseguisse despistar um agente treinado uma ou duas vezes, mas não todas as vezes. Isso e os olhos dela. - Eles eram vermelhos? - Exatamente como os de Ryu, Rei. - disse seu avô. O velho caminhou até o armário e o abriu, tirando uma mala de lá. Depois de procurar por alguns momentos, ele retornou com uma foto em mãos. - Essa é a foto do casamento deles. - Você tem isso? - perguntou Tsubasa, soando surpreso. Rei, com o coração palpitante, aproximou-se do seu avô e tomou em suas mãos o retrato. Ela olhou, examinando cuidadosamente a imagem. Era uma foto simples, com Tsubasa e uma mulher vestindo kimonos tradicionais de casamento. O seu pai parecia muito mais jovem na foto. Ao lado dele, uma linda jovem de olhos vermelhos sorria, radiante, para a câmera. Ela tinha longos cabelos castanhos, num tom bem mais claro que os de Rei ou de Ryu. O cabelo, entretanto, era longo e escorrido, diferente do rebelde que Tsubasa tinha. Os olhos eram o que mais marcou Rei. O formato era exatamente igual ao dos dela e de Ryu, com aquela mesma inclinação rigorosa, aquela expressão séria e dura. Eles eram, como os do irmão dela, vermelhos como sangue. Ela era linda. Rei começou a sentir seus olhos encherem-se de lágrimas. Ela nunca tinha visto uma imagem de sua mãe antes e, subitamente, percebeu o quanto herdara dela. - Fique com a foto, Rei-chan. - disse o seu avô, sua voz baixa. - Continue. - Rei ordenou, sem olhar para seu pai. - Eventualmente, Koika me abordou por tentá-la seguir o tempo todo. Ela achava que eu estava interessado nela. - um sorriso surgiu nos lábios de Tsubasa. - E eu estava. Ela era tudo que eu não era. Livre, espontânea, feliz. Por volta dessa época, eu recebi instruções do meu superior para desenvolver um relacionamento com Koika e entender o quê ela era. Os Satori, aparentemente, eram uma família conhecida por seus dons sobrenaturais. O avô de Koika, também um Satori Ryu, foi um ás japonês da Força Aérea. Seus feitos foram tão impressionantes que é um segredo de Estado. - Como assim? - perguntou Rei. - Ele derrubou setecentos e trinta e oito oponentes em combate aéreo. Sem nunca ter sido atingido. Os soldados diziam que era como se ele tivesse olhos na nuca. - Isso é muito? - perguntou Rei, curiosa. - Rei-chan, o maior ás registrado é o alemão Erich Hartmann, o Cavaleiro Loiro da Alemanha. Com apenas trezentos e cinquenta e dois alvos derrubados. - disse o avô dela, claramente surpreso com o que seu filho revelara. - Descobrir que alguém fez mais que o dobro disso... - Ele parece o Ryu, mesmo. - disse Rei, com certo humor. - Em todo caso, fui instruído a me aproximar de Koika e sua família. - Tsubasa falou. - O inesperado é que eu e ela acabamos nos apaixonando. Quando eu pedi autorização ao meu superior para casar com ela, a permissão veio apenas sob a condição que eu continuasse meus relatórios. E assumisse outros casos. - Tsubasa era um agente extramamente eficiente, Rei-chan. O processo de perseguir Koika já tinha sido executado com sucesso em dez outros casos e, em todos, ele conseguiu apreender um grupo de corrupção de menores. - Nós casamos alguns anos depois. Koika já tinha passado da sua fase rebelde e tinha se tornado uma pessoa doce. Mas ela nunca me Reconheceu. - disse Tsubasa. - Não? - perguntou Rei, confusa. - Como funciona isso? Pensei que tinha a ver com amor. - Não. - disse Tsubasa. - Ela me explicou. Tem a ver com compatibilidade genética e confiança. - ele suspirou. - Ela provavelmente sentia, em algum nível, que eu a estava enganando. Rei fez que sim, caminhando até a janela e abrindo. A neve ainda estava caindo e as ruas estavam desertas. Ela examinou a paisagem por um momento, tentando processar tudo que ouvira. Finalmente, ela virou-se para seu pai: - E como vocês se separaram? - Koika engravidou pela primeira vez. A Interpol não interviu porque via em Ryu um possível agente para eles. Foi nessa época que eu comecei a omitir alguns detalhes dos meus relatórios. Ryu nasceu e Koika engravidou pela segunda vez. Eu avisei a Interpol que não mais espionaria minha própria família. Eu queria sair daquilo. - A Interpol avisou, secretamente, os pais de Koika quanto à identidade de meu filho. - disse o mais velho Hino. - Eu não soube na época. - disse Tsubasa. - Mas faz sentido. Koika, quando descobriu a verdade, pediu o divórcio. Eu aceitei, me sentindo culpado por aquilo tudo. Nós acertamos que Ryu ficaria com eles e que você, ao nascer, seria a herdeira do Templo de meu pai. - ele suspirou. - Eu teria criado você, Rei- chan, mas não achei que merecia. Ou que você merecia ser exposta a alguém como eu. - Eu mantive contato com o pai de Koika-chan. - disse o avô de Rei. - Eu e você fomos no velório deles, apesar de você não lembrar. Uma criança tinha morrido no carro junto com eles e eu assumi que fosse Ryu. - E nenhum de vocês se incomodou em checar? - perguntou Rei, incrédula. - Se meu irmão tinha sobrevivido? - ela se levantou. - Eu preciso saber se minha... herança... me reserva mais alguma surpresa, pai. Quer dizer que eu sou kalyriana porque existia uma família de Kalyr aqui. Mais alguma? - Sim. - disse Tsubasa, com simplicidade. - Existem mais algumas famílias com sangue... kalyriano, você chamou? - Como mamãe chamava? - ela perguntou. - Não havia um nome para isso. Eles simplesmente sabiam que a habilidade estava lá. - Nós somos descendentes de uma raça alienígena que invadiu e escravizou o Sistema Solar milhares de anos atrás. - Rei esclareceu. - A civilização do Milênio de Prata expulsou a maioria deles, mas muitos híbridos ficaram para trás. Como eu e como Ryu. Tsubasa fez que sim: - Isso explica muito, na verdade. Era uma das questões que nós nunca conseguimos desvendar. - ele suspirou e se levantou. Ele, como seu pai, foi mexer na sua bagagem, como se procurando por algo. Finalmente, ele voltou, carregando uma pasta creme. Ele entregou para Rei. - Tome. Isso é tudo que descobriram na autópsia da sua família. Tudo que eu observei, todas as conversas que tive com Koika. - Isso é... - Uma cópia do arquivo da Interpol. - Tsubasa falou. - Inclusive o planejamento para recrutá-la para a Interpol nos próximos dois anos. Rei fez que sim, abraçando a pasta. Ela tinha muito sobre o que pensar. - Eu sei que é difícil, mas quero que saiba que eu amei muito sua mãe, Rei-chan. E que eu sinto muito pelo que fiz. - Tsubasa disse. A Senshi se levantou e caminhou até a porta, em silêncio. Ela colocou a mão na maçaneta e parou por um momento. Sem se virar, ela falou: - Não espere meu perdão, pai. O que você fez hoje foi um passo largo, mas longe de ser o suficiente por uma vida de mentiras. - ela virou-se, olhando para seu avô. - E você, vovô. Por mais que tenha me criado, estou desapontada por você nunca ter me contado nada. - Você, entre todas as pessoas, entende porque mantemos segredos às vezes, Mars. - o velho respondeu. Rei piscou, como se sentindo um golpe físico, mas não falou nada. Ela sabia que o seu avô tinha razão, mas não estava preparada para admitir para ele. Sem mais palavra alguma, ela abriu a porta e saiu. **** - Foi ruim, hein? Chris olhou para sua irmã, encolhendo-se dentro do seu casaco e suspirando. Dizer que a noite foi ruim era subestimar, e muito, o quão desastroso todo o evento foi. Na sua memória, os gritos dos pais de Maury ainda estavam claros. Pessoas que ele amava, talvez quase tanto quanto sua própria família, acusando-o da morte do seu melhor amigo. - Foi. - ele respondeu. - Eles vão entender. - Não sei como. - Chris respondeu. - Eles foram bem claros na parte de nunca mais procurá-los. - Foi uma noite de reações estranhas. - disse Andrea. - Quem diria que mamãe e papai iriam dizer algo como aquilo? - "Acabou, não precisam mais falar com aqueles japoneses estranhos." - Chris imitou, incapaz de deixar o tom sarcástico fora da sua voz. - Foi brilhante. Andrea mexeu os ombros, parando para ajustar seu cachecol ao redor do seu pescoço. Chris olhou brevemente para sua irmã, feliz que pelo menos ela o estivesse apoiando. Ele mal teve a oportunidade de conversar com seus pais sobre Rei. Aliás, ele mal teve a oportunidade de conversar com eles. Quando ele disse que era um Dragon Kishi, eles já assumiram que ele fora forçado a se juntar ao grupo e disseram que ele não precisava mais fazer aquilo. As palavras dos dois ecoou estranhamente com os pensamentos que ele tivera antes, no ônibus, e Chris finalmente notou como elas soavam egoístas. Ele podia não ter os seus poderes, mas era responsabilidade dele e dos outros cuidar e derrotar as ameaças ao mundo. Eles tinham o conhecimento. E eles poderiam recuperar seus poderes, ele tinha certeza. Andrea começou a cantarolar a música tema da Rebelião de Star Wars. Chris olhou para ela, sorrindo para si próprio. Ele sempre gostou da voz da sua irmã e a música parecia estranhamente apropriada. Eles podiam estar em menor número e enfrentando probabilidades impossíveis, mas ainda tinham uma chance. Ryu e os outros voltariam com os pingentes, Wands e o Ginzuishou. Eles poderiam, então, ir até o mundo de Dark Angel e derrotá-lo de uma vez por todas. - O mundo parece tão simples às vezes, mas, ao mesmo tempo, infinitamente complexo. - disse Andrea, parando sua cantoria. - As coisas acontecem nos momentos que menos esperamos. - É. - Chris concordou. - Você acha que nossos pais estavam certos? Que nós devíamos deixar de lutar? - Eu acho que nós somos responsáveis pelo que está acontecendo. Nós perdemos nossos poderes e temos o dever de continuar com nossas funções. Mesmo sem eles. - Chris respondeu, olhando para o céu. - Você acha que nós devemos sacrificar tudo que somos? Como os outros Dragon Kishi fizeram? - Não sei se precisa ser tão extremo. - disse o irmão dela, com um sorriso. - Podemos continuar sendo nós mesmos. Mas eles não conseguiram aceitar isso. - Por isso que você saiu? - Por isso que nós saímos. Nós dois temos que ficar com o resto do grupo. - ele olhou para Andrea. - Nós temos que ficar entre os nossos. Pessoas como nós. - Você já lembrou de algo? Do passado? - Eu tive um sonho, ainda no Japão. - disse Chris. - E só. - Você não tem medo de deixar de ser você? De se tornar outra pessoa? - Andrea perguntou, soando assustada. - Acho que nós sempre mudamos. Mudar faz parte da vida. Eu não posso continuar sendo o que sou pra sempre. - Chris respondeu. - Por quê? - Medo. - Andrea respondeu, com sinceridade. - Medo de me tornar mais Shi do que Andrea. Nós já estamos saindo de perto dos nossos pais. Indo morar com pessoas que mal conhecemos porque é destino. - Não se preocupe com isso. - disse Chris. - Shi morreu. Você tem apenas que assumir a responsabilidade que ela deixou. Andrea fez que sim. - E não se preocupe. Eu sempre vou estar lá com você. E nossos pais vão entender, eventualmente. Eles só precisam de tempo. - Chris falou, sorrindo para ela. Andrea retornou o sorriso, ainda que um pouco trêmulo, e o Kishi de Saturno retornou seu olhar para o céu e os flocos de neve caindo. Despercebido por ele, Andrea abriu sua mão direita e fixou seus olhos no pequeno objeto que repousava lá, suspirando para si mesma e cerrando o punho em seguida, escondendo o que quer que fosse do mundo. Era uma pequena chave. Fim do Capítulo 2 Capítulo 3: Garotos Perdidos Ryu simplesmente não conseguia desviar os olhos do toco que outrora foi a mão direita de seu melhor amigo, Kazeno Ken. O Kishi da Terra estava desacordado, mas fora de risco, segundo a médica que os atendeu. Depois de longos momentos parado, Ryu desviou seu olhar para sua outra companheira e caminhou até ela. Akai estava, também, dormindo. Exausta, provavelmente. A Ligação dele estava começando a se reestabelecer, mas ele ainda tinha a sensação de ter tido um dos seus sentidos amortecidos por um impacto forte, quase como uma luz intensa arrancando-lhe a visão por algum tempo. As mãos do Dragon Kishi fecharem-se ao redor da sua katana, que jazia pendurada na sua cintura. A mente dele, entretanto, não estava focada nem nos seus companheiros nem nos seus sentidos. Ele ficava lembrando da essência de Minako banhando ele por um momento, envolvendo o mundo. Finalmente, depois de dias sem parar para pensar, Ryu se deu conta que a mulher que amava morrera. Ele quase desejou que um youma estivesse ali para ocupar sua mente, para sentir sua espada. Era mais fácil esquecer enquanto lutava. Vagamente, quase como um eco, Ryu sentiu a aproximação das Senshi daquele mundo. Ele sorriu para si mesmo, apesar de tudo que aconteceu. Era um alívio saber, depois de tanto tempo, que Serena tinha chegado bem. Estranhamente, ele nunca tinha ligado Serena a Tsukino Usagi, apesar da conexão ser óbvia. Pensar em Serena, entretanto, trouxe novamente a lembrança de Minako. O cabelo dela, o cheiro dela, a sensação que ela emanava para sua Ligação. O guerreiro sentiu um frio no seu peito e sua boca comprimiu-se numa linha fina. A porta se abriu, mas ele não virou. - Ryu-kun? - Serena. - ele respondeu, ainda sem se virar. - Nós temos que conversar, imagino. - Eu gostaria de te apresentar às outras, antes. - ela disse, sua voz leve. Ele suspirou. Ela não tinha como saber o que aconteceu. - Se incomoda em virar para cá? Com outro suspiro, o Dragon Kishi da Lua se virou. Como esperado, as Senshi pareceram surpresas com sua aparência física. Ele tentou focar seu olhar em Usagi, mas seus olhos ficavam voltando-se para... - Minako? - ele perguntou involuntariamente, sua voz suave como nunca. Ele sabia que não, mas não conseguiu evitar. Seus olhos percorreram o rosto da Senshi de Vênus daquele mundo, tomando os olhos azuis, longos cabelos loiros e feições suaves. Ela era idêntica. Serena piscou, olhando para Ryu com uma expressão curiosa. Ela balançou a cabeça: - Não, Ryu-kun. O nome dela é Mina Aino. Aquilo arrancou Ryu do seu transe e ele balançou a cabeça, abaixando o olhar: - Desculpe. - ele falou, sua voz voltando ao tom quase rosnado de sempre. - O que aconteceu, Ryu-kun? - perguntou Mina. - Quem é Minako? Foi Serena quem respondeu: - Minako era a Sailor V do mundo de Ryu-kun. Ela se tornou Sailor Venus também, Ryu-kun? - Sim. - ele respondeu, simplesmente. - Depois da Grécia, nós ainda passamos quase seis meses trabalhando juntos. Depois disso, ela começou a se envolver com uma policial... - Katarina? - perguntou Mina, soando fascinada. - Sim. - Ryu falou, sua voz voltando a ficar suave. - Esse era o nome. Quando ela começou a revelar demais para a policial, nós tivemos uma discussão e eu fui embora. - Embora? - Serena perguntou. - Como assim? - Embora. - ele repetiu. - Eu e Lockheed nos afastamos de Minako e Artemis e voltamos a trabalhar sozinhos. - Lockheed? - perguntou Serena, curiosa. - Meu guardião. - Ryu disse. - Ele era um pequeno dragão. - Como assim, "seu guardião"? - perguntou Raye, dando um passo adiante. - Quem é você? - Eu sou o Moon Dragon, dos Dragon Kishi. - ele respondeu simplesmente. - No Milênio de Prata, nós éramos a elite do exército selenita. Eu era o líder do grupo. Nós fomos mortos na primeira onda do ataque do Reino Negro, depois que os Dragon Kishi mais velhos nos traíram. - Reino Negro? - perguntou Mina, confusa. - Deve ser a versão deles do Negaverso. - esclareceu Amy. - Eu sou Amy Mizuno... - Sailor Mercury. - Ryu disse. - Você é idêntica à Ami do meu mundo. Meu nome é Satori Ryu... Ryu Satori, vocês diriam aqui. - Eu sou Raye Hino. - Lita Kino. É um prazer. - disse Lita. - May Terrae. Ryu olhou para May com cuidado, antes de mexer os ombros: - Você não existe no meu mundo. - ele falou. - Sem ofensa. - Não tem problema. - May falou, um pouco surpresa. - Eu sou a Sailor Earth. Ryu fez que sim: - Esses dois aqui são meus companheiros de equipe. Ken Kazeno e Akai Kano. Eles são Earth Dragon e Mars Dragon. - E o que você está fazendo aqui, Ryu-kun? - perguntou Serena. - E por que você não se transformou para enfrentar aquele youma? E de onde veio? Subitamente, a expressão de Ryu tornou-se pesada. Ele abaixou os olhos e sua voz era baixa: - Nós perdemos nossos poderes. - ele falou. - Nós fomos derrotados. - Derrotados? - perguntou Raye, subitamente olhando para Mina. - Fomos invadidos por uma outra dimensão. - Ryu esclareceu. - Por um ser chamado Dark Angel. Ele nos derrotou. Roubou nossos poderes. E o Ginzuishou. - O Cristal de Prata? - perguntou Lita, assustada. - Sim. - Ryu confirmou. - Nós evacuamos o Japão. Eu fiquei com um grupo lá para tentar recuperar os nossos poderes e o Ginzuishou. - ele olhou para seus dois outros companheiros. - Só nós sobrevivemos. - ele colocou a mão no bolso e tirou um cristal esférico de lá. Ele abriu, mostrando para Serena. - Mas nós conseguimos. Serena ignorou o Ginzuishou, seus olhos azuis fixos no rosto de Ryu, procurando alguma emoção lá. Ela finalmente notou as linhas de cansaço, a tristeza nos olhos dele. Ele tinha mudado desde a última vez que eles se encontraram. Parecia carregar um peso enorme consigo. - Minako-chan...? - Serena perguntou. Ryu apenas virou o rosto. - Ryu-kun... - ela falou, chegando perto dele. O Dragon Kishi recuou um passo, balançando a cabeça. - Eu estou bem. - ele falou com uma voz fria. Serena piscou, olhando para ele por um longo momento. Ela pareceu procurar algo na expressão dele. Finalmente, ela fez que sim, mais para si mesma que para ele, e afastou-se. - Eu só não entendi uma coisa nessa história. - uma nova voz falou. Ryu deu um pequeno salto, colocando-se de costas para a parede e sacando sua katana no processo. Ele já tinha fixado os olhos na pequena figura felina que entrara no recinto. - Artemis. - ele falou, relaxando. - Sim. - disse o gato, examinando Ryu com cuidado. O Dragon Kishi piscou, desacostumado ao escrutínio de alguém que ele considerava um velho amigo. - Como você e Serena se conhecem? - Eu fui transportada por acidente para o mundo dele. - disse Serena. - Ryu- kun e Minako-chan me ajudaram a voltar e mataram um youma ameaçando a cidade de... - Atenas. - disse Ryu. - Isso. - Serena falou. - Fazem uns dois anos, já. Antes de Luna me encontrar. Artemis fez que sim, satisfeito. Ryu deu um meio sorriso para o gato e perguntou: - Isso quer dizer que eu passo no teste? - Isso quer dizer que você precisa se distrair. - declarou Mina, subitamente. Todos olharam para ela. Ela colocou as mãos na cintura. - Vocês precisam se recuperar e da nossa ajuda para achar um jeito de voltar para casa. Enquanto isso, é nossa tarefa fazer com que se sintam em casa aqui! Lita e Serena concordaram com entusiasmo, enquanto Raye e May apenas olharam para Ryu por mais um momento, ainda um pouco desconfiadas. O Dragon Kishi, por sua vez, apenas piscou, sem entender. Artemis, entretanto, concordou com a Scout de Vênus: - Realmente, não há muito o que fazer. Até nós descobrirmos um jeito de mandá-los de volta, é melhor que façam o possível para se recuperar. - Talvez haja um portal na Grécia. - Ryu falou. - Nós devíamos... - Vocês deviam se recuperar. - interrompeu Mina, olhando nos olhos dele. - Voltar e morrer não vai ajudar ninguém. - ela apontou para os dois Dragon Kishi desacordados. - Veja o estado deles. - Além disso - disse May. - se você realmente recuperou o Cristal de Prata, imagino que a ameaça imediata ao seu mundo esteja derrotada. Ryu fez que sim, automaticamente. Com a bolha de Setsuna ao redor do Japão e o Ginzuishou nas mãos dele, Dark Angel não tinha como começar uma invasão em larga escala. De certa forma, eles tinham vencido. Ele relaxou visivelmente, brevemente com uma sensação de missão cumprida. - E o primeiro passo para isso é tomar um banho! - declarou Mina, sorrindo. - Você está fedendo! Ryu olhou para si próprio, vendo que suas roupas estavam escuras de nadar nas águas do esgoto de Tóquio. Ele não tomava banho ou trocava de roupas há dias. Inconscientemente, ele passou a mão no seu cabelo e fez uma breve careta ao notar que ele estava duro. - Certo. - ele concordou. - Tomar banho. - Ótimo! - disse Mina, radiante. - Vamos, eu te mostro onde é o banheiro. - ela marchou para fora do quarto, sem prestar atenção em todos os olhos que a acompanharam. Ryu parou por um momento, inconscientemente sorrindo um pouco. Finalmente, ele seguiu. Alguns instantes passaram e Mina voltou, parecendo envergonhada: - Amy? Será que você poderia...? - Claro que eu mostro onde fica o chuveiro. - respondeu a Scout de Mercúrio, com um leve sorriso. **** Na baía de Tóquio, uma esfera de cristal azulado flutuava nas águas turbulentas. As ondas o empurravam e jogavam, aparentemente levando-o para uma jornada infinita pelos oceanos. Então, subitamente, a esfera parou, como se presa por algo invisível. Ela estava a uma certa distância da margem, sim, mas a cidade ainda era plenamente visível. Como se sugada, a esfera mergulhou nas profundezas, pulsando uma única vez antes de fazê-lo. Um número de peixes flutuou até a superfície, suas barrigas voltadas para cima. **** Ryu respirou aliviado, ainda esfregando a toalha que pegara emprestado no seu longo cabelo. Ele brevemente olhou para si mesmo, notando que a camiseta e a calça que tinham emprestado para ele estavam um pouco grandes. Mexendo os ombros para si mesmo, ele colocou o chinelo simples que o esperava e encarou o espelho do pequeno banheiro por um momento. Olhos vermelhos encaravam-no com uma irritação perpétua, situados num rosto com pele clara porém curtida de Sol, cabelos negros e molhados e uma cicatriz na face esquerda. Ele parou, examinando-se por um momento. Sua mão direita ergueu o cabelo da sua testa, revelando uma crescente dourada. Ryu mentalmente comparou-se com o Satori Ryu que conhecera Minako e suspirou. Ele mudou e muito. Mexendo os ombros, ele abriu a porta do banheiro, caminhando lentamente pelo corredor, olhando ao seu redor. Ele se concentrou, focando na sua Ligação e procurando as outras pessoas. Ele ainda não tinha se acostumado com a presença das... Scouts, elas se chamavam, mas conseguia notar onde as pessoas estavam. Ele começou a caminhar naquela direção, quando parou, sentindo um grupo menor na porta ao lado de onde estava. Ele reconheceu Serena com facilidade. - Você está aí! Ryu virou-se, chocado, ao ouvir o som da voz de Minako. Ele encarou a loira, deixando a toalha cair das suas mãos. - Ryu-kun? - chamou Mina. - Você deixou cair a sua toalha. - ela se aproximou, pegando a toalha e esfregando um pouco na cabeça dele. - Mina-san. - ele falou, subitamente se lembrando quem ela era. - Desculpe. Você me lembra demais... - Eu sei, eu sei. - ela falou, com um sorriso. - Minako, não é? - Era. - ele corrigiu, gentilmente. Mina piscou, momentaneamente chocada com a possibilidade de morrer. Ela se recuperou rapidamente, entretanto, e voltou a sorrir para Ryu, ignorando o olhar intenso que ele dirigia a ela: - Então, vamos nos juntar aos outros? - Estou curioso com quem está aqui. - ele falou, apontando para a porta. - Eu posso... sentir alguém. - Sentir? - Mina perguntou, confusa. - Esse é o quarto de Mark. - Mark? - perguntou Ryu. Mina fez que sim, caminhando até a porta e batendo gentilmente. - Entre. - a voz de Serena chamou. A Scout de Vênus abriu a porta, enfiando a cabeça para dentro por um momento. Em seguida, ela olhou para Ryu: - Pode entrar. O Dragon Kishi caminhou para dentro do quarto, notando que era menor e mais cômodo que o lugar onde ele e seus dois companheiros tinham sido colocados. Obviamente, não era meramente uma sala de exames, mas uma acomodação para feridos. Os olhos dele automaticamente varreram os cantos do quarto, procurando por ameaças, antes de repousar na cama no centro. - Quem é ele? - Ryu perguntou, aproximando-se. - Mark Juno. - disse Raye, sua voz distante. - Ele se machucou na nossa última batalha. Ryu fez que sim, olhando para o jovem. Ele fechou os olhos, concentrando-se por um momento, abrindo-os em seguida: - O que ele é? - Um Star Knight. - disse Serena, da poltrona. - Jupiter Knight. - Star Knight. - Ryu testou o som na sua boca. - Nós não temos Star Knights em meu mundo. Dragon Kishi, Sailor Senshi e Noble Kishi. - ele enumerou. - É estranho apenas nós sermos o ponto comum. - disse Serena, olhando para o jovem. - É estranho nós sermos idênticas às Scouts dele. - disse Mina, aproximando- se da cama. - Idênticas mesmo. - Ryu concordou. - Você parece, cheira e soa como Minako. Acho que até a sua... sensação é a mesma, quando eu me acostumar com esse mundo. - Como assim? - perguntou Mina, um pouco vermelha. - Eu posso sentir o ambiente. - ele explicou, sem querer entrar nos detalhes da sua raça. - Que legal! - disse Serena, impressionada. - Como Raye-chan! - Eu descobri há pouco tempo que Rei e eu somos irmãos. - disse Ryu, sem desviar os olhos de Mark. - Logo antes de mandá-la fugir com Usagi e as outras. - Rei é Raye, não é? - perguntou Mina, olhando para a Scout de Marte. - Sim. - Ryu confirmou. O grupo ficou novamente em silêncio, olhando para a forma inerte de Mark Juno. Então, a porta do quarto abriu. De novo, por instinto mais que qualquer outra coisa, Ryu afastou-se um pouco da cama, se colocando em guarda. Ele se arrependeu, momentaneamente, de ter deixado sua espada no quarto onde Ken e Akai estavam. Um jovem baixo, com cabelos e olhos castanhos, entrou no quarto, uma expressão séria no seu rosto. Ele parou, olhando ao redor e parecendo considerar suas palavras por um momento, até que disse: - Desculpe. Não sabia que tínhamos visitas. - Não se preocupe, Hg. - falou Serena. - Ele sabe. Hg olhou para Ryu, seus olhos estreitos. Os dois jovens se encararam por um longo momento e o Dragon Kishi viu o olhar de um guerreiro nas orbes negras do jovem. Ao mesmo tempo, notou emoções quase descontroladas junto com, contraditoriamente, uma frieza incrível. Ryu imediatamente não gostou do jovem. - Eh? - perguntou Hg, num tom de voz que não batia com o olhar dele. - Longa história. - disse Serena. - Confie em mim. Hg olhou para Serena por um momento e pareceu relaxar. Ele olhou para Ryu novamente, dessa vez aproximando-se. O caminhar dele era atento mas um tanto destreinado para o Dragon Kishi. Por mais que Hg fosse um guerreiro, o kalyriano sabia que estava longe do seu nível. - Eu sou Rick Gyrum. - disse Hg. - Mas me chamam de Hg. - ele estendeu a mão. Ryu deu um passo adiante e apertou a mão oferecida: - Eu sou Ryu Satori. - Ryu-kun é de outra dimensão... - Serena começou, notando a tensão entre os dois. - Interessante. - Hg interrompeu, sem olhar para ela. - Eu gostaria de examiná-lo num outro dia, Ryu. Mas hoje, eu só vim para visitar Mark e conversar com Serena. - Comigo? - perguntou Serena, com um tom aliviado. - Sobre a situação de Helen como Scout. - Hg clarificou. - Oh. - Serena respondeu, desapontada. - Só sobre a situação dela como Scout, ou sobre ela como um... - Scout. - Hg falou. - Só. Serena fez que sim. - Eu gostaria que ela passasse ao seu grupo. Mina e Raye trocaram olhares, sem entender. Serena, entretanto, parecia saber exatamente o que tinha se passado e falou: - Sim, eu imagino. Eu não tenho problemas com isso, Hg. - Obrigado. - ele falou, soando realmente agradecido. Ele virou-se para Mark e materializou um teclado translúcido diante de si. Ryu piscou, afastando-se um passo. - Hg... - começou Serena. - Eu realmente não quero falar a respeito, Serena. - Hg falou. Apesar da cortada dura, seu tom era suave e amenizava ao máximo o que foi dito. - Aaah... Acho que é hora de irmos, Ryu-kun. - disse Mina, agarrando Ryu pelo pulso. Ele estremeceu brevemente com o contato, perdendo seu fôlego. O Dragon Kishi rosnou internamente para si mesmo, percebendo que estava agindo como um tolo. Ainda assim, ele não conseguia dissociar totalmente Mina de Minako. - Não sei. - ele respondeu. - Ken e Akai podem acordar... - Com certeza alguém ficará para observá-los, Ryu-kun. - disse Mina, olhando para Serena. - Não é? Serena, que parecia entretida com seus próprios pensamentos enquanto olhava para Hg, piscou e voltou seu rosto para Mina. Ela fitou a outra loira por um momento, falando em seguida: - Sim, Amy-chan provavelmente fará isso. Ryu olhou por um momento para Serena, depois para Mina. Ele suspirou, e permitiu-se ser puxado por ela, parando apenas para lançar um último olhar na direção de Hg. O jovem estava olhando para ele com uma expressão completamente neutra. Ryu virou-se e começou a seguir Mina, apenas para esbarrar em alguém. Ele olhou para a figura e piscou, surpreso. A Hotaru daquele mundo era mais velha que a do seu. - Desculpe. - a Scout de Saturno disse com um sorriso. - Sem problemas. - ele respondeu. A Scout continuou caminhando pelo corredor, rumando para o quarto de Mark. Ryu observou por um momento, mas um puxão insistente de Mina fez com que ele a seguisse. **** - Como ele está, Hg? Hg ergueu os olhos da tela do seu computador quando Raye perguntou. Ele estava dividindo sua atenção entre os dados de Mark e o recém-chegado, o tal de Ryu. Serena tentara iniciar uma conversa com ele mais algumas vezes, mas ele conseguiu evitar sem maiores dificuldades. - Ele está se curando bem. - Hg falou. - Muito melhor que um ser humano normal. - Isso é bom, não é? - perguntou Serena. - Sim. - Hg afirmou. - Ele provavelmente vai acordar logo. E deve recuperar a mobilidade total das pernas. - Ótimo. - disse Raye, aliviada. - Como está o seu braço? - perguntou Serena. - Melhor. - ele respondeu, automaticamente. - Eu arranquei o gesso assim que percebi que a junta tinha regenerado. Serena fez que sim. Hg retornou sua atenção para o seu computador, de vez em quando parando para olhar para Mark atentamente. Ele estavam terminando quando a porta abriu. Ele não ergueu os olhos para falar com quem quer que fosse, mas desmaterializou seu computador sem dificuldade. - Helen. - disse Serena. O Knight de Mercúrio quase amaldiçoou em voz alta, levantando-se do lugar onde sentara para examinar Mark, e começando a caminhar em direção à porta. - Serena. - respondeu Helen. - Raye. - Olá. - Raye disse. Hg chegou até a saída e parou, esperando que Helen saísse do caminho. Ele ainda não olhou para ela, mantendo seus olhos fixos na parede à esquerda. O Knight e a Scout ficaram parados, num impasse, por um longo e tenso momento. Finalmente, Helen recuou alguns passos, permitindo que Hg passasse. Ele começou a caminhar, apenas para ter seu pulso agarrado pela sua ex-namorada. - Espere. - ela falou. O Knight virou-se para ela e, finalmente, olhou o seu rosto. Olhos púrpuras encaravam os seus, com uma expressão de arrependimento. - O que foi? - ele perguntou. - Nós não podemos ficar assim. - ela falou. - Assim como? - ele perguntou. - Sem nos falarmos. - E o que você espera? - ele perguntou, uma ponta de irritação transparecendo na sua voz. - Que eu convide você e o senhor clone para um chá? - Eu espero que você se comporte como o Knight que Krysen foi e saiba separar seus sentimentos dos seus deveres. - ela retrucou, largando o pulso dele. Hg, ainda assim, virou-se completamente para ela: - Caso você ainda não tenha notado, Krysen morreu lutando com o seu irmão, Hela. - ele falou. - E eu não sou tão profissional quanto ele, aparentemente. - Devia querer ser. - ela rosnou de volta. - Para quê? Morrer enfrentando Saturn? - ele questionou, sarcasmo colorindo sua voz. - Em todo caso, você não é problema meu mais. Eu já conversei com Serena e ela concordou em tê-la no grupo das Scouts. - Mesmo assim. - Helen tentou novamente. - Não é uma boa... - Não é uma boa pôr um enorme par de chifres no seu namorado enquanto ele está lutando pelo destino da humanidade, Hela. - Hg interrompeu, aumentando sua voz. Ele parou e respirou fundo. Quando ele continuou, sua voz estava mais baixa, mas não menos agressiva. - Especialmente quando ele mergulhou até as profundezas do inferno para resgatar a sua alma infeliz. - E você quer o que por isso? Minha servidão eterna? - Helen perguntou, encarando Hg com ódio nos olhos. - Quer que eu ofereça favores sexuais por toda eternidade? - Talvez você não tenha percebido, mas todas as nossas trepadas não passaram disso. Ou você acha que fazer amor envolve violência? Helen moveu-se como um relâmpago, lançando sua mão direita para estapear o rosto do Star Knight. Ele, porém, foi mais rápido e agarrou-a pelo pulso, impedindo o movimento: - Nem pense nisso, Hela. - ele rosnou. - Ainda bem que eu não preciso mais trabalhar com você. - ela sussurrou. - O sentimento é plenamente mútuo. - ele retrucou, largando a mão dela e virando as costas e caminhando em direção à porta. - Eu só trabalho com quem confio. - ele falou por último. Serena e Raye ficaram em silêncio, boquiabertas, assistindo a todo o confronto. Raye olhou para a loira, uma questão silenciosa na sua expressão. Serena balançou a cabeça, indicando que conversariam mais tarde, e começou a caminhar na direção de Helen. - Helen? - Ele me odeia, Serena. - a Scout falou, lágrimas nos seus olhos. - Vai passar. - Serena mentiu. - É melhor você ficar com as outras Scouts por enquanto. Raye? Pode levá-la até lá? - Claro. - respondeu a sacerdotisa. - E você? - perguntou Helen, esfregando seus olhos. - Eu lembrei de um compromisso. - Serena falou, apressando-se na direção da porta. **** - HG! ESPERA! - Serena gritou, atraindo os olhares de um número considerável de transeuntes. O Knight parou, como se atingido por um golpe, e virou lentamente. - Espera. - a Scout repetiu, mais baixo. Hg ficou olhando para ela, imóvel, uma expressão completamente ilegível no seu rosto. Ele parecia estar considerando alguma coisa, debatendo ferozmente consigo mesmo. O tempo que ele hesitou, entretanto, foi o suficiente para que Serena o alcançasse, mesmo que esbarrando em algumas das pessoas da multidão. Normalmente, Serena faria toda uma cena de respirar pesado e parecer cansada com a breve corrida, mas sabia que de nada adiantaria algo assim com o jovem diante dela. Os dois sabiam que percorrer as duas quadras sequer tomaria o fôlego de Serena. - O que você quer, Serena? - Hg perguntou, com uma voz fria. Os olhos azuis da loira se estreitaram e ela cutucou o peito do Knight com força: - Já me bastava o Darien me tratando assim nos últimos meses. - ela rosnou. - Não fale assim comigo. A expressão neutra de Hg foi quebrada e a boca dele curvou-se para cima um pouco. Com um tom muito mais amigável, ele falou: - Me desculpe. Serena apenas sorriu de volta, olhando ao seu redor em seguida. Ela viu uma pequena lanchonete na esquina mais próxima. Ela voltou-se novamente para Hg e falou: - Eu quero conversar com você. - Serena, eu realmente... - ele começou. - Você precisa conversar, Rick. - ela falou, abaixando os olhos. - Você não está bem. O Knight fitou a menina diante dele por um longo momento. Finalmente, ele fez que sim. Serena sorriu para ele: - Ótimo. Você pode me pagar um chá, também. - ela agarrou o pulso dele e começou a arrastá-lo pela rua, rumando para a lanchonete que vira pouco antes. Poucos minutos depois, os dois estavam sentados numa mesa. Serena olhava atentamente para Hg que, por sua vez, parecia estar fazendo um esforço para se distrair com qualquer detalhes da paisagem ao seu redor. No momento, ele estava examinando os saquinhos de adoçante que estavam na mesa. - Rick? - Serena chamou. - Hmm? - O que foi aquilo na clínica? Hg não desviou seus olhos do seu objeto de estudo, examinando com cuidado os dizeres na embalagem. Ainda assim, ele respondeu: - Foi o que pareceu ser. Uma briga. - Foi uma discussão no meio de todo o grupo. - Serena clarificou. - Não é um bom jeito de deixar as Scouts com uma boa impressão sua. - Eu não estou muito interessado na impressão que têm de mim, Serena. - ele respondeu. Ele largou o saquinho de adoçante e fixou seus olhos escuros nos azuis de Serena. - Além disso, não é como se eu tivesse feito algum mal para Hela. - Helen. - Serena corrigiu. - Hela. - Hg insistiu. Os dois ficaram se olhando por um longo momento. Finalmente, foi Hg quem continuou: - Eu não estou pronto para lidar com ela, Serena. Eu não amo ela. Eu sei disso agora. Mas Krysen amava e as memórias dele pesam para mim. - Hg falou. - Além disso, eu fiz tanto por ela. - Você não devia fazer para cobrá-la depois, Rick. - Serena advertiu gentilmente. - Você salvou a vida dela. Isso em si... - Eu sei. - Hg interrompeu. Ele ficou em silêncio enquanto a garçonete servia um café para ele e uma xícara de chá para Serena. A jovem pediu uma torta de limão, que a garçonete alegremente disse que viria em um momento. Quando os dois estavam a sós novamente, Hg continuou. - Eu sei disso. Mas eu... - Eu entendo. - Serena interrompeu, fixando seus olhos no líquido âmbar diante de si. - Você esperava que ela tivesse consideração. Que pensasse em você. Que não assumisse que tudo estava bem e certo. - a Scout ficou em silêncio. Hg piscou, examinando cuidadosamente a princesa da Lua. Ele deu um gole no seu café, fazendo uma careta devido ao gosto amargo. Ele alcançou o açucareiro e começou a se servir: - Estamos falando de você agora? - ele perguntou, sem desviar os olhos da sua tarefa. Serena piscou, voltando seu rosto para ele. A mente dela preparou inúmeras defesas, formulou frases que poderiam despistar, pensou em modos de fazê-la passar apenas por uma loira boba. Ainda assim, a jovem não fez coisa alguma, apenas abaixando os olhos em consentimento. Ela tomou um gole do seu chá e falou: - Acho que sim. - Como vão as coisas? - Hg perguntou. - Não muito bem. - ela respondeu. - O jeito que vocês trabalham e as Scouts... - Não estou falando disso e você sabe. - Hg interrompeu, soando um pouco irritado. Serena olhou para ele, ficou um pouco vermelha, e respondeu: - Não falei com ele desde aquela noite. - Por quê? - Por que sim? - ela devolveu a pergunta. - Ele obviamente ama você. - Hg colocou. - Ele ama Serenity. - Serena falou. - E qual é a diferença? Serena olhou para ele, seus olhos subitamente furiosos. Ela mentalmente se conteve, dizendo para si mesma que ele não tinha como diferenciar as duas. Que ele não tinha como compará-las. Com um gesto rápido, a Scout ergueu sua xícara e deu um longo gole de chá, ignorando a dor que a temperatura da bebida trouxe. - Desculpe. - Hg falou. - Foi besteira minha. Claro que existe uma diferença. - E qual é? - Serena perguntou, ainda irritada. O canto esquerdo da boca de Hg curvou-se para cima: - Serenity não tropeçaria e não choraria. - ele respondeu, fazendo, de alguma forma, aquilo soar como um elogio. - Ela não iria me procurar na chuva, acho, nem me ajudar a aceitar que não posso fazer tudo sozinho. Serena ficou olhando para ele, atônita. Ela não respirava, não se movia. Uma enorme felicidade pareceu brotar no seu peito e um sorriso apareceu no seu rosto. Depois de ver as reações de todos perto de Serenity, depois de ver suas amigas se ajoelharem e jurar lealdade à princesa, ouvir alguém falar assim dela própria era como um gole de água no deserto. - Não. - ela falou. - Acho que ela não faria essas coisas. Hg abriu a boca para falar algo, mas não foi a sua voz que chamou: - Serena! Gyrum! Os dois voltarem-se para a porta, surpresos ao ver Darien Chiba lá. O rosto de Hg reverteu à sua neutralidade total e ele falou: - Chiba. - Darien. - Serena respondeu, num tom de voz que não parecia feliz ou triste. Darien cruzou a lanchonete com passos largos e abaixou-se, abraçando Serena com força. A loira piscou e, instintivamente retornou o abraço, sentindo-se segura ali. As lembranças de quando conheceu o jovem príncipe da Terra correram pela sua mente e um pequeno sorriso brotou no seu rosto. - O que vocês estão fazendo aqui? - perguntou Darien. - Tomando um café. - Serena falou. - Serena estava me deixando desabafar sobre meus problemas amorosos. - respondeu Hg, levantando-se. - Mas não quero atrapalhar nada. - Hg... - falou Serena. - Fique à vontade, Gyrum. - disse Darien, sorrindo. - É bom ver que seu braço melhorou. Hg fez que sim, com um sorriso: - As vantagens de ser diferente. Você estava indo para a clínica? - Sim. - respondeu Darien. - Amy me avisou que as Scouts estavam reunidas lá e achei que poderia encontrar Serena. - ele sorriu. - Não precisei nem chegar até lá. Serena apenas acompanhou o diálogo, sua cabeça indo de um lado para o outro. Ela pensou em levantar, mas estava demasiadamente confortável no abraço de Darien. - Eu preciso ir. - disse Hg. Ele sacou sua carteira e jogou uma nota de dinheiro na mesa. - Ainda preciso passar num banco. Assunto extremamente burocrático. - Boa sorte. - disse Darien, com um sorriso. - Se cuide, Hg. - Serena falou. - Vocês também. - respondeu Hg, virando as costas e saindo. Serena ficou observando o Knight sair, incerta se deveria seguí-lo ou não. Ele ainda não estava bem, ela decidiu. Os olhos dela encontraram os de Darien e, por um momento, era como se nada tivesse acontecido, como se eles tivessem acabado de começar a namorar. Então, de repente, ela lembrou de suas próprias palavras para Hg. Com um movimento súbito, ela se levantou, afastando-se dos braços de Darien: - Darien, não é assim. - Como assim? - ele perguntou, confuso. - Não vai ser tão simples dessa vez. - ela clarificou. - Você me machucou. - Desculpe. - ele falou, com sinceridade. - Mas... - Desculpe? - ela indagou, sua voz um sibilo. - Desculpe? Simples assim? - Serena, eu sinto muito. - ele falou. - Eu não queria te ver machucada. - Você conseguiu. - ela retrucou. - Serena... - Não vai ser tão simples dessa vez. - ela repetiu. - Não me interessa se é destino ou não. Serena, então, virou as costas e caminhou para fora do lanchonete, ignorando a vontade imensa de voltar a abraçar Darien. Ela abriu a porta de vidro e imediatamente lançou um olhar ao redor. Não enxergou Hg em lugar algum. Ela sentiu uma mão apoiar no seu ombro. Sem sequer olhar, ela se afastou, caminhando rapidamente pela multidão. Atrás dela, na porta da lanchonete, Darien ficou observando, intrigado. **** Ryu olhou para os numerosos artigos de roupa que estavam pendurados no seu braço, ainda sem acreditar no que estava fazendo. De alguma forma, Mina e May, as duas Scouts que decidiram acompanhá-lo a uma jornada de aquisição de vestimentas, tinham-no convencido a mudar totalmente o seu estilo. Todas as calças leves e folgadas que ele pegava eram rejeitadas, todas as camisetas e casacos de fácil mobilidade, descartados. - Muito melhor, não é? - Mina perguntou, sorrindo para ele, como se tivesse lido a sua mente. - Não são práticos para lutar. - Ryu observou, seus olhos vermelhos presos momentaneamente aos azuis da Scout. Ele realmente precisava parar de fazer aquilo. - Mas chamam menos atenção. - disse May. Ryu suspirou. - Além disso, nós que estamos pagando. - Mina colocou, com um sorriso. Novamente, o Dragon Kishi examinou as roupas. Calças jeans, camisas e camisetas. Uma jaqueta para frio. Tênis de sola fina. Pelo menos, ele pensou, eu consegui convencê-las a me deixar ficar com esses calçados. - Eu realmente não estou acostumado com esse tipo de roupas. - É boa hora de se acostumar, Ryu-kun. - Mina falou, sorrindo. - Você não precisa estar pronto para brigar a todo momento no nosso mundo. Ryu abriu a boca para dizer que não precisava no seu mundo, que era apenas um hábito que ele tinha, mas fechou, subitamente pensando a respeito do que Mina disse. Ele parou, subitamente, e olhou ao seu redor. De repente, ele percebeu que estava num lugar tranquilo, sem a responsabilidade de patrulhar, de buscar problemas. Ele não tinha nenhum inimigo maligno espreitando, não tinha... nada. E era bom. - Aconteceu alguma coisa? - Nada. - ele falou, sua voz com um tom de surpresa. Ele continuou caminhando, olhando para as roupas em seus braços com novos olhos. Sua sobrancelha franziu. Por que ele deveria voltar? Ele lembrou-se do navio partindo, de Usagi indo para segurança. O portal de Dark Angel fechara-se. Subitamente, um peso pareceu ser tirado dos seus ombros e Ryu virou seu rosto para Mina. Ela estava distraída, olhando para alguma peça de roupa pendurada na enorme loja de departamento. O Dragon Kishi examinou o cabelo dela, comparou com a sua lembrança de Minako. As duas eram idênticas. Talvez Mina fosse um pouco mais nova, mas a diferença era quase imperceptível. Elas tinham a mesma voz, o mesmo rosto. Ryu voltou seu olhar para o chão, balançando a cabeça. Ele forçou seus pensamentos para fora da sua mente, irritado consigo mesmo, mas incapaz de manter um leve sorriso fora do seu rosto. - Sorrindo, é? - a voz familiar de Mina perguntou, num tom de provocação. O Kishi olhou para ela, surpreso. - Ainda há esperança para ele. - disse May, também sorrindo. - Não é esperança. - ele falou, arrancando o sorriso do seu rosto. - Eu preciso... - Você não precisa nada, Ryu. - disse Mina. - Você precisa relaxar, descansar. - ela parou de andar, voltando sua atenção total a ele. - O que você pode fazer? Sem poderes? Qual a diferença entre você e qualquer outra pessoa do seu mundo? Ryu abriu a boca para responder, mas fechou-a em seguida. Mina suspirou: - Eu entendo a responsabilidade, Ryu. Mas eu sei que ela veio com os poderes. Com conseguir fazer algo mais. - ela olhou nos olhos dele, aparentemente não se importando com a cor estranha deles. Como Minako. - Se matar por uma causa não vai fazer nada. Ryu ficou em silêncio, olhando para a menina... mulher na sua frente. Como Minako, ela conseguia arrancá-lo dos seus humores, trazer seus pés para o chão. E ela tinha razão. De que adiantara ele e os Dragon Kishi ficar no Japão? Foram um peso para Sailor V e Tuxedo Kamen. Conseguiram trazer a morte de todos. A mão de Ryu enfiou-se no seu bolso e se fechou ao redor do Ginzuishou, sentindo o calor que ele projetava. - Ainda assim, nós conseguimos fechar o portal. - ele sussurrou. - Sim, e fizeram muito mais que podiam. - Mina retrucou. - Não chega? O Kishi ficou olhando nas poças de azul no rosto de Mina, tentando formular uma resposta. - Não sei se é tão simples, Mina. - May colocou gentilmente. - Talvez não, mas não gosto de ver alguém se martirizando por algo que não pode mudar. - Mina respondeu, virando-se para May. May fez que sim, entendendo. - Mina... - Ryu começou, mas foi interrompido por um grito. Instintivamente, ele concentrou-se em sua Ligação, tentando entender o que estava errado. - ISSO É UM ASSALTO! - um homem, usando uma máscara preta e segurando uma enorme metralhadora gritou de perto do caixa. - Se todos ficarem quietos, ninguém se machuca! - um dos parceiros dele urrou, munido de uma pistola. Ryu rapidamente lançou um olhar ao seu redor, vendo mais três assaltantes. Eles estavam espalhados, mas não muito. Uns quatro ou cinco metros de distância entre eles. Todos armados, mas apenas um com a metralhadora pesada. - May-chan... - ele ouviu Mina sussurrar. - Não temos onde. - May retrucou, também em voz baixa. - Não na frente de todos. O Dragon Kishi rapidamente olhou para seus braços, vendo as numerosas roupas ali. Ele silenciosamente colocou as peças de roupa nos braços de Mina, arrancando dois cabides do meio. - Ryu-kun...? - a loira indagou. Silencioso como um gato, Ryu deu dois passos acelerados adiante e saltou, pisando no topo de uma das araras metálicas de roupas e lançando-se para cima, num arco que cairia no meio dos três assaltantes próximos ao caixa. Silenciosamente, ele agradeceu pelo teto alto da loja. - EI! - o criminoso com a metralhadora gritou. Ryu moveu seu corpo, sentindo um dos assaltantes apontar e disparar a pistola na sua direção. Ele encolheu-se numa pequena bola, dando uma cambalhota. O tiro passou longe dele, atingindo algumas das iluminações da loja. Ele arremessou um dos cabides, mirando em um dos assaltantes distantes. Ele caiu entre os três assaltantes e seu pé imediatamente acertou o queixo do que empunhava a arma mais pesada. Ele sentiu estalos sob seu calcanhar e sabia que um ou dois dentes tinham sido quebrados. A arma caiu da mão do seu oponentes. Sem olhar, mas sentindo o movimento atrás de si, Ryu agarrou a metralhadora em pleno ar e enfiou o cabo de madeira na testa do assaltante que aproximava-se por trás, largando-a em seguida. Ainda sem parar, ele saltou, desferindo um chute giratório na mão do terceiro criminoso. A pistola dele caiu no chão, deslizando para o meio da multidão. Em silêncio, Ryu golpeou o assustado bandido com um soco no nariz, derrubando-o instantaneamente. Ainda sem se virar, Ryu arremessou o outro cabide para trás. O som do objeto atingindo carne ecoou. Ele sentiu o assaltante atingido pelo primeiro cabide começar a se levantar, tentando ser silencioso. Sem esperar, o Dragon Kishi saltou novamente, caindo atrás do seu alvo. - E-ei... - o bandido gaguejou. Ryu trouxe suas mãos contra as orelhas dele, com um par de tapas sonoros e simultâneos. O assaltante apagou como uma lâmpada. Finalmente, Ryu olhou ao seu redor, notando os olhares atônitos de todos os presentes. Ninguém se mexia, com seus olhos arregalados e fixos no jovem Dragon Kishi. - Incrível. - a voz de Mina quebrou o silêncio. A multidão, então, começou a aplaudir entusiasticamente a performance do jovem, com alguns gritando elogios. Finalmente, um senhor mais velho, vestindo uma camisa branca e gravata negra, correu até Ryu, apertando vigorosamente sua mão e agradecendo repetidamente. Ele sentiu um par de braços finos agarrando os seu esquerdo e imediatamente reconheceu Mina. - Isso foi demais! - ela falou para ele. - Foi mesmo, senhor. - o gerente da loja falou. A multidão foi se juntando ao redor de Ryu, todos querendo agradecê-lo pessoalmente pelo ocorrido. Um flash estourou na multidão e o kalyriano piscou, virando-se para o fotógrafo. Uma jovem vestindo um terno rosado conseguiu, de alguma forma, atravessar a multidão e se aproximar: - Como é o seu nome? - Ryu. - ele respondeu, virando-se para ela. Só então ele percebeu que ela tinha um microfone em mãos. Desesperado, ele olhou para sua esquerda. Mina apenas abriu um sorriso encorajador para ele. Ryu, então, voltou-se para a repórter e se pôs a responder as perguntas dela, incapaz de tirar a expressão de surpresa do seu rosto. Fim do Capítulo 3 Capítulo 4: Reabilitação Kano Akai estava tendo um dos piores sonhos da vida dela. Ela passou a perceber isso quando começou a emergir do seu estado de inconsciência, flutuando naquele momento eterno entre o mais profundo sono e o despertar. Na mente da jovem Dragon Kishi, ela viu seus companheiros morrerem mortes horríveis. Viu combates sangrentos, viu toda esperança ser esmagada. Foi, então, um alívio quando seus olhos verdes abriram-se de sopetão e viram o teto estéril de um hospital acima dela. Ela passou longos momentos examinando a lâmpada de luz fria, contente com a sensação de conforto que seu corpo parecia desfrutar. Piscando, Akai cerrou suas mãos, agarrando um punhado do lençol que a cobria e sentindo sua textura, sua limpeza. Ela estava num hospital. Havia eletricidade e o cheiro de antiséptico reforçava a teoria que estava habitado. Por um momento, ela realmente acreditou que tudo não passara de um pesadelo. Akai mexeu sua cabeça, virando-a para sua direita. Satori Ryu, o Moon Dragon, estava sentado numa cadeira, aparentemente adormecido. Ela piscou, notando que ele vestia roupas... normais. Ela nunca tinha visto ele vestir algo muito diferente do seu uniforme. Mesmo suas roupas civis eram calças folgadas, sapatilhas de combate e camisetas largas. Ela fez um esforço para sentar-se, e descobriu que seu corpo não estava tão ferido assim. Fora os músculos doloridos, foi simples erguer-se. Os olhos de Ryu abriram-se e ele ergueu o rosto, encarando-a diretamente. Por um longo momento, os dois ficaram naquela posição, trocando olhares. - Os outros? - ela tentou perguntar, mas sua voz estava rouca e baixa e o som saiu quase inaudível. Ryu, entretanto, pareceu entender sem problemas: - Ken está no outro leito, Akai. - ele respondeu. E Akai lembrou de tudo, nos mais mínimos detalhes. Subitamente, as memórias das mortes dos seus companheiros cristalizaram-se, perdendo sua qualidade de sonho e tornando-se assustadoramente reais. A Kishi de Marte abriu a boca para falar a respeito, quando a porta do quarto se abriu e Minako entrou, carregando uma bandeja. Os olhos de Akai se arregalaram e lágrimas começaram a surgir nos cantos dos seus olhos. - Akai, essa é Mina. - disse Ryu, notando a reação. - Mina, Akai. Akai piscou, e olhou para Ryu com uma expressão curiosa. Ela voltou o olhar para Minako. - Prazer. - disse a loira. - Ela é a Sailor Venus dessa dimensão. - Ryu falou, sua voz gentil. - Não é Minako? - perguntou Akai, sua voz voltando ao normal. Mina balançou a cabeça. - Tudo aquilo aconteceu? - Akai indagou, já sabendo a resposta. - Sim. - Ryu respondeu, simplesmente. Akai fez que sim, olhando novamente para Mina. A Scout de Vênus deu um sorriso forçado, tentando parecer animadora. O silêncio manteve-se no quarto por longos momentos, como um pesado manto cobrindo todos eles. Finalmente, Mina riu: - Eu... ah... Vou procurar a Amy. Avisar que você acordou. Ela pode querer examiná-la. - Eu vou junto. - disse Akai, jogando suas pernas para a lateral da cama e levantando. Ela cambaleou, incapaz de sustentar o próprio peso, e Ryu estava ao seu lado segurando-a instantaneamente. - Eu também vou. - Ryu falou, sua voz neutra. Mina piscou, mas não falou nada. Akai, entretanto, evitava olhar na direção de Ryu. Ela não sabia bem o que pensar ou achar. Por um lado, ela estava feliz em sobreviver, em ter escapado com vida do pesadelo que as últimas semanas foram. Por outro lado, ela não conseguia deixar de pensar nas pessoas que não escaparam. Mais que isso, a outra Minako, Mina, a incomodava profundamente. Akai lançou um olhar discreto na direção de Ryu, que ainda a sustentava, e notou que ele estava com o rosto voltado na direção da loira. - Vamos? - Mina perguntou. Akai afastou-se de Ryu, caminhando com cuidado. Ela não estava ferida. Seus músculos estavam amortecidos pela falta de uso mas logo estariam normais. A atenção da ruiva estava dividida entre caminhar e tentar entender exatamente o que ela achava das reações de Ryu com relação à outra Minako. Ou o que ela achava da idéia de existirem outros de todos eles. - Existe outra Akai? - ela perguntou, subitamente. - Não. - respondeu Mina. - Aqui nós temos um grupo de rapazes chamados Star Knights. Akai fez que sim, aliviada e desapontada ao mesmo tempo. Os três lentamente deixaram o quarto, caminhando pelo corredor da pequena clínica. Akai aproveitou a oportunidade para olhar ao redor com interesse, saboreando a existência de civilização ao seu redor. Ela nunca imaginara, antes de tudo, o quanto a existência de outras pessoas e de um mundo construído por elas a agradava. - Amy-chan deve estar aqui dentro. - Mina falou, indicando uma porta. - O quarto de Mark Juno. - falou Ryu com aquele tom de voz outrora reservado apenas para Minako. Akai olhou para ele, franzindo a testa, mas não comentou. - Sim. - Mina respondeu. Suas bochechas estavam rosadas. A loira hesitou, olhando para o chão para um momento, aparentemente esquecendo do que foram fazer lá. - Mark Juno? - perguntou Akai, mais para quebrar o clima que se formava que por interesse real. - Sim. - disse Mina, subitamente voltando à realidade. - Ele é um Star Knight. Foi gravemente ferido recentemente. - ela bateu na porta. - E Amy? - Akai perguntou, dessa vez curiosa. - Sailor Mercury. - Ryu ofereceu. A porta do quarto se abriu. Raye Hino, com uma cara de sono, fixou seus olhos em todos eles com um desinteresse nascido do cansaço. - Essa é Raye. - disse Mina. - Um prazer. - disse Akai, surpresa com a similaridade entre Raye e Rei. Ela, até o momento, não tinha absorvido que todas as Senshi teriam versões nesse... mundo. - Kano Akai. - Akai Kano, na verdade. - Ryu corrigiu. - Eles usam os nomes na ordem ocidental. - ele comentou para Akai. - Entrem. - Raye falou, com uma voz plenamente compatível com sua aparência. O pequeno grupo entrou e os olhos de Akai automaticamente foram para o jovem deitado na cama. Ami estava examinando-o. Amy, sua mente corrigiu-a. Amy ergueu os olhos de Mark e sorriu ao ver Akai em pé: - Kano-san. Bom vê-la em pé. - o sorriso sumiu e uma expressão de preocupação tomou as feições da Scout de Mercúrio. - Bom e mau. Sente-se, você não devia se esforçar tanto. Akai fez que sim, desabando no sofá mais próximo. O sofá, por sua vez, fez um estalo alto e cedeu um pouco. Akai soltou uma exclamação de surpresa e todos viraram-se para ela. Ela sentiu seu rosto esquentar e lançou um olhar acusador para o móvel: - Ele já estava assim. A ruiva ouviu uma risada contida vindo de Mina e Raye, e sorriu também. E um gemido veio da cama. Raye moveu-se como um relâmpago, colocando-se ao lado de Mark. Akai, curiosa, levantou-se do sofá e caminhou até o leito, examinando a pessoa lá. Era um jovem alto, com cabelos negros. Seus olhos abriram-se lentamente, acompanhados por outro gemido, e ela pôde ver que eram castanho-claros. - Mark? - Raye chamou, sua voz baixa. - ...Raye? - ele perguntou. - Wiseman...? - Sssh. - Raye falou, com os olhos úmidos. - Nós cuidamos dele. Mark sorriu e suspirou. Seus olhos finalmente abriram-se por completo e ele virou sua cabeça, voltando-se para a Scout de Marte. - Onde...? - Na clínica da minha mãe. - respondeu Amy, aproximando-se. - Hg? - ele perguntou, olhando ao redor. - Não está aqui. - respondeu Raye, pegando a mão de Mark e apertando. Akai podia ver, claramente, o quão tensa a jovem estava. Mark ficou olhando para Raye por um longo momento, como se pensando em algo. Finalmente, ele falou: - Eu não consigo pensar em alguém melhor para ver ao acordar. Akai sentiu seus lábios curvarem-se para cima e notou que o rosto de Raye subitamente tornou-se rubro. A jovem, entretanto, não fez menção de afastar-se de Mark. - Como você se sente? - Amy falou, sua voz clínica. - Cansado. - disse Mark. - Dor na barriga. - Sente as pernas? - Amy perguntou. Mark não respondeu. Seu rosto, entretanto, ficou pálido. Ele piscou, voltando seus olhos para seus membros inferiores, que estava cobertos por um lençol. Ele parecia estar se concentrando muito. Os seus olhos se arregalavam, pouco a pouco, como alguém entrando em pânico. - Raye? - ele falou, sua voz quase desaparecida. - Amy? O que houve comigo? As lágrimas que estiveram formando-se nos cantos dos olhos de Raye começaram a escorrer: - Calma. - O que houve comigo? - ele repetiu, sua voz mais dura. Akai podia notar uma ponta de desespero ali. - Mark... - começou Amy. - Pare de enrolar e me diga, Amy! - ele rosnou. Akai viu Ryu se mexer com o canto dos seus olhos, como se o jovem estivesse se colocando em posição para imobilizar o rapaz na cama se necessário. Ela própria afastou-se um passo da cama, dando espaço para que seu líder agisse se necessário. - Coluna partida. - Amy respondeu. - Sua espada atravessou sua coluna e cortou-a ao meio. - Eu não vou mais andar? - Mark perguntou, sua voz incrédula. Amy abriu a boca para responder, mas foi uma outra voz, desconhecida para Akai, que falou: - Calma, Mark. Akai voltou seu rosto para a janela. Um jovem vestindo uma armadura azulada estava lá. Ele era um pouco baixo, tinha cabelos e olhos escuros e uma tatuagem com o símbolo de Mercúrio ocupando boa parte do seu rosto. - Hg! - Mark falou, soando aliviado e tenso. - Eu... - Eu vim assim que senti você acordando. - Hg respondeu, entrando. - Você vai se recuperar, não se preocupe. - Como? - Mark perguntou. Akai também estava curiosa. Na sua experiência, romper a coluna vertebral era algo bem permanente. - Você já está regenerando ela. - Hg disse, aproximando-se da cama. Amy afastou-se um pouco, mas ouvia atentamente às palavras do outro jovem. Akai olhou para Ryu, mais por instinto que por decisão consciente, buscando a opinião dele com relação ao recém-chegado. O líder dos Dragon Kishi estava tenso, com os olhos fixos no jovem Hg. - Eu analisei você diariamente. Mark parecia ter se acalmado um pouco, mas ainda não parecia confiante. - Mark, se Hg está dizendo isso deve ser verdade. - Raye falou, tentando acalmar o jovem. - Você deve voltar a sentir as pernas em dois ou três dias. - Hg falou. - Se ficar transformado, pode ser antes. - ele olhou para Amy. - Eu não tenho idéia do que fazer para reforçar a musculatura dele ao redor da coluna ou garantir que não vai partir de novo com uso. - Repouso e exercícios controlados. - Amy falou. - Coisa leve, sem impacto. Mas que exercite seus músculos e elasticidade. Todos ficaram em silêncio. - Eu posso ajudar. - Ryu falou. - Como? - perguntou Hg. Ele parecia um pouco desconfiado. Ryu voltou seu rosto para o jovem com armadura e respondeu, encarando-o: - Eu sou um mestre de um número grande de artes marciais. Conheço alguns exercícios de Tai Chi Chuan que podem ajudá-lo. Os dois líderes ficaram se olhando, medindo a vontade um do outro. - Obrigada. - disse Raye. - Isso seria ótimo. - Sim. - Hg concordou, ainda encarando Ryu. - Então... tudo vai ficar bem? - perguntou Mina, que tinha mantido-se em silêncio até então. Hg deu uma risada rápida e falou: - Sim. - Não deixa de ser impressionante. - disse Amy. - Regenerar a coluna assim. - Nós fomos feitos para resistir a muita coisa. - disse Hg. - Mark, eu volto mais tarde. Se precisar, é só chamar. - o jovem voltou para a janela e saltou. Akai olhou ao redor, notando que todos pareciam perdidos em seus próprios pensamentos. Silenciosamente, ela perguntou-se como Hg, claramente um Star Knight, sabia que seu companheiro estava despertando naquele exato momento. Ela silenciosamente decidiu-se a perguntar isso mais tarde para Mina. Finalmente, Amy olhou ao redor do quarto: - Pessoal, acho que Mark precisa de repouso. Mina, você não quer levá-los para conhecer a cidade? - Claro. - disse Mina, soando empolgada. - Podemos ver se Lita e May e Serena não querem ir também. - ela sorriu. - Raye-chan claramente... - Quero ficar aqui. - Raye terminou, sem desviar seus olhos de Mark. Eles ainda estavam de mãos dadas. - Acho que eu fico também. - disse Mark, com um sorriso. - Ótimo. - disse Amy, voltando-se para Akai, Ryu e Mina. - Então? Podemos ir para o outro consultório, onde eu quero fazer um rápido exame em Akai, e vocês estão livres para ir. - ela lançou um olhar na direção de Mark. - Não esqueça de se transformar. Akai suspirou. Ela detestava exames. Ainda assim, ela obedientemente caminhou para fora do quarto. Qualquer dúvida que ela tivesse a respeito das Senshi desse mundo tinham desaparecido e, naquele momento, a chance de começar tudo de novo lhe parecia fascinante. Ela sentiu um sorriso formar-se no seu rosto e lançou um breve olhar para Mina, que estava engajada em alguma conversa com Ryu. O sorriso aumentou. E por que não? **** Mark observou enquanto o grupo saía do quarto onde ele estava hospedado, silenciosamente se perguntando quem eram as duas novas figuras que estiveram lá. Quando a porta se fechou, ele continuou com os olhos fixos no mesmo ponto, ainda pensando. - Como você se sente? - ele ouviu a voz suave de Raye perguntar. Mark piscou e virou-se para olhar para a Scout de Marte. Ela olhava para ele com olhos resguardados, como se com medo de algo. - Bem. - ele respondeu. - Fora as dores na barriga e... e não sentir as pernas. - ele concluiu. Raye fez que sim, ainda encarando-o com intensidade. Ela parecia estar prestes a falar algo, mas não avançava além dessa eminência. O Knight de Júpiter desviou os olhos da jovem, percorrendo a extensão da cama e, em seguida, o quarto onde estava. Era pequeno mas aconchegante. E, claramente, em um hospital ou clínica. Amy tinha dito que era a clínica de sua mãe. Ele fechou os olhos, procurando rapidamente a Irmandade com Hg e sorriu ao encontrá-la. Por um momento, ele sondou como seu amigo estava mas logo foi bloqueado. Os olhos de Mark se abriram e ele franziu a testa. - Hg está me bloqueando. - ele observou. - Ele teve uma semana ruim. - Raye respondeu, encostando-se na cadeira onde estava. Ainda assim, ela não soltou a mão do Knight. - Ruim? - Mark perguntou. - Ele pegou Helen o traindo. - Raye falou, deixando claro a sua opinião no asssunto. - Ah. - Mark disse, surpreso. - Quando? - Quando nós voltamos do futuro. - a Scout respondeu. Mark fez que sim, entendendo como aquilo seria problemático. - Mas ele ainda visitou diariamente. - Raye assegurou Mark. - Não falou com mais ninguém, mas veio aqui todos os dias. Os lábios de Mark se formaram num sorriso e ele fechou os olhos, subitamente cansado. Ele quase deixou-se levar para o mundo dos sonhos quando algo lhe ocorreu. - Como você sabe disso? - os olhos castanhos dele se abriram e ele voltou-se para a jovem ao seu lado. Raye ficou vermelha e desviou o olhar, mas não respondeu. - Raye? - ele insistiu, um pouco confuso. Sem olhar para ele, incapaz de encarar-lhe, ela murmurou algo. Mark piscou: - O quê? - Eu disse que eu fiquei aqui com você. - ela repetiu, voltando olhos irritados e embarassados para o Knight. - Desde que eu voltei do futuro. Os olhos de Mark se arregalaram. Ele examinou as feições da Scout com cuidado, notando, pela primeira vez, os sinais de cansaço nela. Ele percebeu, também, quão negros seus olhos pareciam, o contorno delicado de seu rosto. Subitamente, ele se lembrou do chá que tomara com Raye, dos sorrisos acanhados e modestos. Ela parecera muito mais segura então. - O que houve? - ele perguntou, inconscientemente apertando a mão dela um pouco. - Nada. - ela respondeu, claramente mentindo. - Me diga. - ele insistiu, sua voz adotando um tom carinhoso e calmo. Raye apenas balançou a cabeça. - Raye... - ele sussurrou. - Amy. - ela respondeu. - Amy? - Mark perguntou, subitamente preocupado. Teria ele falado algo em seu sono? Talvez uma lembrança do passado distante, de Lux? - Aconteceu alguma coisa? Raye balançou a cabeça, sem especificar. - Raye. - ele insistiu. - O que houve com Amy? - Você houve. - ela rosnou. - O passado houve. - ela ergueu os olhos, subitamente encarando-o com irritação. - Você está fazendo isso tudo comigo e vai acabar indo atrás dela! - a voz de Raye aumentava a cada palavra. - Vai atrás de Minder! O Knight de Júpiter apenas piscou, atônito. Ele ficou olhando para a expressão furiosa da jovem ao seu lado, sem saber o que falar. Então, ele sentiu a mão dela apertar a dele, um reflexo da irritação. Os olhos dele se desviaram para as duas mãos dadas e ele sorriu. Gentilmente, ele puxou a mão dela para perto do seu rosto, fazendo força quando ela tentava resistir. A expressão de Raye foi perdendo sua fúria e um rubor começou a colorir seu rosto. Ela sentiu a pele macia da face de Mark, com apenas uns poucos e ralos fios que, um dia, poderiam ser uma barba. - Ela não ficou comigo todos os dias. - ele falou, fechando os olhos com o contato com a mão dela. - E nem eu ia querer que ficasse. Raye ficou olhando, seu rosto quente, sem saber como reagir. Os olhos de Mark se abriram e capturaram os dela: - Eu não sou mais Lux. - ele sussurrou. - E certamente não penso em Amy. - os lábios dele se curvaram para cima e ele fez força para se levantar, ignorando a dor na sua barriga. - Nem em mais ninguém. - ele sussurrou. A dor no ventre de Mark parecia distante e insignificante enquanto ele se aproximava de Raye. Ele soltou a mão dela, lentamente pegando o rosto dela e virando-a para ele. A Scout não resistiu, olhando para ele com olhos surpresos. Mark tocou seus lábios nos dela, sentindo seu coração disparar. Subitamente, a dor no seu ventre pronunciou-se e ele caiu para trás, na cama, respirando pesado. - Mark! - Raye aproximou-se dele rapidamente. O Knight sorriu para ela, sua respiração pesada e seu rosto, pálido. - Seu idiota! - ela falou, preocupada. A Scout olhou ao redor, como se procurando por alguém para ajudá-la. - Valeu cada momento. - Mark comentou, com um meio sorriso. - Só estou... cansado. Raye ficou imóvel, seus olhos fixos no jovem dormindo diante de si. Por um longo momento, ela não conseguiu se mexer, seu coração disparado. Então, um sorriso surgiu no rosto dela. Ela acariciou o cabelo de Mark: - Seu... seu... idiota. Mark sorriu sem mexer a cabeça. Ele fechou os olhos. - Ei. - ela chamou. - Hg disse para você se transformar. - Num minuto. - Mark murmurou. - A armadura não é confortável para ficar deitado. Raye abriu a boca para contestar, mas fechou-a em seguida. Ela observou enquanto a respiração de Mark ficava mais lenta, mais relaxada. Em poucos instantes, ele estava dormindo. Sorrindo, ela acomodou-se na cadeira ao lado do leito e relaxou, fechando os olhos e pegando na mão do Knight. **** Ryu quase sorriu enquanto observava a empolgação das meninas diante dele. Akai estava rindo de algo que Lita, a Makoto daquele mundo, tinha contado. A Dragon Kishi de Marte parecia feliz. O sorriso brotou no rosto do jovem artista marcial quando Mina agarrou o braço da ruiva e sussurrou algo no seu ouvido. As duas olharam na direção dele ao mesmo tempo, depois trocaram olhares, soltando mais gargalhadas. May e Lita pareceram achar o que quer que fosse igualmente engraçado e deslancharam-se em risadas. A Scout de Vênus olhou uma vez mais para ele e deu uma piscadela marota, antes de voltar-se para frente. O Dragon Kishi da Lua sentiu seu rosto esquentar. - A sua amiga se adaptou mais rápido que você. - uma voz suave falou para Ryu. Ele olhou para o lado, encontrando os olhos púrpuras de Helen, a Sailor Saturn. Ryu mexeu os ombros: - Eu não sou muito social. Não me encaixo bem nisso. Helen fez que sim: - Eu sei como é. - Você? - Ryu perguntou, surpreso. Helen riu: - Sim, eu. - ela olhou para baixo, como se lembrando. - Eu não reencarnei. Ryu piscou: - Como assim? A Scout de Saturno parou por um momento, examinando uma vitrine por onde passavam. Ryu esperou, curioso. Sem olhar, ela falou: - Eu fui resgatada do pós-vida. - Isso é possível? - Ryu perguntou, esperança no seu coração. - Aqui, sim. - Helen falou. - Especialmente porque eu sou a Scout da Morte e Destruição. - ela balançou a cabeça. - Não é algo com que se deva brincar. Ryu fez que sim, ainda esperançoso. Na sua mente, ele vislumbrava-se desbravando a morte e resgatando Minako. - Além disso, você precisaria da ajuda de Sailor Pluto. Tão subitamente quanto lhe foi dada, a esperança foi arrancada das mãos do Dragon Kishi. Ele olhou para Helen com uma expressão descontente e ela entendeu imediatamente: - Ela também morreu? Ryu não respondeu. - Sinto muito. - Helen disse, com sinceridade. - Quem te resgatou? - Ryu perguntou, começando a caminhar. Helen apressou o passo, alcançando-o em instantes. As outras meninas já estavam longe. - Hg. - Helen respondeu. - Hg. - Ryu repetiu. - Quem é ele? Helen pensou por um momento, como se incerta de como explicar ou por onde começar. Ryu continuou caminhando, aguardando pacientemente pela resposta. - Ele era meu namorado. - Helen falou, finalmente. - Nessa e na outra vida. - Era? - repetiu Ryu, sabendo que ela precisava de um incentivo para continuar falando. - Sim. - Helen respondeu. - Nós terminamos semana passada. - Vai passar. - Ryu falou. - Não vai. - a Scout retrucou. - Ele não é o homem por quem eu me apaixonei. - Como assim? - o híbrido perguntou. - Ele não é mais Krysen. Sua encarnação passada. Não restou quase nada dele em Hg. Ryu ficou em silêncio, pensando em Silver pedindo para assumir o corpo dele. - Hg é outra pessoa. Alguém que é cego pelo dever, que não se importa com as pessoas que amam ele. - Helen balançou a cabeça. - Eu mal conheci ele nesse quase um ano que ficamos juntos. Ryu pensou no seu tempo com Minako. Lembrou-se das intimidades que trocaram, das pequenas brincadeiras que só eles sabiam a respeito. Eles passaram pouco tempo juntos, mas o Dragon Kishi seria capaz de falar a respeito da Senshi por horas. Seu silêncio deve ter passado a impressão errada para Helen, que falou: - Desculpe. - ela disse. - É que eu não conversei com ninguém sobre isso. - Não me incomoda. - ele respondeu curtamente. - Ele me pegou com outro homem. - Helen falou. - Isso deve ser ruim. - Ele não olhou para mim por muito tempo. Mal falava comigo. Não dormia comigo. Só falava com... ela. - Ela? - Serena. - Serena?! - Ryu perguntou, subitamente surpreso. - Sim. Ele viu o nosso futuro, sabe que ela terá que ficar com Darien. - Darien? - Endymion. - Helen acrescentou, tentando fazer o outro menino reconhecer de quem falavam. - Ah. - Mas ele só conversa com ela, só ouve ela. - Eles...? - Não que eu saiba, mas eu não ficaria surpresa. Ryu fez que sim, tentando digerir aquilo. - E você? - perguntou Helen. - Está se dando bem com Mina-chan, não? - Hg é um Star Knight? - Ryu ignorou a pergunta de Helen. - Sim. O nosso líder. Deles. - ela se corrigiu. - Eu fazia parte do grupo, mas ele me transferiu para as Scouts. Não queria mais nada comigo. O cenho de Ryu se franziu. - Como assim? - Ele me pegou com outro homem. - ela repetiu. - Hmm. - Na nossa casa. - ela acrescentou. - Você foi descuidada. - Ele chegou bem na hora. Voltou do futuro no momento exato. - Helen falou. Ela piscou, seus lábios movendo-se para si mesma enquanto ela repetia suas próprias palavras. Os dois caminharam em silêncio por alguns momentos, Helen perdida nos seus próprios pensamentos. Ela balançava a cabeça para si própria de tempos em tempos. - Esse mundo não é tão diferente. - disse Ryu. Helen olhou para ele por um longo momento. Então, ela piscou ao notar algo. - Por que você tem uma crescente lunar na testa? - perguntou Helen. - Você é da família real? - Não. Longa história. - ele suspirou. - Minako morreu no meu mundo. - Mina? - Sim. - Por isso que você está passando tanto tempo com Mina? Ryu hesitou, olhando para a figura loira caminhando muito adiante deles. - Não. - ele falou, incerto se dizia a verdade. - Eu gosto de passar tempo com ela. - Um conselho para você, Ryu. - Helen falou, subitamente soando secular. - Entenda bem o que sente por ela antes que a machuque. - Eu não vou machucá-la. - Ryu retrucou, irritado. Ele parou de andar e ficou olhando para a Scout. Helen mexeu os ombros e continuou a caminhar, em silêncio. Ryu ficou observando Helen por um longo tempo, incerto de como tomar as palavras dela. Então, uma figura loira correu até ele, agarrando-lhe a mão e o convidando para opinar num vestido que ela vira na vitrine adiante. Com um breve puxão dela, Ryu deixou seus pensamentos e incertezas para trás, seu coração palpitante. Helen observou os dois caminhando adiante e suspirou, pensando em corações partidos e num jovem baixo e de cabelos e olhos escuros. Um jovem morto séculos antes. **** Serena já estava caminhando de volta para o elevador quando ela ouviu a porta se abrir e uma voz familiar chamá-la: - Que foi? A loira parou e virou-se, encarando os olhos cansados e sonolentos de Rachel Losan. Um sorriso preguiçoso esboçou-se no rosto da Knight de Vênus, que voltou para dentro do apartamento, deixando a porta aberta. Serena sorriu para si mesma e caminhou para dentro. Ela tentara usar sua própria chave para abrir a porta do apartamento, mas a trava interna bloqueara sua entrada. Serena, então, trinta minutos antes, pusera- se a tocar a campanhia, na esperança de despertar sua amiga e ex-colega de casa do sono profundo em que estivera. Justamente quando ela desistiu, a Knight atendeu a porta. Serena rapidamente olhou ao redor do apartamento, notando distantemente que estava mais desarrumado que na época em que ela morara lá. Haviam roupas de Rachel espalhadas por toda a casa, restos de comida em cima da mesa e um cheiro forte de ar viciado. - A que devo a honra da visita, princesa? - perguntou Rachel, com um tom sarcástico, do sofá. Ela estava deitada, coçando sua coxa direita, vestindo apenas uma calcinha e uma abreviada blusa branca. Serena sentiu seu rosto esquentar, mas ignorou a sensação: - Eu vim perguntar se você conversou com o seu irmão. - ela disse, caminhando até a janela e abrindo o vidro. Rachel observou com desinteresse enquanto a outra menina caminhava da janela à cozinha recolhendo todos os detritos que encontrava e empilhando-os nos seus braços: - Não conversei. Desde que soube o que a Helen fez com ele. - Você sabia de tudo. - Serena acusou, da cozinha. - Eu? - Rachel perguntou, bocejando. - Sim. - Serena respondeu, voltando da cozinha. Ela começou a recolher as roupas de Rachel. - Você e ela saíam juntas. - Nós não ficávamos juntas nas baladas. - Rachel se defendeu, levantando-se e começando a recolher sua roupas também. Serena parou por um momento, fitando os olhos de Rachel. Finalmente, ela falou: - Você suspeitava. - ela suspirou, e sua voz tornou-se mais melacólica. - Por que não avisou seu irmão? - Porque ele devia ter percebido. - Rachel respondeu, caminhando até Serena. Ela pegou as roupas que estavam nos braços da outra menina, acrescentando-as à sua pilha e continuou recolhendo suas roupas. Serena, por sua vez, aproveitou as mãos livres para levá-las à cintura. - Ainda assim. - E o que eu devia dizer? - Rachel perguntou. - Ele não ia acreditar em mim. Além disso, eu realmente achei que ele sabia. - E não te ocorreu que ele provavelmente largaria dela se soubesse? - Não. - Rachel falou. Ela pareceu surpresa com sua própria resposta, mas continuou falando. - Você sabe o número de parceiros que eu tive nas últimas três semanas? Mais que um por noite. - ela própria soava surpresa, mas continuava falando. - Quando Helen começou a desaparecer por longos períodos de tempo, parou de falar com ele... Rick devia ter percebido. - Rick estava ocupado salvando o mundo. - Serena falou. - Isso é o que vocês dizem. - Rachel falou e dessa vez parecia ela mesma. - Mas não acho que fez diferença alguma procurar Reenie daquele jeito. Serena abriu a boca para retrucar, mas fechou-a. Rachel estava certa. - Além disso, você não está com um pensamento claro e objetivo, princesa. - Rachel acusou e, novamente, ela parecia não saber exatamente o que falaria a seguir. - Você está tomando as dores dele. - Claro que estou! - Serena respondeu. - Eu me importo com ele! Rachel olhou para ela por um longo momento, examinando-a com cuidado. Serena recuou um passo, subitamente desconfortável com o escrutínio. Mesmo assim, ela continuou: - Hg não merecia ser traído daquele jeito. Eu sei que Helen-chan tinha suas razões... - O que você e o Hg precisam parar de fazer é se apegar ao que aconteceu. - Rachel interrompeu. - E Helen. Já aconteceu. Vocês precisam tocar a bola pra frente. Serena abriu a boca para discordar, mas não conseguiu. Ela pareceu pensar por um longo momento. - E você? Voltou com o outro rapaz? - Sim. - Serena respondeu automaticamente. - Acho. - Achar e saber são coisas diferentes. - Rachel falou, finalmente largando a pilha de roupas em um canto e jogando-se no sofá. - Você se incomoda de tentar falar com o Hg? Fazer ele se sentir melhor? - perguntou Serena. - Claro que não. - Rachel respondeu, de olhos fechados. Serena fez que sim, esquecendo que sua resposta não seria vista. Isso não pareceu importar a Rachel. - Por que ela fez aquilo, Ray-chan? - Serena perguntou, genuinamente curiosa. Ela se sentou numa das poltronas. Rachel abriu um olho e encarou a menina por um longo momento. Finalmente, ela respondeu, cobrindo seu rosto com as mãos: - Ela se sentiu sozinha. Abandonada. Não apreciada. Serena fez que sim. - Então, apareceu alguém que estava disposto a dar essas coisas para ela. E ela aceitou. - Mas ele vai morrer. - Serena disse. - Nem todo amor é para sempre, Serena. - disse Rachel. - Não sei se eu conseguiria ter um único marido pelos próximos duzentos anos. Serena mexeu os ombros, sem entender. Ela conseguia se imaginar perfeitamente com uma mesma pessoa por séculos. Na verdade, era algo que ela gostava de pensar a respeito. - Você veio aqui só para isso? - perguntou Rachel. - Falar de Hg? - Sim. - Serena respondeu. - Eu estou preocupada com ele. Rachel, novamente, examinou minuciosamente o rosto de Serena. Ela parecia procurar algo lá. Os instantes se arrastaram e a jovem princesa não sabia como reagir. Finalmente, a Knight de Vênus fez que sim para si mema, satisfeita com algo. - Hg tinha uma namorada antes de ir para o Canadá. - confidenciou Ray. - Eu sei. - disse Serena. - Ele me contou. Jules ou algo assim, não? Ele me disse que eles eram diferentes demais. A irmã de Hg deu uma risada: - É isso que ele está dizendo? O cenho de Serena se franziu: - Como assim? - Eles eram perfeitos um para o outro. - disse Rachel. - Jules era doce, meiga e atenciosa. Ao mesmo tempo, ela não deixava ele ser folgado com ela. E o Rick pode ser muito folgado com as pessoas. Ela era um doce. Serena estava com uma sensação estranha no fundo do seu estômago mas ignorou-a. Ela preferiu inclinar-se para frente com interesse: - Como ela era? - Um pouco mais baixa que ele. Loira, cabelos ondulados. Olhos verdes e lindos. E um corpo de matar. - disse Rachel, olhando para o infinito. - E tinha a voz mais linda que eu já ouvi. - O que houve? - perguntou Serena. - Eles tinham planos juntos. - disse Rachel. - Iam fazer um intercâmbio, juntos, para a Inglaterra. Os dois e mais três amigos deles. Eles tinham gravado um disco juntos. Eram uma banda. Queriam tentar se lançar em Londres ou algo assim. - Disco? - perguntou Serena, surpresa. - O Hg? - Ele já esteve bem mais envolvido com música. - disse Rachel, rindo. - Daí surgiu esse intercâmbio para nós. E ele decidiu que o Canadá, sem a Jules, era mais importante para ele. – ela olhou ao redor, e falou para si mesma. – Eu acho que até tenho uma cópia do disco deles. Serena piscou: - E ele simplesmente foi embora? - É! - exclamou Rachel, levantando-se do sofá com um salto. Ela caminhava, impaciente, pela pequena sala. Serena logo ficou agoniada e levantou-se também. - Ele simplesmente chegou em casa um dia e disse que nós precisávamos ir para esse intercâmbio. Que era destino ou algo assim. - Hg disse isso? - perguntou Serena, surpresa. - Que era destino? Rachel parou de se mexer, olhando para a janela: - Para ser bem franca, eu não sei bem o que aconteceu. Ele só chegou assim um dia. - ela suspirou. - No dia seguinte, ele foi contar para Jules. E voltou péssimo, dizendo que tudo estava terminado entre ele e ela. - Rachel suspirou. - Que eu saiba, eles não se falaram mais. - Ele devia gostar mesmo dela. - Gostar? - riu Rachel. - Ele venerava o solo por onde ela passava. E ela, o dele! - ela sorriu. - Eles não passavam um momento separados, sempre rindo um com o outro e conversando sobre o que quer que fosse. - o sorriso ficou melancólico. - Hg era bem diferente. Serena ficou em silêncio, absorvendo tudo aquilo. - Me desculpe, Serena. - disse Rachel. - Eu falei demais sobre isso. - Não. - negou Serena. - Foi bom. Eu sempre quis saber mais sobre ela. - Você pode tentar conversar com ele sobre a Jules. - disse Rachel. - Num dia bom, ele pode te contar algumas coisas... - ela parou, como se lembrando de algo. - Já sei! - ela se levantou num salto e correu para seu quarto. Serena piscou, observando. Pelos barulhos, Rachel parecia estar procurando algo... - Achei! - Rachel gritou, voltando. Ela trazia em suas mãos... - Um álbum de fotos? - E o CD. – disse Rachel. As duas sentaram-se, lado a lado. Rachel silenciosamente passava pelas fotos no livro, claramente procurando alguma coisa. Serena apenas observava pacientemente. - Achei. - Rachel disse, e ofereceu o pequeno álbum para Serena. A princesa da Lua pegou o pequeno objeto e olhou para a foto selecionada. Hg estava abraçado com duas meninas, sorrindo largamente para a câmera. Uma delas tinha cabelos negros e olhos castanhos. Ela parecia estar sorrindo mecanicamente para a foto, claramente desconfortável. No outro lado de Hg, uma menina mais ou menos da mesma altura que ele, com longos cabelos loiros e cacheados e um par de olhos verdes. Ela tinha os lábios levemente curvados para cima, com uma expressão que parecia dizer saber muito e estar se divertindo com isso. - Essa sou eu. - disse Rachel, apontando para a morena. - Antes de Venus Knight. - Rachel...? - começou Serena, mas a Knight a ignorou: - E essa é Juliet Lavie. Jules. - ela terminou. - No aniversário de Hg. Ano passado. - ela sorriu. - Jules tinha preparado um trote para ele. Contratou uma garçonete que daria em cima dele a noite toda. Ele ficou super-constrangido. - Imagino. - disse Serena, incapaz de desgrudar os olhos da foto. - Jules adorava essas brincadeiras. - Rachel... - Eu acho que o problema de Hg não começou com Helen, Serena. - ela disse. - Acho que começou quando ele terminou com Jules. – ela pareceu pensativa por um momento, depois fez que sim para is própria. – Tome. – Rachel entregou o CD para Serena. – Faça uma cópia e trate com cuidado. Não sei se eu consigo outro. Você pode me devolver depois. Serena fez que sim, distraidamente colocando o disco na sua bolsa, ainda olhando para a foto. - E eu vou passar lá hoje. - assegurou Rachel. - Agora, eu preciso dormir um pouco mais. Minha ressaca ainda não passou. Tranque a porta quando sair. - a Knight de Vênus caminhou até o seu quarto e encostou a porta. Serena, entretanto, continuava com os olhos fixos na foto, alternando sua atenção entre o rapaz no centro, seu sorriso e sua alegria, e a jovem que, aparentemente, era a causa disso tudo. **** Era uma manhã de sábado ensolarada. Não havia nuvem alguma no céu, algo que era particularmente raro em Tóquio. Mesmo com a temperatura baixa, ainda que não tanto para o Inverno, as pessoas caminhavam animadamente pelas ruas comerciais do distrito de Minato, tentando desesperadamente retomar a normalidade de suas vidas e aproveitar o belo dia. A queda da nave espacial ainda era uma memória recente no consciente coletivo dos japoneses e os estragos não tinham nem começado a ser remediados. Seriam anos antes que qualquer coisa pudesse ser erguida naquela região. O Sol, então, parecia oferecer uma trégua, rompendo o clima frio e opressivo que se instalara. Satori Ryu, ou, como era chamado por lá, Ryu Satori, olhava ao seu redor com interesse. Apesar dele conhecer intimamente Tóquio e os hábitos de sua população, era uma das primeiras vezes que ele realmente caminhava e agia como um deles. Era um pouco irônico que sua primeira experiência nessa condição fosse na Tóquio de um outro universo. Ele suspirou. A sua Tóquio não existia mais. Ele brevemente lembrou-se das ruas vazias, dos youmas correndo por elas. Sua mão foi instintivamente para o bolso da sua calça, tocando o Ginzuishou. - Ei. - Mina falou, cutucando-o. - Nada de cara feia. Ryu olhou para a loira, sentindo um sorriso nos seus lábios. Ela retornou o sorriso: - Estamos aqui para relaxar. Lembra? - Lembro. - ele respondeu, sobriamente. Os dois continuaram caminhando em silêncio, e Ryu deu o melhor de si para manter sua mente livre de pensamentos. Ele fechou os olhos, deixando sua Ligação guiá-lo, e aproveitou a brisa no seu rosto. Ele sentiu Mina esbarrar no seu braço, como se tivesse andando distraída, e piscou, olhando para a jovem. Ela estava com os olhos fixos no chão, mas não fazendo qualquer gesto de afastar-se dele. Ryu piscou, tornando seu próprio olhar para o chão, mas também não se afastando. Qual era, afinal, a diferença entre Mina e Minako? O jovem kalyriano, novamente, comparou as duas na sua mente. Era como pedir para alguém diferenciar uma pessoa de sua imagem. Seus olhos foram puxados para a menina novamente. Ela caminhava com a mesma graça e leveza nos pés, a mesma confiança disfarçada. - No que você está pensando? - ela perguntou, surpreedendo-o. - Nada. - ele mentiu. Mina olhou para ele por um longo momento, como se pensando a respeito de algo. Finalmente, ela indagou: - Como ela era? A expressão de Ryu tornou-se mais fechada e ele apenas balançou a cabeça. Vendo que tinha ultrapassado um limite invisível, Mina decidiu que não era o momento de descobrir aquilo. - E você? Como se tornou o... - ela tinha esquecido o título dele. - Moon Dragon? - Ryu perguntou, sua voz baixa. - Sim. - Nessa ou na outra vida? - ele perguntou, voltando seus olhos para o céu azul. - Nas duas. - respondeu Mina, sem saber qual delas seria a resposta certa. Ryu pensou por um momento. Então, ele contou, superficialmente e rapidamente, sobre a invasão kalyriana, sobre seu nascimento híbrido, sobre a morte da sua mãe. Ele rapidamente falou sobre Eclypse, sobre ser escolhido para ser o Moon Dragon. - E ele me treinou. - Ryu falou. - Por... Doze anos? Acho que foram doze. - O rei da Lua. - Mina falou, decididamente impressionada. - Foi uma grande honra. - Ryu disse, mecanicamente. Ele não sentia mais os sentimentos que Silver sentira. Ele compreendia a honra que tinha sido, mas não conseguia mais ver as coisas da forma que seu ego passado vira. - E você? - Eu? - ele perguntou. - É. Como foi para você? - ela esclareceu. - Quando foi, como foi? Os lábios de Ryu se comprimiram quando ele lembrou de Lockheed. - Um pequeno dragão me achou. - ele falou, finalmente. - Ele morreu na invasão recente. - Sinto muito. - Mina disse, e Ryu achava que ela realmente sentia. - Eu também. - ele falou, lembrando-se do peso morto do pequeno réptil nos seus braços. Mina ficou em silêncio. Ryu suspirou, irritado consigo mesmo. Ele sabia, racionalmente, que Mina não estava tentando trazer assuntos dolorosos à tona. Ela simplesmente estava tentando conhecê-lo. Ele franziu a testa. Ela parecia estar deveras interessada nele. O Dragon Kishi examinou a loira ao seu lado com o canto dos seus olhos, sabendo que não veria nada que não lhe fosse intimamente familiar. Mina caminhava cabisbaixa, com um ar melancólico. Ryu começou a sentir-e mal por ter colocado a jovem naquela situação. - Eu tinha onze anos. - ele sussurrou. - Hã? - Mina perguntou, surpresa. - Eu tinha onze anos. - ele repetiu, sem qualquer sinal de irritação. - Quando Lockheed me achou. Quando eu comecei. Os olhos azuis de Mina se arregalaram: - Onze? Mas você era... - ... muito novo? - ele perguntou, um tom amargo na sua voz. - Foi a melhor coisa que me aconteceu. Se Mina ía ou não falar mais alguma coisa, ele nunca descobriria. O comunicador dela escolheu aquele momento para apitar. - Mina? - a voz de Amy chamou. - Você está com Ryu-san? - Sim. - Mina respondeu, lançando um rápido olhar na direção do jovem de olhos vermelhos. - Ótimo. Venham para a clínica. Ken-san está acordado. **** Serena respirou fundo, preparando-se para bater na porta diante de si. Ela esperou dois dias para Rachel fazer ou falar algo, mas nada mudara. Era hora, ela sabia, de entrar na toca do leão e encarar os problemas ela mesma. Fazendo que sim para si mesma, Serena bateu na porta do apartamento de Hg. Ela não ouviu resposta alguma. O cenho dela se franziu e ela insistiu, dessa vez batendo com mais força. Novamente, nenhuma resposta. Colocando mais vigor no seu gesto, Serena bateu uma terceira vez na madeira. Dessa vez, ela ouviu uma voz familiar gritando algo. Ela sorriu. - Quem é? - Hg perguntou, do outro lado da porta. - Sou eu. - ela respondeu. Houve um silêncio absoluto por alguns momentos. Serena abriu a boca para esclarecer quem ela era, suspeitando que ele não tivesse reconhecido a voz. Antes dela fazê-lo, porém, a porta se abriu. - O que você está fazendo aqui, Serena? Serena examinou Hg por um momento, atônita. Ele estava vestindo roupas velhas e estava todo manchado de amarelo. Ela quase perguntou o que era aquilo, antes de lembrar-se que tratava-se do antídoto para que ele pudesse ler em segurança os livros da biblioteca do apartamento. A lembrança não a confortou e uma suspeita começou a se formar na sua cabeça. Ela caminhou para dentro, parando apenas para esperar Hg desviar do caminho. Ele o fez, fechando a porta assim que Serena estava para dentro. - Em que posso ajudá-la? - ele perguntou, neutramente. - Em que eu posso ajudá-lo? - ela devolveu a pergunta, voltando-se para ele. - Nada. - ele respondeu. - Besteira. - Serena retrucou. - O que você está fazendo aqui? - Estudando. - Esse tempo todo? - Serena perguntou, piscando. - Você mal sai há quase dez dias. Hg mexeu os ombros: - Eu tenho muitos livros. - Você precisa de pessoas. - Se tem uma coisa que eu não preciso - disse Hg, claramente irritado. - é de pessoas. Serena suspirou, olhando ao redor do apartamento. Ao contrário do de Rachel, o de Hg estava bem organizado. Não que ela achasse que Hg era o tipo de pessoa de largar roupas sujas e restos de comida pela casa. A desorganização, ali, era mais sutil. - Não tenho porque procurar companhia. - ele continuou, caminhando até a cozinha. - Eu não tenho tempo ou espaço na minha vida para pessoas. Eu sou um Star Knight. A jovem loira ficou com os olhos fixos na porta aberta da cozinha, como se pudesse ver o seu amigo através das paredes. Apesar de aparentemente calma, Serena estava ficando desesperada. A conversa mal tinha começado e já estava indo mal. - Nem mesmo Hela, que é uma Scout, conseguiu ficar ao meu lado. - disse Hg. - O dever sempre virá antes para mim. Como posso dividir uma vida assim com alguém? - Rick? - Serena chamou, suavemente. - Hmm? - Cale a boca. - ela falou. Hg ficou em silêncio e os ruídos de movimento na cozinha cessaram. Ele caminhou de volta para a sala, com uma expressão surpresa e um copo d'água na mão. - Nós somos o que somos e fazemos o que fazemos porque também somos humanos, Rick. - Serena falou, com um tom duro na sua voz. - Nós vivemos, sofremos e amamos. E perdemos. - os olhos dela se estreitaram. - Ou você acha que ser traído, deixado de lado ou trocado é exclusividade sua? A boca de Hg abriu e fechou, mas nenhum som saiu dela. - São problemas bem humanos e adultos. E você precisa lidar com eles direito. - os olhos azuis de Serena perderam um pouco da força e sua voz tornou-se mais suave. - Muitos de nós se importam de verdade com você. E queremos vê-lo feliz. Hg abaixou a cabeça, envergonhado. - Por favor, pare de ficar trancado aqui. O Knight de Mercúrio foi responder, mas os comunicadores dele e de Serena tocaram simultaneamente, interrompendo-o. Eles trocaram olhares rápidos, mas foi Hg quem atendeu. Era Rachel: - Hg! Temos um problema aqui! - Estamos a caminho. - Hg falou, sentindo um sorriso formar-se nos seus lábios. Ele olhou para Serena e ficou um pouco surpreso ao ver uma expressão similar no rosto dela. **** Ryu e Mina tinham corrido desde que receberam o chamado de Amy. Eles fizeram o percurso em muito menos tempo que um humano normal faria, mas tomando o cuidado de não chamar a atenção de ninguém no processo. Em menos de dez minutos, os dois tinham chegado à clínica da mãe de Amy. Ryu abriu as portas com velocidade, ansioso para ver seu amigo. A saúde de Ken era um dos tópicos de constante preocupação do Dagon Kishi. Ele abriu a porta do quarto onde Ken estava, esperando encontrá-lo num estado lastimável de solidão. E deu de cara com um quarto cheio. - Erm. - Mina falou. Ryu hesitou. Ele olhou ao redor, notando Akai sentada ao lado de Ken, conversando em voz baixa, porém num tom animado. Lita parecia acompanhar a conversa com interesse, enquanto Amy examinava o curativo no toco que era o ante- braço do Dragon Kishi da Terra. Helen estava observando as ações da Scout de Mercúrio com interesse. - Ryu! - chamou Ken, com um sorriso nos lábios. Ryu sentiu-se péssimo. No fundo, o Dragon Kishi da Lua esperava ter que lidar com sentimentos pesados, com amargura. Ele achara que Ken fosse culpá-lo pela perda do braço, pelo sofrimento nas mãos dos youmas. - Ken. - ele respondeu, soturno. O bom humor de Ken, entretanto, seguiu inabalado: - Akai me contou que você conseguiu pegar o Ginzuishou. - o sorriso aumentou. - Perdemos os pingentes, mas paciência. - ... sim. - Eu não me lembro de muito, para ser sincero. - Ken admitiu. - Lembro da dor do braço... - ele ergueu o seu braço direito. - ... e mais nada. Acordar aqui. - Confundir Amy com Ami. - Akai brincou, pronunciando os dois nomes de formas totalmente distintas. Amy e Ken ficaram vermelhos. Obviamente, fora uma confusão e tanto. Mina, entretanto, pareceu subitamente interessada: - Sério? Como foi? - Ah. Ryu? - chamou Ken. - Posso ver o Ginzuishou? Eu sei que você o pegou, mas... Ryu fez que sim, entendendo. Ele enfiou a mão no bolso, tirando o cristal esférico. A superfície do objeto era perfeita, sem falha alguma. Ele brilhava com uma luz própria, fraca e pulsante. Uma expressão de alívio tomou o rosto de Ken: - Então, a invasão deles terminou. - Sim. - respondeu Ryu. - Acho que sim. - Como assim? - perguntou Mina, curiosa. - Sem o Ginzuishou, o portal deles deve ter perdido sua fonte de energia. - esclareceu Ken. - Nós cumprimos nosso objetivo. - ele sorriu. - Ship, Kitty, Kyoko, Mamoru e Minako não morreram em vão. - Você esqueceu Lockheed e Kaya. - disse Akai. - Foram muitas pessoas. - comentou Lita, soando assustada. - Todos eles... - Sim. - disse Ken. - Eles não sobreviveram. - Isso é horrível... - murmurou Amy. - É como aconteceu com os Star Knights no passado. - Helen comentou, atraindo olhares de todos. - Ainda assim. - disse Mina. - Não se torna algo fácil de ouvir. - Todos nós estamos sujeitos a isso. Todos os dias. - disse Ken, com um suspiro. - Faz parte do que somos. E é o destino de todos nós. Um silêncio opressor cobriu o quarto, pesando em cada um dos presentes. Finalmente, foi o próprio Ken quem quebrou o silêncio: - E então, Ryu... Como faremos para voltar? E, subitamente, Ryu encontrou-se no centro das atenções de todos. Ele piscou, surpreso com a pergunta. Ou melhor, surpreso com não ter sequer pensado nisso até aquele momento. Os olhos dele, automaticamente, procuraram os de Mina e ele viu a ansiedade neles. Em seguida, ele fitou Ken, vendo a mesma preocupação lá. Akai, por outro lado, parecia assustada com a pergunta de Ken. Ele via, na expressão dela, medo de passar por tudo de novo. Talvez medo de encarar a morte dos seus colegas e amigos de frente. Ficando onde estavam, era fácil fingir que tudo aquilo não passara de um sonho ruim. Ele não sabia o que responder. Pela primeira vez, ele contemplou seriamente a possibilidade de simplesmente não voltar. No fundo da sua alma, ele sabia que era um pensamento egoísta e mesquinho, mas simplesmente não conseguia descartar a possibilidade com facilidade. Sempre que ele lembrava de seus deveres, lembrava de quem deixara para trás, seus olhos encontravam os de Mina e ele queria abandonar tudo. Felizmente, ele não teve a oportunidade de responder. Os comunicadores de Amy, Lita, Helen e Mina começaram a tocar simultaneamente. Ryu piscou, voltando sua atenção para o ruído. Ele notou, porém, o olhar de surpresa e, imperceptivelmente, irritação de Ken. - Vocês estão vendo televisão? - perguntou a voz de May. - Na NHK? Amy rapidamente pegou o controle remoto na mesa de cabeceira de Ken e apontou na direção de uma pequena televisão no teto. Uma imagem fora de sintonia apareceu. Depois de algumas tentativas, a Scout conseguiu colocar no canal certo. - ... repetimos, não é uma boa idéia vir até o Shopping Crossroads nesse momento. - o repórter da televisão disse. A televisão mostrava uma imagem trêmula de umas lojas com as vitrines quebradas. Subitamente, Venus Knight saiu de lá, cambaleando. - Rachel! - exclamou Helen. - As autoridades estão a caminho para tentar conter a ameaça... - a câmera virou, acompanhando o movimento rápido da Star Knight, que lançou-se contra uma pequena massa de escamas e braços. O monstro não parecia ter uma forma humanóide. Vários apêndices agarraram Venus Knight, batendo-a repetidamente contra o chão e, depois, arremessando-a para cima. Uma rajada de energia saiu de um enorme olho no centro da coisa, novamente atingindo a guerreira. - Precisamos ajudar. - disse Amy. Mina fez que sim, sacando sua Wand. Luzes depois, quatro Scouts correram para a porta, seguidas por dois jovens. Ken observou o grupo sair, seus olhos estreitos. Ele voltou sua vista para a televisão, tendo muito sobre o que pensar. **** Mercury Knight sentiu o vento passar pelo seu corpo enquanto ele caía. Era praticamente uma queda livre, tendo pulado do vigésimo quinto andar de um prédio até a cobertura do pequeno shopping onde Rachel estava. Ele moveu seu corpo, sutilmente preparando-se para aterrisar longe da clarabóia que havia lá. Ele estava se sentindo ótimo. Rumando para o combate, preparando-se para agir, Hg sentia-se mais vivo que nunca. Ele ouvira Serena acompanhá-lo passo a passo na louca disparada para o local e praticamente sentiu a euforia dela. E ele entendia pefeitamente o porquê. Os pés do Knight tocaram o telhado do shopping com um estrondo, e ele rolou com o impacto, amortecendo sua queda. Ele ouviu Sailor Moon cair seca e gemer de dor. - Você precisa rolar com o impacto. - ele aconselhou. - Vou lembrar. - ela murmurou, esfregando as pernas. Hg ía comentar mais alguma coisa quando Venus Knight foi lançada através da clarabóia ao seu lado, pedaços de vidro voando para todos os lados. Os olhos do Knight se arregalaram e ele fez menção de saltar para agarrar sua irmã. Sailor Moon, entretanto, foi mais rápida e já estava no ar quando ele pensou em fazê-lo. Satisfeito que Venus Knight estava segura, Mercury Knight saltou para dentro do shopping, seus olhos varrendo o lugar para encontrar seu inimigo. Ele piscou, notando a massa disforme de verdes e cinzas, perguntando-se se era aquilo que procurava. Quando o ser desdobrou-se, revelando um olho amarelo e disparando uma rajada de energia, todas suas dúvidas sumiram. Hg torceu seu corpo, exatamente como fizera quando pulara do prédio, e conseguiu se esquivar da rajada por muito pouco. Ele caiu no chão, ajoelhando-se e sacando sua espada ao mesmo tempo. Seus olhos negros voltaram-se para a criatura diante de si. Ela parecia lenta e pouco móvel, e Hg era capaz de apostar que era mais forte em combate à distância. Ele deu dois passos largos, erguendo sua espada acima da cabeça. Um tentáculo lançou-se do corpo do ser com uma velocidade impressionante, mas Hg mudou seu curso, desviando com facilidade. Ele deu um salto para terminar a distância entre ele e sua presa, trazendo sua arma com força na criatura. Ele errou. Mercury Knight piscou, virando o rosto a tempo de ser atingido no estômago por um tentáculo com a força de um míssil. Ele foi lançado para trás, atingindo as escadas rolantes do lugar com um estrondo. O Knight balançou sua cabeça, tentando limpar sua vista das estrelas que surgiram lá. Quando ele conseguiu, a massa disforme tinha seu enorme olho amarelo apontado para Hg. - VENUS PASSION SWORD! - gritou Venus Knight, descendo uma enorme espada de energia dourada sobre a criatura. Ela atingiu o monstro, penetrando um pouco na sua massa, mas desfazendo-se inofensivamente. - O quê? - falou Venus Knight, visivelmente chocada. - Mercury Knight? Você está bem? - perguntou Sailor Moon, ajoelhada ao lado dele. O monstro lançou mais três tentáculos do seu corpo, cada na direção de um dos combatentes. Venus Knight foi agarrada, mas Mercury Knight pegou Sailor Moon nos braços e saltou. Os membros da criatura mudaram seu percurso, ainda os perseguindo. - EARTH BIOSPHERE BLAST! A esfera de energia vermelha atingiu a lateral do monstro, lançando-o alguns metros adiante. O tentáculo que prendia Venus Knight folgou-se, enquanto os dois que perseguiam Hg e Serena caíram no chão. - Bom trabalho, Sailor Earth. - disse Mercury Knight, colocando Sailor Moon no chão. Uma rajada de energia amarelada interrompeu a resposta de May, englobando-a, assim como Sailor Moon e Mercury Knight e lançando-os para longe. Mercury Knight foi o primeiro a levantar, seus olhos fixos na criatura que enfrentavam. Ele nunca tinha visto um monstro tão resistente. - Precisamos de um plano. - a voz de Serena observou da sua direita. - Vamos distraí-lo o suficiente para Sailor Moon agir. - falou Mercury Knight. - Como? - Venus Knight gritou. - Essa coisa parece que tem olhos em todos os lados! - Vamos tentar ocupar toda sua atenção. - respondeu Mercury Knight. - Se voce vir uma chance, ataque, Sailor Moon. O monstro pareceu inchar por um momento, depois quatro tentáculos brotaram do seu corpo, novamente rumando para os quatro guerreiros. Hg colocou-se entre Serena e o membro que a atacava e concentrou seu poder, esperando. Ele viu que Sailor Moon estava imóvel, como se inibida pela presença dele. - Vamos, se mexa! - ele falou. Serena pareceu acordar, e começou a correr para a sua esquerda. Mercury Knight avançou na direção dos dois tentáculos que vinham na sua direção, um buscando ele e outro, Sailor Moon, e lançou seu ataque no mais próximo, saltando por cima da matéria asquerosa: - Mercury Aqua Crystal! O membro grotesco começou a se transformar em gelo, dando uma idéia a Mercury Knight. Ele esquivou-se do seu próprio oponente, guardando sua espada e começando a correr na direção do corpo central. - Hg! - gritou Venus Knight, esquivando-se do membro esverdeado que tentava golpeá-la. Ele ignorou o grito, saltando por cima do monstro e disparando seu ataque: - Mercury Aqua CRYSTAL! Mercury Knight errou. Ele piscou, caindo no chão e observando, atônito, enquanto uma porção do chão do shopping tornava-se gelo. Ele se recuperou do choque a tempo de se esquivar do tentáculo que o perseguia, e pôs-se a correr, seus olhos negros fixos no seu oponente. - EARTH BIOSPHERE BLAST! - gritou Sailor Earth, disparando uma rajada de energia na massa corpórea central. O monstro se esquivou com a mesma velocidade impossível de antes. Seu movimento, entretanto, trouxe a criatura para perto de Hg, que encostou nas escamas do ser antes de tentar de novo: - Mercury Aqua Crystal! O ataque dele atingiu a criatura, finalmente, e a superfície das suas escamas foi se transformando em um puro e cristalino gelo. Hg suspirou, aliviado. E as escamas transformadas caíram, descartadas com facilidade. Os olhos de Hg se arregalaram e o tentáculo que o perseguia atingiu-o com força nas costas, empurrando-o com violência contra uma das paredes do shopping. Ele mal teve tempo de proteger o rosto antes do impacto, e o Knight sentiu seu corpo tremer e protestar ao atingir o concreto. A parede cedeu um pouco, afundando com o golpe. Mercury Knight caiu no chão, saindo do buraco que ele próprio fizera, e balançou a cabeça. E foi golpeado novamente. Dessa vez, ele ouviu um outro golpe ressoar no recinto, acompanhado de um grito de dor de Sailor Earth. O tentáculo afastou-se, obviamente preparando-se para golpear novamente. Hg não se mexeu, atordoado demais para fazê-lo. Ele cerrou os olhos, preparando-se para o impacto, quando braços esguios envolveram sua cintura e ele sentiu-se carregado pelo ar. Um estrondo ecôou de onde o tentáculo atingiu apenas a parede. - Relaxa. - a voz de Sailor Venus sussurrou no seu ouvido quando ele tentou se mexer. - JUPITER THUNDERCLAP ZAP! - ele ouviu Sailor Jupiter gritar, acompanhada de um estalo de eletricidade. - SATURN SILENT STRIKE! - MERCURY ICE STORM BLAST! Hg virou a cabeça a tempo de ver os três ataques convergirem no monstro, que pareceu voar para esquivar-se. Inúmeros apêndices surgiram do seu pequeno corpo, lançando-se para todos os lados e contra todos os alvos. Ele viu o garoto de olhos vermelhos, Ryu, correr por cima de um dos tentáculos, quase como se ele soubesse como o ser se moveria, esquivar-se de duas tentativas de tirá-lo de lá e saltar, descendo sua espada como um espeto no centro do monstro. Quando a figura do ser borrou com o seu movimento rápido, Hg viu que o rapaz ajustou seu golpe. Um som molhado ecôou quando a katana enterrou-se até o cabo na criatura. - MOON SCEPTER ELIMINATION! - Sailor Moon gritou, finalmente vendo sua deixa. O monstro, outrora impossível de ser atingido, não moveu-se para esquivar- se do ataque mortal da líder das Scouts, e logo foi envolto na energia que surgia do cetro da princesa. Longos instantes se passaram, mas o ser se desfez em pó. Hg podia jurar que a morte do ser demorou mais que deveria. - Isso foi... difícil. - comentou Venus Knight, mancando. - O que era aquilo? - perguntou Mina, olhando para Mercury Knight. - Eu... não tenho idéia. - Um youma. - disse Sailor Mercury, surpresa. Ela estava com seu visor sobre os olhos e seu computador aberto. - Um... youma? - perguntou Sailor Moon, lançando um olhar para Mercury Knight. - Assim? Poderoso desse jeito? - perguntou Sailor Jupiter, surpresa. - Acho melhor irmos embora. - falou Mercury Knight, seus olhos fixos nos de Serena. - A polícia vai chegar logo. - Vamos nos encontrar amanhã na clínica para discutir isso. - disse Serena. - Depois do almoço. Todos concordaram e começaram, um a um, a ir embora. Ryu ficou por último, seus olhos fixos na pilha de pó que restara. Ele caminhou até ela e pegou sua espada. Mesmo com a arma em mãos, ele permaneceu ajoelhado ao lado dos restos mortais do youma, como se perdido em pensamentos. - Não é uma boa ser preso. - disse Sailor Venus, aproximando-se dele. Ryu levantou-se com um movimento súbito, e fixou seus olhos perturbadores em Mina por um tempo. Finalmente, ele fez que sim. Os dois correram para a escada, rumando para os telhados. Mercury Knight apenas observou a cena do batente da clarabóia, seus lábios comprimidos e seu olhos, atentos. Fim do Capítulo 4 Capítulo 5: Revelações Hino Rei sonhava. Ela sentia-se plenamente segura e feliz, envolta num manto de proteção como nunca antes vira. Como uma fronteira intransponível entre ela e seus problemas, como uma garantia de que tudo ficaria bem. Enormes olhos vermelhos envoltos por uma cortina de cabelos castanhos olhavam para ela com um misto de carinho e tristeza, lágrimas escorrendo dos seus cantos. Rei piscava, falava e acariciava os fios, tentando assegurar os olhos que não era necessário chorar. Uma mão, grande e poderosa, passou a mão na sua cabeça e lábios macios tocaram sua testa. Então, ela desceu e outro par de olhos vermelhos observava ela. Ela própria encarou esse novo ser por um longo momento antes de abrir-lhe um largo sorriso. Dedos não tão maiores que os seus tocaram seus cabelos com suavidade. Então, tudo desapareceu. Ela estava só, sem o calor e sem a proteção. Sem os dois pares de olhos vermelhos. E Rei acordou. Com um som que teria sido um grito se sua boca estivesse aberta, a Senshi de Marte sentou-se na cama. As suas cobertas caíram até sua cintura, revelando sua nudez ao mundo e permitindo que o ar frio gelasse a fina camada de suor que a cobria. A figura ao seu lado gemeu e reclamou, puxando a coberta que caíra para cima de si. Rei observou Chris por longos momentos, mas ele não fez menção alguma de despertar. A Senshi suspirou, sabendo que era melhor assim. Ela levantou-se da cama, despreocupada com seu corpo exposto, e caminhou até o banheiro. Fechou a porta antes de acender as luzes e olhou-se no espelho. Desde que Reconhecera Chris, seus olhos passaram a ter um tom um pouco mais avermelhado. Ela examinou-se com cuidado, notando olheiras sob seus olhos e uma expressão de preocupação. O sonho não lhe saía da cabeça. Era a terceira noite seguida que ela sonhava com sua mãe e Ryu. Rei estava ansiosa pelo retorno do seu irmão. De alguma forma, ela tinha expectativas de que eles descobrissem, um no outro, um confidente, um suporte. Ou, ela pensou, talvez isso seja o que eu espere. Ela lembrou-se da postura soturna de Satori Ryu e balançou a cabeça para si mesma. Era praticamente impossível encontrar alguma relação íntima com ele. Rei frequentemente perguntava-se como Minako tinha conseguido fazê-lo se abrir. Um canto mais negro da sua mente perguntou-se como ele seria na cama. Rei sentiu suas maçãs do rosto esquentarem. - O problema é não saber. - ela murmurou para o espelho. E era verdade. Eles não sabiam como ía a busca, não sabiam como os outros estavam. Então, Rei sentiu vontade de enfiar sua cabeça no espelho. O Fogo. - Claro! - ela falou para si própria, subitamente empolgada. Ela poderia tentar vê-los pelo Fogo Sagrado. Uma leitura poderia desvendar onde eles estavam, se tinham sido bem sucedidos ou não. Se estavam vivos ou não, aquele mesmo canto da sua mente sussurrou. Ela ignorou. Agarrando um dos robes do hotel, Rei vestiu-o por cima da sua nudez e caminhou para fora do quarto a passos largos. A ante-sala do quarto de Usagi, que era suíte presidencial, tinha uma lareira. Seus pés descalços não faziam ruído algum enquanto percorriam o carpete que cobria o corredor. Ela colocou-se diante da porta de Usagi e bateu, já se preparando para repetir a ação algumas vezes até sua líder e senhora, apesar de Rei nunca ter admitido a última parte para ninguém, abrir a porta. A porta se abriu e olhos azuis, ainda alertas, piscaram para ela. - Usagi? - Rei perguntou, estupefata. - Rei-chan? - Usagi perguntou, confusa. As duas ficaram se olhando por um longo momento. Finalmente, uma voz familiar pareceu tossir dentro do quarto, arrancando as duas de sua surpresa. - Desculpe, Rei-chan. - disse Usagi. - Entre. Rei entrou, imediatamente sentindo a presença de Luna. Ela ainda precisava fazer um esforço consciente para usar sua Ligação para sondar uma área, mas o hábito estava começando a se estabelecer nela. - Luna. - ela cumprimentou. - A que devemos a tardia visita, Rei? - Luna perguntou, soando irritada. Ela, ao menos, estivera dormindo. - Eu tive uma idéia. - Que não podia esperar até amanhã. - disse a gata. - Luna! - Usagi repreendeu. A gata silenciou-se e caminhou até seus cobertores, deitando lá. - Rei-chan, o que houve? - O que você estava fazendo acordada, Usagi? - Sem sono. - a loira respondeu, impaciente. - Que idéia você teve? - Fazer uma leitura no Fogo! - ela respondeu. - Para saber como os outros estão! Usagi piscou, aparentemente surpresa. Então, um sorriso começou a surgir nos seus lábios: - Você consegue fazer isso aqui? - Claro. - respondeu Rei, confusa. - Por que não? - Eu sempre achei que tinha que ser o Fogo Sagrado do seu templo. - Usagi esclareceu. Rei apenas balançou a cabeça. - Então, vamos! - Usagi falou, com um largo sorriso. As duas rapidamente caminharam até a lareira do quarto, examinando-a com cuidado. Foi Rei quem organizou as toras de madeira numa posição adequada e afastou-se procurando uma caixa de fósforos. Nada. - Você tem fósforos, Usagi? - Não. - a loira respondeu. - Eu posso descer até a portaria e pegar. - ela disse, levantando-se. - Um minuto. - Rei disse, subitamente sentindo um frio no fundo do seu estômago. - Eu quero... tentar. - Rei-chan... - disse Usagi. A sacerdotisa ignorou sua amiga e ajoelhou-se diante da lareira, olhos fixos no material lá dentro. Ela fechou os olhos, colocando suas duas mãos diante de si. Ela buscava, dentro de si, algo. Seu espírito, instintivamente, percorreu o caminho normal que usaria para invocar seus poderes como Sailor Mars, mas a fonte de onde eles vinham parecia vazia. O cenho de Rei franziu e ela se concentrou, inadvertidamente atentando-se para cada detalhe do mundo ao seu redor. Ela conseguia sentir a energia de Usagi e de Luna. Podia sentir a madeira diante de si, o chão sob seus joelhos. A brisa que entrava suavamente por uma das janelas entre-abertas. Pouco a pouco, ela começou a sentir coisas mais detalhadas. Ela sentia os fios sintéticos o carpete na sua pele, o tecido grosseiro do robe raspando seus braços. A respiração delicada e ansiosa de Usagi. Os poucos fios do seu cabelo que balançavam com o pouco vento que havia. Então, ela sentiu. Era como um saleiro de um buraco só, Rei percebeu. Uma tormenta de fogo gritava dentro dela sem ter por onde sair. Esforçando-se, Rei pressionou e puxou ao mesmo tempo o fogo, brigando e implorando. Ela sentiu uma gota, que não era a palavra correta para se usar, mas não havia palavra correta para isso, de seu poder fluir para ela, escorregando como um calafrio até a ponta do seu indicador direito. Ela ouviu uma expressão surpresa de Usagi e abriu seus olhos. A unha do seu indicador direito estava pulsando um vermelho fraco. Delicadamente, Rei moveu sua mão para tocar uma das lenhas. Uma pequena chama se ergueu lá. Rei deixou seus braços caírem, exausta. - Você conseguiu... - tinha admiração franca na voz de Usagi. Um sorriso formou-se nos lábios de Rei, que ergueu a cabeça para contemplar sua obra. A pequena chama estava lá, imóvel. Rei piscou. Imóvel? Instintivamente, ela ergueu sua mão, sentindo a brisa que vinha pela janela. Ela moveu a mão para perto da lareira e notou que o vento mudava de curso, sem razão alguma, para longe da chama. Ela piscou novamente. Como...? - Usagi? - ela perguntou, virando-se para a princesa. - Hã? - Usagi respondeu, olhando para Rei. O vento atingiu a chama, que resistiu bravamente por alguns segundos e apagou-se. Rei olhou para a lareira, depois para Usagi. A princesa estava olhando para a tora levemente enegrecida com uma expressão de desprazer. Ela se levantou: - Vou pegar os fósforos. - Sim. - respondeu Rei, sem saber o que mais dizer. Poucos minutos depois, as duas estavam observando uma pequena chama formando-se na lareira. Rei, novamente ajoelhada, concentrava-se, silenciosamente repetindo o mantra que sempre fez parte da sua vida. Suas mãos estavam unidas numa posição de poder. Todo o ritual estava sendo feito de forma apropriada. Ela sabia que nada daquilo era realmente necessário. Todos os passos que ela aprendera eram meros apoios para sua própria concentração com a Ligação que herdara de sua mãe. Talvez, ela pensou, nem mesmo o fogo fosse necessário. O prospecto a apavorava. Deixando seus pensamentos de lado, Hino Rei abriu seus olhos e focou sua atenção no centro das chamas, buscando as imagens que ela sabia virem. Ela buscou, com sua mente, Chiba Mamoru. O Fogo nada revelou. A testa da Senshi se franziu, estranhando. Ela podia sentir que tinha feito tudo certo, que estava no estado de espírito correto. Decidindo tentar de novo, ela procurou, com seus sentidos, Aino Minako. A imagem de uma nuvem de luz que movia-se lentamente pelos céus de Tóquio surgiu-lhe. A concentração de Rei rompeu-se e ela caiu para trás, respirando pesado. - Rei-chan? - chamou Usagi, soando preocupada. - O que houve? Rei virou-se para sua princesa, fitando-a com intensidade. Na sua mente, ela não conseguia deixar de ver e sentir a essência de Minako espalhada pelos céus, inconsciente de sua própria existência. Um arrepio percorreu Rei. - Rei-chan? - a voz estava soando mais aflita. - O que você viu? - Nada. - mentiu Rei, odiando-se. - Não consegui vê-los. Usagi olhou para sua amiga com desconfiança. Sentindo que não tinha outra escolha, Rei continuou na sua mentira: - Foi como bater numa enorme parede. Horrível. - Você está bem? - Usagi parecia, então, preocupada com o bem-estar da outra Senshi. - Sim. - Rei continuou mentindo. - Só preciso descansar. - ela se levantou. - Eu gostaria de conversar com todos amanhã no almoço. - Usagi falou. - É uma boa idéia. - Rei concordou, sentindo um vazio enorme preenchendo-a. Na sua mente, lembranças de Minako surgiam sem pausa. - Nós precisamos... decidir coisas. Usagi fez que sim. - Eu... vou dormir. - Rei falou, cambaleando para a porta. Ela podia sentir lágrimas começando a surgir nos seus olhos. Com um esforço hercúleo, ela as suprimiu. - Boa noite. - Usagi disse, sua voz baixa. - Durma bem. - Rei respondeu, automaticamente. E saiu do quarto. A Senshi caminhou mecanicamente até o seu quarto. Ela foi tomada por um súbito amor fraternal por Ryu, que ela mal conhecia, pensando na situação dele. Como ele estaria, ela se perguntou. - Rei? Ela desviou o seu olhar do chão, encontrando o rosto sonolento de Chris. Ela nem tinha percebido que abrira a porta do quarto. - Rei? Tudo bem? - Chris perguntou novamente. A Senshi avançou dois passos, fechando a porta do quarto atrás de si e tirando o seu robe no mesmo movimento. O Dragon Kishi, por sua vez, recuou com movimentos incertos. Na cabeça de Rei, as imagens de Minako cresciam, tornando-se ensurdecedoras. Desesperada por tirar aquilo da sua cabeça, ela derrubou Chris no chão, abrindo o robe que ele tinha vestido. Lágrimas voltaram a surgir nos seus olhos enquanto ela fazia amor com o seu companheiro, tentando, desesperadamente, esquecer. Minako estava morta. **** Ten'ou Haruka sentiu a brisa no seu rosto e acordou. Seus olhos verdes se abriram e ela os cobriu com sua mão esquerda, mentalmente xingando-se por ter esquecido as cortinas abertas na noite anterior. Ela notou a temperatura do quarto e suspirou. Ela esquecera, também, de fechar a fresta que deixara na janela. Cuidadosamente, Haruka removeu seu braço direito de baixo de Michiru, sorrindo para si mesma quando a sua companheira murmurou um protesto. A Senshi de Urano rapidamente puxou as cobertas para cobrir as costas nuas de sua amante, esperando prolongar ao máximo o sono dela. Despreocupada com sua nudez, Haruka caminhou até a janela e fechou o vidro, esperando que o aquecedor central do prédio resolvesse o problema do frio. Em seguida, ela fechou as cortinas, sabendo o quanto aquilo incomodaria Michiru, e caminhou para dentro do banheiro. Ela não costumava tomar banhos matutinos, mas ela sabia que estava cheirando a sexo. Um sorriso surgiu no seu rosto enquanto ela lembrava-se da noite anterior. Ela fechou o ralo da banheira, franzindo a testa para o tamanho pequeno da mesma, e abriu uma combinação agradável das águas fria e quente. Satisfeita com isso, Haruka voltou ao quarto para esperar que seu banho ficasse pronto e ligou a televisão, deixando o volume adequadamente baixo. Ela ficou mudando de canal por alguns momentos, olhando sem ver as imagens na tela. Então, seu comunicador tocou. Haruka piscou, olhando para o objeto sobre a mesa por alguns momentos. Seus olhos rapidamente foram para o relógio na cabeceira e ela constatou que já passavam das onze. Ela levantou-se e pegou o comunicador, aproximando-o do seu rosto para que sua nudez não fosse registrada, e atendendo: - Uranus. - Bom dia, Haruka-san. - o rosto cansado de Hino Rei surgiu no pequeno visor. - Usagi pediu que todas nós almoçássemos juntas para discutir para onde ir... - Michiru e eu estaremos lá, Rei-chan. - Haruka respondeu. - Você está bem? Parece cansada. - Não dormi muito bem. - disse Rei, com um tom de quem já repetira isso algumas vezes. - Até mais tarde, Haruka-san. O comunicador foi desligado antes que a Senshi de Urano respondesse. Haruka piscou, perguntou-se por um breve momento o que poderia estar incomodando Rei. Ela piscou ao ouvir um som de água vindo do banheiro e levantou às pressas. Haruka havia esquecido da banheira. Ela entrou no banheiro, rapidamente fechando as torneiras, olhando para a quantidade de água no chão e fazendo uma careta. Haruka enfiou a mão na banheira, abrindo o ralo para esvaziar um pouco, e jogou um tapete sobre a água, cuidadosamente juntando tudo num pequeno bolo. Seus esforços não foram bem sucedidos e boa parte do chão do banheiro ainda estava molhado. Um pouco irritada, a Senshi de Urano olhou para a banheira, notando que ela ainda estava cheia o suficiente para transbordar quando uma pessoa entrasse, mas decidiu que não se importava. Enfiou a perna esquerda resolutamente na água, notando que estava quente demais. Determinada, entretanto, a tomar seu banho, Haruka entrou com o resto do corpo, lançando água para todos os lados e controlando sua expressão para não demonstrar a dor. Ela selou o ralo da banheira e enconstou-se, cruzando os braços. Demorou alguns minutos para que o humor de Haruka melhorasse, mas o relaxamento que a água quente trazia tinha um efeito inegável nela. Ela logo fechou os olhos, deixando sua cabeça tombar para trás. Haruka não sabia se tinha ou não cochilado, mas foi o grito de Michiru que chamou sua atenção. Ela tinha saltado da banheira, espalhando ainda mais água pelo chão do banheiro e deixando uma trilha molhada até a porta e pelo carpete do quarto antes que se desse conta que estava em movimento. A Senshi de Urano olhou ao seu redor, procurando qualquer que fosse a ameaça. Não encontrando, ela relaxou e voltou seu olhar para sua amante. Michiru estava encolhida na cama, abraçando suas próprias pernas, soluços balançando seu corpo. O seu espelho jazia descartado próximo aos travesseiros. - Michiru? - Haruka chamou, aproximando-se. Ela tocou no ombro da outra mulher, finalmente notando que estava encharcada. A Senshi de Netuno, ignorando o estado da sua amante, desdobrou-se e abraçou-a. Haruka piscou, olhando para a jovem agarrada nela, antes de envolvê-la com seus próprios braços. - O que houve? - Haruka perguntou numa voz baixa. Michiru apenas balançou a cabeça. - Sonho ruim? - Acho que sim. - a voz da Senshi de Netuno ainda tinha resquícios de choro, mas sua voz ganhava força. Era como se ela estivesse pensando a respeito e deixando o pesadelo para trás. - Quer conversar? - Haruka perguntou, já se preparando para ouvir uma narrativa do sonho de sua amante. - Não. - Michiru respondeu. - Não? - Haruka estava surpresa. - Não precisa. Foi só um sonho. - Michiru afirmou, afastando o rosto do ombro de sua amante. Os olhos das duas se encontraram por um momento e a Senshi de Netuno foi a primeira a virar o rosto. - ... se você diz. - Haruka falou, pouco convencida. - Você está molhada. - Eu saí da banheira. - Também. - Michiru retrucou com um sorriso ímpio. Haruka ficou vermelha. Os lábios das duas Senshi se juntaram num beijo passional. As mãos hábeis de Michiru já tinham começado a acariciar os seios da Senshi de Urano, quando esta lembrou: - A reunião! Michiru piscou, afastando-se. Um olhar levemente irritado cruzou seu rosto: - Reunião? - Usagi pediu que almoçássemos com ela. - Haruka esclareceu, levantando-se da cama. Ela olhou para os lençóis, encharcados, e fez uma careta. - Estamos atrasadas, então. - Michiru falou, saltando da cama e entrando no banheiro antes de Haruka. A Senshi do Vento ouviu o chuveiro sendo ligado: - Ei! Eu estava tomando banho! - Estava! - foi a resposta de Michiru. Haruka sorriu largamente e começou a correr para o banheiro, mas hesitou ao chegar na porta. Ela observou longamente Michiru, em silêncio. Então, tão rapidamente quanto veio, o olhar pensativo sumiu e a jovem sorriu e chegou ao seu banho com passos largos. **** Tomoe Hotaru timidamente abriu a porta da sala de jantar privada do hotel. Ela tinha acabado de caminhar pelo restaurante principal, procurando as outras Senshi sem sucesso. Finalmente, ela perguntara, timidamente, para o garçom. Ele rapidamente deu as indicações de onde elas estavam. Hotaru estava passando por uma experiência quase única. Ela estava hospedada sozinha no seu quarto e Haruka e Michiru estavam deixando-a em paz. Estava assim desde que o navio começara a se aproximar do Canadá, quando as Outer Senshi restantes começaram a se preocupar com a burocracia da imigração e outros afazeres. Michiru perguntara se ela se incomodava. Hotaru disse que não e, então, fora alojada por conta própria. Consciente da responsabilidade que lhe estava sendo confiada, a Senshi de Saturno manteve suas coisas organizadas e recolhera-se para dormir cedo na noite anterior. - Hotaru-chan? - era a voz de Usagi, mas naquele tom estranho que ela passara a usar desde o começo da jornada para sair do Japão. - Usagi-hime. - ela respondeu, lembrando-se de como Michiru e Haruka falavam com Usagi formalmente. - Só Usagi, Hotaru-chan. - a loira corrigiu gentilmente. Hotaru olhou ao seu redor, notando que apenas ela e Usagi estavam lá. - Luna e Rei foram chamar as outras. - disse a princesa, sorrindo. - É bem estranho eu ser a primeira a chegar. - ela ficou olhando para Hotaru por um longo momento, pensativa. - Você está com quatorze anos, Hotaru-chan? - Quinze. - corrigiu a Senshi da Morte e Destruição, sentando-se à mesa. - Mas o... - Você perdeu um ano de idade com a sua reversão. - Usagi adivinhou. - Eu tinha a sua idade quando virei Sailor Moon. Hotaru piscou: - Sério? - Sim. - Usagi respondeu, pensativa. - Parece que faz tanto tempo... - ela suspirou. - Como foi? - Hotaru perguntou, genuinamente curiosa. - O quê? - Se tornar Sailor Moon. - a Senshi da Morte e Destruição esclareceu. - Como foi? Usagi pareceu pensar por um momento, seus olhos adotando uma qualidade vaga enquanto ela se lembrava. Finalmente, ela respondeu: - Assustador. - Assustador? - ecôou Hotaru, claramente não esperando aquela resposta. - E solitário. - Usagi continuou. - Eu não sabia o que era, o que enfrentava... só tinha uma gata falante me ajudando. - ela sorriu. - E Luna estava mais preocupada em me tornar uma guerreira responsável que me explicar o que estava acontecendo. - Você não sabia que era a princesa? - Hotaru perguntou, surpresa. - Não. Hotaru apenas piscou, surpresa com a revelação. Ela sempre assumira, de alguma forma, que as Inner Senshi tinham começado juntas. Tolice, ela podia ver, mas era difícil imaginar Usagi atuando sozinha ou sem saber sobre o seu passado. Ela subitamente percebeu quanto não era conversado entre as duas equipes de Senshi e viu, nos olhos de sua princesa, a mesma descoberta. - Como você está, Hotaru-chan? - perguntou Usagi, suavemente. - Confusa. - Hotaru admitiu. - Eu também. - Usagi falou. - Por isso que nós vamos juntar todas aqui. Precisamos decidir o que vamos fazer. Hotaru fez que sim, entendendo. Ela virou para a porta no mesmo momento que Haruka a abriu. A Senshi mais velha parou por um momento, fitando Hotaru por um instante, depois sorriu e entrou, dando espaço para Michiru: - Hotaru-chan. - Haruka-papa! Michiru-mama! - Hime-sama. - o casal de Senshi falou, em seguida, curvando-se para Usagi. - Parem com isso. - Usagi falou, balançando a cabeça. - Haruka-san. Michiru- san. Sentem-se, por favor. As duas obedeceram, sentando-se ao lado de Hotaru. - As outras devem chegar logo. - Não temos pressa. - assegurou Michiru, com sua voz calma. - Dormiu bem, Odango? - Não. - Usagi respondeu com sinceridade. - Mas pensei muito. Haruka abriu a boca para falar algo, mas mudou de idéia e voltou seu rosto para as janelas, fixando seus olhos no céu nublado. Um silêncio confortável envolveu as quatro Senshi enquanto elas aguardavam pela chegada do resto do grupo. - Eles chegaram. - disse Hotaru, olhando para a porta. Michiru fez que sim, um sorriso nos seus lábios: - Passos pesados. Como se seguindo uma deixa, a porta da sala se abriu, admitindo Rei, Chris, Makoto e Ami. Caminhavam juntos e seus passos ecoavam pelo chão de madeira do hotel, mas nenhum deles falava coisa alguma. - Obrigada por virem. - Usagi falou, com um sorriso. - Andrea e Ranko não poderão estar aqui. - disse Chris, com uma mexida de ombros. - Falarei por todos os Dragon Kishi. Os quatro sentaram-se à mesa e todos olharam, com expectativa, para a princesa. Usagi piscou e ficou vermelha. Hotaru sorriu, notando o súbito desconforto da líder deles. Ela parecia ter acabado de perceber que todas as Senshi e Chris estavam lá para ouví-la. - Eu... bem... - Usagi conversou muito comigo ontem à noite. - disse uma nova voz. Todos olharam para o chão. Luna simplesmente saltou em cima da mesa e sentou-se diante de Usagi. Mesmo com tanto tempo de convívio, Hotaru ainda achava difícil e estranho ver um gato falando. Ou, no caso, uma gata. - Sobre o futuro. Sobre Crystal Tokyo, sobre o Japão. - Sim. - disse Usagi, com aquela voz serena que, às vezes, parecia tomá-la. Hotaru olhou para ela, atenta. Sempre que o tom de voz da princesa mudava, a coisa era séria. - Nosso sonho de Crystal Tokyo está mais distante que nunca. Hotaru fez que sim e viu as outras Senshi ecoando o gesto. Apenas Chris ficou em silêncio, imóvel, observando. - Eu queria saber o que vocês acham que devíamos fazer. - Usagi falou, finalmente. - Sem poderes, não somos tão diferentes do resto do mundo. Por outro lado... - ... não podemos deixar as coisas como estão. - Chris terminou. - Com ou sem poderes, nós somos os mais equipados para lidar com a situação. - Só porque não compartilhamos o que temos com ninguém. - disse Makoto. Hotaru piscou, fitando a Senshi de Júpiter. Ela parecia cansada. - Mako-chan? - perguntou Usagi. - Makoto tem razão, de certa forma. - Haruka disse. - Por mais que eu não goste de admitir, compartilhar as informações com o governo poderia prepará-los para... assumir por nós. - E por que diabos nós iriámos querer isso? - perguntou Chris. - Você começou faz pouco tempo, Chris. - disse Michiru. - Não entende. - Eu morri por essa causa na minha vida passada. - Chris retrucou. - E por que nós estaríamos dando as costas à nossa causa? - perguntou Makoto, sua voz sem vida. - Não estaríamos preparando alguém melhor que nós? - E quando Mamoru-san e os outros voltarem? - pergutou Hotaru, falando pela primeira vez. Todos pararam, voltando-se para ela. - Nós voltaremos a nos transformar e voltaremos a ter o Ginzuishou. Se nós falarmos agora com os humanos, nós não teremos paz. Nunca. - ela fechou os olhos por um momento, lembrando-se de fragmentos passados. De trevas envolvendo terras e de sentir o chão partir sob seus pés. - É um poder terrível para ser usado com interesse. Chris fez que sim, enquanto todas as Senshi olhavam, boquiabertas, para a mais jovem entre elas. - Hotaru-chan tem razão. - concordou Usagi, com um sorriso. - Nós temos um dever aqui. Nós não sabemos como vai a missão de Ryu-kun e os outros, mas tenho certeza que ele não falhará. Hotaru ficou vermelha, voltando seu olhar para baixo. - Não sei se é tão simples. - a voz de Rei falou pela primeira vez. - Eu tive uma visão no Fogo, ontem. - O que foi? - perguntou Usagi. - Você não me falou nada ontem. - Desculpe, Usagi. - Rei falou com sinceridade. - Minako morreu. Os olhos de Hotaru se arregalaram, incerta se ouvira corretamente. Ela olhou para as outras Outer Senshi, querendo entender quão sério aquilo era. Haruka estava com os olhos fixos em Michiru, que voltara o rosto para baixo. - Como? - perguntou Usagi. - Rei-chan, o que você disse? - Morreu. - Rei respondeu, com mais força que o necessário. - Ela morreu. - ... isso é... isso não é inesperado. - disse uma nova voz masculina com um tom pesado. Luna, imediatamente, voltou-se para a porta. Artemis estava lá, parado. Emoções pareciam dominá-lo por um breve momento, desaparecendo em seguida. - Artemis... - falou Luna. - Eu sabia que algo tinha acontecido. - o gato disse, aparentemente inalterado. - Mas não imaginei que fosse isso. Você tem certeza, Rei? A Senshi de Marte fez que sim: - Tanto quanto de qualquer outra visão minha. Todos ficaram em silêncio. Hotaru tinha seus olhos fixos em Haruka e Michiru, ainda incerta de como proceder. As duas, entretanto, pareciam estar num mundo à parte. Hesitante, ela voltou-se para Usagi. A líder das Senshi estava de cabeça baixa, tremendo um pouco. Ela parecia estar chorando. - Isso não muda nossa decisão. - a voz de Usagi, forte e firme, veio como uma surpresa para todas. - Nós ainda precisamos manter tudo longe das autoridades. - Nós precisamos - disse Haruka, subitamente. - é de vingança. Hotaru suspirou para si mesma. Ela não poderia negar que aquele foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, também, quando Rei deu a notícia. - Nós precisamos abrir o portal, invadir a dimensão de Dark Angel e dar o que recebemos. - a voz de Haruka tornou-se baixa e ameaçadora. A Senshi de Saturno conseguia ver um ódio pouco familiar naqueles olhos que, para ela, sempre pareciam cheios de bondade. - Dar a ele o que ele nos deu. Olho por olho. - Eu concordo. - disse Rei, parecendo, aos olhos de Hotaru, Ryu. A mesma postura agressiva, o mesmo tom de voz quase rosnado. - Não é impossível. - disse Chris. - Não pode ser. Se Dark Angel conseguiu, nós... Então, o som alto de mãos atingindo a mesa ecôou pela sala. Hotaru deu um sobressalto, assustada, e voltou-se para a fonte do som. Todas as Senshi e Chris fizeram o mesmo, olhando para Usagi. Ela tinha se levantado da cadeira e apoiava- se no móvel, seu rosto erguido. Lágrimas escorriam dos seus olhos azuis, mas, ao contrário de Rei ou Haruka, ela não parecia furiosa. Ela estava apenas triste. - Não. - Usagi falou, soando como Tsukino Usagi. - Nós não vamos buscar vingança. - Usagi.. - começou Rei. - Não! - Usagi gritou. - Nós não vamos nos tornar como ele! Ninguém se atrevia a falar nada. Baixando sua voz, Usagi continuou: - Nós vamos estabelecer uma base aqui. Algum lugar para que todos tenhamos um lar. Nós. Familiares não. Ami abriu a boca para falar algo, mas Usagi não deu a oportunidade. - É seguro assumir que possamos ser atacados por Dark Angel nesta base. Não podemos arriscar ninguém. - ela ergueu-se, cruzando os braços. - E eu quero saber, Ami, como podemos ir para a dimensão dele. - Eu pensei que... - Hotaru começou. - Não vamos buscar vingança. - Usagi interrompeu. - Mas algo... terrível... aconteceu lá. Para os youmas terem vencido. Para terem vindo para cá. - ela fez que sim, mas para si mesma que para os outros. - Nós vamos ajudar. - Sem poderes? - Makoto perguntou, como quem perguntava se iria chover no dia seguinte. - Se necessário. - Usagi disse. - Eu concordo. - disse Ami. - Se eles precisam de nós, devemos ir. - Claro. - disse Chris. - O problema todo é... - O como. - disse Ami. - Sinceramente, Usagi-chan, eu não tenho idéia de como fazer isso. Abrir um portal. Talvez se pudéssemos examinar o portal de Dark Angel... - Fora de cogitação. - disse Luna, balançando a cabeça. - Os melhores lutadores entre vocês ficaram lá e... Um silêncio abateu-se sobre a sala novamente. Hotaru suspirou, sabendo o que Luna queria dizer. Mesmo com Ryu e seus Inner Dragon Kishi, mesmo com Sailor V e Tuxedo Kamen... A Senshi de Saturno abaixou a cabeça, deitando-a contra a madeira dura da mesa. - Existe um portal dimensional em outro lugar. - Artemis falou, subitamente. Todos voltaram-se para o pequeno gato branco. Ele estava deitado no chão e não fez menção alguma de mover-se. - Como assim? - perguntou Haruka, levantando-se. - Na Grécia. Atenas. - disse Artemis, ainda imóvel. - Ryu e Minako encontraram. Usagi voltou-se para Ami: - Ami, você acha...? - Pode ajudar. - Ami falou, fazendo que sim, pensativa. - Sim, vai ajudar. - Eu vou organizar tudo. - disse Haruka, se levantando. - Calma, Haruka. - disse Michiru. - Usagi-san não terminou. - Eu gostaria que você providenciasse um lugar para nós antes. - Usagi disse para Haruka. - Ami-chan, preciso que você prepare uma lista do que será necessário para estudar o portal. Todos os outros devem ajudar Haruka-san e Ami-chan o máximo possível. Quando estivermos encaminhados, prepararemos nossa ida à Grécia. Eu, Ami, Haruka e Michiru. Precisamos dos outros aqui, cuidando da nossa base e a arrumando. Certo? - Sim. - disse Michiru. - Claro. - concordou Hotaru. - ... sim. - Makoto falou. - Sem dúvida. - Chris disse. - Podemos pensar em que tipo de equipamentos podem ser usados para isso. Luna e Artemis apenas fizeram que sim, em silêncio. Rei, entretanto, hesitou. - Rei-chan? - perguntou Usagi. - Você nos ajudará? - ... sim. - disse Rei. - Não posso prometer que farei isso para ajudar o povo do mundo de Dark Angel, Usagi. - ela adicionou. - E eu gostaria de ir para a Grécia também. Usagi apenas fez que sim para a Senshi de Marte. - É isso, então. - Usagi suspirou. - Não estou com fome, mas o pessoal do restaurante vai servir o almoço aqui em seguida. - ela se levantou da mesa. - Com licença. - e saiu. Hotaru observou enquanto Usagi caminhava para fora da sala, percebendo que a princesa estava contendo seus sentimentos. Luna e Artemis a seguiram e a porta se fechou. Suspirando, Tomoe Hotaru concluiu que não estava mais com fome. Murmurando algo, ela também deixou a sala de jantar. Assim que ela abriu a porta, ouviu os leves soluços de Usagi no fim do corredor, afastando-se rapidamente. - Usagi-san! - chamou Hotaru, correndo atrás dela. Usagi parou, voltando um olhar para a Senshi mais nova. Luna e Artemis não estavam mais com ela. - ... você está bem? - Hotaru perguntou, sentindo-se tola. Ela não sabia o que mais dizer. Oferecer condolênsicas? Que tipo de suporte poderia ofercer? - Eu vou ficar, Hotaru-chan. - Usagi disse, com uma voz angustiada. - Minako-chan... - de novo, Hotaru não sabia o que dizer. O que podia dizer, para sua princesa, sobre Minako? A própria Usagi dissera antes que era uma Senshi desde os quatorze anos. As duas, Sailor Venus e Sailor Moon, lutaram juntas por muito tempo. Eram, como todas as Inner pareciam ser, quase irmãs. O que ela, a mais jovem Senshi, tinha para dizer? - ... eu sinto muito. Eu vou sentir falta dela. - Eu também, Hotaru-chan. - disse Usagi. A princesa fechou os olhos, tentando conter as lágrimas novamente. Então, Hotaru avançou um passo e envolveu a sua líder num abraço e sentiu ela começar um choro suave, baixo e de partir o coração. Os olhos púrpuras da Senshi da Morte e Destruição se encheram, também, e, logo, ambas estavam chorando desconsoladamente nos braços uma da outra. **** Chris estava irritado. Ele se sentia, de alguma forma, pouco importante. Objetificado. O motivo, ele seria o primeiro a admitir, não era o mais nobre ou louvável. Para ele, entretanto, fazia total e completo sentido. Ele não pedira os poderes ou responsabilidades que recebera, mas lidara bem com isso. Quando tais habilidades foram tomadas dele, Chris Stover conseguiu aceitar que era algo que poderia acontecer. A morte de Maury, ele admitiria para qualquer um, fora um golpe duro no jovem canadense. Quase como se um irmão de sangue seu tivesse morrido. Ou, ele pensou, até pior. Ainda assim, Chris conseguiu superar a dor, seguir com sua vida. Durante a viagem de volta ao Canadá, sua namorada, Hino Rei, passou por um evento curioso proveniente da fisionomia alienígena dela. Uma espécie de acasalamento com ele, tornando-o o único homem atraente para a jovem kalyriana. Mesmo com tudo isso, Chris manteve seu bom humor. Faziam mais de doze horas desde a última palavra que ele dirigira à Senshi de Marte. E, pior, ela parecia não ter percebido. Após o, na mais franca opinião de Chris, catastrófico almoço, Rei saíra da sala com Makoto e Haruka e as três secaram boa parte do bar do hotel. Elas passaram algumas horas trocando histórias a respeito da falecida Sailor Venus, como soldados que sobreviveram mais que um adorado companheiro. Chris esperou, apenas observando. Depois da bebedeira desenfreada, Rei resolveu que precisava, ainda alcoolizada, conversar com Usagi a respeito dos planos de ir para a Grécia. A princesa pedira a ajuda de Chris para que a sacerdotisa fosse carregada para os seus aposentos. Ele ajudou, sentando-se ao lado da cama e esperando que sua amante despertasse. Horas passaram-se. Rei acordou, mau-humorada devido à ressaca, e enfiou-se num banho gelado para recobrar os sentidos. Ela sequer dirigiu a palavra a ele. Recuperada, a Senshi comentou com ele que as banheiras ocidentais deixavam muito a desejar e saiu do quarto. Chris, atônito, ficou lá. Novamente, as horas voaram. Rei retornou, depois, com lágrimas nos olhos, um álbum de fotos das Senshi embaixo de um braço e uma sacola com guias e mapas de Atenas na mão. Ela depositou todas as aquisições na mesa, deitou-se na cama e dormiu. Chris, sem saber o que mais fazer, juntou-se a ela. E foi acordado, no dia seguinte, com a mão da Senshi dentro da sua calça e um sorriso malicioso no rosto. Ele prontamente afastou-se dela e cruzou os braços. - O que foi? - Rei perguntou, soando irritada. Chris apenas olhou para ela, sem responder. - Não tá a fim? O Dragon Kishi de Saturno precisou fechar os olhos, respirar fundo e contar até dez antes de permitir-se uma reação. Naquele momento, ele percebeu o tamanho do problema que ele e Rei teriam e estava decidindo o quanto aquilo tudo valeria a penas. Enquanto sua opinião era que não valia a pena, Chris Stover era por demais cavalheiro e teimoso para simplesmente levantar da cama, sair do quarto e viver sua vida em paz. - Não. - ele respondeu. Rei piscou, olhando para ele por um momento, mexeu os ombros e se levantou da cama, caminhando para o banheiro. Chris ficou observando, incrédulo, enquanto a jovem caminhava sem roupas pelo quarto. E sem questioná-lo. - Você não quer saber por quê? - ele perguntou. - Provavelmente porque Minako morreu. - Rei observou, ligando o chuveiro. - Faz sentido, muitas pessoas simplesmente precisam de um tempo. Chris, novamente, precisou exercitar sua capacidade matemática fundamental para partir do um e chegar ao dez. Ele errou duas vezes, tamanha sua irritação. - Não tem nada a ver com Minako. - ele disse, não se importando se soava insensível. Um silêncio seguiu. Chris esperou pacientemente por uma reação. No momento que ele acreditou que a reação não viria, Rei enfiou cabeça no quarto: - Não? - Rei, o que nós somos? - Senshi e Dragon Kishi? - ela respondeu com uma pergunta. - Eu quis dizer nós. - ele falou, enfatizando a palavra em questão. - Eu e você. - Namorados, não? - ela falou. - Você queria que casássemos. - Rei, não está fucionando. - Chris disse, ciente que parecia a mulher do casal. Novamente, um silêncio foi a resposta. - Você acha que está tudo bem? - ele tentou. - Achava. - foi a resposta. Então, a paciência do Dragon Kishi se esgotou. Ele não contou até dez nem fechou os olhos. Simplesmente, falou: - Não está. Nós mal nos conhecemos, temos uma obrigação de ficar juntos para o resto da eternidade e não estamos tentando pensar num jeito disso ser tolerável! - ele levantou-se da cama, caminhando de um lado para o outro. - Você perdeu uma amiga sua e não me procurou para lhe dar apoio algum! Você teve uma visão ontem... uma visão importante, por sinal, e não me contou! - Rei saiu do banheiro, olhos arregalados. Ela abriu a boca para falar, mas Chris não lhe deu chance. - Você decidiu ir para a Grécia por sei lá quanto tempo sem sequer conversar comigo antes! E, depois de um dia inteiro sem falar comigo, simplesmente quer sexo! Como ontem, depois da sua visão! Como no navio! Como sempre! Rei piscou duas vezes e seu temperamento explosivo aflorou: - Você está com ciúmes porque eu não estou te incomodando com o meu sofrimento particular?! Acha que eu te devo explicação e obediência?! Eu posso ir e vir quando quiser! Posso convesar e beber com quem eu quiser! Saiba que existe milhares de homens que dariam os dois braços e as duas pernas para estar no seu lugar! - Saiba que só tem um homem que pode fazer isso por você! - Chris berrou de volta. Rei apenas ficou em silêncio, boquiaberta. O Dragon Kishi continuou. - Se você me quer como um amigo colorido, ótimo! Avise! - a voz dele baixou. - Mas se me quer como um companheiro, não pode me excluir da sua vida. Rei respirou fundo. Chris preparou-se para o que vinha pela frente, fechou os olhos para os insultos e gritos que ele supunha seguir. - Você tem razão. - Rei falou, soando cansada. - Desculpe. - ... o quê? - Desculpe. - Rei repetiu, com irritação. - Quer por escrito também? - Não! - Chris falou, mexendo as mãos num gesto negativo. - Eu só... me espantei. - Acho que o maior problema, Chris, é que nós não nos conhecemos. - ela falou. - Em quase nada. Superficialmente. Chris fez que sim: - Sim. - Eu não sou boa nessas coisas. - ela disse. - E você não devia ficar só esperando que eu, espontaneamente, fosse até você. - ela franziu a testa. - Como eu não esperei para conversar no ônibus. Novamente, Chris concordou. Dessa vez, sem dizer nada. - Eu... você tem razão. - ela falou de novo. - Eu estou... presa... a você. Eu não levei muito a sério a princípio, mas já percebi que algo mudou em mim. - ela deu um meio sorriso quase amargo. - Pensar em outros homens me deixava com um... uma sensação. Antes. - E agora? - Chris perguntou. - Agora, não. - ela falou. - É como se fossem... não sei. Bichos. Plantas. Outra espécie. - E eu? - Chris indagou. - Além de ser o único homem no mundo para seu corpo. Como eu sou para você. - Eu te amo. - ela falou. - Não consigo não te amar. - ela franziu a testa. - Não sei se é coisa de ser kalyriana ou se já estava lá, mas eu consigo ver isso agora. - Eu também te amo. - Chris respondeu. - Eu gostaria de ir para a Grécia. - ela falou. - E eu gostaria de conversar sobre... ela. - Por que a Grécia? - perguntou Chris. - Você não é... - Necessária? - Rei adivinhou. - Eu sei. - Então, por quê? - Porque Usagi estará lá. - Rei respondeu. - Eu devo tudo a Usagi. Saber que Minako morreu... - um tremor balançou o corpo frágil dela. - Podia ter sido Usagi. É assustador imaginar isso. - ela suspirou. - Não há mais Crystal Tokyo. Não como nós conhecemos. Não sem Minako. - ela olhou nos olhos de Chris e ele lá viu o pigmento avermelhado que se disfarçava tão bem no negrume. - E nada nos garante que Usagi viverá até lá. - os olhos de Rei abaixaram-se. - Eu não posso perdê-la. Não ela. Chris tomou o queixo dela com sua mão e ergueu-lhe o rosto, fixando seus olhos nos dela: - Por quê? Rei tentou desviar o rosto, mas Chris a manteve presa. - Por quê? - ele repetiu. - Porque eu... - Você...? - ... eu... amo... ela. - Rei disse. - Ama? - Chris perguntou, surpreso. - Não assim. - Rei falou. - E não só como uma irmã ou amiga. Como uma... rainha. Ela é como minha alma, como meu lar. Uma filha, uma mãe, uma irmã e uma amiga, tudo na mesma pessoa. Ela é a coisa mais importante na minha vida. - Rei... - Chris murmurou. - Eu gostaria de dizer que é você. Eu queria dizer que luto pelo bem da humanidade. - Rei suspirou. - A verdade é que eu luto só por ela. E mais nada. Mais ninguém. E eu preciso estar perto dela, me certificar que ela está viva e bem. Chris parou por um momento, digerindo aquela informação. Subitamente, as brigas e provocações entre as duas meninas ganharam um novo contexto. Ele olhou para dentro de si, quase esperando que uma pontada de ciúmes retornasse o olhar, mas não encontrou nada. O fato de Rei amar Usagi de uma forma tão pura e absoluta não o incomodava em absolutamente nada. Na sua mente, ele lembrou-se de um mandamento do Cristianismo que ele deixara com sua infância. "Amará a Deus acima de todas as coisas." Era assim, ele entendeu, que Rei amava Usagi. - Ok. - ele disse, finalmente. Rei fitou os olhos azuis de Chris por longos momentos, pensativa. Então, ela sorriu: - Não vai demorar. - Eu sei. - E nós não vamos tão cedo. - Eu sei também. - Eu vou ligar e escrever. - Rei. - ele falou, com um sorriso. - Não se preocupe. Eu só quero que você faça isso... fale comigo. - o sorriso tornou-se tímido. - Eu quero te conhecer melhor. Eu quero te conhecer tão bem quanto a mim. - Eu também. - ela admitiu com um sorriso. Malícia invadiu sua expressão facial e ela aproximou-se de Chris, envolvendo-o com os braços e beijando-o com ternura e paixão, ao mesmo tempo. Chris sorriu para si mesmo e retornou o beijo. Eles fizeram amor sem agressão ou violência pela primeira vez. **** E os dias passaram. Mizuno Ami encontrava-se, naquela noite, caminhando pelas iluminadas e frias ruas das proximidades do hotel onde as Senshi estavam hospedadas. Ela estava envolta em pesados agasalhos para protegê-la do frio canadense. Carregava, em suas mãos, duas grandes sacolas com alguns dos componentes menos esotéricos necessários para construir um sistema de segurança adequado. Não era a primeira vez que ela voltava tarde com compras para a implementação da nova base das Senshi e, ela sabia, não seria a última. O trabalho estava longe de finalizado. Ami poderia clamar, com facilidade, ser uma das pessoas mais ocupadas lá. Haruka-san tinha procurado a Senshi de Mercúrio no dia seguinte à reunião com Usagi, dizendo que não tinha idéia do que precisavam. As duas, então, começaram a estabelecer as necessidades que as Senshi e os Dragon Kishi poderiam ter com relação à sua base. A aquisição e construção de um centro de operações para o grupo ía além de meramente adquirir um lugar para que dormissem e descansassem. Precisava ser fora da cidade, espaçoso. Devia ter cômodos suficientes para uma enfermagem, talvez até um pequeno centro médico. Estrutura para computadores, um laboratório bem equipado. Sistemas de segurança. As duas empenharam-se na procura com afinco, finalmente localizando uma pequena fábrica que pretendia encerrar suas atividades no futuro próximo. A negociação foi rápida e tranquila e Haruka pagou à vista. Ami frequentemente se indagava quanto dinheiro Haruka e Michiru tinham e como elas fariam quando estes fundos acabassem. A Senshi de Urano, entretanto, não parecia preocupada com isso. Quando Ami apontou essa possibilidade para ela, uma risada e mais nada foi a resposta. Com um suspiro, Ami apressou seu passo, sentindo seus pés esmagarem a estranha mistura de neve e sal que cobria as calçadas. Ela sabia que não existia uma outra alternativa para o governo desbloquear as vias públicas com velocidade mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de achar desagradável a pasta acinzentada e encardida. A Senshi parou por um momento, olhando ao seu redor. Ela foi tomada, por um momento, pela sensação de estar sendo seguida. A sombra de um sorriso surgiu nos seus lábios. Ela podia não conseguir mais se transformar em Sailor Mercury, mas algumas das mudanças que a transformação trazia não ficavam limitadas à sua outra forma. Ela brevemente voltou seus olhos para as pesadas sacolas em suas mãos, cada uma pesando mais de trinta quilos. Ela nunca conseguiria carregar aquilo se fosse uma jovem qualquer. Ainda assim, pensou Ami, não vale o risco. Ela rapidamente fixou os olhos numa cafeteria vinte e quatro horas e caminhou para dentro, sentando-se em uma das mesas e depositando as sacolas e seus casacos nas outras cadeiras. - - perguntou um garçom. - - Ami respondeu. - - foi a resposta. Ami suspirou. Esse era outro aspecto que ela e as outras Senshi precisavam trabalhar. Elas precisavam tornar-se fluentes em inglês. Ami sabia que seu conhecimento seria considerado vasto no Japão, mas ela estava longe da capacidade de um candense ou americano. Os olhos azuis de Ami acompanharam o movimento do jovem, observando desatenciosamente enquanto o próprio garçom preparava seu pedido. Ele logo colocou a xícara sobre uma bandeja e trouxe até a mesa: - - - Ami respondeu, tomando o recipiente em suas mãos e levando até o seu rosto. Ela brevemente inalou o vapor da bebida, saboreando o cheiro adocicado, depois deu um grande gole. Ela podia entender porque os canadenses gostavam tanto de chocolate quente. Com o frio que estava nas ruas, uma bebida quente e doce era muito bem vinda. Enquanto terminava sua bebida, Ami olhou pela janela do estabelecimento, rapidamente sondando as ruas em busca do que quer que a tivesse incomodado. Não encontrando ninguém, ela deixou o pagamento pelo chocolate na mesa e se levantou, vestindo seus casacos e recolhendo suas sacolas. Ela caminhou até a porta e saiu. O frio da rua pareceu muito mais terrível depois do tempo que ela passou abrigada. Ami encolheu-se um pouco, num gesto instintivo para economizar seu calor, e voltou a caminhar na direção do hotel. A sensação de estar sendo seguida não voltou, mas a Senshi ainda manteve um passo rápido e olhos atentos. Ela já estava defronte à entrada quando ouviu o grito. As suas duas sacolas caíram no chão e Ami disparou numa corrida na direção da fonte do som. A sua mente tentava, freneticamente, reconhecer de quem era a voz, que soava tão familiar. O frio não a incomodava mais e a adrenalina tomou seu corpo. Um segundo grito, mais alto e da mesma pessoa, quebrou o silêncio. Ami apressou seus passos, virando num pequeno beco entre dois edifícios. Seus olhos se arregalaram e ela, também, soltou um grito. **** Chris reagiu automaticamente ao grito de Ami. Ele largou a chave de fenda que estava segurando e correu. Ele ouviu, distantemente, a ferramenta se estatelar contra as peças internas do computador em que ele trabalhava, mas ignorou o som. Silenciosamente, o Dragon Kishi agradeceu aos céus por estar no andar térreo do hotel, fora do seu quarto. Ele estava atravessando o corredor numa velocidade impossível para um ser humano normal, se perguntando o que poderia ter feito Ami gritar daquele jeito. Tão concentrado estava, que ele esqueceu de pegar seu casaco antes de sair do hotel. A chuva fina que caía lembrou-lhe do seu estado desagasalhado, mas ele, ignorando o frio intenso, ele começou a correr na direção do grito: - Ami! Chris ouviu passos atrás de si, mas não parou para olhar. - Aqui! - a voz de Ami gritou de volta. O Dragon Kishi parou subitamente, virando-se para um pequeno beco. - O que houve? - Ten'ou Haruka, a Sailor Uranus, perguntou ao lado dele. - Ami? - Chris chamou novamente. Os dois guerreiros avançaram lentamente, olhos e sentidos atentos a quaisquer ameaças. O beco, apesar de escuro, não era comprido e eles logo chegaram a Ami. A Senshi de Mercúrio estava ajoelhada ao lado de uma pequena e enrugada figura, tentando enrolar algo no seu tórax. Sacolas de compras jaziam descartadas ao redor dos dois. Chris aproximou-se, sentindo um frio dominando seu estômago. Um cheiro familiar pairava no ar, mas ele não reconheceu imediatamente. - Hino-san. - Haruka falou, reconhecendo a figura primeiro. - Ami. O que houve? O Dragon Kishi de Saturno mal ouviu a explicação, seus olhos azuis fixos na pequena e imóvel figura. Havia sangue pelo chão misturado com água de chuva, ele podia ver. A cabeça de Hino-san estava tombada para trás e seus olhos, arregalados. Ele não se mexia. O cheiro era do sangue, ele percebeu. - Eu ouvi um grito. - Ami disse, sem levantar os olhos de sua tarefa. Ela tentava, inutilmente, massagear o peito do velho. - Entrei aqui. Um vulto saiu correndo, saltou o muro no fim do beco e fugiu. Vovô Hino... - Ami olhou para a figura nos seus braços. - Eu acho que não tem nada que possamos fazer por ele. Chris xingou. Ele aproximou-se do velho caído, ajoelhando-se ao seu lado e olhou para os ferimentos. Qualquer coisa que tentassem fazer por ele seria em vão. O que quer que tenha atacado o ancião, tinha aberto uma fenda no seu tórax no lado direito, rasgando pulmões e intestinos. O choque e a perda de sangue devem tê-lo matado antes de uma insuficiência respiratória. - Temos companhia. - disse Haruka, olhando para trás. Chris e Ami olharam para a entrada do beco simultaneamente. Usagi, Rei e Makoto estavam lá. Atrás delas, Andrea e Ranko. E mais passos aproximavam-se. - Rei... - falou Haruka. - É melhor você não ver isso, Rei. - disse Chris, levantando-se. Com o canto dos olhos, ele viu Ami levantar com ele e caminhar até o fundo do beco. Ele foi até a Rei, intento em impedí-la de ver a imagem do seu avô daquele jeito, mas a sacerdotisa simplesmente encarou-o em silêncio por alguns instantes e depois caminhou ao seu redor. Chris ficou ali, parado, de costas para a cena. - Meu Deus... - foi a voz de Usagi que se pronunciou. Ela tinha acompanhado Rei. - Isso não é obra de um humano. - a voz de Luna comentou. Chris virou-se lentamente, incerto de como ajudar Rei naquele momento. A sua namorada estava ajoelhada ao lado do corpo. - Os outros hóspedes ouviram o grito e estão vindo. - disse Michiru, chegando correndo. Hotaru estava ao seu lado, mas parou na boca do beco ao perceber o que tinha lá dentro. Chris olhou para as duas Outer Senshi, depois para Rei. Respirando fundo, ele aproximou-se da Senshi do Fogo e esticou seu braço, tocando levemente o ombro dela. Rei afastou-se. Chris franziu a testa, mas não tentou confortar Hino Rei novamente. - Precisamos impedir que os outros vejam isso. - comentou Ranko. - Chris, Haruka e Ranko. - Usagi chamou, com uma voz estranhamente calma. - Eu quero que vocês percorram a região. Rápido. Precisamos achar esse monstro. Ou nos certificar que ele não está mais por aqui e não é uma ameaça para as pessoas. - Sim, hime-sama. - Haruka respondeu, disparando numa corrida imediatamente. Ranko a acompanhou. Chris, entretanto, hesitou. - Mako-chan, Hotaru-chan e Andrea. - Usagi continuou. - Eu quero que vocês e os gatos falem com as pessoas que estão na entrada do beco e as convença a ir embora. Ou voltar para o hotel. - ela voltou um olhar para Chris, sem falar nada. Ele piscou, vendo o pedido silencioso no rosto da princesa da Lua. Ele hesitou por mais um momento, ainda achando que devia ficar próximo de Rei, mas disparou numa corrida em seguida, seus olhos atentos a qualquer movimento ou vulto estranho. **** Usagi observou enquanto Chris finalmente obedecia às suas ordens e saía da cena do crime. Ela duvidava que o monstro que fez aquilo com o avô de Rei estivesse nas redondezas, mas sabia que precisava diminuir o número de pessoas ali. Sua amiga merecia a privacidade para se despedir do seu avô. Mesmo do seu namorado. - Michiru-san, Ami-chan... Por favor, vão até a rua e procurem quaisquer rastros ou pistas do atacante. - Sim. - respondeu Michiru, virando as costas e saindo. Ami apenas seguiu-a, lançando um breve olhar na direção de Usagi e Rei enquanto passava. Então, restaram apenas as duas no beco. Usagi lançou um olhar longo na direção da sua amiga e suspirou. A pior parte era que a princesa não conseguia mais sentir-se tão abalada quanto se sentiria normalmente. De alguma forma, as mortes começaram a fazer parte da vida delas. Setsuna. Maury. Ship. Minako. O avô de Rei. Lágrimas começaram a se formar nos olhos azuis de Usagi, mas ela esfregou a manga do seu casaco sobre elas, desfazendo-as antes que se formassem. - Rei-chan, eu vou para lá. Deixar você a sós com... ele. A princesa da Lua começou a virar-se para sair, quando uma mão agarrou seu pulso. Lentamente, Usagi olhou para o membro em questão, vendo que, de fato, pertencia a Rei. - Não me deixe, Usagi. - a sacerdotisa murmurou, com uma voz distorcida por sua tristeza. Usagi aproximou-se, incerta de como agir. Um puxão de Rei indicou que ela devia ajoelhar-se ao lado da Senshi. Ela o fez sem hesitar. Então, foi envolta por braços esguios e fortes, e Rei enterrou o rosto no seu ombro, molhando o casaco rosa que Usagi usava. - Só me restou você, Usagi... - a sacerdotisa murmurou, apertando sua princesa. - Rei-chan... - a loira falou, incerta de como reagir. - Das pessoas que eu amo, realmente amo, só me restou você. Os lábios de Usagi se comprimiram, tentando impedir que os soluços que se formavam na sua garganta escapassem, e ela fez que sim, abraçando sua amiga. - Rei-chan, vai ficar tudo bem. Eu não vou te abandonar. E Rei começou a soluçar. Usagi apenas a abraçou, murmurando palavras de segurança e amor no cabelo negro de sua amiga, ignorando a garoa que caía sobre elas. A sua mente, entretanto, estava no corte no peito do avô de Rei, na impossibilidade de ser obra humana. Ela precisava de ajuda. Um relâmpago iluminou o céu, como se respondendo à sua questão. Um relâmpago que lembrava, estranhamente, um dragão. **** Kino Makoto estava olhando para o céu coberto por nuvens como se fosse a última vez que fosse vê-lo. Ela sentia-se fria por dentro, vazia. O calor do seu quarto parecia uma realidade distante da sensação que envolvia seu coração. Na sua mente, ela revia Maury caído. Imaginava os olhos azuis de Minako encarando o céu, sem vida alguma neles. Lembrava da risada dos seus pais. O punho da jovem se fechou com força. Suas unhas compridas romperam a pele da palma da sua mão. A expressão facial dela, entretanto, não se alterou. Manteve- se serena, encarando o céu. Ela estava cansada. Por um momento, Makoto se perguntou se todas as Senshi estavam sentindo aquilo. Se todas elas tinham a sensação de carregar o mundo nas suas costas. Ela se perguntou se todas tinham recebido a mesma oferta que ela. - Receberam? - ela falou em voz alta. Era, claro, uma pergunta inútil. Apenas as próprias Senshi poderiam respondê-la e Makoto não achava que seria algo a se perguntar. O comunicador dela tocou. Por um momento, Makoto pensou em ignorá-lo. O pensamento foi passageiro, entretanto, e ela caminhou até sua cômoda, pegando o pequeno aparelho: - Jupiter. - Mako-chan? - a voz de Usagi falou. - Gostaria de pedir um favor a você. - Sim? - Preciso que chame LD aqui. - ela falou. - Nós precisamos dos Noble Kishi. Makoto fez que sim, mecanicamente. Ela se lembrou da ligação que fizera do navio, da breve conversa que teve com Mark Kasen. - Falarei com ele. - Makoto assegurou Usagi. A loira sorriu pela tela do comunicador: - Obrigada, Mako-chan. - Não há de quê. - Makoto respondeu. Ela parou por um momento, depois falou, antes que sua líder desligasse. - Usagi-chan. Você é minha melhor amiga. - e desligou. A Senshi de Júpiter ficou olhando para o comunicador inerte por um momento, se perguntando se falara demais. Largando o pequeno aparelho na cômoda, ela olhou para o céu nublado uma vez mais. Em seguida, Makoto caminhou até a janela e fechou as cortinas. Ela voltou-se para o espelho que havia na parede do armário, e rumou até lá. Seus olhos verdes encaravam-na no reflexo. - Você promete cuidar dela? - ela perguntou. Com a minha vida, foi a resposta silenciosa. - Melhor do que eu? Sim. - Eu... me sinto mal. Fazendo isso. Eu sei. Mas você sabe que não tem condições de continuar. - Sim. - Makoto parou, fitando seus próprios olhos. - O que vai acontecer comigo? Eu não sei, foi a resposta. Se tudo correr bem, você irá para... outro lugar. O fantasma de um sorriso surgiu nos lábios do rosto de Kino Makoto. Ela tremia, assustada: - Cuide bem dela. - ela falou, reforçando. Kino Makoto respirou fundo e deixou seu corpo cair para trás, na espaçosa e confortável cama. Ela observou o teto por um momento, e fechou os olhos. Os olhos verdes dela se abriram e a jovem se levantou da cama lentamente, como se desacostumada com a ação. Ela piscou algumas vezes, e percebeu que não estava respirando. Com uma ação consciente, ela aspirou o ar. E a princesa Juno de Júpiter respirou pela primeira vez em milênios. Fim do Capítulo 5 Capítulo 6: Amor e Justiça Mercury Knight e Venus Knight se materializaram no meio do Pólo Norte. Hg piscou, sentindo a breve vertigem que acompanhava o teleporte desaparecer, e olhou ao seu redor. As planícies de gelo ao seu redor já eram uma paisagem familiar e traziam à tona lembranças boas e ruins. Seus olhos se estreitaram enquanto se lembrava de Helen. Ela estivera em quase todas suas visitas àquele lugar. - Incrível. - ele ouviu Rachel sussurrar. - Sim. - ele concordou. Apesar de familiar, o lugar estava longe de ser idêntico a como estivera na última visita dos Knights. O inverno tinha chegado e, com ele, uma escuridão que cobria os céus. A neve, reluzente e cristalina sob o Sol do verão, era uma imensidão assustadora sem luz alguma. - Como entramos? - Venus Knight perguntou. - Esperamos. - Mercury Knight respondeu. - Eu avisei que viríamos e nossa chegada deve ter disparado algum sistema de segurança. Venus Knight fez que sim e voltou-se para olhar, pensativa, para as estruturas de gelo que ainda mantinham-se em pé. Hg acompanhou o olhar de sua irmã, constatando que ela olhava para o mesmo pilar onde Serenity enfrentou a Negaforça. - Você pensa naquele dia? - Rachel perguntou. Hg piscou, surpreso, e olhou para sua irmã. Ela parecia entretida com a paisagem. - Às vezes. - o Knight admitiu. - Não muito. - Eu me esforço para não pensar. - Venus Knigh disse. - Não importa o que aconteceu depois. Eu ainda consigo lembrar claramente da sensação do ataque de Jedite no meu corpo. A queimação e a dor. - Eu nunca te agradeci por ter me salvo aquele dia. - disse Hg, como se lembrando. - Obrigado. - Você não tem porque agradecer. - Rachel disse. - Eu fiz o que precisava ser feito. - Todos fizemos. - Hg falou, olhando para o chão. Os dois Knights voltaram a ficar em silêncio. Hg deixou sua mente voltar-se para dias mais simples, para a luta dos Star Knights contra o Negaverso. Antes das mortes, antes de conhecer o futuro. Desde que eles foram para o Japão, tudo parecia ter se complicado. A relação com as Scouts, o Clã Black Moon. De alguma forma, Hg ficara com uma sensação de derrota depois de todo o combate deles no futuro. Isso, ele pensou, porque eu não estou lembrando do retorno ao apartamento. Ele conseguia enxergar, com detalhes perfeitos, a imagem de Hela apoiada na mesa de jantar, do seu amante tomando-a por trás. Serena tinha razão. Mais que qualquer coisa, Hg estava com seu orgulho ferido. Não era ciúme ou tristeza que ele sentia ao lembrar-se da imagem. Tampouco a sensação de perda. Hg sentia-se única e puramente um derrotado. Como se ele tivesse deixado de completar uma missão que lhe fora confiada. A imagem da traíção de Hela se transformou na quase derrota que ele sofreu no shopping. Os lábios do Star Knight se comprimiram enquanto ele se recordava dos golpes do monstro e da velocidade. A arrogância de Mercury Knight quase lhe custara a vida. Quase custara a vida de Serena e dos outros. Fate teria ficado desapontada com ele. - Hg? - a voz de Venus Knight arrancou-lhe de seus pensamentos. - Eu acho que alguém está se aproximando. Mecury Knight se virou para a direção que Venus Knight apontara e sorriu. - Hg. - Neflyte cumprimentou, caminhando pela neve. - E Rachel. Fico feliz em vê-la bem. E recuperada. - Ninguém consegue ficar longe do ramo por muito tempo. - Ray respondeu, sem humor algum na sua voz. - É um prazer revê-lo, Neflyte. - Hg falou. - É uma pena que as circunstâncias não sejam melhores. - As planícies geladas não são um lugar adequado para discutir. - Neflyte disse. - Venham. Ele aproximou-se dos dois Knights, tocando-lhes os ombros. Hg sentiu a sensação familiar de desorientação que acompanhava um teleporte e, subitamente, eles estavam numa das salas do palácio do Negaverso. Olhando rapidamente ao seu redor, Mercury Knight constatou que devia ser uma sala de planejamento estratégico. Mapas, uma mesa circular com muitas cadeiras. - Vocês já pensaram em mudar a arquitetura? - Rachel perguntou, olhando ao redor. - Ainda parece o lar de um vilão. Neflyte riu alto e Hg permitiu que um pequeno sorriso transparecesse. - A sugestão será considerada, Venus Knight. - ele voltou-se para Hg. - Em que posso ser útil? - Se incomodam se eu for conversar com Hematite? - perguntou Rachel, subitamente. - Eu não gosto desse papo de líder pra líder. - Claro. - disse Neflyte, surpreso. Ele fechou os olhos por um momento, comunicando-se com sua subordinada, depois falou, sorrindo. - Ela estará do lado de fora em alguns instantes. - Obrigada. - Rachel falou, caminhando até a porta. Hg sorriu internamente. Ele e Rachel tinham combinado isso antes de se transportarem para o Negaverso. Ela iria fazer um tour pelo palácio com Hematite, procurando qualquer sinal que indicasse o desenvolvimento de youmas mais poderosos ou um possível plano de invasão. Neflyte e Hg ficaram em silêncio, observando enquanto a Knight de Vênus rumava para fora do recinto. Finalmente, a porta fechou-se. - O que houve, Hg? - Neflyte perguntou. - Você disse que era urgente. - Vocês monitoram as televisões aqui? - Hg perguntou. - Não. Não temos pessoal suficiente para isso mais. - o líder do Negaverso respondeu, com sinceridade. Mercury Knight fez que sim, mais para si mesmo que para Neflyte. Ele materializou seu computador e digitou algumas coisas no teclado antes de indicar que o youma fosse ver o que fazia. Com uma expressão curiosa, o soberano do Negaverso acompanhou. A tela de Hg mostrou uma das gravações da luta no shopping. Neflyte assistiu, impassível, a quase derrota do grupo. - O que é isso? - Neflyte perguntou, sua voz baixa. - Um youma. - Hg falou, olhando de canto para o seu amigo. - Um youma poderoso o suficiente para quase derrotar todos nós. - Quem é o garoto que deu cabo do youma? - Neflyte perguntou, impressionado. - Não sei bem. - Hg admitiu. - Um visitante de outra dimensão, pelo que entendi. - ele ordenou que seu computador repetisse a cena. Neflyte fez que sim, seus olhos fixos nas imagens que corriam pela tela. Finalmente, a segunda exibição terminou, e Hg desmaterializou seu computador. O líder dos youma continuou olhando para o lugar onde a tela esitvera pouco antes, imóvel. - Você acha que eu estou envolvido? - perguntou Neflyte. - Eu acho que você é a pessoa mais apropriada para me responder de onde esse youma veio. - Hg respondeu, tomando cuidado com suas palavras. Os seus dois olhos estavam fixos no outro homem e seus músculos, tensos. Ele estava preparado para um combate, se isso se fizesse necessário. Neflyte virou-se para ele, uma expressão neutra no seu rosto e olhos fixos nos de Mercury Knight. - Eu sou um homem de palavra. - ele disse. - E honro meus acordos. - Eu sei disso. - Hg respondeu, encarando o youma. - Se eu achasse que foi você, eu teria trazido as Scouts também. - seus olhos se estreitaram. - E o Cristal de Prata. Os dois continuaram se olhando e Hg sentiu a tensão crescendo. Silenciosamente, ele pediu a qualquer entidade que ouvisse que ele não tivesse julgado mal Neflyte e que aquilo não fosse uma pá de cal sobre o frágil acordo entre os youma e os humanos. - Desculpe-me, Mercury Knight. - Neflyte falou, suspirando e baixando a cabeça. Hg relaxou. - Essa relação amigável com vocês ainda me parece boa demais para ser verdade. - um sorriso surgiu no rosto do youma. - Eu fico esperando a hora que vocês irão invadir o meu reino e dizimar minha raça. Hg piscou: - Nós não somos o tipo de pessoa que sai dizimando raças sem provocação. - um meio sorriso surgiu nos seus lábios. - Só com provocação. Neflyte jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Mercury Knight apenas permitiu-se um meio sorriso. - Hg, eu vou ser sincero com você. - o líder dos youma falou, quando sua risada acalmou-se. - Se nós pudéssemos produzir um ser com metade do potencial do monstro que vocês enfrentaram, é bem provável que nós tivéssemos vencido a batalha contra vocês e as Sailor Scouts. Hg fez que sim: - Eu imaginei. Precisava confirmar, mas não achei que vocês realmente estivessem por trás daquele youma. - E por que veio? - perguntou Neflyte, genuinamente curioso. - Por dois motivos. - Hg respondeu. - Primeiro, queria saber se você imagina de onde esse youma pode ter vindo. Existiu alguma colônia, alguma outra possível origem para youmas além do Negaverso? - Neflyte abriu a boca para responder, mas Hg continuou. - Segundo, eu queria um favor pessoal seu. - o olhar de Mercury Knight se tornou duro e os restos de sorriso se foram dos seus lábios. - Eu quero que me ensine como matar a sua raça. Matar bem. **** Kazeno Ken suspirou, encostando-se no travesseiro apoiado na cabeceira do seu leito. Ele fez menção de mexer seu braço direito, hesitou, e, com sua mão esquerda, ele agarrou o controle remoto da televisão e a desligou. Ele sentiu uma coceira na sua palma direita e fez uma cara de irritação, voltando seus olhos verdes para o toco que era seu antebraço direito. Ele detestava essas coceiras fantasmas. - Que foi? - Ryu perguntou. O líder dos Dragon Kishi tinha seus olhos vermelhos fixos em Ken. De tempos em tempos, eles deslizavam até o toco de braço do Dragon Kishi da Terra. - Você teve sorte. - Ken respondeu, ignorando o olhar de Ryu. - Sorte? - Da câmera não ter filmado seu rosto. - Ken esclareceu. - Muitas pessoas teriam lembrado de você do outro dia. - Ah. - Ryu falou, desviando o olhar. - Não tinha escolha. Eles íam ser derrotados. - Duvido muito. - Ken retrucou. - E nós não devíamos nos meter nos conflitos deles. - os olhos dele se estreitaram. - Você viu o que aconteceu no nosso mundo quando tivemos influências de outra dimensão. - É totalmente diferente. - Ryu respondeu, sua voz fria. - Eu estou ajudando. - Nós não podemos prever os resultados de nossas ações. - Ken falou. - Você pode... Ryu se levantou e aproximou-se alguns passos, seus olhos vermelhos fixos nos verdes de Ken. Por um breve momento, o Dragon Kishi da Terra sentiu um medo irracional tomar seu ser. O instante passou, entretanto, e ele encarou seu líder de volta. - Aquele youma foi nossa culpa. - Ryu falou. - Nossa culpa? - Ken ecôou, sentindo como se uma pedra de gelo tivesse sido largada no seu estômago. - Aquele youma tinha a mesma... sensação... que os de Dark Angel. - Ryu falou. Ken fechou seu punho e golpeou a cama: - Eles devem estar atrás de nós. - Nós não sabemos disso. - Ryu respondeu. - Você é o que, imbecil? - Ken gritou. - Por que mais eles estariam aqui? Nós precisamos sair daqui! - Não sou imbecil, Ken. - Ryu rosnou de volta, claramente irritado. - Mas você deve ser. Nenhum de nós sabe o que Dark Angel queria no nosso mundo. - os olhos vermelhos dele se estreitaram. - E se ele tiver nos seguido aqui e encontrado o que precisa nesse mundo? - Ryu... - Eu não vou abandoná-los aqui. - os olhos vermelhos do kalyriano se estreitaram. - Não vou deixá-la morrer de novo. - Mina não é Minako, Ryu. - Ken falou, sentindo mais um mau pressentimento. - Ela não é... - Não é? - Ryu perguntou, sua voz um rosnado. - Você tem certeza? Ken abriu a boca para responder, pronto para apontar que as duas eram, claramente, pessoas diferentes. Ele não falou nada, entretanto, subitamente duvidando de si próprio. O que, afinal, diferenciava uma pessoa da outra? Mina Aino, provavelmente, era uma cópia perfeita em termos genéticos de Aino Minako. A única diferença entre as duas era, provavelmente, a experiência de vida. E, mesmo assim, Ken já percebera que muito era similar entre os dois mundos. - Não. - Ken admitiu. - Mas isso não muda o fato. Nós não podemos ficar aqui. - Por que não? - Ryu perguntou, virando suas costas para Ken. - Como assim? - o Kishi da Terra perguntou, surpreso. - Porque nós temos responsabilidades lá! Porque Dark Angel está atacando nosso mundo! - a voz de Ken aumentou. - Porque ele matou Shippu, Kyoko e Kitsune! E Minako! E Mamoru! Isso não pode ficar assim! - Não foi uma proposta séria. - Ryu falou, sem se virar. Sua voz era dura. - Eu sei tão bem quanto você quem morreu. - ele voltou-se para Ken. - Ao mesmo tempo, por que voltar? Por vingança? Ken queria responder que sim, por vingança, mas conteve-se. Que tipo de motivo era aquele, ele se perguntou? Que tipo de pessoas eles estariam se tornando se fizessem as coisas apenas para causar dor? - Minako está viva aqui. Ami está aqui. Akai está feliz. - Ryu falou. - Por que ir embora? Nós cumprimos nosso dever. O Ginzuishou está a salvo. - Ryu. Nosso dever nunca acaba. - Ken falou, sua voz baixa e incerta. - Eu nunca imaginei que teria que dizer isso para você. - ele confessou. Ryu virou-se para Ken, pronto para responder, quando a porta do quarto se abriu. Instantaneamente, o líder dos Dragon Kishi saltou para o canto do quarto, sacando sua espada. Ken, antes mesmo de perceber o que fazia, rolou da cama, abrigando-se atrás do móvel e fixando os olhos na porta através do reflexo na janela. - ... tudo bem aqui? - perguntou Mina, surpresa. - Ken-san, você não deveria estar fora da cama. - Amy advertiu. Ken suspirou, aliviado, e se levantou, sentando-se na sua cama em seguida. Ele lançou um olhar na direção de Ryu, vendo que seu amigo ainda não tinha relaxado e que continuava olhando para as duas jovens com suspeita. - Ryu-kun? - Mina falou. - Desculpe. - o kalyriano falou, guardando sua espada. - Só estou tenso. Com a luta de hoje cedo e tudo. - Percebi. - a loira observou. - Você está ocupado? - ... não. - Ryu respondeu. - Já almoçou? - Também não. Mina ficou olhando para ele, como se esperando algo. Ken sorriu para si mesmo. Em algumas coisas, seu amigo nunca mudaria. - Ryu, ela quer que você a leve para almoçar. Ryu piscou: - Ah. - ele virou-se para Mina, seu rosto um pouco vermelho. - Vamos? - Claro! - Mina respondeu com um largo sorriso. - Ken-san, se não se incomoda, gostaria de examinar algumas coisas em você. E conversar. - Amy falou. - Claro. - ele respondeu, seus olhos fixos no rosto familiar de Amy. Ryu tinha razão. A voz, a aparência... Ela era idêntica à Ami por quem ele se apaixonou. Subitamente, ele sentiu uma compaixão enorme pelo seu líder. Ele imaginou como reagiria se a sua Sailor Mercury tivesse sido assassinada e uma outra versão dela surgisse, igual em tudo. Ele, sinceramente, não sabia. - Estamos indo. - Mina falou, abrindo a porta. - Ken. Estaremos no comunicador de Mina, se precisar. - Ryu falou. Ken podia jurar que ele quase colocou o "ko" no final do nome de Mina. O Kishi suspirou e pediu a qualquer entidade que estivesse ouvindo que não deixasse aquilo tudo terminar mal. A porta do quarto se fechou. - Ken-san. Sobre hoje mais cedo... - Eu peço desculpas, Mizuno-san. - Ken falou, baixando os olhos. - Eu realmente confundi você com... a minha Ami. Amy fez que sim, sentando-se ao lado da cama e desviando o olhar: - Eu entendo. - Ken podia jurar que ela soava um pouco desapontada. - Ryu- san realmente parece gostar de Mina-chan, não? - Acho que ele gosta mais do que ela poderia ter sido. - Ken respondeu. - A perda de Minako é muito recente para ele. Novamente, Amy fez que sim. Ela ainda não olhava para ele. - Além disso, ele está sendo inconsequente. - Ken continuou. - Nós vamos precisar voltar para o nosso mundo. E Mina não poderá ir conosco. - Pensei que Ryu-san tivesse dito que vocês selaram o portal no seu mundo. - Amy falou. - Como humanos normais, não vejo porque deveriam assumir a responsabilidade de continuar protegendo o seu universo. Ken piscou, incerto de como responder. Amy estava dizendo para ele quase a mesma coisa que Ryu dissera. E os dois tinham certa razão. Ken tomou um instante para olhar para dentro de si, buscando os motivos para ele incomodar-se tanto com a idéia de não voltar. A imagem do rosto de Ami veio-lhe à mente. - Você... sente falta dela. - Amy falou. Ken olhou para ela e, por um momento, lembrança e realidade pareciam fundidas diante dos seus olhos. Em silêncio, ele fez que sim. - O suficiente para arrancar do seu amigo a chance de ser feliz? De amar alguém? Ken ficou em silêncio. - Devo admitir que a sua presença aqui me fez pensar, Ken-san. E muito. - ela olhou para ele, finalmente. - É estranho encontrar alguém que, de certa forma, me conhece intimamente. - ela ficou vermelha e olhou para baixo. - Você pareceu saído de um sonho ao me beijar. - Hã? - Ken perguntou. - Sabia exatamente como me agradar. De certa forma... - um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Amy. - Foi como eu sempre sonhei que seria. - Você... nunca tinha beijado ninguém antes? - Ken perguntou, surpreso. Amy apenas balançou a cabeça, incapaz de encará-lo. Ela gosta de mim, o Kishi pensou. Apesar de ser um total desconhecido para ela, Ken podia ver, claramente, os sinais de uma paixão. Fazia total sentido para ele. Se Amy fosse tão tímida quanto Ami, a situação toda era praticamente uma garantia de reciprocidade sem precisar se expôr. Ele abriu a boca para dizer que não sentia nada por ela, que ele tinha sua Ami esperando, mas não o fez. O seu próprio coração estava acelerado. Ele estava sentindo aquela mesma sensação boa que sempre vinha perto de Ami. Quando Ken se deu conta, ele já tinha segurado o rosto da jovem Scout diante de si e a puxado para perto. Ele observou, quase como um passageiro no seu próprio corpo, enquanto tocava os lábios dela com os seus, com aquela mesma delicadeza dos seus primeiros beijos com Ami. Lembrar da outra Mizuno arrancou-o de seu transe e ele afastou o rosto, sabendo que um olhar confuso adornava suas feições. - Ken-san. - Amy falou, levantando-se. - Quero que saiba que não seria tão terrível para nós ter a ajuda de vocês aqui. - ela afastou-se, caminhando de costas, seus olhos azuis ainda prendendo os verdes dele. O coração de Ken estava disparado. - Se a missão de vocês tiver terminado lá, se vocês não puderem ir embora... eu... nós ficaremos felizes em termos a sua presença. - e ela virou e saiu do quarto, aparentemente abandonando os planos de examiná-lo. A mão de Ken tocou seus próprios lábios, enquanto seus olhos não conseguiam se desviar da porta recém-fechada. Qual era, afinal, a diferença entre Ami e Amy? Qual era diferença entre Mina e Minako? Qual era a diferença entre Lethe e Setsuna? Lucifer e Dark Angel? Os pensamentos de Ken voltaram-se para um viés mais negro mas, ao mesmo tempo, mais seguro. **** Neflyte riu. - Como matar bem um youma? - ele perguntou. - Acho que era mais fácil você me ensinar isso, Hg. Mercury Knight balançou a cabeça sem sorrir: - Eu concordaria com você, Neflyte. Normalmente. - ele voltou seu rosto para a janela, contemplando a paisagem escura do lado de fora. - Mas nós sempre contamos com a fisionomia humanóide ou com poderes superiores para dar cabo de um youma. - o Knight voltou-se para o líder do Negaverso. - O youma que enfrentamos não era humanóide e era poderoso demais para ser eliminado com um simples ataque. Neflyte fez que sim: - Compreendo. Mas como eu poderia ajudá-lo com isso? - Eu quero entender, Neflyte, o que é um youma. O ex-General piscou, incerto de como responder. Mercury Knight, vendo a confusão do youma, continuou: - Por que você e, por exemplo, Morpheus, o youma que mudava de forma, são considerados da mesma raça? - os olhos do Knight se estreitaram. - O que vocês têm em comum? E Neflyte entendeu o que Hg estava procurando. Se ele encontrasse um ponto constante em todos os youmas, ele, provavelmente, poderia encontrar uma forma de enfrentar esses novos monstros que estavam vindo. Ele queria uma vantagem tática, estar um passo a frente dos seus novos inimigos. O soberano do Negaverso pensou por um momento. Ele sabia, claro, o ponto comum da sua espécie. Entretanto, seria um passo grande compartilhar isso com alguém de fora do reino. Os olhos azuis de Neflyte fitaram Hg longamente, tentando avaliar o quanto o jovem era seu aliado. Ele sabia que teria um aviso prévio de qualquer traição de Mercury Knight através da pulseira que os dois compartilhavam. Mais que isso, tinha sido Hg quem foi ao Afterlife resgatá-lo. Libertá-lo da influência de Beryl. Hg e Molly... O General respirou fundo, empurrando os pensamentos para o fundo da sua mente com o gesto. Ele não tinha escolha. Se Mercury Knight precisava de ajuda, ele providenciaria. - Hg, espero que você entenda o que estou compartilhando com você. - ele falou. Hg piscou, sem entender. - A raça youma é desconfiada por natureza. - Neflyte falou. - Nós crescemos num ambiente hostil desde jovens. Sempre tivemos que lutar pela nossa sobrevivência e nos defender do próximo. - o youma começou a caminhar em direção à porta. Hg hesitou, mas seguiu. - Nós somos uma raça relativamente jovem. Moldados à imagem e semelhança da Negaforça. Somente agora, com o seu fim, que estamos realmente livres da sua influência. - Entendo. - Hg falou. Eles estavam caminhando pelos corredores do palácio. Neflyte sorriu para si mesmo. Venus Knight tinha razão. Eles deviam mudar a arquitetura do lugar. Era mais uma peça da vida deles que fora feita à imagem da Negaforça. - Por semos moldados de tal forma, nós somos muito mais parecidos com a Negaforça, energia, que com seres físicos. - Neflyte sorriu. - Nossos corpos físicos são apenas uma expressão dessa energia. - Como assim? Neflyte parou e voltou-se para Hg. Os olhos do ex-General brilharam um verde sinistro e sua pele pareceu tornar-se transparente, mostrando um fluxo de energia passeando pelo seu corpo. Todo o fluxo parecia sair e voltar para um ponto brilhante próximo ao que seria o coração do youma. Mercury Knight observou, boquiaberto. - O truque para nos matar com facilidade, Mercury Knight, é atingir o nosso núcleo. - a voz de Neflyte parecia pesarosa. - É um emaranhado de energia onde nós, efetivamente, residimos em nossos próprios corpos. - um brilho envolveu o youma e ele voltou ao normal. - Só atingindo o nosso fluxo de energia que podemos ser, realmente, feridos. Sobrepujando nossa própria força é um jeito de nos matar, como vocês sempre fizeram. Eliminar completamente o recipiente de nossa alma, também. - ele olhou para baixo. - Mas para nos matar com facilidade... O núcleo. Hg caminhou em silêncio ao lado de Neflyte. Aquilo explicava muita coisa. Explicava porque era necessário o contato físico ou a descarga de energia para matar um youma. O corpo externo era uma casca sem significado e apenas com a própria energia suportando o ataque que eles poderiam realmente ferir um youma. - Por isso que os corpos de vocês viram pó. - Hg constatou. - Porque não é o fundamental. - Não exatamente. - disse Neflyte, finalmente parando diante de uma porta pequena e pouco impressionante. - O corpo é um reflexo do núcleo, completo em todos os aspectos. Se os nossos corpos fossem estudados, nosso núcleo seria estudado. A Negaforça criou essa... desintegração... para que não pudessem nos estudar. Além disso, é desvantajoso para nós deixar corpos para trás. Na nossa sociedade, coisas... desagradáveis poderiam ser feitas com eles. - Interessante. Neflyte sorriu e abriu a porta. Os dois entraram no pequeno recinto. - O Negaverso não tem uma linguagem escrita. - Neflyte falou. - Nossa tradição é oral. Totalmente. Toda nossa literatura se resume a um livro. - ele caminhou na escuridão do quarto e pegou algo, trazendo de volta. Neflyte sorriu para si mesmo, sentindo o peso familiar do único livro escrito no Negaverso. Com um longo suspiro, ele o entregou a Mercury Knight. - O que é isso? - "Estudos de uma Sociedade Primitiva". - respondeu Neflyte. - Do explorador do Milênio de Prata que abriu o caminho entre os dois mundos pela primeira vez. - ele sorriu. - Antes de Beryl e a Negaforça transportar um pedaço do nosso mundo para o subterrâneo do Pólo Norte. Mercury Knight apenas ficou olhando para o pesado tomo em suas mãos, incerto de como responder. Finalmente, ele falou: - Eu devolvo assim que possível. - Fique com ele. - disse Neflyte. - Algo me diz que será de mais serventia para você que para nós. Mercury Knight fez que sim, abraçando o livro contra seu peito. - Uma das primeiras coisas que o autor percebeu é que é possível rastrear o nosso núcleo entendendo como nossas auras movem-se ao nosso redor. Hg fez que sim. - Eu confio em você, Mercury Knight Hg. - Neflyte falou. - Estou entregando a você um segredo sem medida. O único verdadeiro estudo sobre a minha raça já feito. - ele sorriu. - Não me decepcione. - Eu vou morrer antes de deixar que esse conhecimento seja usado injustamente. - Mercury Knight falou. - E vou retribuir a sua confiança. Neflyte apenas fez que sim. Os dois homens começaram a caminhar, em silêncio, para a sala onde sua discussão começara. Neflyte lançou um olhar discreto para o Star Knight, que parecia perdido em seus próprios pensamentos, segurando o livro que recebera. O soberano do Negaverso esperava, do fundo do seu coração, não ter tomado a decisão errada. - Demoraram. - Venus Knight comentou, encostada na porta da sala para onde eles iam. Sozinha. - Podemos ir? Neflyte lançou um olhar para Mercury Knight, notando que ele estava com uma expressão neutra na rosto. Ele fez que sim para a sua companheira, depois voltou- se para Neflyte: - Se incomoda? - De forma alguma. - Neflyte respondeu, tocando nos ombros dos dois. Ele fechou os olhos, concentrando-se brevemente, e os três estavam na planície nevada acima do Negaverso. O youma abriu os olhos e sorriu para os dois guerreiros. - Boa sorte, Star Knights. - Obrigado, Neflyte. - Mercury Knight respondeu. E os dois Knights desapareceram numa explosão de dourado e azul. Neflyte suspirou e teleportou-se para seus aposentos. **** Helen Tomoe mudou de posição pela quinta vez, tentando se recordar da última ocasião em que se sentira tão pouco confortável num lugar. Seus olhos púrpuras tomaram, novamente, o ambiente em que estava, notando o bom gosto da decoração do espaçoso apartamento. Espaçoso, no Japão, era um adjetivo raro e cobiçado. - Hades-kun... - ela chamou. - Você tem certeza? - Você me disse que tinha que conversar com ele. - falou o gato negro e branco, lambendo a própria pata. - Eu também quero, achei que podíamos unir o seu útil ao meu útil. Eu não tinha como entrar aqui sem você. A Scout do Silêncio fez que sim, novamente passando os olhos pelo apartamento de Hg. Era fácil notar o toque de Fate na decoração. Ao mesmo tempo, os tons escuros deixavam claro que ela não tinha construído o lugar para seu próprio uso. Helen deixou uma expressão de irritação cruzar seu rosto e levantou- se, caminhando até a pequena sacada. - Onde você vai? - perguntou Hades. - Lugar nenhum. - ela respondeu, tirando um maço de cigarros do bolso de trás de seu jeans. Ela ergueu as golas da sua jaqueta, tentando proteger seu longo e fino pescoço do frio, e tirou um dos cilindros brancos do seu pacote e colocou-o entre seus lábios. Sua mão sacou rapidamente um isqueiro do interior do seu casaco e ela acendeu seu fumo. - Desde quando você fuma? - Hades perguntou, saindo na sacada. - Pouco tempo. - ela respondeu, tragando. - Isso faz mal. - o gato advertiu. - Para mim? - ela riu, sua risada acompanhada por fumaça. Hades fez o seu equivalente de mexer os ombros e afastou-se um pouco. Helen apenas fechou os olhos, aproveitando a sensação de frio e o sabor do tabaco, mentalmente preparando-se para o confronto que estava por vir. Ela revisou, novamente, seus argumentos, pensou nas evidências que encontrara. Uma expressão determinada tomou suas feições. Ela devia isso a ela mesma. - E ao Hg. - ela murmurou para si própria. Tragando o final do cigarro, Helen esmagou a bituca contra a sola do seu sapato e entrou, caminhando até a cozinha para jogá-la num pequeno lixo. Ela estava abaixada, com a tampa da lata na mão, quando um flash de luz azul e dourada iluminou o recinto. Preparando-se, ela soltou o resto do cigarro, fechou o lixo e virou-se para encarar os dois Star Knights que chegaram. Helen ficou olhando para ele com franca admiração por um momento. Seus olhos tomaram a armadura azul e detalhada do Knight, a espada na sua cintura e a tatuagem de Mercúrio adornando seu rosto. Ele parecia muito mais com Krysen quando transformado e a Scout sentiu seu coração acelerar um pouco. Ela viu, com o canto dos olhos, Hades colocar-se atrás de um dos sofás. - De todas as pessoas do mundo, você é a última que eu achei que ía estar aqui. - Hg falou. O tom da sua voz e as palavras que pronunciou quebraram a breve ilusão que Helen nutriu e a Scout cruzou os braços diante de si, inconscientemente buscando proteção. - Eu vim conversar. - ela falou. - Com Rachel? - Hg perguntou, revertendo a transformação e virando as costas para caminhar. As duas jovens trocaram olhares por um momento e Venus Knight fez que sim para Helen, caminhando, em seguida, para a varanda: - Depois a gente conversa, Rick. - Claro. - o Knight respondeu, mal-humorado. Helen observou a sua amiga saltar da varanda, sentindo aquele medo irracional momentâneo que sempre vinha quando um deles fazia algo inumano. Não medo da pessoa, claro, mas da morte que aquilo naturalmente traria. - Então? - Hg perguntou, abrindo uma lata de Coca-Cola. Ele sorveu um longo gole e sentou-se no seu sofá, apoiando os pés na mesa. - A que devo a honra? A Scout de Saturno respirou fundo, tentando relevar o sarcasmo de Hg. Ela não podia se dar ao luxo de perder a cabeça naquele momento. Não permitiria que a conversa se degenerasse a algo como a troca de insultos que os dois tiveram na clínica da mãe de Sailor Mercury. Amy, sua mente corrigiu-se em seguida. - Eu andei pensando. - ela falou. - Sobre o que aconteceu entre nós. - Eu não. - ele respondeu, claramente mentindo, indubitavelmente provocando. - Você não achou tudo muito... apropriado? Cômodo? - ela perguntou. - Cômodo. - ele repetiu, obviamente não levando muito a sério. Ele deu um gole no seu refrigerante. - Sim. - Helen falou, ignorando o tom de voz dele. Ela estava ignorando muitas coisas naquela conversa. - Toda a nossa história? - "Nossa", a minha e sua, ou "nossa", a sua e do Krysen? - Hg perguntou. Apesar do tom agressivo, o sarcasmo tinha desaparecido. Helen viu uma vitória naquilo. - Toda ela. Krysen. Você. - Helen falou. - Não sei se entendi. - ele falou, num tom pensativo, de quem estava criando uma teoria mas recusando-se a acreditar nela. - Quer exemplos, então? - a Scout perguntou, incapaz de esconder o prazer que sentia. - Nos conhecermos. Praticamente um casal feito. Dois excluídos. Você, o único menino que eu podia chegar perto. Eu, a única menina que entendia sua solidão. - os olhos púrpuras dela se estreitaram. - Que bom que Fate nos apresentou, não? Hg piscou, mas não falou nada. - Sua ida para o Afterlife. Você, entre todas as pessoas? Por que eles tinham tanto interesse em Neflyte? Ou... será que foi em mim? - Neflyte é um aliado importante. E foi fundamental na nossa vitória. - Hg falou, sem convicção. - Reenie. - Helen falou. - Por que era tão importante você protegê-la? Que diferença fez? O que mudou, exceto te deixar obsessivo por um período de tempo? E te afastar de mim? - Você está lendo coisas onde não têm. - Hg falou, levantando-se. Ele aproximou-se dela, sua postura agressiva. A Scout apenas olhou-o nos olhos, sem recuar um passo sequer. - Vendo tudo como eventos girando ao seu redor. - Esse apartamento. - Helen falou, lançando sua cartada final. Ela ergueu o indicador direito diante do rosto dele, sorrindo ao vê-lo fixar, momentaneamente, os olhos nas unhas pintadas de roxo dela. Ela se lembrou, por um momento, do elogio que fizera à cor no Negaverso. Aquilo parecia ter acontecido séculos antes. Os olhos dele voltaram aos dela em seguida, porém, e ela continuou. - A volta do futuro num momento incrivelmente pouco provável. - seu dedo médio se ergueu. - O local da sua chegada. - o anular. - O desaparecimento dela em seguida. - o dedo mindinho. - Não é estranho? Nada estranho? Hg afastou-se dela, virando as costas e caminhando até a varanda. - Eu admito que errei. - Helen falou. - Não devia ter te traído. Devia ter conversado antes. - ela aproximou-se alguns passos. - Mas você não acha que tem algo estranho? - Que que cê tá insinuando? - ele perguntou, sem se virar. A Scout sentiu uma nova vitória no jeito que ele falou. Ele soava como o velho Hg, antes de sua obsessão. - Minha morte foi um ótimo motivador para você caçar meu irmão. - Helen falou, desviando da pergunta. - E você ficou muito mais acostumado com o poder do meu planeta depois de conviver comigo por todos aqueles anos. - Hela, que merda cê tá dizendo?! - Hg repetiu, se virando. Seus olhos estavam arregalados, quase descontrolados. Helen não conseguiu evitar um passo de recuo. Os dois ficaram se encarando por um longo momento, em silêncio. Helen percebeu, então, que ele já tinha pensado em tudo aquilo. Pensara e descartara, incapaz de admitir as possibilidades que ela estava abrindo diante dele. Naquele momento, então, ela sentiu pena do líder dos Star Knights. Ela conseguia enxergar as cordas de Fate prendendo-o, fazendo-o dançar conforme uma música que ninguém podia ouvir. O impulso de abraçá-lo, beijá-lo e dizer que tudo ficaria bem foi quase sobrepujante, mas Helen resistiu. - Você sabe o que eu estou dizendo, Hg. - ela falou. Hg pareceu se transformar, então. Sua postura agressiva sumiu, seus olhos fecharam-se e ele caminhou até o sofá, desabando lá sem cerimônia. Olhando para ele, para aquela figura, Helen sentiu-se mal por tudo que ele passara, por tudo que ela fizera. - Desculpe. - Helen falou, involuntariamente. Os olhos de Hg se abriram e encontraram os dela. Por um momento, era como se eles estivessem em Plutão, trocando olhares inocentes e de cumplicidade, vendo segredos que mais ninguém veria. Então, ela lembrou-se que era Hg, não Krysen. Ele abaixou os olhos quando ela voltou-se para a janela, e Helen, instintivamente, sabia que tudo tinha terminado de verdade. Naquele momento, naquele olhar. Naquela recusa. Ela não voltou a olhar para ele quando falou novamente: - Desculpe. Mesmo. Não foi... - Tudo bem. - ele interrompeu, cansado. Era difícil para a Scout acreditar que aquela figura quebrada era a mesma pessoa que o esplendoroso Star Knight de minutos antes. - Desculpa por ter... por ser... por... - ele apenas balançou a cabeça, desistindo. - Por não ser Krysen. - ela completou. - Por não ter conversado, me falado de sua namorada. - Helen manifestou sua Wand. - Por não me amar. Hg não falou nada. - Desculpo. - ela falou, com sinceridade. - Saturn Planet Power! Ele manteve-se em silêncio, sem sequer olhar quando a luz púrpura encheu a sua sala. A Scout lançou um último olhar na direção dele, sentindo o peso da perda, das possibilidades que não se concretizaram, depois saltou da varanda, abrindo um largo sorriso com a sensação de leveza que a queda livre trazia. Se fosse da queda livre. **** Darien franziu a testa, intrigado, enquanto mastigava sua salada. Seus olhos azuis fitavam a silenciosa jovem diante dele. Ele observou enquanto ela empurrava a comida no seu prato de um lado para o outro, surpreendentemente desinteressada em consumir o alimento. Ela parecia pensativa, com sua atenção presa ao letárgico movimento do seu próprio garfo. Serena não dissera uma palavra sequer durante todo o almoço. Ele conseguia compreender, com certa clareza, qual era o problema com a sua princesa. Sabia que tinha errado quando acreditara nos sonhos, podia imaginar o que ela estava sentindo com o destino de Reenie. Darien sabia, também, que ela era muito amiga de Hg e que os problemas que o Knight e Sailor Saturn enfrentavam devia estar pesando na mente dela. - O que você achou de Serenity? Darien piscou: - Hmm? - O que você achou da Neo-Rainha Serenity? - Serena repetiu, levantando os olhos para ele. - Como assim? - o príncipe da Terra perguntou, sua boca cheia. Ele parou por um momento, mastigando um pouco e engoliu. - Não sei se entendi a pergunta. - Nós conhecemos e falamos com... Serenity. Eu. No futuro. - Serena falou, sua expressão absolutamente contida. - O que você achou dela? - Linda. - Darien respondeu com sinceridade. - E... pacífica. Sábia. Como a superfície plácida de um lago. - ele continuou, olhando para cima, perdido nas lembranças. - Ah. - Serena falou, soando desapontada. - Não precisa ficar com ciúme, cabeça de vento. - ele sorriu, contente por estar conseguindo conversar. - É você, afinal. - Sim. - Serena concordou, voltando seus olhos para o prato. - Se... se eu continuasse como eu sou? Você gosta de mim como eu sou? - Eu amo você, Serena. - Darien respondeu, sorrindo para ela. Ele estava falando a verdade. A jovialidade da loira e a espontaneidade eram coisas que ele admirava e muito. Ele lembrou-se, por um momento, de quando conheceu Serena. - Lembra de quando nos conhecemos? - Quando eu joguei a minha prova na sua cabeça? - ela perguntou, um sorriso aparecendo no seu rosto. - Sim. - ele falou. - Tinha tirado um três. - Uma vergonha. - Serena riu, ficando vermelha. - Não importa tanto. - Darien falou, balançando a cabeça. - Como assim? - Serena perguntou, seu sorrriso sumindo. - As notas não vão fazer tanta diferença, no final. Nós vimos isso, não vimos? Serena ficou em silêncio, olhando para o seu prato. Ela respirou fundo, imóvel, e falou com sinceridade: - Você não está conseguindo muitos pontos comigo. - ela disse. - Eu gosto de você, Darien, de verdade. Sempre gostei, acho que faz parte de mim. - um sorriso triste surgiu no seu rosto. - Mas você é muito bobo às vezes. - ela indicou o restaurante ao redor deles. - Você acha que um lugar assim é o que eu gosto? - Darien olhou ao redor, piscando. Era um dos restaurante francês mais refinados da cidade. Para ele, um ambiente digno da realeza. - Você acha que eu quero ser amada pelo que eu vou ser em alguns séculos? Eu pareço uma princesa hoje em dia? - ela se levantou. Ela vestia um jeans simples, uma jaqueta rosa e uma blusa. O pingente dela, uma pequena crescente lunar dourada, balançou com o movimento súbito. - Eu não sou uma princesa. - ela disse. - Eu sou uma menina. Só isso. Darien piscou novamente. Então, ele entendeu. As palavras de Serena fizeram sentido para ele e ele balançou a cabeça, desapontado consigo mesmo. Ela estava com ciúme de si mesma. Não conseguia entender que a graça e beleza de Serenity só viria com o tempo, que não adiantava antecipar essas coisas. Ela era uma adolescente, uma menina, mas não o seria para sempre. Mais que nunca, Darien tinha certeza disso. Ele podia ver, claramente, a lembrança da presença da Neo-Rainha, da sua graça e beleza. Com um sorriso charmoso, ele falou: - Se você não se sente confortável no restaurante, podemos ir embora. E você está sendo boba com essa história de princesa. Não é, em você, algo que você precisa ser ou se comportar. Simplesmente é você, faz parte de você. Serena sorriu para ele, sentando-se lentamente na sua cadeira. Ele continuou, materializando uma rosa vermelha: - É essa princesa que existe em você que vai amadurecer e se transformar na dama que vimos no futuro. Eu vejo ela em você, Serena. Cada gesto, cada atitude sua. A bondade de coração, a leveza de espírito... Em tudo. - ele esticou a mão, oferencendo a rosa a ela. Ela a pegou. - Não queira ser uma rainha enquanto é uma princesa. Tudo em seu tempo. - o sorriso dele alargou-se. - E nunca me diga que não é uma princesa, Serena. Não acho que você poderia deixar de ser uma. A jovem apenas continuou sorrindo, congelada, seus olhos fixos no dele. A mão segurava a rosa vermelha, tremendo um pouco. Ainda com os dentes à mostra, Serena trouxe a rosa para perto do seu peito e falou, baixando os olhos: - Darien, eu gostaria de ir para casa. - Mas você não comeu nada... - ele falou, olhando para o prato dela. E eles ainda estavam no primeiro prato da refeição. - Toda essa conversa me deixou... pensativa. - ela falou. Darien fez que sim, compreendendo: - Eu imagino. - ele sorriu. - Você se incomoda se eu continuar aqui? Imagino que você queira pensar, e... - Claro. - ela respondeu, levantando-se. Ela rapidamente virou-se para longe dele, recolheu sua bolsa e começou a caminhar. Darien observou por um momento, quando notou que ela tinha deixado um objeto para trás: - Espere! - ele chamou. Serena parou, ficando subitamente imóvel, e virou-se para ele, lentamente. Com um sorriso, Darien carregou o pequeno estojo com um CD até ela, colocando na sua mão: - Você quase esqueceu. A loira olhou para o CD por um longo momento, como se o vendo pela primeira vez, depois fez que sim para Darien, muda. - Tome cuidado. - ele aconselhou, abrançando-a e beijando seus lábios com delicadeza. Serena retornou o gesto. Darien abriu seus olhos, surpreso, quando sentiu a ponta da língua da sua amada tocar seus lábios. Ele tentou se afastar, mas as mãos dela agarraram-no pelo cabelo e, subitamente, o beijo dos dois se aprofundou. Por um momento, Darien perdeu-se na sensação da intimidade que partilhavam, mas se afastou, coração palpitante e rosto corado. Serena ficou olhando para ele por um momento, expressão indecifrável no seu rosto. Um sorriso surgiu no rosto dela, então, e ela virou-se, indo embora sem uma palavra sequer. Darien lançou um olhar ao seu redor, notando que todos no restaurante estavam observando, e corou. Ele caminhou de volta para a mesa, subitamente ocupado demais com as sensações nos seus lábios para sentir fome. **** Hades ficou em silêncio, observando o seu pupilo. As palavras de Helen surpreenderam o pequeno felino e ele percebeu o quanto estivera sem prestar atenção em Hg e nos outros. Ele concentrou-se em se recordar dos eventos que a Scout citou, tentando ver se havia verdade nas acusações. Por um momento, o gato lembrou-se dos anos que passara com Krysen e Fate em Plutão. Enquanto ele era totalmente insensível a energias ao seu redor, ele tinha sua telepatia profundamente desenvolvida. Uma aberração genética para a sua raça, ele sabia, mas útil de tempo em tempos. Crescendo, aprendendo a usar seus poderes, ele teve alguns deslizes e olhou mentes que não devia ter olhado. Ele tinha certeza que Fate amara seu pupilo mais que qualquer coisa no universo. Ainda assim, ele não conseguia negar que as coincidências envolvidas no relacionamento de Hg e Helen. Hades, então, ficou incerto sobre seus motivos para conversar com Hg. Ele fora lá para reclamar de ter sido abandonado, do Knight não tê-lo levado junto quando saiu do apartamento. Queria apontar os problemas no confronto no shopping, queria tentar colocar Hg nos eixos. E, subitamente, o gato percebeu que sequer sabia o que houve no futuro. Não sabia como a situação tinha se resolvido. Não havia falado com Hg sobre o problema com Helen. Tudo que tinha eram relatos de segunda... ou melhor, de terceira mão que Luna lhe trouxera que, por sua vez, ouvira a história de Lita e Raye. Hades desconhecia os fatos exatos. O pequeno gato balançou a cabeça para si mesmo. Ele também não se incomodara em ir atrás do seu pupilo e questioná-lo a respeito. Na realidade, Hades pensou, eu o abandonei. Ele sabia, claro, que a culpa não era inteiramente sua. O líder dos Knights era muito independente e fechado. Era fácil deixar-se ser empurrado para longe dele. Por um momento, ele recordou-se do seu encontro com Hg, de como conhecera a encarnação atual do Mercury Knight. Na época, tudo pareceu mais simples. Os diálogos que eles compartilharam no começo foram se tornando mais raros, entretanto, até quase desaparecerem. Não só com ele, mas com todos os outros. Exceto, talvez, Mark. Ainda assim, nenhum dos outros tinha o mesmo dever que Hades. Nenhum deles deveria aconselhar e proteger Hg. Que belo guardião ele estava sendo. - Cê só vai ficar quieto? - Hg perguntou, sua voz baixa. Hades piscou, erguendo seus olhos verdes para o líder dos Star Knights. - Que que cê acha de tudo que ela disse? - Não sei. - Hades disse. - A lógica está impecável, mas... - Tem mais. - Hg falou. - Tem muito mais. E o Canadá? Eu, Rachel e Ben? - ele balançou a cabeça. - Terminar com Jules. - os olhos dele pareciam desfocados por um momento, observando o infinito. - Há quanto tempo será que ela tá na minha vida? - ele balançou a cabeça. - Acabou com Hela. Eu preciso esquecer isso. Preciso saber que que Fate quer. Preciso saber desde quando eu estou dançando pra ela. - seus olhos voltaram-se para Hades. - E você? Hades hesitou. - Veio brigar comigo? - Hg perguntou. - Me chamar de negligente? Eu sou. Fui. Sou. - a voz dele aumentou. - Ou veio me dizer que vai ficar com Luna? Com Serena? - a voz dele ficou um pouco amarga. - Com as Scouts?! - ele gritou. E continuou no mesmo tom, continuando. - Que bela porra de líder eu sou! Meu grupo desmoronou ao meu redor! Eu deixei Reenie ficar casada com o líder do Clã Black Moon! Quase matei Zero e Sylvie! Derrubei uma nave gigante no centro da cidade! Mark atravessado por uma espada! Que mais eu fiz, Hades?! Me fala! Os pêlos do gato estavam arrepiados. Hg estava irradiando raiva e irritação em quantias homéricas. Hades sabia que o Knight poderia matá-lo em instantes, no menor descontrole. Seus olhos encontraram os do seu protegido e ele viu, lá, um tremor e uma insegurança que Hg ocultava da sua voz, da sua postura. E Hades se lembrou de conversas sob o luar, do tom sincero com que Hg falava com ele. Recordou-se de como era diferente de Krysen, como via no jovem brasileiro uma amizade real e profunda. No Milênio de Prata, ele fora uma babá, um tutor. Hg fez dele seu amigo. - Você tem razão. - Hades falou, subitamente calmo. - Eu vim aqui dizer para você que tinha me abandonado, vim dizer que estava sendo irresponsável como líder. - Hg abriu a boca para falar, mas o gato continuou. - Mas eu estava errado. Eu abandonei você. Não falei, não perguntei. - um Hades esboçou um sorriso. - Você não é Krysen, mas é Hg e é um Mercury Knight. Mais que isso, eu sou seu Guardião... Não por dever, mas por vontade. Eu gostaria de continuar sendo isso. E seu amigo. O Star Knight ficou olhando para ele, imóvel e em silêncio. - Eu vou ajudá-lo com o que precisar, Hg. Peço apenas que me permita isso. - Por que eu, Hades? - ele perguntou. - Por que Fate decidiu criar Krysen? - Claramente, ela viu você como importante para a história. Para o futuro. - ele sorriu. - E ela passou a amá-lo. - Amar Krysen. - disse Hg, levantando-se. - Hela tem razão. Eu não sou ele. - Não. - Hades concordou - Você é muito mais que ele podia sonhar em ser. - Como assim? - Krysen era como um soldado perfeito. Sua vida toda foi voltada para sua educação, para ensiná-lo a combater, liderar e vencer. Conhecimentos arcanos que poderiam ser úteis, lições de história que ninguém mais saberia. - o gato baixou a cabeça, perdido em lembranças. - Não sei como você... ele não enlouqueceu. Todos os dias, do amanhecer ao fim do dia. Por dez anos. - ele sorriu. - A primeira vez que você saiu de Plutão foi para ir até Marte e, mesmo assim, para treinar. - E como que eu sou mais que ele podia sonhar em ser? - Hg perguntou, olhando para seu gato. - Você aprendeu a amar e viver. Ainda bem que o treinamento de vocês ficou instintivo, senão não sei como teriam derrotado o Negaverso. Ao mesmo tempo, você nunca teria vencido Jedite sem ser... bem, Hg. Hg piscou, seus olhos se arregalando. Ele tinha percebido algo. - O que foi? - Hades perguntou, curioso. O Knight fixou os olhos no gato, como se considerando algo. Ele balançou a cabeça: - Nada. Nada demais. Hades preparou-se para deixar o assunto de lado, quando lembrou-se de toda a discussão que os dois acabaram de ter. Ele saltou em cima da mesa de centro da sala, ficando mais próximo de Hg: - Não é nada. - Não. - o Knight concordou. - Não é. Mas também não é algo que vá mudar algo de verdade. Não agora. Eu fui até o Negaverso aprender sobre youmas. - ele pegou um livro antigo de cima da mesa. Hades não tinha percebido que o Knight trouxera aquilo consigo. - Supostamente, esse livro vai nos dizer como achar o ponto fraco de qualquer youma. - ele deu um meio sorriso e começou a se levantar. livro firme na sua mão. - Agora, é mais importante descobrir se o ataque do shopping foi um incidente isolado ou não. - Incidentes. - disse Hades. Hg parou, subitamente imóvel. - Houve outro? - ele perguntou, sua voz subitamente perigosa. Hades engoliu a seco. **** Nunca, em toda sua vida, Mina Aino tinha ficado tão feliz em perder um compromisso. Ela sorriu para si mesma, olhando para o céu estrelado e aproveitando a brisa gelada de Dezembro que soprava. O gramado sob seu corpo estava um pouco úmido, mas não chegava a atravessar os agasalhos que usava. Tímida, ela lançou um olhar para o jovem ao seu lado e sentiu seu rosto corar. Ryu Satori, o jovem viajante dimensional que parecia ter caído do céu nos seus braços, estava deitado ao seu lado, usando casacos muito menos pesados que os dela. Ainda assim, a loira notava que ele não parecia incomodado com o frio. O rosto dele estava relaxado, olhos rubros fixos no céu noturno. Ela aproveitou para prestar atenção nos detalhes das feições dele. Ela perguntou-se, por um momento, como ele conseguira a cicatriz no seu rosto. Indagou-se se ele nascera com a crescente lunar na testa, marcado como guerreiro desde então, ou se ela fora colocada lá mais tarde. Os olhos azuis de Mina correram os cabelos negros dele, presos num rabo-de-cavalo longo, e ela conteve um impulso de passar a mão por eles, de sentir sua textura. Mina sabia que estava apaixonada. Ela via claramente o fio do destino entre eles. O jovem guerreiro, sobrevivente solitário de um mundo moribundo. Talvez não tão solitário, ela admitiu para si mesma, mas certamente vindo de um mundo em seu fim. Afinal, a batalha que eles travaram tinha todas as marcas de ter sido o combate final. Era quase um conto de fadas, na cabeça dela. Lutou bravamente, derrotou seu inimigo, depois recebeu uma oportunidade de começar de novo. E ela era essa oportunidade. Na mente dela, Mina lembrava-se da sensação de morrer no Pólo Norte, da magia do Cristal de Prata trazendo-a de volta e devolvendo-a à sua vida normal. Se ela pôde ter isso, porque Ryu não poderia? Ele e ela eram a recompensa um do outro, a loira sabia. O Dragon Kishi era a solução para a solidão eterna dela, enquanto Mina era o amor prometido dele trazido de volta. - Essa paz... é estranha. - Ryu falou. Mina piscou: - Como assim? Ele voltou-se para ela, um sorriso no seu rosto: - Desde os onze anos, eu luto. Eu nunca tive um momento de paz. Uma época que não tive que pensar sobre o combate ou caçar meu próximo alvo. - ele olhou novamente para as estrelas. - É bom. E estranho. - Ainda é díficil imaginar lutar desde tão cedo. - Mina falou, também olhando para o céu, sentindo seu coração palpitar. - Reino Negro. - ele falou. - E tantas outras ameaças. Você ficaria surpresa com quantas coisas estranhas se escondem na Terra. - ele suspirou. - Garot. - Garot? - ela perguntou, achando o nome estranho. Talvez fosse como ele chamavam o Wiseman no mundo dele. - Ele tinha um Império. Dominava o universo. - Ryu fechou os olhos, lembrando. - Atacou a Terra, mas nós vencemos. O líder do ataque era o pai de Serenity, meu sensei. - O pai de Serenity? - Mina perguntou, um tom de preocupação na sua voz. Se aquilo fosse verdade no mundo dela... - Sim. Serenity me deu essa marca por causa disso. A mãe da princesa, eu digo. - ele ergueu sua mão, tirando seu cabelo do caminho e tocando na crescente lunar na sua testa. - Ah. - Mina falou, sem saber como reagir. O que ela poderia dizer? - Nós viajamos para fora da Terra. Fomos libertar os reinos, derrotar Garot. - ele suspirou, abrindo os olhos. - Dois anos. Nós viajamos por dois anos. - Isso é muito tempo. - disse Mina. - Sim. - ele concordou. - Antes de vir para cá, eu tinha esquecido como era ser humano. - ele suspirou, levantando-se. - Foi bom não termos ido ao cinema. Ela fez que sim, olhando para ele. Ele se espreguiçou e se alongou, demonstrando mais flexibilidade que o normal. Mina sentiu, novamente, seu rosto esquentar. Então, Ryu olhou para ela e ofereceu a mão, um sorriso nos seus lábios: - Teria sido uma pena ficar vendo um filme hoje. - A noite está linda. - Mina concordou, aceitando a mão e maravilhando-se com a facilidade que ele tinha em levantá-la. Ele apenas fez que sim, novamente voltando seu rosto para cima. Mina ficou olhando para as feições dele, perdida de novo na atratividade que via lá. Subitamente, os olhos vermelhos dele encontraram os dela. Envergonhada, a Scout voltou seu rosto para baixo, com um súbito interesse na grama sob seus pés. Ela arriscou uma espiada na direção dele, mas rapidamente abaixou os olhos quando viu que ele ainda a observava. Novamente, seu rosto corou. - Onde você quer ir agora? - Ryu perguntou, subitamente. Ainda envergonhada, Mina apenas mexeu os ombros. - Podemos tomar um chá naquela lanchonete perto do fliperama. - ele sugeriu. Ela fez que sim, e começou a caminhar. Os pensamentos da Scout estavam como um turbilhão. Uma mistura de desejo, vergonha e esperança. Mina não era boba. Ela conseguia ver, no olhos de Ryu, a paixão. Subitamente, ela se perguntou até onde ele e a Mina dele tinham ido. Quão íntimos eles foram? O vermelho dos seus rosto tornou-se mais forte enquanto ela pensava na possibilidade dele conhecê-la, de certa forma, melhor que ela mesma. Mina, nunca tendo tido um namorado, não conseguia imaginar como seria estar na cama com um. Um pequeno sorriso irônico surgiu no rosto dela, apesar da vergonha. Ela nunca teria beijado um homem, se não tivesse sido por uma tentativa desesperada de chamar a atenção de um menino no colégio dela, dois anos antes. Não que tivesse funcionado particularmente bem. E, subitamente, ela estava caminhando ao lado de um rapaz que já tinha, de certa forma, a beijado... - Aaah... Ryu-kun? - ela chamou, sem erguer o rosto. - Hmm? - ele perguntou, soando distraído. - ... nada. - ela desistiu, incapaz de perguntar. Os dois continuaram caminhando em silêncio, Mina ainda perdida nas suas dúvidas e inseguranças. Ao mesmo tempo que ela sentia o desejo dele, algo que ela retornava com uma intensidade incrível, ela tinha vergonha do sentimento. Mina perguntou-se se era assim que Serena sempre se sentira em relação a Darien. Será que a jovem princesa também tinha esse problema de não saber a intimidade que dividia com seu amor? Quando a palavra amor cruzou sua mente, os olhos de Mina se arregalaram. Discreta, ela voltou seu rosto para o rapaz que caminhava ao seu lado, sentindo seu coração disparar. Ele parecia perdido em seus próprios pensamentos, a expressão irritada que era comum nas feições dele estampada no seu rosto. Mina sentiu os cantos de seus lábios curvarem-se para cima, imaginando se ele estava com as mesmas dúvidas e perguntas que ela. Talvez ela estivesse pensando demais a respeito. Talvez Serena conseguisse suportar com tranquilidade o fardo do destino porque não pensasse tanto. Era, afinal, Serena. - Cuidado. - Ryu subitamente falou, envolvendo-a nos seus braços e puxando-a para perto de si. A respiração de Mina parou quando ela sentiu o calor do corpo do Dragon Kishi, a rigidez dos seus músculos. Ela olhou, atônita, para o poste que teria atingido se Ryu não tivesse puxado-a para perto dele. Naquele momento, entretanto, ela não conseguia afastar-se do guerreiro. Mina sentia-se segura, protegida. Braços longos e esguios estavam envolvendo-a, segurando-a contra um tórax firme e forte. O cheiro do rapaz, também, era diferente de tudo que sentira. Parecia, de alguma forma, com o cheiro de orvalho, só que mais carregado, mais pesado. O rosto dela pareceu pegar fogo quando ela registrou que estava com o nariz enfiado na camisa de Ryu. Os dois continuaram caminhando, nenhum fazendo menção de afastar-se. Finalmente, eles chegaram à lanchonete. Os dois pararam, ainda próximos um do outro, na frente da porta. Mina, um pouco desapontada, começou a afastar-se de Ryu. Ela sabia que não era correto entrar em estabelecimentos daquele jeito. O rosto dela voltou a ficar escarlate quando ela lembrou que caminhara todo o trajeto abraçada a ele. Então, o braço dele apertou-a, impedindo que saísse de perto. O coração dela, novamente, saltitou e ela ergueu o rosto, fixando seus olhos na expressão de Ryu. Ele parecia estar olhando para a lanchonete com aquela mesma expressão agressiva que parecia sempre adorná-lo. Ainda assim, ela conseguia enxergar quase uma sensação de alívio nos traços dele. Perguntando-se se não fora coincidência, ela tentou afastar-se novamente. Ele ainda a segurava com firmeza contra ele. Não como alguém prende uma pessoa, mas como se mantendo algo querido próximo. Ryu olhou para ela, então, seus olhos vermelhos traindo emoções fortes dentro do rapaz, ainda que sua expressão permancesse indiferente. Os dois ficaram parados, perdidos um no outro, por longos minutos. Então, o Dragon Kishi puxou-a para longe da lanchonete. Sem saber o que mais fazer, Mina deixou-se ser levada, uma súbita sensação de ansiedade tomando conta do seu peito e dos seus pensamentos. Os dois continuaram caminhando em silêncio pela noite, sem um rumo fixo. A mente de Mina tinha simplesmente se desligado, e a loira concentrava-se em aproveitar aquele momento. Ela nunca sentira-se tão próxima de uma pessoa como naquele momento. Ser algum tinha causado tanto impacto nela quanto aquele misterioso e trágico rapaz. A jovem Scout perdeu a noção do tempo, caminhando pelas ruas iluminadas de Tóquio sob a proteção dos braços do Dragon Kishi. Eles simplesmente vagavam, em silêncio, apreciando a presença um do outro, as luzes das estrelas e da cidade que os iluminavam. A magia foi quebrada quando Mina ouviu um sino distante badalar dozes vezes. Era tarde e seus pais ficariam preocupados. Com um peso enorme no seu peito, ela parou de caminhar. Ryu parou também, olhando surpreso para ela. Eles ficaram parados, novamente perdidos um no outro, por longos momentos. - Eu... preciso ir. - ela falou. Ryu fez que sim, aproximando seu rosto do dela. Mina sentiu seu coração acelerar, vendo os olhos vermelhos do Dragon Kishi chegaram cada vez mais próximos. O hálito quente dele subitamente tornou-se profundamente perceptível para a jovem. Inconscientemente, ela começou a inclinar sua cabeça e erguer-se na ponta dos seus pés, também chegando mais perto. Os instantes que passaram-se antes que os lábios dos dois guerreiros se encontrassem pareceram uma eternidade para Mina Aino mas, quando aconteceu, o mundo pareceu deixar de existir ao seu redor. Ela ficou parada, congelada, com seus braços pendendo ao seu lado, incerta do que fazer, de como agir. Então, os lábios de Ryu se abriram sob os dela e ela sentiu ele aprofundar o beijo, subitamente trazendo paixão a um momento completamente casto e romântico. Os olhos azuis dela se abriram por um momento, mas tornaram a fechar-se. Ela sentiu uma das mãos dele subir e apoiá-la na base do pescoço, por baixo do seu cabelo. A outra, com uma familiaridade incrível, subiu sutilmente pela sua perna e quadril, até descansar na sua curva lombar. Naquele momento, ela percebeu que Ryu realmente conhecia o corpo dela como se fosse dele. Assustada, ela se afastou, seus olhos azuis enormes enquanto ela fitava o rosto do Dragon Kishi. Ele parecia tão surpreso quanto ela e, ela notou com um prazer indescritível, corado no rosto. Subitamente sentindo-se capaz e poderosa, Mina abriu um sorriso e falou: - Boa noite, Ryu-kun. - ela aproximou-se dele, deu outro beijo profundo, dessa vez segurando-se no pescoço dele, e saiu correndo, parando apenas para olhar para ele uma última vez antes de desaparecer na noite com um sorriso satisfeito no rosto. O que ela não ouviu foi o atordoado sussurro de despedida dele: - Boa noite, Minako. **** John Drifter se considerava um homem especial. Para um observador casual, era uma presunção sem tamanho dele. Afinal, ele era um sujeito alto e de meia idade, pele curtida de Sol e cabelos grisalhos em toda sua cabeça. Ele vestia roupas sujas e cheirava a peixe. Ele, também, ganhava sua vida como um marinheiro de um navio pesqueiro japonês. Todos os dias, ele partia como membro de uma equipe que lançava e recolhia redes, trazendo peixes o suficiente para ajudar a alimentar a população do rico país. Claro, um estranho apontaria que aquilo não fazia de John especial. O pescador sorriria para a pessoa e diria, claramente, que seu pai tinha dito para ele, desde pequeno, que o destino do seu filho seria viajar o mundo. Depois que John conheceu o Japão, ele podia oficialmente dizer que tinha conhecido todos os países do mundo. Ele trabalhou nas mais diversas profissões, conheceu um número infindável de pessoas. Desde que ele completou quinze anos que John viajava sem parar, sempre tentando completar sua missão na vida. Quando o fez, ele decidiu que passaria um tempo descansando no Japão. Era, portanto, com muita alegria que John levantava nas madrugadas e trabalhava duro todos os dias. Ele sentia-se uma pessoa completa. Seus dias como um "drifter" tinham terminado, sua missão na Terra, cumprida. Era com um sorriso nos lábios, então, que ele operava o maquinário que içava a rede para fora da água. O emaranhado de fios finalmente caiu no convés com um som molhado. - Nenhum... - um dos seus companheiros falou, examinando o material. John piscou, aproximando-se e coçando a cabeça. Em todas suas viagens, trabalhar como pescador era a profissão que mais comumente assumia. Ele nunca, em toda sua vida, vira uma rede voltar absolutamente vazia da água. - Que estranho. - ele disse no seu japonês com sotaque pesado. Tão entretido ele estava com a rede, que só percebeu o que estava acontecendo quando a luz do luar e das estrelas foi bloqueada, escurecendo o convés. Todos os marinheiros voltaram-se para o céu simultaneamente e gritaram. Exceto John. Seus olhos cansados e viajados observaram a enorme bocarra abrir-se sobre o barco, pronta para descer sobre ele, e ele sorriu. Dedicou seu último pensamento ao seu pai, agradecendo-o por tê-lo ajudado a encontrar e completar seu dever antes de morrer. Em instantes, tudo que restou do barco era uma leve turbulência no outrora plácido oceano. **** Lethe sorriu, olhando ao seu redor. - Vocês fizeram um bom trabalho. O youma responsável curvou-se baixo, profundamente satisfeito com o elogio. A ex-Senshi olhou novamente ao seu redor, admirando a construção da base. Foi uma idéia genial do seu subordinado, a de usar espécies menos desenvolvidas como baterias menores para sustentar os portais necessário para o transporte de tropas e pessoal até aquela dimensão. As paredes todas eram um grande aquário, preenchido com uma inifinidade de peixes de todos os tamanhos e variedades. Um brilho sinistro parecia ser emitido das paredes, e Lethe sabia que tratava-se de um processo de drenagem de energia sutil e cuidadoso. Uma quantia quase insignificante era tirada de cada ser vivo. A quantidade abundante de peixes, entretanto, supria o volume necessário para o funcionamento da base. Simplesmente brilhante. Lethe caminhou pelo corredor, ouvindo os seus youmas a seguindo, ainda que mantendo uma certa distância. Ela esperou alguns momentos, sabendo que essa pequena construção de tensão entre cada pergunta assegurava o medo no coração dos seus subordinados. - E quanto à análise que pedi? Um dos youmas correu um pouco, alcançando-a, e entregou um pequeno cristal negro. Lethe segurou-o diante de si, flutuando sobre a palma da sua mão, e ativou- o com um comando mental. Por um momento, o cristal que ela segurava era um ornamento vermelho, pulsando com a vida dela. Ela piscou, e a imagem sumiu, voltando à realidade normal. Lethe sentiu seu bom-humor evaporar. O cristal negro em sua mão, obedientemente, projetou uma esfera acima dele, imagens da luta das Scouts e dos Star Knights surgindo lá. Um sorriso formou-se nos lábios da ex-Senshi quando Venus Knight atingiu a criatura com sua espada de energia, e a imagem congelou, rapidamente sendo preenchida por números e análises. Satisfeita, Lethe prosseguiu a reprodução do combate, parando quando cada golpe era desferido. Finalmente, ela fez um gesto satisfeito, deixando o cristal cair no chão e esmagando-o sob seu salto. Ela ouviu um dos youmas atrás dela exclamar, surpreso, e permitiu-se um sorriso satisfeito. - Como imaginei. - ela falou, mais para si mesma que para qualquer um dos seus youmas. - Lethe-sama? - um deles indagou. Ela voltou-se para ele, um olhar selvagem no seu rosto. O youma recuou um passo, apavorado. Lethe riu. - Eles não são como os do meu mundo, tolo. - o sorriso dela cresceu, tornando-se maníaco. - Dark Angel ficará satisfeito. Com isso, ela virou-se e continuou caminhando pelos corredores. Dessa vez, nenhum dos youmas atreveu-se a seguir. **** Os dias de Mark Juno entraram rapidamente numa rotina. Ryu, o estranho jovem de olhos vermelhos, cumpriu sua palavra e ajudava, diariamente, Mark com seus exercícios, forçando-o até os limites seguros e ajudando-o a desenvolver seus reflexos e coordenação novamente. Felizmente, o tempo que Mark passara incapacitado fora curto o suficiente para que uma fisioterapia real e reconstrução muscular, fossem desnecessárias. No segundo dia depois do seu despertar, o Knight já estava mexendo seus pés. O quarto dia marcou sua primeira caminhada. As pernas dele ainda não respondiam com a facilidade que ele estava acostumado, mas o fato dele conseguir se locomover até o banheiro era um motivo de extrema alegria para ele. O Dragon Kishi não conversava muito com ele, limitando-se a ajudá-lo a exercitar, mas Mark começou a sentir-se realmente próximo do rapaz. Os exercícios tomavam boa parte das suas manhãs. Durante as tardes, Mark recebia a visita das Scouts, com quem começou a desenvolver uma amizade real. Ele ouvira, de primeira mão, as histórias das aventuras delas contra o Negaverso, e encontrou-se contando as suas próprias em troca. Quando ele contou das idas dos Star Knights até o coração do Negaverso, as jovens apenas olharam, boquiabertas. Lita, em particular, pareceu chocada e feliz quando o Knight falou que ele fora irmão dela na vida passada. Para alguém que não tinha um familiar sequer na sua vida, a relação entre os dois no Milênio de Prata foi um alívio incalculável. Mark passou a receber almoços e doces especiais todos os dias. Em troca, ele contava o pouco que lembrava da sua vida passada, vendo as memórias dela voltar de tempos em tempos. Raye era um caso a parte. Elas simplesmente tornara-se uma presença constante ao lado dele. Chegava antes dele acordar ou, no máximo, alguns minutos depois. Ficava com ele o dia todo, acompanhando seus exercícios com Ryu, ajudando- o com as tarefas que ele tinha dificuldade. Sempre com um sorriso no rosto, olhares furtivos e beijos cheios de sentimento. Ela só ía embora para o templo quando ele estava vestido para dormir e depositado na cama. Mark não conseguia imaginar-se longe dela. O único ponto realmente negativo dos dias de Mark era os Knights. Nem Hg nem Ray foram visitá-lo naqueles dias. Ele não se importava particularmente com Rachel, já que ela nunca fora realmente de permanecer próxima ao grupo sem uma razão real para fazê-lo, mas a ausência de seu melhor amigo era preocupante. No lado positvio, Hg desbloqueara a Irmandade no dia seguinte ao confronto com o youma e parecia estar num humor consideravelmente melhor que antes. Mark sentia aquela sensação de obstinação que era tão familiar no seu líder, e sabia que o Knight de Mercúrio estava buscando respostas a alguma pergunta. Ainda assim, ele teria apreciado uma visita. Foi assim, portanto, que Mark se deu conta que dez dias tinham se passado desde que acordara. A clínica da mãe de Amy tinha sido reaberta e Mark e os Dragon Kishi tinham sido transferidos para uma ala que foi demarcada como "em reforma". Eles precisavam, afinal, apenas de dois quartos. Os três Kishi faziam questão de dormir no mesmo quarto. Mark estava sentado na sua cama, tensionando e relaxando a musculatura das suas pernas como um exercício para reestabelecer o controle sobre elas. Seus olhos estavam fixos na televisão. Ao seu lado, Raye Hino, também sentada na cama, segurava a sua mão e, também, tinha toda sua atenção fixa no noticiário da hora do almoço. - ... epidemia misteriosa que está assolando os nossos mares. - disse o âncora da televisão. - Os barcos pesqueiros não conseguem capturar um peixe sequer na região da baía de Tóquio há dias e a situação está começando a afetar a disponibilidade de produtos frescos. Suzae-san, é com você na... - Mark! - chamou May, pela terceira vez. - Você está ouvindo? Mark piscou, voltando os olhos para a Scout e sentindo seu rosto corar: - Erm... não? Lita lançou um sorriso para ele e Raye deu uma pequena risada ao seu lado. May apenas permitiu-se um leve curvar de lábios antes de repetir: - Como eu dizia, não tivemos notícia alguma de qualquer outro ataque desde o do shopping. Estou começando a achar que foi um caso isolado, mesmo. - Não sei. - disse Serena. - Aquele youma me pareceu forte demais para ser algo do acaso. Todas as Scouts olharam para ela, estarrecidas, por um momento, ainda desacostumadas com a sua líder fazendo comentários pertinentes. Serena notou a atenção que recebera, sorriu, e continuou: - Além do mais, Hades-kun nos falou que Hg foi até o Negaverso investigar. Ele me assegurou que eles não têm nada a ver com isso. - O que nos traz de novo à estaca zero. - disse Amy, com um suspiro. - Ele tem certeza dessa informação? - Se Hg foi até lá e confirmou isso, é verdade. - disse Mark. Serena e Helen fizeram que sim. - Ele não descartaria uma possibilidade assim a menos que soubesse do que está falando com certeza. - Alguma chance de ser alguém do futuro? - perguntou Raye, subitamente. - Quer dizer, poderiam ser youmas mais evoluídos... - É uma possibilidade. - admitiu Amy. - Não acho que o Clã Black Moon vá nos incomodar de novo. - Serena comentou, sua voz baixa. Todos suspiraram, ficando em silêncio. Apenas Serena, naquela sala, sabia exatamente o que houve no futuro. E, mesmo assim, ela não mostrou-se disposta a comentar os acontecimentos com ninguém. Mark fez uma nota mental para conversar com Hg no futuro e descobrir o que seu líder sabia. - Será que Ryu-kun...? - começou a sugerir Raye. - Ele teria falado se soubesse. - Mina defendeu, instantaneamente colocando- se a defender os Dragon Kishi. Um sorriso formou-se nos lábios de Mark. Era fato sabido que Mina e Ryu tinham dado um passo no seu relacionamento. Ele sentiu a mão de Raye apertar a dele e os dois trocaram um olhar terno. - Essas reuniões não estão fazendo muito sentido. - observou Artemis. - Não temos informação suficiente para sequer saber se temos um inimigo. - Gaia fez que sim, ao seu lado. - Ainda assim, temos que investigar. Continuar investigando. - disse Luna, com um olhar determinado no rosto. - Algo me diz que é exatamente isso que Hg está fazendo. - comentou Helen. Todos fizeram que sim, pensativos. - Seria bom se ele nos envolvesse mais nessas coisas. - resmungou May. Mark abriu a boca para defender seu colega e líder, quando a música de edição extraordinária do jornal da televisão interrompeu-o. Os olhos dele foram automaticamente para a pequena tela, e logo se arregalaram. - Uma transmissão especial! Um ataque de monstros estranhos está acontecendo na região do Mercado Municipal! A violência... espere! - a câmera balançou, subitamente voltando-se para o céu. A imagem de uma mulher de cabelos verdes pareceu tomar conta de toda a imagem. - O que é isso? Uma mensagem! Os olhos de Mark se arregalaram quando ele reconheceu as feições de Sailor Pluto. Olhando ao seu redor, ele viu a mesma expressão nos rostos de Raye, Lita e Serena. - Guerreiros desse mundo! - a imagem disse. - Espero que tenham coragem suficiente para vir me enfrentar! - um sorriso sinistro formou-se nos lábios dela. - Caso contrário, terei que me contentar em utilizar as pessoas daqui para minha diversão! E a imagem desapareceu. O repórter voltou à tela, mas Mark desligou a televisão. O grupo ficou em silêncio por um instante, esperando que um deles iniciasse a movimentação. Finalmente, foi Luna quem falou: - Então? Mark colocou seus pés no chão e se levantou. - Mark...! - Raye falou. - Eu estou bem. - ele respondeu. - Depois do que vimos no último youma, vocês vão precisar de toda ajuda. As Scouts fizeram que sim, relutantes. Gritos depois, os guerreiros tinham partido pela janela. **** O coração de Kano Akai disparou assim que ela viu a cabeça de Ryu erguer-se, como a de um cão farejador que sentiu o rastro de sua presa no ar. Ela tinha relutado, e muito, em sair apenas com ele e Ken. De alguma forma, ficou achando que o convite fora um pretexto para discutir meios de voltar para casa. Ela não queria retornar, isso ela sabia. As lembranças e saudades de sua família eram memórias distantes, soterradas sob a amargura da morte dos seus amigos. Faziam anos que ela abandonara seu lar, trocando seu uniforme escolar pela túnica de Mars Dragon Kishi. Seria mentira dizer que sua mãe e irmã eram as pessoas mais importantes da sua vida. A ida para o novo universo foi, para ela, a oportunidade perfeita de recomeçar sua vida com o que restara do que ela considerava, no seu íntimo, sua família: Ryu e Ken. Assim sendo, Akai não fazia segredo algum do quanto estava gostando da estadia deles lá. As Scouts a aceitaram como uma delas instantaneamente, Ryu tinha reencontrado sua paz em Mina e Ken parecia estar passando muito tempo com Amy. Na mente da ruiva, tudo estava perfeito. Quando Ryu sugeriu que os três saíssem juntos, ela achou que seria para discutirem a partida. Ela acompanhou os dois, como acostumara-se a fazer nos últimos anos. Ela tinha uma confiança inata na liderança de Ryu e o seguiria para onde apontasse. Akai aprendera quão importante a obediência sem questionamento podia ser às vezes. A caminhada pelo distrito comercial de Juuban, entretanto, foi bem diferente do que ela imaginara. Nenhum dos seus dois companheiros parecia realmente interessado em tocar no assunto de buscar um caminho para sua dimensão-natal. Mais que isso, os dois estavam se comportando como adolescentes normais. Conversando sobre a experiência deles naquele lugar, trocando histórias contadas por uma ou outra Scout, deixando sua curiosidade guiá-los pelos eletrônicos avançados daquele mundo. Eles estavam, de certa forma, alguns anos no futuro e era visível em um ou outro aparato. Quando Ryu ergueu sua cabeça, Akai imediatamente achou que tratava-se de uma ameaça próxima, algo que tinha alertado a Ligação do seu líder. Ela não entendia muito bem como esse sexto sentido funcionava, mas vira sua eficácia vezes o suficiente para não duvidar da sua efetividade. Ironicamente, entretanto, não foi isso que chamou a atenção do líder dos Dragon Kishi. Ken parou no meio da sua frase, seu rosto assumindo a expressão séria que sempre surgia quando perigo se aproximava. Ele olhava para Ryu, esperando. Então, o Dragon Kishi da Terra, também, pareceu sentir algo no ar e voltou seu rosto, lentamente, numa direção em particular. Curiosa, Akai olhou na mesma direção. Um punho pareceu cerrar-se dentro das suas entranhas, espremendo seus orgãos. Lethe estava na televisão de uma das lojas. O mesmo olhar psicótico, a expressão insana. Um arrepio percorreu a espinha de Akai que, subitamente, quis correr e se esconder. Ryu e Ken, entretanto, aproximaram-se da televisão, ouvindo o desafio. - Independente do nosso destino, - Ken murmurou, sua voz baixa o suficiente para que apenas os dois Dragon Kishi com ele ouvisse. - a presença dela aqui é nossa responsabilidade. - Sem poderes? - Akai ouviu-se perguntar. - Não muda nada. - Ryu disse. - Não podemos permitir que ela mate... - ele engoliu um nome ali, e Akai tinha certeza que era "Minako". - ... mais ninguém. - Estamos desarmados. - Akai apontou. De fato, Ryu deixara sua espada na clínica. Nenhum dos seus dois companheiros se incomodou em responder, disparando numa corrida alucinada na direção do Mercado Municipal. Akai hesitou. Ela estava cansada de ser uma Dragon Kishi, cansada da responsabilidade que vinha com o posto. No seu íntimo, ela sabia que não tinha opção alguma senão ir atrás dos dois. Ao mesmo tempo, a idéia de abandonar seus companheiros de equipe naquele momento era horrenda. Ela se lembrou da morte dos outros Dragon Kishi e determinação surgiu no seu peito. Fechando seus punhos, Akai disparou atrás dos seus dois amigos. Dizer que eles não tinham poderes era uma dramatização exagerada da situação. Eles não possuíam seu controle elemental, mas Akai sabia que eles mantiveram boa parte do vigor físico que pareceu vazar, ao longo dos anos, da forma transformada para a civil deles. Mesmo as pernas relativamente curtas da ruiva conseguiam manter um ritmo de corrida praticamente impossível para seres humanos comuns. Os olhos verdes dela se arregalaram quando ela viu a barreira policial cercando a entrada do mercado. Um pouco adiante dela, Ryu curvou as pernas um pouco e saltou, seu corpo lançando-se num arco impossivelmente alto por cima dos carros patrulheiros. Os oficiais, surpresos, apenas voltaram seus rostos para o céu, protegendo seus olhos com as mãos contra o Sol forte que brilhava. O medo irracional voltou a tomar a Dragon Kishi de Marte, mas ela não hesitou. Suas pernas se curvaram e ela saltou, girando em pleno ar para facilitar sua aterrissagem. Ela tocou o chão sem problemas, mais próxima à entrada. Akai não precisou olhar para o lado para saber que Ken tinha, também, executado o salto sem dificuldades. Hesitando apenas por um momento, voltando seus olhos para trás e fixando a normalidade da cidade que estava deixando, a ruiva adentrou na construção onde o Mercado Municipal ficava, seu coração disparado com sentimentos conflitantes de excitação e temor. O caminho que eles percorreram foi piedosamente curto. Após alguns metros, Akai já conseguiu ouvir a voz familiar de Lita: - JUPITER THUNDERCLAP ZAP! Uma explosão ecoou no prédio. Os três Dragon Kishi pararam de correr e Akai tentou localizar de onde o ataque vinha. Então, Sailor Jupiter atravessou um dos muitos quiosques que serviam como lojas lá dentro. Ela atingiu um balcão coberto por laranjas e rolou pelo chão, até parar nos pés dos três guerreiros. A Scout piscou ao vê-los lá, abriu um pequeno sorriso maroto e se levantou, soltando um grito de guerra e atravessando a destruição que fizera. Ryu, rapidamente, lançou- se atrás dela, seguido por Ken. Akai foi atrás, mais devagar, tentando enxergar o que estavam enfrentando. A aparência da youma era surpreendentemente enganosa. Ela parecia uma jovem mulher de pele rosada, vestindo uma roupa composta por tiras brancas. A criatura voltou-se para os recém-chegados, casualmente se esquivando de uma esfera vermelha de energia lançada por Sailor Earth, e apontou sua mão direita. O membro pareceu pulsar, rapidamente assumindo o formato de um enorme canhão. Um brilho azul foi todo o aviso que a Dragon Kishi precisou, lançando-se num mergulho para o lado na hora exata que a rajada foi disparada. - Ryu! - a voz de Sailor Venus gritou. Akai ergueu os olhos, vendo que seu líder já tinha entrado em ação. Como um felino, ele saltou para o topo de um quiosque, apoiando-se por um momento e depois lançando-se novamente ao ar, num arco que iria levá-lo diretamente à youma. A criatura ergueu o seu braço na direção do kalyriano, e uma nova rajada foi lançada. De alguma forma, ele torceu seu corpo de forma tal que o tiro não o atingiu. Os pés dele mal tinham tocado o chão, meros centímetros na frente da sua oponente, quando ele desferiu um golpe na direção do tórax dela. A youma pareceu explodir numa gosma rosada, lançando-se para todo o lado. - Cuidado! - Akai gritou, ao ver a criatura reformar-se atrás do líder dos Dragon Kishi. Ryu virou-se a tempo de se defender de um golpe que poderia ter sido fatal, mas que apenas o lançou para trás. Sailor Mercury correu na direção do monstro, parando a uma distância não tão segura, seus braços cruzados diante do seu corpo: - MERCURY ICE STORM BLAST! O ataque líquido de Sailor Mercury atingiu uma barreira invisível diante da youma, formando uma camada de gelo e caindo no chão. A criatura apontou seu membro-arma na direção de Amy e Akai viu, com o canto dos seus olhos, Ken lançar- se numa corrida, deslizando pelo chão por perto da youma e empurrando Sailor Mercury para fora do alcance da mira. O primeiro disparo passou por cima dele, mas os olhos verdes de Akai se arregalaram quando o braço abaixou um pouco, mirando no Dragon Kishi da Terra. Subitamente, o medo que a dominava foi substiuído por uma frieza calculada, e a ruiva começou a correr, sua saia rodopiando ao seu redor. Ela lançou seu corpo contra a youma numa ombrada que desviou a mira. Ao mesmo tempo, a corrente de Sailor Venus atingiu futilmente o escudo de energia. Mina não teria conseguido salvar Ken. A youma agarrou Akai pelo pescoço, erguendo-a com facilidade do chão. A criatura ergueu a Dragon Kishi alto, um sorriso nos seus lábios, e preparou para golpeá-la no chão. Uma espada pesada passou pelo braço que a segurava, entretanto, partindo-o no cotovelo. Jupiter Knight ergueu os olhos, uma expressão fria no seu rosto. Ryu, então, passou como um relâmpago pela criatura, agarrando Akai nos seus braços. O monstro coreografou seu próximo golpe, girando com uma força impossível para atingir Jupiter Knight. O guerreiro, entretanto, não se mexeu com a velocidade necessária e foi atingido no rosto, lançado para trás com um impacto que fez Akai fechar os olhos. Sailor Mars lançou-se no trajeto do seu amado, agarrando-o em pleno ar. O Knight ficou no chão, nos braços dela, respirando pesado. - Precisamos atacar de forma coordenada! - a voz de Sailor Moon ecoou. A líder das Scouts, então, saltou na direção da youma, uma expressão determinada no seu rosto. - Sailor Saturn! Sailor Venus! As duas Scouts chamadas saltaram junto com ela, as três guerreiras tocando o chão num triângulo ao redor da criatura. Saturn girou sua alabarda com habilidade, rapidamente descendo a arma num ataque devastador. A youma riu, deixando a lâmina atravessá-la e refazendo o estrago em seguida, prendendo o Silence Glaive no meio do seu corpo. Sailor Moon recuou um passo quando viu Sailor Saturn ser girada, mas Sailor Venus não foi tão rápida: - Venus Crescent BEAM! - ela gritou. A Scout da Morte e Destruição foi girada no exato instante que a rajada ia ser disparada, derrubando Venus e lançando o disparo contra o teto. Uma das vigas, cortada pelo ataque, começou a desabar, começando a cair sobre as duas Scouts. - Mina! - Ryu gritou, correndo na direção da loira. Sailor Moon ignorou o súbito perigo, estocando com seu cetro no meio do abdômen rosado da youma e gritando: - MOON SCEPTER ELIMINATION! A youma abriu um buraco no seu próprio tórax, permitindo que a rajada passasse pelo vazão. Sailor Jupiter e Sailor Earth lançaram-se no chão, desviando do ataque devastador da líder das Scouts. Com um sorriso, a youma arrancou o Silence Glaive da sua barriga, atingindo Ryu em pleno ar enquanto ele passava para salvar Mina e Helen. Ele caiu em cima de outro dos quiosques. O telhado atingiu Sailor Venus e Sailor Saturn, prendendo-as contra o chão. A youma, então, expandiu numa enorme massa disforme, voltando a encolher ao redor de Sailor Moon. Serena tentou gritar, mas som algum saiu e seus olhos pareceram desesperados. - SERENA! - gritou Amy. Irritada, Akai levantou-se do lugar onde estava, seus olhos verdes queimando com ódio, seus punhos fechados nos seus lados. Ken tinha se voltado para a criatura no mesmo momento, uma expressão pensativa no seu rosto. Enquanto a Kishi de Marte soltou um grito, correndo na direção do seu oponente, Ken recuou, saltando para uma distância segura e observando com cuidado. A Dragon Kishi de Marte lançou um chute contra o enorme globo rosado que envolvia a líder das Scouts, apenas para sentir seu pé atingir uma substância quase líquida de tão mole. A youma prendeu o pé de Akai e começou a puxá-la para dentro. Os instintos de combate da ruiva fizeram com que, ao invés de gritar, ela tentasse golpear com seu outro pé, que foi igualmente aprisionado. Mãos fortes agarraram Akai pela cintura, puxando com força. Por um momento, ela achou que fora Ryu, mas, ao virar-se, deu de frente com um jovem vestindo uma armadura azulada, uma tatuagem de Mercúrio no seu rosto. Um visor similar ao de Sailor Mercury ou Earth Dragon cobria seus olhos: - Isso não vai adiantar. - ele disse, sua voz séria. Com o canto dos olhos, Akai viu Ryu mergulhar os braços na massa amorfa, puxando em seguida com uma força incrível. A mão de Sailor Moon chegou a sair, segurada pelo Dragon Kishi, mas a massa rapidamente pareceu tornar-se líquida novamente, englobando o kalyriano também. Ele debateu-se, tentando se livrar, mas rapidamente foi sugado para dentro. - RYU! - gritou Sailor Mars, erguendo-se do chão. Jupiter Knight, também, estava em pé. Os dois concentraram seus ataques e dispararam. - MARS CELESTIAL FIRE SURROUND! - JUPITER CHAIN LIGHTNING! Fogo e relâmpago atingiram o mesmo escudo de energia de antes, desaparecendo metros antes de atingir a youma. Inconformados, os outros voltaram a colocar tudo que tinham no ataque: - EARTH BIOSPHERE BLAST! - JUPITER THUNDERCLAP ZAP! - MERCURY ICE STORM BLAST! Todos os ataques eram como uma brisa atingindo uma parede de concreto, se desfazendo inutilmente contra a barreira que protegia a youma. Akai mordeu seu lábios, nervosa. Ela se virou, fixando seus olhos no guerreiro atrás dela: - Você não vai ajudar? Mercury Knight apenas sorriu, desmaterializando o seu visor. Ele deu dois passos rápidos e saltou. A youma voltou-se para ele, pronta para encarar a nova ameaça. Ele concentrou seu ataque diante de suas mãos, um brilho azulado se formando lá: - Mercury Ice Engulf! A rajada de energia, como todas as outras, se desfez contra a barreira. Akai notou um sorriso predatório se abrindo no rosto do Star Knight, que sacou sua espada em pleno ar e enfiou-a no chão, um pouco diante da youma. Um som horrível pareceu surgir de todos os lugares ao mesmo tempo, e o escudo outrora invisível, pulsou um vermelho forte, derretendo como gelo sob o Sol. Mercury Knight tinha uma expressão satisfeita no seu rosto: - Agora. Novamente, os guerreiros lançaram seus ataques: - MARS CELESTIAL FIRE SURROUND! - JUPITER CHAIN LIGHTNING! - EARTH BIOSPHERE BLAST! - JUPITER THUNDERCLAP ZAP! - MERCURY ICE STORM BLAST! Todas as manifestações pareceram se juntar numa só enorme massa de energia, avançando como uma esfera gigante na direção da youma. Escudo algum impediu sua passagem, e Mercury Knight saltou alto, saindo do caminho também. Os olhos de Akai se arregalaram. O golpe atingiu a superfície rosada, explodindo. Um grito inumano, mais alto que o som causado pelo ataque, ecoou. A Dragon Kishi de Marte protegeu seus olhos contra o súbito clarão. Quando ela abriu os olhos, Ryu e Sailor Moon estavam no chão, inconscientes, onde a youma estivera. Mercury Knight aterrissou suavemente ali, e rapidamente começou a examinar os dois. Todos os guerreiros ficaram em silêncio por um momento, estarrecidos. - Isso foi incrível. - disse Akai, impressionada. Como se o encanto tivesse sido quebrado, Sailor Jupiter e Sailor Mars correram até os destroços que soterravam Helen e Mina, rapidamente começando a levantar o telhado. - O que você fez? - perguntou Sailor Mercury, aproximando-se de Mercury Knight. Akai, assim como Ken, chegaram perto. - Eram dois youmas, não eram? - Ken perguntou, soando impressionado. - Sim. - Mercury Knight respondeu. Os olhos de Sailor Moon se abriram, e Akai viu o Knight de Mercúrio relaxar visivelmente. A líder das Scouts sorriu: - Foi uma boa tentativa. - Você quase deu conta de uma delas. - Mercury Knight respondeu, sorrindo. - Você parece melhor. - Sailor Moon observou, ainda sorrindo. - Eu estou. - o líder dos Knights afirmou. Serena abriu a boca para dizer algo mais, mas foi interrompida: - Precisamos ir. - Sailor Mercury falou, ajudando Sailor Moon a se levantar. - A polícia logo vai entrar, especialmente com os estragos ao telhado. Akai lançou um olhar para cima e piscou. A explosão tinha desintegrado boa parte do teto do lugar. Subitamente, com a batalha terminada, ela sentiu aquela sensação de distanciamento sumindo e começou a tremer. Foi por pouco. Ryu se levantou lentamente, tossindo um pouco. Mark subitamente avançou, ajudando-o a manter-se em pé. Ken assumiu o outro lado do líder dos Dragon Kishi: - Vamos. Os guerreiros todos, alguns correndo por conta própria, outros carregados, começaram a mover-se com velocidade em direção à porta. Akai, notando que alguém ficara para trás, hesitou, voltando-se para a cena de destruição. Mercury Knight virou-se subitamente numa direção, como se notando alguém. Ele ficou parado por alguns momentos, encarando a escuridão. - O que houve? - perguntou Akai. O Knight continuou olhando por mais um instante, antes de virar-se para a Dragon Kishi. Ele abaixou-se rapidamente, agarrando algo do chão, e começou a correr na direção dela e, consequentemente, da saída: - Nada. - ele disse. - Acho que foi só impressão. Sem entender, Kano Akai seguiu Mercury Knight para fora, usando uma das janelas laterais para evitar um encontro com a barreira policial que cercava o lugar. **** Das sombras, uma figura que já possuíra infinitos nomes observava. Mais que prestar atenção na batalha, ela olhava para a figura que, como ela, estava escondida, apenas assistindo. Os olhos rubros de Fate se estreitaram quando ela notou que a mulher em questão partilhava o mesmo rosto que ela. Então, Mercury Knight pareceu olhar na direção da estranha, que desapareceu com um brilho. Fate recuou um passo, invocando seu poder e desaparecendo também. Fim do Capítulo 6 Capítulo 7: O Dia Seguinte Satori Ryu considerava-se uma pessoa corajosa, especialmente dada toda a sua história como Moon Dragon. Ele, entretanto, nunca se sentiu tão ansioso quanto naquele momento, ensanduichado entre duas mulheres ao caminhar sob a cobertura da noite. E o principal motivo não era as mulheres. - É só uma balada, Ryu-kun. - Mina havia dito. Quando ele respondera que nunca fora a uma, os olhos azuis da loira se arregalaram e ela tomou para si a responsabilidade de introduzir o soturno jovem ao mundo da diversão noturna. De alguma forma, horas depois, ele estava caminhando com Mina e Helen até um ponto de encontro. Ryu esforçava-se para transmitir a imagem de estóico para o mundo. Ele conseguia manter sua expressão resguardada de sentimentos como poucos, e um desinteresse distante sempre parecia ser tudo que ele oferecia às coisas ao seu redor. Os olhos vermelhos dele, entretanto, frequentemente voltavam-se na direção de Mina Aino, examinando-a de cima a baixo. Apesar do frio, as pernas dela eram reveladas pela curta saia que usava. Um casaco pesado protegia-a do frio e as sandálias de salto alto que Mina usava proporcionavam uma qualidade excepcional ao seu caminhar. De alguma forma, Ryu sentia-se inadequado vestindo jeans, tênis e uma camisa com as mangas dobradas. - Você não está com frio? - perguntou Helen, com as mãos nos bolsos da sua jaqueta. Ela vestia uma blusa curta, jeans apertados e um sapato de salto. Ela, como Mina, estava muito bem arrumada. - Não. - Ryu respondeu. O grupo continuou caminhando em silêncio, rumando na direção do clube que Helen frequentava. Ryu piscou quando eles começaram a caminhar por um grupo de pessoas encostadas na parede, como se em fila. - É uma fila. - Ryu murmurou, assombrado. - Sim. - Mina respondeu. - Para o Cyberia. - voluntariou Helen. - O clube onde vamos. - Nós vamos esperar nessa fila? - Ryu perguntou, um pouco surpreso e aliviado. Pela quantia de pessoas, era improvável que conseguissem entrar naquela noite. Notando o alívio dele, Mina deu um sorriso maroto: - Claro que não! - É por isso que vamos encontrar Ray-chan aqui. - disse Helen. - Ela sempre consegue entrar sem ficar na fila. Mina fez que sim e agarrou o braço de Ryu, aproximando-se do seu ouvido: - Pra ser sincera, é a primeira vez que eu venho neste lugar! Eu nunca saí com Helen-chan e Rachel-san antes! Ryu fez que sim, sem saber como responder. Por algum motivo, Mina pareceu achar a reação dele muito engraçada e começou a rir. O jovem Dragon Kishi, tentando ignorá-la e preservar seu orgulho ao máximo, apontou adiante: - Não é ela ali? Realmente, a jovem loira e de olhos azuis estava caminhando na direção deles. Mina lançou um sorriso para Ryu, satisfeita, depois começou a rumar na direção de Rachel, seguida por Helen. Claro, o Kishi trapaceou para encontrar a Star Knight. Ela simplesmente tinha uma sensação totalmente distinta de um ser humano e a ligação dele podia localizá-la com facilidade em qualquer multidão. Ele esperou um instante, automaticamente lançando um olhar ao seu redor, depois caminhou atrás das duas Scouts. - Achei que vocês não vinham. - Rachel falou. - Eu já ía entrar. - Eu perdi a hora. - Mina falou, desculpando-se. - Não tem problema. - Rachel falou, com um pequeno sorriso. - Eu sei como é. - com isso, ela virou e começou a abrir caminhou na multidão até a porta. Helen imediatamente a seguiu. Ryu hesitou, brevemente lançando um olhar na direção do prédio. Apesar do silêncio da noite ser evidente do lado de fora, ele conseguia sentir a vibração e o movimento das pessoas lá dentro. A comparação imediata que seus instintos fizeram foi com uma guerra. Inúmeras pessoas, movimentos caóticos, sentidos sobrecarregados. Aquela impressão permanente de perigo. - Ryu-kun? - Mina chamou, voltando até ele. - Vamos? Ele fitou a loira por longos momentos, finalmente concordando com a cabeça. Ela sorriu abertamente, agarrou seu pulso e o arrastou para dentro do Cyberia. **** O cenho delicado da reencarnação da princesa da Lua franziu, incomodada com algo. Ela moveu-se, tentando colocar uma distância maior entre si e o que a perturbava. Longos momentos passaram e ela relaxou, segura que estava em paz novamente. - Serena? Serena resmungou algo, enterrando seu rosto no travesseiro e tentando, desesperadamente, ignorar o chamado. Ela realmente não queria despertar. - Serena, você tem uma visita. - sua uma voz familiar insistiu, exasperada. Olhos azuis e letárgicos abriram-se. Serena fitou sua mãe com um ar solento, silenciosamente questionando o que estava acontecendo. Sarah Tsukino apenas colocou suas mãos na cintura: - Serena, Hg está esperando você lá embaixo. Disse que tinha combinado com você. A jovem Scout ficou olhando para sua mãe, ainda soterrada na proteção dos seus cobertores, sem entender. Ela não se lembrava de ter combinado coisa alguma com ninguém. Ela franziu a testa, tentando se recordar do dia anterior. Finalmente, ela piscou. Ela não tinha combinado de encontrar Hg, especialmente às... - Oito da manhã? - ela perguntou. - Eu vou convidar Hg para entrar, e pedir para ele esperar na sala. - Sarah Tsukino falou, virando-se para sair do quarto. - Apresse-se, por favor. Serena piscou novamente, seus olhos fixos na porta que acabara de ser fechada. Confusa, ela se levantou da cama e caminhou até o seu armário, tentando concentrar-se o suficiente para selecionar suas roupas e tentando entender o que Hg poderia querer àquela hora. - Ele deve precisar de ajuda. - ela subitamente falou, seus olhos azuis se arregalando. - Hmm? - Luna perguntou, sua voz sonolenta. Serena lançou um olhar inimical na direção da sua guardiã felina, irritada com o sono dela, retornando sua atenção às suas vestimentas em seguida. Subitamente, não estava mais com vontade de voltar para a cama. Ainda assim, ela fez questão de acidentalmente pisar no rabo de Luna. Alguns minutos depois, Serena descia as escadas da sua casa. Ela sentiu as garras de Luna, agora pendurada no seu ombro esquerdo. A Scout lançou um sorriso maroto para a gata, que apenas fixou-a com um olhar maligno e sonolento. - Bom dia, Serena. - Hg falou seriamente. Ele estava encostado na parede ao lado da porta, ainda com seus calçados. - Hg, - ela forçou um sorriso, lançando um olhar na direção da cozinha. Sua mãe preparava o café-da-manhã lá. - desculpe o atraso. Bom dia. - Eu cheguei um pouco cedo. - ele respondeu. - Mas acho melhor a gente ir. Serena piscou: - Você não quer... - indicou a cozinha, com um gesto. - Nah. - ele balançou a cabeça. - A gente come no caminho. Eu pago. - o tom dele estava tranquilo, mas Serena conseguia reconhecer o olhar sério do líder dos Knights. Ela suspirou: - Mãe! Eu vou sair com o Hg! Vamos comer fora! Uma resposta afirmativa ecôou da cozinha, e Serena abaixou-se próxima a Hg, para calçar-se. Ela notou, pela primeira vez, que Hades estava lá. - Bom dia, Hades. - ela sorriu. - Não vi você. Hades miou uma resposta. - Pronta? - Hg perguntou, virando-se para a porta. Serena franziu a testa, ainda estranhando a frieza do seu amigo, mas levantou-se, seguindo-o para fora. Eles caminharam em silêncio até fora da propriedade dos Tsukino, e pararam, logo diante do portão. Hg voltou-se para ela: - Onde você encontrou Ryu? A líder das Scouts piscou, momentaneamente confusa, mas decidiu não questionar. Havia algo errado. - Perto do apartamento da May. - ela falou. - No parque. - Serena hesitou, mas sua curiosidade a venceu. - Você podia ter me perguntado pelo telefone. Ou pelo comunicador. - Você lembra do lugar exato? - ele indagou, ignorando-a. - Sim. - ela respondeu. Serena lançou um rápido olhar na direção de Luna, que apenas observava a conversa com interesse. - Por quê? - Pode me levar até lá? - Hg perguntou. Serena fez que sim, e começou a caminhar. Ela espiou seu companheiro, notando que ele caminhava em silêncio. Eles percorreram quase metade do caminho. Finalmente, cansada do tratamento que estava recebendo, ela voltou-se para ele, parando: - O que aconteceu? Hg hesitou, lançando um rápido olhar para Hades, depois encarou Serena: - Por que você não me falou que houve mais um ataque de youma? Serena piscou: - Como assim? - Quando seu amigo chegou. - Hg esclareceu. - Houve outro ataque. - Sim, houve. - Serena respondeu, confusa. - Como assim, eu nunca lhe disse? Eu... - ela hesitou, recordando. - Eu... Simplesmente não veio ao caso. Hg continuou olhando para ela, sua expressão irritada. Aos poucos, entretanto, ele foi relaxando, até que abaixou o rosto, cobrindo-o com as mãos. Ele balançou a cabeça, mais para si mesmo que para ela, depois ergueu os seus olhos, fixando-os nos dela. Serena notou que ele tinha um quase sorriso no rosto. - Serena, essa era uma informação fundamental. Os olhos da loira se estreitaram: - E como eu deveria saber disso? Você podia descontar na May ou na Mina. - ela notou que Hades, que estava entre as pernas de Hg, abaixou o rosto. - Você já descontou no Hades! - ela percebeu, irritada. Os olhos azuis de Serena voltaram para o rosto de Hg. - Rick, você precisa entender que nem todo mundo liga os fatos ou pensa no nosso "trabalho" o tempo todo! Hg desviou o olhar, subitamente envergonhado. - E você podia ter me ligado e marcado um horário decente! O Knight continuou em silêncio, seu rosto corando. Serena soltou um suspiro melodramático, e voltou a caminhar. Hg seguiu-a em silêncio. Longos momentos passaram antes dela ouví-lo: - Desculpe. Serena voltou o rosto para ele, um meio sorriso satisfeito no seu rosto: - Não tem problema. - ela disse. - Eu vou tentar lembrar de lhe falar as coisas no futuro. Hg fez que sim, ainda sem olhar para ela. Os dois continuaram em silêncio por mais alguns momentos, até que Serena parou pela segunda vez. Hg piscou, e voltou os olhos para ela: - O que foi agora? - a voz dele tinha um tom de temor. Por algum motivo, Serena achou aquilo extremamente engraçado. Contendo uma gargalhada, ela falou: - Foi aqui. - Aqui? - Hg indagou, olhando ao redor. Ele notou que diversas pessoas estavam passeando por ali. Era um dia de semana, e a rua era razoavelmente movimentada. Serena fez que sim. Com um suspiro resignado, ele fez um gesto exagerado de enfiar a mão dentro da jaqueta que vestia. Ele tirou um pequeno aparelho que parecia feito de um cristal azulado e opaco. Imediatamente, ele começou a mexer no aparelho, dando pequenas voltas em círculo enquanto observava atentamente. - O que é isso? - Serena perguntou. - É um sensor. - ele respondeu, sem olhar para ela. - Eu não posso usar meu computador para fazer a análise, então estou fazendo... ah. - um sorriso surgiu no seu rosto, e Hg parou de se mover. Ele começou a caminhar, lentamente, em linha reta, parando depois de alguns passos. Curiosa, Serena seguiu-o. Ele começou a dar uma volta lenta, parando na metade do movimento. - Achei. - ele disse, voltando a mexer no pequeno aparelho. Depois de alguns minutos, ele franziu a testa. - Achou o quê? - Serena perguntou, num misto de curiosidade e irritação. - O portal por onde os Dragon Kishi chegaram. - ele respondeu, sem prestar atenção. - Ou, pelo menos, o resíduo dele. - E o que isso significa? - Serena perguntou. Hg balançou a cabeça, claramente irritado com o pequeno aparelho que operava. Uma pequena tosse chamou a atenção dos dois guerreiros para Hades, que estava sentado no chão. Franzindo a testa, Hg abaixou-se. O gato murmurou algo, baixo demais para Serena ouvir. O Knight de Mercúrio fitou o gato por um momento, depois fez que sim, sentando-se no chão também. Ele fechou os olhos. - Hg? - Serena perguntou, abaixando-se ao lado dele. O Knight não respondeu, mantendo seus olhos fechados. Serena olhou para Hades, que observava seu protegido atentamente. A Scout, confusa, voltou-se para Luna. A gata parecia não ter idéia do que os dois estavam fazendo. Então, os olhos de Hg se abriram e Serena quase deixou um grito assustado escapar. O olhar dele estava vago, quase vítreo, como se ele estivesse em algum tipo de transe. Ele se levantou, seu rosto voltando-se para o mesmo ponto onde ele parara antes com sua ferramenta. Ele ficou parado por um longo momento, seu rosto fixo naquela direção. Serena não se atrevia a dizer que ele estava observando algo... Ele não piscava ou mexia os olhos de forma alguma. Subitamente, Hg ergueu o rosto e caminhou alguns passos, parando alguns metros adiante. Ele parou, novamente, com sua atenção fixa em algo que não estava lá. E ele piscou algumas vezes, balançando a cabeça. Serena suspirou ao ver os olhos dele voltarem ao normal. - Você me assustou. - ela comentou, caminhando na direção dele. Ele gesticulou para ela não se mexer, e removeu o aparelho cristalino do bolso da sua jaqueta, novamente mexendo nele. O cenho dele franziu por um momento, mas logo sua expressão confusa foi substituída por uma de compreensão e, eventualmente, de irritação. Ele caminhou alguns passos, esbarrando em alguns transeuntes, parando próximo ao meio-fio, seus olhos fixos numa grade de esgoto. - Achei. - ele murmurou. - Hg? - Serena indagou. - Eles trouxeram os youmas com eles, Serena. - Hg falou, voltando-se para a princesa reencarnada. - Eles trouxeram os monstros que destruíram o mundo deles. **** Irritada, ela se virou, enterrando seu rosto no seu travesseiro. A jovem estava nos estágios iniciais do despertar e não conseguia retornar ao seu sono, principalmente devido à luminosidade forte que preenchia o quarto. No fundo, ela sabia que era uma batalha perdida. Quando alguém tem consciência suficiente para se irritar com a luz, ela não mais tem esperanças de continuar dormindo sem despertar. Um som irritado escapou de seus lábios, e ela ergueu a cabeça, tirando seus longos cabelos loiros do rosto. Eles estavam embaraçados e ela levaria, com certeza, horas para retorná-lo a uma situação minimamente aceitável. Os olhos azuis dela se abriram, um pouco avermelhados por uma mistura de álcool, cansaço e sonolência. Ela não reconheceu a fronha do travesseiro. Desorientada, a jovem rolou na cama, sentando-se. Um desconforto fez com que ela se lembrasse. - Ryu-kun? - Mina Aino chamou, seus olhos correndo o resto da cama e, depois, o quarto de hotel. Não havia sinal algum dele. Franzindo a testa, a jovem Scout levantou-se da cama. Ela caminhou devagar, o desconforto que sentia agravando-se com os movimentos, até a porta fechada do banheiro. Ela abriu sem bater, deparando-se com luzes apagadas e um chuveiro seco. Ela notou uma toalha caída no chão, e abaixou-se para tocar nela. Estava úmida, mas não o suficiente para ter sido usada recentemente. Franzindo o cenho, ela voltou para o quarto, dessa vez olhando com mais cuidado. As roupas que ela usara na balada estavam espalhadas pelo chão, tendo sido descartadas sem cuidado. Ela caminhou até a cama e notou uma mancha vermelha onde ela dormira. Ela não viu, entretanto, qualquer sinal do homem que estivera lá na noite anterior. Mina fechou os olhos, respirando fundo e controlando o súbito desespero que surgiu. Ainda caminhando sem estabilidade, ela foi até a pequena mesa em um dos cantos. No bloco de notas do hotel, uma mensagem tinha sido escrita às pressas. - "Desculpe." - ela leu. - "Você não é Minako e merece melhor." As pernas da Scout finalmente cederam sob o seu peso, e ela caiu sentada no chão encarpetado, despreocupada com sua nudez. Ela ficou olhando para o bilhete, incapaz de lê-lo novamente. Suas mãos tremiam, balançando o papel compulsivamente. Lágrimas começaram a surgir nos seus olhos, mas a jovem as forçou a sumir. Piscou algumas vezes e arregalou seus olhos, fazendo o possível para endurecer seu semblante. Ela subitamente sentiu-se sem ar, como se seu peito estivesse cheio de... algo. A Scout controlou sua respiração, calmamente inspirando e expirando até sentir ela normalizar. Finalmente, ela voltou sua atenção para suas mãos trêmulas, e enrigeceu os seus músculos, forçando-as a ficar estáveis. Mantendo absoluto controle sobre si mesma, ela forçou-se a recapitular a noite anterior. Depois que eles entraram no clube, eles não ficaram muito tempo por lá. Ela tinha notado, cedo, que o kalyriano não se sentia confortável naquele ambiente. A atenção dele ficava indo de um lado para o outro, como se ele esperasse que inimigos fosse emboscá-lo a qualquer momento. Eles tentaram dançar mas, de novo, Ryu não estivera confortável naquela situação. Ele simplesmente não tinha a espontaneidade necessária para fazê-lo. Seus movimentos eram muito disciplinados, contidos. Ele não conseguira se soltar. Mina, então, o convencera a tomar um drink ou outro, achando que o álcool iria relaxá-lo. Quando não funcionou, ela sugeriu que eles fossem embora. No momento que eles colocaram os pés para fora do clube, ele tinha agarrado- a como um homem possuído. Mina sabia que seu rosto devia corar com a lembrança mas, por algum motivo, tudo parecia muito distante para ela. Ele sugerira ir até a casa dela. Ela o convencera a entrar no primeiro hotel e conseguir um quarto. Os olhos de Mina voltaram-se para a porta, e ela quase conseguia enxergar os dois entrando no quarto, ainda agarrados, e batendo-se nas paredes, desesperados. Ela fitou as peças de roupa no quarto, lembrando vividamente do momento em que cada uma fora removida do seu corpo. Finalmente, seus olhos foram para a cama. Novamente, ela viu as duas figuras movendo-se. Mina olhou para seus braços, suas pernas, seu tórax. Marcas avermelhadas ou pequenos hematomas adornavam seu corpo, lembranças de que a noite fora bem diferente do que ela imaginara como uma criança. Ela fechou os olhos, recordando-se das sensações que experimentara, da confissão de amor que fizera no final, e estremeceu. Não fora ruim, ela decidiu, mas longe do que ela imaginara antes. Seus olhos abriram-se novamente. O que Mina definitivamente não havia esperado era acordar sozinha no dia seguinte. Ela fitou o bilhete nas suas surpreendentemente firmes mãos por um longo momento. Ela precisava encontrar Ryu e conversar com ele. Com essa decisão firme na sua mente, ela se levantou, caminhou até o banheiro e ligou o chuveiro. **** Ken abriu os olhos, despertando com o ruído de alguém entrando no quarto onde estava hospedado. Ele manteve-se perfeitamente imóvel, sua vista fixa no teto, e controlando sua respiração. - Ken? - a voz de Ryu chamou. O Kishi da Terra soltou o fôlego que estava prendendo, subitamente aliviado. Apesar de não ter sofrido qualquer tipo de ameaça enquanto dormia desde que chegara ao mundo das Scouts, ele simplesmente não conseguia deixar de manter-se alerta durante o sono. Chegava a ser irritante, especialmente em um lugar onde aquilo parecia inútil. - Ken? Eu sei que você está acordado. - Ryu insistiu, sua voz com um tom que Ken nunca ouvira nela antes. - O que houve? - o Earth Dragon perguntou, sentando-se. Silêncio respondeu. Franzindo a testa, Ken levantou-se da cama, piscando algumas vezes para que seus olhos se acostumassem com a luz fraca que invadia o quarto pela janela fechada. Akai, que ainda dividia o quarto com seus dois companheiros de equipe, permanecia adormecida em uma das outras camas. - Ryu? - Ken insistiu, agora um pouco preocupado. Não era do feitio de Ryu hesitar antes de uma conversa, especialmente uma que ele iniciara. - O que houve? - Você tinha razão, Ken. - Ryu falou, sua voz cansada. - E eu devia ter te ouvido. O Dragon Kishi da Terra lançou um olhar na direção de Akai, antes de dizer: - Não é melhor irmos lá fora? Ryu não respondeu, mas Ken pôde ver sua figura silenciosa se levantar do sofá onde estivera sentado e caminhar até a porta. Hesitando apenas por um instante, o Kishi da Terra o seguiu, fechando a porta cuidadosamente atrás de si. Uma vez fora do quarto, as luzes automáticas do corredor da clínica acenderam-se. Ryu ainda vestia as mesmas roupas que colocara para sair na noite anterior, e seus movimentos pareciam letárgicos e cansados. Não parecia, entretanto, um cansaço físico. Ken sabia perfeitamente que uma noite de pouco ou nenhum sono não era o suficiente para afetar seu colega. Os dois caminharam em silêncio até saírem do prédio, indo ao quintal que ficava nos fundos da clínica. Normalmente, não era acessível aos pacientes, mas a mae de Amy o liberara para eles. Os Kishi normalmente o usavam para praticar. Era lá, também, que Ryu ajudava Mark com sua reabilitação. Uma vez no pequeno gramado, Ryu sentou-se sem cerimônia no chão, apoiando seus braços nos joelhos e fixando seus olhos rubros no muro diante de si. Ken sentou-se ao lado do seu líder, examinando-lhe o rosto com cuidado. Incrivelmente, Ryu parecia perturbado com algo, um semblante completamente incomum no kalyriano. Normalmente, ele manteria sua máscara de frieza o tempo todo. - Ryu? - Ken perguntou pela terceira vez naquele curto dia. - O que houve? - Eu dormi com Mina. - Ryu falou, sua voz baixa e suave. Era quase como se outra pessoa estivesse falando. - Você o quê? - Ken perguntou, um pouco surpreso. - Eu dormi com ela. - Ryu repetiu, voltando-se para Ken. A surpresa no rosto do Kishi da Terra deve ter assustado o kalyriano, que corou e desviou seu olhar para o chão. - Bom. - Ken falou, sem saber bem o que mais dizer. - Foi... ah... bom? - Foi diferente de Minako. - Ryu falou, sem erguer o rosto. - E, ah, o que você está fazendo aqui? Tão cedo? - Ken perguntou, ainda sem jeito. Não sabia bem como manter a conversa. - Eu fugi. Ken respirou fundo, chocado, finalmente entendendo sobre o que era aquilo tudo. Ele não tinha experiência com o lado sexual das mulheres, mas tinha em boa consciência que fugir durante a noite... - Você se despediu dela? - Ela estava dormindo. - Você é um imbecil. - Ken falou, ao mesmo tempo que concluiu aquilo. - O que estava passando na sua cabeça? Por que você fez isso? - Eu deixei um bilhete. - Ryu falou, soando como se já soubesse quão boa a idéia fora. Ken sentiu-se na obrigação de reforçar-lhe o fato, entretanto: - Ótimo. Ela deve estar feliz, acordando com um pedaço de papel. Ryu ficou em silêncio, ainda com os olhos fixos no chão. Ele parecia, como parecera desde que chamara Ken no quarto, estar perdido em profundos pensamentos, como se percebendo algo muito complexo e importante pela primeira vez. - O que você vai fazer? - Ken perguntou, suspirando. Ryu pareceu não ouvir a pergunta, seus olhos vermelhos e arregalados fixos no gramado diante de si. Finalmente, ele ergueu o rosto lentamente, voltando-se para seu melhor amigo: - Ken, ela não é Minako. O Kishi da Terra sentiu um frio enorme formar-se no fundo do seu estômago. Ele fechou os olhos, tentando controlar a sensação de desespero que surgira. A situação era bem pior que ele imaginara, e era possível que aquele único ocorrido acabasse tornasse-os persona non grata. - E você estava certo, Ken. - Ryu continuou. - Nós não podemos continuar aqui. - ele balançou a cabeça. - Eu preciso aceitar que ela morreu. E nós precisamos voltar, continuar... - Você fala agora em voltar? - Ken perguntou, sem tentar esconder sua irritação, que crescia segundo a segundo. - Depois de todas as discussões que nós tivemos, com você se recusando?! - o Kishi passou a mão no cabelo. - E você precisava fazer uma merda desse tamanho para perceber isso?! - ele finalmente gritou, levantando-se com um salto. Ryu apenas olhou para o seu amigo, boquiaberto e imóvel. Era uma cena surreal para os dois: o pacífico e compreensivo Ken perdendo a paciência e o guerreiro Ryu incapaz de reagir. Os dois ficaram se encarando por um longo instante, imóveis, uma tensão pairando no ar entre eles. Finalmente, Ken falou. - Por que ela não é Minako? - Ela disse que me ama, Ken. - Ryu falou, sua voz pesada com arrependimento. - Ela não pode ser Minako... a minha Minako, que nunca disse isso para mim. Nem para ninguém. Por todo aquele papo de ser a Senshi do Amor, ela nunca realmente disse isso para ninguém. Era algo... mais precioso que isso. - o líder dos Dragon Kishi balançou a cabeça. - Ryu, você parou para pensar o que você fez com a Minako desse mundo? - Ken perguntou. Abaixando a cabeça, o kalyriano fez que sim. Ken suspirou. Ele imaginara que seu amigo tinha sido pêgo pelas fantasias de mundo ideal que o lugar onde estavam oferecia, mas ele não achara que tivesse sido tão grave. Ryu havia, obviamente, perdido completamente a perspectiva do que tinha e estava acontecendo com eles, vivendo um romance com alguém que, na mente dele, era a reencarnação de Minako. Ele perdera-se numa idéia de segunda chance. - É pior que isso, Ken. - Ryu falou. - Lethe está aqui, e tá atrás de nós. Não dá pra... - ele parou por um momento, balançando a cabeça. - A verdade é que o motivo dos youmas e dos ataques somos nós. - Não brinca. - uma nova voz falou, interrompendo o momento solene entre os dois amigos. Ken e Ryu voltaram-se para a porta da clínica, deparando-se com Hg. Instantaneamente, Ryu levantou-se, recuando um passo: - Não é tão simples assim... Ken xingou silenciosamente. Aquele era, provavelmente, o pior momento possível para um confronto entre os dois líderes. - Ao contrário. - disse Hg, sua voz fria como seus poderes. Os olhos negros do rapaz, geralmente calculistas e distantes, queimavam com uma fúria quase incontrolável. - É bem simples. Vocês fugiram das suas responsabilidades, trouxeram uma raça quase invencível de youmas e sequer se deram ao trabalho de nos avisar. - o Knight deu um passo adiante, fixando um olhar acusador na direção de Ryu. - Você soa como se nós tivéssemos feito de propósito. - o kalyriano respondeu, e Ken notou a mudança de tom na voz do seu líder. Ryu estava apegando- se a emoções mais familiares para enterrar as dúvidas e arrependimentos que o assolavam. Ele soava irritado. - Você é responsável por cada morte que aconteceu aqui por esses youmas. - Hg retrucou, também soando menos que paciente. - Simplesmente porque não pensou. - Você pensaria se tivesse passado pelo que eu passei? - Ryu retrucou, parando por um momento. - Eu ouvi dizer que a cratera no centro da cidade teve participação sua. Ken fechou os olhos, exalando ruidosamente. Ele notou a hesitação do líder dos Knights, e recuou um passo. Era óbvio que o confronto havia tornado-se inevitável. - Pelo menos, seu irresponsável, eu assumo responsabilidade pelos meus erros. - Hg falou. - Eu errei e causei um número de mortes. - um sorriso sádico surgiu no rosto do Knight. - E você? Assume que a sua cagada matou todo o Japão do seu mundo? E seus companheiros de equipe? O príncipe que iria governar o futuro? - o sorriso sumiu. - A mulher que você ama? - O que você disse? - Ryu perguntou, sua voz baixa e rouca. Ken podia ver os músculos do líder dos Dragon Kishi tensionarem a distância. - Você ouviu. - Hg retrucou, com um tom provocador. - Você é o líder deles. Você errou e eles morreram. - Eu não tive culpa. - Ryu falou, seus punhos fechando-se e suas pernas se afastando. - Não? - Hg perguntou, fingindo surpresa. - Então como você e só dois dos seus companheiros de equipe, todos sem poderes e sendo procurados pelos youmas, conseguiram recuperar o Cristal de Prata? Por que você não planejou e agiu daquele jeito desde o começo? - os olhos de Hg se estreitaram, da forma que olhos costumam se estreitar quando seus donos estão prestes a ser particularmente cruéis. - Ficou mais fácil sem o peso morto? Ken fechou os olhos ao mesmo tempo que Ryu soltou um grito gutural e lançou- se sobre o rapaz mais jovem, e o som de carne atingindo carne ecôou pelo quintal. O Kishi da Terra abriu os olhos a tempo de ver Ryu caindo para trás, tendo sido atingido por um chute rápido e bem colocado do Star Knight. O líder dos Kishi levantou-se com uma cambalhota, seus olhos vermelhos tornando-se frios e distantes e um pequeno sorriso surgindo no seu rosto: - Achou que ia vencer com um golpe só? Hg recuou um passo, colocando-se em guarda, um olhar de insegurança passando brevemente pelas suas feições. - Ryu... - Ken começou, colocando a sua mão no ombro do seu amigo. - Ken. - Ryu interrompeu, empurrando seu companheiro de equipe sem olhar para ele. Perdendo o equilíbrio, o Kishi da Terra caiu sentado no chão. O kalyriano pareceu não notar. - Fique quieto. Isso só vai demorar um segundo. **** Mark e Raye estavam caminhando lentamente, dando tempo para que seus músculos esfriassem após a corrida que fizeram. Todas as manhãs, desde que o Knight de Júpiter voltou a caminhar, a Scout chegaria na clínica cedo para levá-lo para caminhar e correr por um percurso de três quilômetros. Não era muito para eles, acostumados com os rigores de seus deveres como guerreiros, mas era o suficiente para exercitar os músculos feridos de Mark e ajudá-lo a recuperar o controle que ainda faltava sobre suas pernas. Oficialmente, era um excelente aquecimento antes da rodada de exercícios intensa à qual Ryu submetia o Knight em recuperação. Extra-oficialmente, era uma boa oportunidade para os dois passarem um tempo a sós, explorando o relacionamento que surgia entre eles. Todos os outros momentos pareciam ser compartilhados com outras pessoas. Raye, particularmente, estava cansada disso. E dos ataques. E de lutar. Pela primeira vez, ela entendeu como Serena sentira-se quando fez, no topo da coluna de gelo, no Pólo Norte, que tudo voltasse ao normal. Ela estivera apaixonada e desejara estar com seu amado e viver o dia a dia de uma menina normal. Os olhos de Raye fitaram a feição séria de Mark, perguntando-se o que passava por trás daqueles belos olhos. Será que ele contemplava o mesmo que ela? Ou talvez lembrasse de alguma batalha distante? Ou, ela pensou, subitamente, talvez da sua família. Foi um pensamento estranho a Raye. Ela não tinha pensado muito a respeito da vida de Mark anterior aos Star Knights. Além das poucas conversas que tiveram sobre o escuro e sobre a morte de um dos amigos dele, a jovem Scout não sabia muito a respeito do seu namorado. Raye sentiu seu rosto esquentar com o título que atribuíra a Mark. - O que houve com os seus pais? - Mark perguntou, como se lendo a mente dela. - Meus pais? - Raye perguntou, surpresa. - Desculpe se é impróprio. - Mark falou, olhando para ela com o canto dos olhos. - Mas... Eu estava pensando na minha família, e fiquei pensando em como era a sua. Raye franziu o cenho, pensativa. Ela não gostava de pensar muito a respeito da família dela. Ela abriu a boca, preparando-se para informar Mark disso, quando viu os olhos dele, interessados e atentos, fixos no rosto dela. Ele não estava perguntando por mera curiosidade ou por achar estranho. Ele simplesmente queria conhecê-la melhor. Assim, ela pensou consigo mesma, como ela queria conhecê-lo melhor. Raye fechou a boca, respirou fundo, depois parou de caminhar, olhando para o céu azul acima deles: - Minha mãe morreu quando eu era bem pequena. Mesmo antes disso, ela tinha se divorciado do meu pai. - Seu avô é pai da sua mãe? - ele perguntou. - Tio da minha mãe, na verdade. - Raye corrigiu. - Mas foi ele quem criou ela. - E seu pai? - Mark perguntou. - Ele não fala muito comigo. - Raye falou, tentando forçar seu tom de voz a ficar leve. - Ele tem outra família. Casou de novo, tem mais um filho. Ele manda o dinheiro todo mês e tenta me ver o mínimo possível. Diz que eu pareço demais com a minha mãe. Mark fez que sim, entendendo a relutância dela em conversar a respeito. - Sua mãe devia ser uma pessoa maravilhosa. - Mark falou, olhando para o céu. Raye voltou o rosto para ele, olhos arregalados. - Sabe, se você parece com ela. - o rosto dele corou levemente, e a própria Raye sentiu seu rosto esquentar. - Eu queria conhecê-la. - ele sorriu, subitamente. - E gostaria que você conhecesse os meus pais. O coração de Raye estava martelando no seu peito, como geralmente ficava quando Mark dizia algo que demonstrava sentimentos por ela. O Knight de Júpiter virou-se para ela, ainda sorrindo: - Você se incomoda? Eles moram em Yellowknife... fica no norte do Canadá. - Parece frio. - Raye comentou, sem saber mais o que dizer. - Um pouco. - ele riu. - Eu... - ela abaixou os olhos, vermelha. - Eu adoraria. Mark sorriu, claramente imaginando a cena toda. Raye levantou o rosto, e notou seus lábios curvando-se para cima também, espelhando a reação do Knight. Por um momento, os dois mantiveram-se imóveis, e a Scout ficou imaginando como seriam os pais do seu namorado. Perguntou-se se eles a aceitariam, se eles poderiam ser a família que ela quis por tanto tempo. Então, Mark fechou os olhos e começou a curvar-se na direção dela. Como sempre acontecia, o fôlego de Raye a desertou. Os olhos dela se fecharam. Então, os lábios dos dois se tocaram e mais, e o mundo pareceu sumir. Raye perdeu a noção da passagem de tempo por alguns momentos, deixando-se levar pelas sensações que seu beijo com Mark provocavam. Ele dificilmente fora seu primeiro beijo, mas ela admitiria abertamente que nenhum outro homem tinha a beijado daquela forma ou provocado aquelas reações. As mãos dele deslizaram dos ombros dela pelas suas costas, passando por baixo do cabelo, e envolveram sua cintura possessivamente. A própria Raye ergueu-se nas pontas dos pés, jogando seus braços esguios ao redor do pescoço dele. E Mark afastou-se, seu rosto erguendo-se em alerta e voltando-se para sua esquerda. Raye quase suspirou, reconhecendo a reação imediatamente. Gyrum. - O que houve? - ela perguntou, sem fôlego. - Hg está... - Mark começou, mas não terminou. A pessoa em questão passou correndo por eles, veloz como uma flecha, rumando para a clínica. O jovem casal piscou, virando-se para a direção que o Knight rumava, aparentemente apressado. Mark franziu a testa. - Ele geralmente se transforma quando tem um ataque. E alguém colidiu com Raye com força, derrubando-a no chão. Curvas suaves e cabelos loiros e familiares obstruíram a visão da morena, que rosnou: - Serena. Olhos azuis abriram-se, piscando algumas vezes. Mark, estranhamente já em pé, ofereceu a mão para Serena, ajudando-a a levantar, e, em seguida, segurou o braço de Raye, fazendo o mesmo. - O que houve? - ele perguntou, seus olhos fixos nos de Serena. - Rick. - ela respondeu, sem fôlego. Raye piscou. Era raro ver Serena genuinamente cansada. - Ele descobriu... - O quê? - perguntou Mark, quando a líder das Scouts hesitou. - Ele descobriu que os youmas vieram com os Dragon Kishi. - a voz familiar de Hades respondeu. Raye piscou, olhando para o chão. Luna e Hades estavam lá, ela caída e atordoada, ele já em pé. Serena devia estar carregando-os enquanto corria, Raye percebeu. - Como assim? - perguntou Mark, num tom de voz totalmente diferente do que ele usara durante a conversa íntima que ele e Raye partilharam pouco antes. Raye sentiu secretamente satisfeita pela diferença marcante no tom de voz dele. Luna, finalmente levantando-se, falou: - Ele chegou cedo na casa de Serena hoje. - Queria que eu mostrasse onde foi que o primeiro ataque dos youmas aconteceu. Daí ele fez algo e... disse que os youmas vieram com Ryu e os outros. - Ele checou o tecido da realidade. - disse Hades. - Pluto ensinou Krysen a fazer isso quando ele era novo. Raye piscou: - Isso parece bem impressionante. - Ele ficou com a mesma cara de quando ele abriu o portal para nos levar ao futuro. Mark, entretanto, ficara em silêncio durante boa parte da convera, pensativo. Finalmente, ele falou: - Acho que nós devemos ir atrás dele. Todos os outros olharam para ele. - Ele está brigando. - Mark falou, subitamente. - E eu não acho que está ganhando. **** Hg piscou. Seus olhos devem ter ficado fechados por frações de segundo. Quando suas pálpebras se levantaram, ele estava olhando para o céu. A explosão de dor no seu peito veio um instante depois, assim como a sensação da grama úmida com orvalho nas suas costas. Ele também constatou que a sola do pé de Ryu se aproximava dele numa velocidade assustadora. Instintivamente, ele rolou para sua esquerda, girando e sentando, virando numa rasteira em seguida. O movimento todo, graças aos seus músculos de Knight, levou menos da metade do tempo que levaria para um humano normal. Ryu saltou por cima da rasteira, avançando no mesmo movimento. Hg mal teve tempo para afastar-se, escapando do primeiro golpe, e sequer viu o soco lateral de esquerda que atingiu-o na lateral da cabeça. Dessa vez, entretanto, ele apenas cambaleou com o impacto, sua mente finalmente processando um pensamento coerente ente os gritos dos seus instintos. Ryu Satori era impossivelmente rápido. Enquanto o equilíbrio faltava para o líder dos Star Knights, o pé direito de Ryu rumou na direção da sua cabeça. Sem apoio para lançar-se para o lado, Hg ergue os braços, protegendo seu flanco. O impacto levantou-o do chão, lançando-o contra a parede. Seu fôlego lhe deixou e sua mente, desesperadamente, tentava pensar numa estratégia para contra-atacar. Um chute no seu estômago fez o concreto nas suas costas tremer, e, novamente, respirar tornou-se uma tarefa difícil para o brasileiro. Quando um dos punhos de Ryu veio na direção do seu rosto, ele abaixou- se, rapidamente jogando-se para frente e tentando atingir o Dragon Kishi com um soco. Ryu simplesmente não estava lá. Sem esperar para localizar o seu oponente, desesperado, Hg jogou-se para frente, numa tentativa de esquivar-se do golpe que ele sabia que viria. O chute atingiu-o no meio das costelas esquerdas, como se Ryu soubesse o que ele ia fazer antes dele. O impacto lançou-o rolando pela grama. Distantemente, ele ouviu um grito do companheiro de equipe de Ryu. Obviamente, ele estava tentando impedir que o Kishi continuasse sua investida, dando a Hg um momento para se levantar e fixar os olhos no seu adversário. O corpo dele gritava de dor, e ele tinha certeza de que hematomas estariam surgindo em toda parte. A sua respiração vinha em arfadas curtas e dolorosas. Ryu não tinha sequer perdido o fôlego. Mostrando os dentes, mais para si mesmo que pare o jovem de olhos vermelhos diante de si, Hg fechou seus punhos, colocando-os de uma forma a proteger seu corpo. Ele fixou sua atenção no seu oponente, forçando-se a não piscar. Dessa vez, Hg viu o avanço de Ryu, como a sombra de um pássaro que passara voando. Os passos eram rápidos e o caminhar, errático, sem seguir um padrão discernível. O movimento dos braços, mínimos, deixando-os prontos para serem utilizados. Instantes se passaram e a distância entre os dois tinha desaparecido. Preparado, Hg colocou os braços no caminho do primeiro soco, tremendo com seu impacto. Em seguida, ele moveu o corpo, deixando o chute de Ryu atingir suas costas, numa região que o estrago era mínimo. Ele próprio desferiu um golpe ao mesmo tempo, apenas para sentir uma mão rápida envolver seu pulso, virando-o e forçando-o a ajoelhar-se, já de costas para seu inimigo. Conhecendo a manobra, Hg saltou por cima do seu oponente, intentando inverter as posições e usar o próprio braço de Ryu para enforcá-lo. Ele ainda estava em pleno ar quando a mão de Ryu soltou a dele, e seus pés ainda não tinham tocado o chão quando o pé direito de Ryu atingiu-o nas costelas. Hg rolou com o impacto, sabendo que não teria tempo para se recuperar. Ele rolou mais que o necessário, com o intuito de ganhar impulso suficiente para levantar-se e se virar com uma acrobacia. Seu corpo estava apenas esticando-se para saltar quando um soco atingiu-o no meio das costas, seguido por um golpe rápido com a outra mão abaixo das costelas, no seu rim. O mundo do Knight explodiu em dor, mas ele ignorou-a, chutando cegamente para trás. Ele sentiu o movimento de Ryu, esquivando-se do golpe, e se jogou para frente ao mesmo tempo em que dava um coice com sua outra perna. Finalmente, ele atingiu o Kishi. Na coxa. O Star Knight caiu sem jeito no chão, mas conseguira afastar Ryu o suficiente para levantar-se, virando-se para seu oponente enquanto forçava suas pernas a permanecerem esticadas. Ryu ainda não parecia cansado. Um pequeno sorriso adornava o rosto do kalyriano, como se ele estivesse se divertindo. Hg respirou fundo, finalmente percebendo o tamanho do problema que tinha nas mãos. Era óbvio que o seu oponente estava anos-luz à sua frente em técnica, mas tinha algo ali que ía além disso. Era como se Ryu pudesse prever os movimentos de Hg antes da sua execução. Fazendo que sim para si mesmo, Hg concentrou-se na sua Visão, tentando ver, como vira antes de viajar para o futuro atrás de Wiseman, os momentos que estavam por vir. Ele viu o avanço rápido de Ryu, mas, desconexo com o presente, foi atingido da mesma forma, apenas vendo-se golpeado instantes antes que de fato acontecesse. O chute com giro que atingiu-o no meio da barriga arrancou-lhe, novamente, o fôlego. Um outro chute seguiu o primeiro, dessa vez atingindo Hg na orelha, seguido por um segundo na base do seu pescoço, que lançou-o contra o gramado. Se ele não fosse um Knight, aquele golpe teria lhe quebrado o pescoço. Hg balançou a cabeça, tanto para estabilizar sua tontura quanto para tentar normalizar sua visão. Ele viu, de relance, a chegada de Ryu. Desta vez, reagiu rápido o suficiente, virando um soco e, em seguida, um chute que atingiram o Dragon Kishi. Hg conseguiu afastar-se do caminho de um soco, empurrando o braço em questão para longe com a mão direita e chutando de frente com seu pé direito, com o calcanhar, como se quisesse derrubar uma porta. Ryu foi empurrado para trás. Foi só então que Hg percebeu que ainda estava olhando o futuro imediato. Sua visão voltou ao normal e ele piscou, surpreso. Seus olhos negros encontraram os rubros de Ryu. O Kishi ainda parecia não ter sido afetado pela batalha, e sua expressão continuava fria como o momento em que se levantara depois de ter sido atingido pelo primeiro golpe. Hg foi atingido por três golpes e não tinha a menor idéia do que foram, apenas da dor que causaram. Suas costelas pareceram explodir na sua esquerda, assim como sua coxa direita e seu rim esquerdo. Ele começou a erguer a cabeça, quando um chute no centro do seu peito lançou-o para trás, seguido por quatro socos rápidos nos seus ombros, estômago e face esquerda. Cambaleando, Hg recuou dois passos, apenas para receber mais um chute forte no estômago, seguido pelo giratório no pescoço, o que quebraria o pescoço de um humano, lançando-o contra o gramado. Desta vez, ele não conseguiu recuperar-se a tempo de evitar um pisão no seu ombro direito e na sua coxa esquerda, nem sequer o chute na sua orelha direita. Seu mundo escureceu por um momento, mas ele conseguiu agarrar-se à consciência. Ele já estava caído na grama. Tinha desmaiado no curto período que levou para atravessar o quintal, lançado ao ar pelo golpe de Ryu. Frustrado, Hg apoiou-se nos cotovelos, tentando levantar-se. - Ryu! Chega! - gritou Ken. - Ele ainda está acordado. - Ryu respondeu, sua voz fria. Hg abriu os olhos, apenas para notar que apenas o direito obedecera. O esquerdo estava cerrado com o inchaço que se formara com o soco na sua face esquerda. Hg respirou fundo, sentindo dificuldade e dor ao fazê-lo. Era óbvio que essa luta era bem mais séria e complicada que ele imaginou que seria. A intervenção de Ken não iria ganhar mais que alguns instantes para ele, e o Knight de Mercúrio pretendia usá-los. Ele concentrou-se brevemente, preparando-se para uma ação rápida. Ainda assim, ele manteve-se imóvel, movendo-se mais letargicamente que o necessário. Ele tinha poucas chances, mas a batalha não estava perdida. Ryu aproximou-se com velocidade, tendo novamente tirado Ken do seu caminho. Ele acelerou seu passo nos metros finais, como um jogador preparando-se para chutar uma bola, e desferiu um pontapé no centro do corpo de Hg. O Knight quase sorriu. Hg encolheu-se com o impacto, agarrando o pé do Dragon Kishi. Ele usou sua concentração e invocou o pouco de seu poder que conseguia enquanto destransformado, subitamente resfriando o pé de Ryu imensamente. Surpreso, o Dragon Kishi reagiu previsivelmente, mudando o peso para o pé agarrado e tentando chutar com o outro. Hg soltou o seu oponente, rolou para trás e desferiu um chute contra o joelho do Dragon Kishi. Errou, atingindo apenas a canela da perna congelada. Ryu recuou um passo, rosnando um xingamento. Aproveitando sua vantagem, Hg lançou-se sobre Ryu, desferindo um soco no rosto do kalyriano e atingindo. O Kishi se recuperou e bloqueou o segundo com seu braço esquerdo, soltando um grito quando algo pontiagudo abriu-lhe um rasgo no antebraço. Um chute violento lançou Hg contra a parede distante. O Star Knight atingiu o obstáculo com força, caindo no chão de joelhos em seguida. Ele ergueu o rosto, vendo que Ryu estava olhando para seu braço com choque. Se ele tivesse se esquivado do soco ao invés de bloqueá-lo, a Mercury Dagger teria rasgado-lhe o pescoço. Os olhos dos dois combatentes se encontraram, cada um vendo o outro como se pela primeira vez, reavailiando suas opiniões completamente. Uma linha havia sido cruzada. Hg respirou fundo, preparando-se para gritar a sua familiar frase de transformação e para levar o combate a um nível completamente novo e perigoso, quando o grito estridente de Serena chamou-lhe a atenção: - Parem! - ela olhou ao redor, e continuou. - O que vocês pensam que estão fazendo?! **** Apesar de todo o bravado anterior, Mina mal tinha posto o pé para fora do hotel quando começou a sentir seu corpo chacoalhar como se golpes violentos a estivessem atingindo. Ela brevemente se perguntou o que estava acontecendo, quando percebeu que chorava. Irritada consigo mesma, Mina começou a caminhar rispidamente na direção da sua casa, decidida a trocar-se antes de encarar Ryu em busca de um esclarecimento. A única coisa que a mantinha longe do desespero era a esperança que tudo fosse um grande engano, e que ele sentisse algo por ela. No fundo, ela não conseguia deixar de rir amargamente das sua inocência, uma parte dela já aceitando que tinha estragado algo importante e único na vida dela. Uma memória breve da noite anterior passou pela mente de Mina e ela estremeceu, lembrando-se das sensações. Confusa, sem entender os sentimentos conflitantes que degladiavam-se dentro dela, Mina cambaleou para dentro da cafeteria mais próxima, levemente enjoada. Precisava de alguns momentos para se recompor. Não podia encarar seus pais ou Artemis daquele jeito. Sentou-se numa das mesas e respirou fundo, enterrando seu rosto nas mãos e tentando se acalmar. Precisava manter-se tranquila. Não era uma situação terrível e ela, certamente, já enfrentara pior. Caminhara pelo deserto gelado do Ponto D, enfrentando a morte certa. Ficara em pé contra o mais terrível droid do Clã Black Moon. Certamente, confrontar a pessoa com quem fizera amor pela primeira vez, especialmente sendo alguém com quem passara dias seguidos, não era tão assustador. Mina suspirou. O som saiu molhado e lembrava um pequeno choro. - Noite foi longa também? - uma voz familiar perguntou. A jovem Scout ergueu os olhos, deparando-se com a bela forma de Rachel Losan. Como Mina, ela vestia roupas que usara na noite anterior, e seus olhos pareciam cansados, como se tivesse passado a noite em claro. Ou, ao menos, como se tivesse dormindo pouco. Como se notando o escrutínio ao qual foi submetida, Rachel lançou um sorriso charmoso, ao mesmo tempo que puxou uma cadeira na mesa de Mina, sentando-se num movimento fluído e gracioso: - Às vezes, a minha companhia da noite merece que eu fique até de manhã. - Como assim? - perguntou Mina, confusa. Rachel lançou-lhe um sorriso fraternal: - Isso, minha querida irmãzinha, quer dizer que eu fico com a pessoa com quem faço sexo até o dia seguinte. - ela parou por um momento, e acrescentou: - Às vezes. - Faz...? - Mina perguntou, como se não entendesse. Rachel continuou com seu sorriso preguiçoso: - Isso. Sexo. Sabe, quando duas pessoas se gostam... - ela riu da própria piada, e falou. - Desculpe. Nós somos do planeta de Vênus, lembra? - sem esperar uma resposta, ela continuou. - Eu saio sempre que posso pra um pouco de exercício na horizontal. Mina apenas olhou para ela, boquiaberta, seus problemas temporariamente esquecidos. - Você deve sentir a mesma vontade. - o sorriso falseou por um momento, mas manteve-se firme em seguida. - Em Vênus, você era o terror dos nobres. Eles morriam de medo que os filhos deles se apaixonassem por você depois de uma noite de sexo. Sendo uma Scout, não ia ser uma boa esposa. - Eu não... Como... Quê...? - Mina gaguejou, chocada com as palavras da loira diante de si. Finalmente, com um rubor subindo-lhe a face, a Scout recuperou o dom da comunicação e expressou coerentemente. - Eu nunca faria algo assim. Como você pode lembrar disso? - Pensei que já tínham te explicado isso. - Rachel falou, inclinando a cabeça para a direita. Mina notou, distantemente, que os fios de cabelo caindo sobre a face angelical de Rachel formavam uma imagem linda. Tudo que ela fazia parecia torná-la incrivelmente bela, na verdade. - Eu sou a reencarnação do seu irmão, Matt. Lembra? Venus Knight? Mina piscou: - Lembro, eu sei, mas eu pensei... - Que vir com o equipamento errado queria dizer algo diferente? - Rachel adivinhou. - Claro que não. - o sorriso maroto de antes retornou ao rosto dela. - A experiência e memória de Matt são bem usadas. Rose-chan que o diga. - Rose-chan? - Mina ecôou. - A companhia de ontem. Ruiva, cabelo curto, barulhenta e selvagem. Se debatia como uma máquina de lavar quando... - Pára! - Mina interrompeu, corando ainda mais. Subitamente, a presença de Rachel começou a incomodá-la. Ela buscou nas suas lembranças da noite anterior, e conseguiu visualizar a ruiva que a Knight descrevia. Ela viu Rachel puxar papo com ela um pouco depois de chegar no Cyberia. - Como você pode ser assim? - Eu já disse. - Rachel respondeu, subitamente séria. - Eu só ouço os impulsos do nosso planeta. - os olhos verdes dela vararam Mina, percorrendo-a como se examinando a cena de um crime. - E, pelo visto, você também deu voz a eles ontem, irmãzinha. E, subitamente, a realidade da sua situação caiu sobre Mina como o peso do arrependimento. Ela abaixou os olhos, irritada com o jeito casual que Rachel tocara no assunto e sentindo um gosto amargo na sua boca. - Quer conversar a respeito? - Rachel ofereceu, subitamente soando como outra pessoa. - Não. - Mina respondeu. - Ruim assim? - Rachel provocou. Mina corou, mas não ergueu os olhos. - Ah, o outro tipo de problema. - Rachel falou, com um súbito tom de sabedoria. - Primeira vez? Deixa eu adivinhar. Desapareceu. Deixou bilhete? - Me deixe em paz. - a Scout de Vênus retrucou, seus olhos enchendo-se de lágrimas. - Por favor. Rachel fitou-a em silêncio, seu escrutínio ainda maior que antes. Finalmente, ela fez que sim: - Se é isso que você quer. - ela se levantou ao mesmo tempo que a garçonete chegou para tirar os pedidos. - O seu melhor chá e uma fatia de bolo para ela, por favor. E tranquilidade. - Rachel falou para a garçonete. Ela tirou um maço de dinheiro grosso do bolso e colocou no avental da moça. Era claramente mais que o necessário para pagar pelo pedido. - Por minha conta. - a garçonete se curvou, em silêncio, e saiu. Rachel fitou a forma dela se afastando por um momento, e Mina subitamente percebeu que a loira estava olhando o movimento do quadril da jovem. A Knight voltou-se novamente para a Scout, e seus olhos fixaram-se uns nos outros. - Se você quiser conversar, eu sempre vou te ouvir. - ela sorriu, despertando lembranças enterradas em Mina. Ela viu a imagem de um jovem alto e loiro, com um sorriso gentil e olhos marotos, sobreposta sobre a pequena figura diante de si. - Nós podemos ter reencarnado, mas você ainda é minha irmãzinha. Sem dizer mais nada ou esperar por uma reação, Rachel virou-se e saiu caminhando, graciosamente e inconscientemente rebolando enquanto o salto alto de seus sapatos fazia um som rítmico ao tocar o chão. Os olhos de todos os homens no lugar voltaram-se para ela, alguns brevemente, outros nem tanto. Mina suspirou, enquanto a garçonete silenciosamente colocou um prato com uma fatia generosa de bolo de chocolate diante dela, assim como uma xícara de um chá de cheiro agradável. Ela pensou em Ryu, e deu uma garfada na sua comida, tentando impedir que mais soluços subissem pela sua garganta. O chocolate ajudou um pouco. **** Mark corria o mais rápido que podia, amaldiçoando suas pernas por não respoderem como fariam meses antes. Raye corria ao seu lado, claramente contendo sua velocidade para ajudá-lo se necessário. Serena estava um pouco adiante, ainda cansada da perseguição ao Hg. Eles entraram na clínica e percorreram os corredores com velocidade. Mark nunca notara quão grande eles pareciam antes. Naquele dia, naquele momento, pareciam infindáveis. Em um dos cantos da sua mente, o seu elo com Hg gritava. O Mercury Knight tinha deixado cair o bloqueio e Mark tinha plena consciência que o seu amigo estava em considerável dor, com um sentimento de desespero crescente. O que quer que enfrentasse, estava massacrando o Knight de Mercúrio. Inconscientemente, Mark materializou sua adaga, seus dedos brancos de tanto apertar seu cabo. - Onde ele está? - Serena perguntou, subitamente voltando-se para ele. Mark podia ver a preocupação nos olhos azuis dela. Ela sabia que os castanhos dele refletiam o mesmo sentimento. Mark apontou: - Lá. Quintal, acho. Serena fez que sim, lançando-se na direção indicada. Mark seguiu, sabendo que Raye faria o mesmo. Os passos deles ecoavam pelos corredores, e o Knight podia jurar que ouviu uma porta abrir atrás deles. Ainda assim, ele não virou-se para verificar. Não tinha tempo para isso. A porta do quintal estava aberta. Mesmo distante e pelo pequeno vão da porta, Mark viu o corpo de Hg ser arremessado através do gramado. Ele sentiu, brevemente, seu amigo perder a consciência e apressou seu passo. Sentindo a urgência, Raye e Serena fizeram o mesmo. Quando eles atravessaram a porta, Ryu chutou Hg, lançando-o dolorosamente contra a parede. O Knight caiu de joelhos, segurando a Mercury Dagger na sua mão. Mark respirou fundo, preparando-se para gritar as suas palavras de poder. Independente do quanto gostasse do Dragon Kishi, a lealdade de Mark estava com Mercury Knight. Ele lutaria ao seu lado. Foi Serena, entretanto, quem impediu que as coisas fossem longe demais. - Parem! - ela gritou. Lançou um olhar ao redor, fitando os rostos dos dois combatentes por um momento. - O que vocês pensam que estão fazendo? - Isso é entre nós dois. - Ryu respondeu, sem desviar os olhos de Hg. - Serena? - Hg perguntou, como se despertando de um transe. Ele olhou para a adaga na sua mão, como se a notando lá pela primeira vez. E Mark viu o estado do rosto de Hg. Era como se tivesse sido espancado por todo um exército de youmas. Aparentemente, Serena notou a mesma coisa, rapidamente correndo até o líder dos Star Knights e ajoelhando-se ao seu lado. Ela gentilmente tocou o olho esquerdo inchado dele, seu cenho franzindo em desaprovação. Seus olhos estreitos, ela voltou-se para Ryu: - O que houve? - Ele... - Ryu começou, mas hesitou, também percebendo o mundo ao redor pela primeira vez. Ele lançou um olhar para Ken, como se procurando ajuda lá, mas, aparentemente, não encontrou. Ele voltou-se para Serena e continuou, sua voz baixa e plenamente consciente do quão ridículo soava. - Ele me provocou. - Eu te disse o que cê precisava ouvir. - Hg falou, sua voz fraca. Ryu desviou o olhar, mas não respondeu. - Eu não acredito. - Serena falou, incrédula. - Nem eu. - Raye falou, também sem acreditar. - Vocês têm o quê, seis anos de idade? Nenhum dos dois respondeu. - Ryu, como você pode fazer isso com o Hg? - Serena perguntou, seus olhos azuis expressando uma reprovação enorme. Ryu olhou para ela e pareceu visivelmente estremecer. Ele olhou para seus punhos, como se eles nunca antes tivessem estado lá. Em seguida, sua expressão endureceu. - O que ele disse não tem perdão, Serena. - O que ele disse? - Mark falou, entrando na conversa. Com um suspiro, ele desejou que eles tivessem carregado Hades e Luna com eles. Os dois gatos teriam sido úteis como mediadores. Ryu ficou em silêncio. Ken, entretanto, respondeu, deixando claro no seu tom de voz que achava a situação toda ridícula: - Que foi culpa de Ryu que os Dragon Kishi, Minako e Mamoru morreram. E as pessoas nos ataques de youmas aqui. Mark quase abriu a boca para concordar, mas conteve-se. Ele olhou para Serena, sabendo que ela era a única que poderia cuidar da situação. - Ele está certo. - Serena disse, sua voz baixa e cheia de arrependimento e seus olhos, baixos. Ryu reagiu como se ela o tivesse estapeado. Ninguém se atrevia a respirar, todos os olhos fixos na loira. Ela continuou. - Você era o líder. As vidas deles eram sua responsabilidade. - ela balançou a cabeça, como se tentasse se livrar de uma memória ruim. - Assim como a vida das Scouts era minha responsabilidade no Pólo Norte. - ela olhou para Ryu. - A morte delas... Foi minha culpa. Aceitar os seus erros é parte de ser líder. Nós podemos te ajudar. Achar um caminho de volta. Seu mundo precisa de vocês. Ryu continuou com os seus olhos vermelhos fixos nela, como se pensando. Mark não se atrevia a respirar, sentindo que uma decisão importante seria tomada ali. Qualquer interferência seria terrível e poderia mudar o equilíbrio da delicada balança moral ali. O silêncio estendeu-se por longos segundos, quase como uma eternidade. Por um momento, Mark pensou que tudo se resolveria ali, que Ryu entenderia o que houve. - O que está acontecendo? - a voz de Akai quebrou o silêncio. Mark, inconscientemente, voltou-se para ela, tomando-lhe a expressão cansada, as olheiras. Era óbvio que ela ainda não dormia bem, que tudo que aconteceu ainda pesava nela. Estava claro que a morte dos seus colegas e amigos não lhe permitiria paz por muito tempo. Ainda assim, ela parecia bem melhor que quando chegou. A vida pacífica e segura estava ajudando na sua recuperação. Ryu vira também, Mark notou. Assim que ele fitou sua colega de equipe, sua expressão endureceu. Ele olhou para Serena: - O único culpado pelo que houve foi Dark Angel. - seus olhos se estreitaram. - Se vamos enfrentá-lo, precisamos nos recuperar. Não podemos sair daqui antes de estar prontos. Obrigado pela sua ajuda, Serena. Raye. - ele curvou- se, quase imperceptivelmente, depois caminhou até a porta. Akai fez espaço para que passasse, depois o seguiu. Ken hesitou por um momento, depois soltou um suspiro: - Eu preciso ir com ele. - Eu entendo. - Mark falou, porque tinha certeza que entendia melhor que qualquer um dos outros. O Earth Kishi seguiu seus colegas, fechando a porta atrás de si. - Isso foi bem. - Hg falou para si mesmo. - Você podia ter sido mais educado! - Serena falou, subitamente voltando sua atenção para o líder dos Knights. - Gyrum? Educado? - Raye colocou, claramente insatisfeita com o resultado do confronto. Mark suspirou. Ele conhecia Hg e sabia que educação e tato, se não planejados com certa antecedência, não eram parte da forma normal de abordagem do seu amigo. Lentamente, ele voltou-se para a porta e foi na direção dela. O exercício forçado o deixara com uma dor irritante nas costas, no ponto que ele sabia estar curando. Provavelmente o impacto da movimentação rápida na ferida ainda não sarada. Ele pegou no trinco e virou-o, puxando a porta em seguida. Ela não abriu, como se trancada. Franzindo a testa, Mark insistiu. O trinco virou sem dificuldade, indicando que não estava trancado, mas a porta ainda não abria. - Mark? - perguntou Raye. - Que foi? - A porta não abre. - ele falou. Raye aproximou-se e tentou. Obteve o mesmo resultado. - Estranho. - ela falou. - Não parece... - Quieta. - Hg rosnou. Todos olharam para Hg, que estava em pé, girando em círculos lentamente, como se procurando por algo no quintal. - Rick? - perguntou Serena, soando um pouco assustada. - Muito bom, Mercury Knight. Ou melhor, Rick Gyrum. - uma voz familiar e estranha falou. Os quatro voltaram-se para a fonte do som. Um pedaço do ar pareceu escorrer, como se fosse líquido, pelo corpo esbelto de uma mulher, revelando uma figura. Era Pluto. - Oneechan. - disse Hg, aliviado. - Sim. - ela disse. Em seguida, continuou. - Não. - e ela abriu um sorriso que, na opinião de Mark, não era comum em pessoas com plena sanidade mental. - Podem me chamar de Lethe. - Você é a mulher da televisão. - reconheceu Serena. - Do Mercado Municipal. - Sim. - ela respondeu, soando como tivesse se divertindo. - O que você quer? - perguntou Raye, dando um passo adiante. Lethe riu e esticou a mão. Um pulso de energia negra deixou a sua palma, atingindo o chão imediatamente diante dos pés de Raye. A Scout recuou um passo. - Assim é melhor. - sibilou Lethe, espreguiçando-se. - Estou aqui para levar a princesa da Lua comigo. Com um sorriso, Hg avançou um passo. Mark, imediatamente, moveu-se adiante também, pronto para cobrir seu amigo. - Eu não sei que ou quem é você. - Hg falou, colocando sua Mercury Dagger diante de si. - Mas cê deve conhecer a frase: "sobre o meu cadáver." - Nossos. - Mark corrigiu, apertando a adaga na sua mão. Lethe soltou uma gargalhada e abriu sua mão. Um pequeno cristal surgiu lá e gentilmente flutuou até o chão diante dela. Uma luz intensa surgiu dele e sons secos começaram a ecoar pelo quintal. Então, ao redor de Lethe, dez figuras surgiram. Eram youmas. Mark respirou fundo, tentando ocultar o súbito nervosismo que sentia. Com o canto dos olhos, fitou Hg. O líder dos Knights estava com uma expressão neutra, mas o sentimento de receio estava claro pelo elo deles. Determinado, Mark retornou sua atenção para seus inimigos, preparando-se para o combate. A sósia de Sailor Pluto chegou um relógio de bolso, como se desinteressada neles, e falou: - Eu nunca entendi o porquê de não atacar com todas as forças quando se quer algo. - ela disse, como se lecionando. - Afinal, se é uma batalha decisiva, não é interessante deixar para o acaso. - ela olhou para eles, como se os vendo lá pela primeira vez. - Eu pretendo levar a princesa. Com dez dos mais fortes youmas que eu tenho, eu vou conseguir. A pergunta é: quantos de vocês vão ter que morrer? - um sorriso malicioso surgiu no seu rosto. Cinco dos youmas começaram a flutuar e voltaram-se de forma a olhar por cima dos muros do quintal. - E por vocês, eu me refiro a tudo por aqui: Vizinhos, Star Knights e Sailor Scouts. Mark sentiu seu coração disparar. Mentalmente, ele começou a perguntar-se se conseguiria destruir um dos youmas com um ataque bem dado. Cinco voadores primeiro, ele pensou. Seria necessário que pelo menos um deles destruísse dois dos youmas ameaçando as pessoas. Depois, poderiam cuidar dos outros. Ele sabia, pelo elo, que Hg estava pensando algo similar. A firmeza que segurava sua Jupiter Dagger chegava a ser dolorosa. - Chamar suas amigas não vai ser possível. - Lethe falou, ainda sorrindo. Ela parecia bem humorada. - Eu sei intimamente como os comunicadores funcionam. O Knight de Júpiter lançou um olhar na direção de Raye ao vê-la xingar. Ela encontrou seus olhos e balançou a cabeça levemente. Lethe não estava mentindo. - Eu garanto que você vai ter a batalha da sua vida. - Raye rosnou, materializando sua Mars Wand. - E da sua morte. - rosnou Hg. - MERCURY... - Espere! - Serena gritou, subitamente. Hg hesitou, abaixando sua adaga. - Eu vou com você. - Serena falou, olhando para Lethe. - Mande os youmas embora. - Depois que você vier. - Lethe retrucou, com uma risada. - Eu imagino que o caolho ali não teria problemas em me atacar para salvá-la. - ela continuou, indicando Hg, com o seu olho esquerdo fechado com inchaço. - Mesmo que isso fosse uma atitude bem pouco heróica. - Serena, não faça isso. - Raye sussurrou. A líder das Scouts apenas olhou para ela com um sorriso tranquilizador: - Raye, não posso deixar que eles matem ninguém. Não quero mais mortes na minha consciência. - Serena... - Hg falou. - Você... - Eu confio em você, Hg. - a princesa falou. Ela fixou seus olhos nos dele, como se tentando passar uma mensagem oculta. - Você já me mostrou como é bom em achar... coisas perdidas. Eu sei que vem atrás de mim. Hg fez que sim, lentamente. Mark podia sentir o quanto a situação o desagradava. Ao mesmo tempo, no fundo, havia uma ponta de compreensão e resignação. Serena voltou-se para Lethe, caminhando na direção dela com as mãos erguidas: - Estou pronta. - Ótimo. - disse Lethe. Então, com um movimento súbito, ela arrancou o broche de Serena do seu peito. Os olhos da princesa se arregalaram, e ela tentou agarrar o pulso da mão que segurava o broche, deixando um grito surpreso escapar: - Não! Lethe riu, encostando na testa de Serena com a sua outra mão e deixando uma descarga de energia negra fluir pelo corpo da loira. Com um grito, a Scout caiu para trás. Imediatamente, Lethe curvou-se: - Pode ficar com a sua princesa. Já tenho o que queria. Não queremos você usando o príncipe dela para nos achar antes da hora. Mark sentiu a preparação de Hg para atacar e tensionou seus próprios músculos, mas os youmas que antes flutuavam subitamente colocaram-se no chão, bloqueando o caminho dos dois. - Avisem aos Dragon Kishi que pretendo começar a invasão desse lugar hoje à meia-noite. - ela informou-o. - Estou certa que eles tentarão me impedir. - Onde? - Hg rosnou. Ela apenas riu, desaparecendo, com seus youmas, num estalo de energia negra. **** Do telhado da clínica, outra figura com longos cabelos esverdeados observava, sua expressão um estudo em neutralidade. Por baixo disso, entretanto, ela estava furiosa consigo mesma. Chegara tarde demais. Seus olhos fitaram o seu protegido e os seus lábios curvaram-se quase imperceptivelmente para baixo. Ela com certeza não inspiraria confiança neles. Era quase certo que não a ouviriam. Nem à informação que tinha. Hg não aceitaria, e os outros o seguiriam. Ela balançou a cabeça. Era um problema para outro dia, para outra ocasião. Resolveria esse conflito quando possível. Mesmo com a interferência dos visitantes extra-dimensionais, a linha preservara-se quase intacta. Mercury Knight aprenderia as suas lições a tempo. Ou, ao menos, o suficiente. Ela rezava para que fosse o suficiente. A tarefa dele estava além da sua Visão. Com um suspiro de remorso, Sailor Pluto concentrou seus poderes, abrindo um portal. Sem hesitar, ela atravessou-o, se perguntando se teria tempo para convencer um dos seus contatos a ajudá-la. Produtores de televisão eram temperamentais, e o noticiário da manhã começaria em apenas meia hora. O portal se fechou e Sailor Pluto não viu os olhos negros de Rick Gyrum voltarem-se na direção que estivera, sua testa se franzindo com surpresa e suspeita. Fim do Capítulo 7 Capítulo 8: Egaleo Ele desligou o telefone, depositando-o com delicadeza ao lado da adaga em forma de serpente que repousava na mesa de centro. Tendo feito essa tarefa, o jovem enconstou-se no sofá onde sentava, sua mente subitamente tomada por um número quase infindável de emoções conflitantes. Seus olhos azuis repousavam fixos na arma diante de si, como frequentemente faziam quando ele estava pensando a respeito do passado. O distante passado. Juno. Mark Kasen nunca achou que a ouviria falar com ele novamente. Seu coração ainda palpitava num ritmo acelerado, como se a breve comunicação com a jovem princesa de Júpiter tivesse o efeito de uma injeção de adrenalina. Ou dez. Com um movimento súbito ele se levantou, agarrando sua adaga e caminhando determinado até a janela. Seus olhos se fixaram no céu estrelado e o jovem brasileiro forçou-se a se concentrar na conversa que tivera. Juno ligara pedindo ajuda. Não ajuda para ela, uma voz fria observou dentro da mente dele. Mark ignorou o comentário ácido e continuou recapitulando a conversa. Ele, inicialmente, a confundiu com Makoto. Afinal, Makoto fora a reencarnação dela, e, supostamente, quem estivera viva na última vez que falaram. Ela o corrigiu com gentileza, dizendo que algumas coisas tinham acontecido e que a Fusão dela tinha se completado muito antes do que deveria, e que Juno fora a personalidade dominante. Foi mais ou menos nesse ponto que a boca do líder dos Noble Kishi secou. Ele sentia-se um pouco tolo por reagir de tal forma, claro. Ele conseguia encarar um conselho ancião de dragões, conseguia enfrentar hordas de monstros. Ele não conseguia, entretanto, analisar com frieza e coerência a conversa que tivera com o amor da sua vida. Suas vidas. E agora, ele percebeu, ela era algo muito mais como ele que antes, como ele. Da mesma forma que ele era o Jupiter Noble Kishi, uma mistura homogênea de Lightning Dragon e Mark Kasen... Talvez de algo mais que crescera e amadurecera da união dos dois. Ela, agora, era Kino Makoto e, principalmente Juno. E ela lhe pedira ajuda. Em nome de Serenity, a mesma voz de antes sussurrou na sua cabeça. Novamente, Mark ignorou seu próprio comentário. Juno nunca apaixonara-se por Maury e Kino Makoto, obviamente, superara Nemesis. Talvez ele tivesse uma chance. Balançando a cabeça com irritação, Mark virou-se da janela e foi até um espelho, fixando olhos frios e azuis em seus reflexos. Encarando-se, ele forçou-se a pensar no que Juno pedira. Disse que coisas terríveis aconteceram. Disse que precisavam de ajuda. Disse que Usagi pedira para que chamasse os Noble Kishi, que tudo dependia da ajuda deles. E ela pediu que ele se apressasse, que as coisas realmente eram sérias. Foram elas, Juno explicara, que levaram Makoto a entregar sua vida à sua encarnação passada. No final das contas, LD pensou com um pequeno sorriso, ele não tinha escolha. Ele tinha seus receios, claro. Como Serenity reagiria à aliança deles com os draad e, de certa forma, com os youmas? O que poderia ser tão terrível a ponto das Senshi e dos Dragon Kishi pedirem ajuda? Ele sabia que a batalha tinha clamado, no mínimo, a vida do Uranus Dragon Kishi e de Sailor Pluto. Makoto, num telefonema semanas antes, lhe informara isso. Com certeza, notou ele, tinha a ver com a estranha redoma que formara-se ao redor do Japão. O motivo pelo qual os Noble Kishi retornaram à Terra. Os olhos de Mark rapidamente foram para a pequena figura que dormia encolhida no sofá, e ele sorriu um pouco. Ele lutava por pessoas como Sammy, com seus cabelos cacheados e um longo futuro diante de si. Fazendo que sim para si mesmo, ele guardou sua adaga e caminhou até a porta. Ele saiu, lançando um último olhar e, certificando-se que a menina lá dentro ainda dormia, fechou a porta sem fazer ruído algum. - Sui? - ele chamou, aumentando sua voz um pouco e caminhando na direção dos aposentos do seu amigo. - Precisamos nos preparar para viajar... **** Chris olhou ao seu redor, certificando-se que estava sozinho. Fazendo que sim para si mesmo, ele entrou no beco onde o avô de sua... ele não tinha certeza como chamar Rei, já que namorada parecia um pouco leviano de mais para alguém que não podia sentir-se atraída por outro homem além dele. Ele fitou brevemente o chão, imaginando a pequena figura caída lá, depois olhou para as paredes que o cercavam. O espaço era pequeno. E todo sinal de sangue já tinha sido removido. Às vezes, Chris odiava a eficiência dos órgãos públicos canadenses. Apenas dois dias tinham se passado desde o ocorrido, mas o medo que o crime fosse descoberto forçou as Senshi e os Kishi a dar um fim em toda evidência de que qualquer coisa acontecera. Eles não podiam arriscar uma investigação da polícia a respeito deles. Fechando os olhos, ele tentou imaginar a cena. Ele tinha visto o avô de Rei treinar algumas vezes, e não conseguia ver o velho sendo assassinado com facilidade. Algo na história não se encaixava. Em silêncio, ele caminhou até o fundo do beco, observando a cerca de metal que lá estava. Ela era alta e a malha que a compunha, fina. Os fios de metal estavam separados por um ou dois centímetros apenas. Franzindo a testa, o Dragon Kishi olhou para o obstáculo, seus olhos varrendo-a de cima a baixo. Novamente, ele voltou-se para a entrada do beco, tentando imaginar a cena. Por que o avô de Rei estaria lá? Fora puxado para dentro, talvez? Ou atraído? Novamente, ele tentou formar uma cena coerente. O velho passava pela boca do beco. Uma figura sombria avançava como uma cobra, agarrando-o e o puxando para dentro. Uma briga aconteceu, mas foi breve. A criatura, com longos e pontiagudos dedos, rapidamente abriu os ferimentos em Hino. Ele gritou de dor, alto, atraindo a atenção de Ami. Vendo alguém mais se aproximando, o ser fugiu, saltando por cima da cerca e sumindo na noite. Por que ele fugiu? E por que ele atacou? Como ele soube para onde eles fugiram? Os seguiu por semanas no mar? Estava escondido no navio? Como atravessou a barreira? Ou seria algo novo? Uma coincidência? Não, Chris decidiu. Ele não acreditava em coincidências. Algo atraíra o ser para lá, assim como algo havia o atraído ao Japão para encontrar seu destino. Impaciente, Chris novamente caminhou até o ponto onde o corpo fora encontrado, tentando enxergar o que não tinha visto ainda. Ele fitou o caminho até a boca do beco. Distante. Por que o monstro arrastaria alguém que se debatia por tanto tempo? Por que não apenas tirá-lo da rua, num horário admitidamente pouco movimentado, e executá-lo assim que estivesse fora do campo de visão de um transeunte qualquer? Simplesmente não fazia sentido. - Chris? O que você está fazendo? Chris virou-se, rapidamente sacando a katana que tinha começado a carregar, e colocando-se em guarda. Ele deparou-se com Ranko, sua companheira de equipe. Ela tinha reagido ao movimento brusco dele e recuado, assumindo uma posição defensiva. Os dois se olharam por um momento, igualmente chocados. - Desculpe. - Chris falou, relaxando e balançando a cabeça. - Tudo bem. - Ranko falou, abandonando sua posição defensiva. Chris podia ver, entretanto, que seus músculos estavam tensos. Subitamente, uma possibilidade que não lhe ocorrera antes surgiu. E se eles tivessem uma pessoa infiltrada? Ranko também, ele notou, carregava uma katana. Será que os ferimentos do avô de Rei poderiam ser feitos com aquela arma? Por um instante, ele encontrou-se imaginando a cena de Ranko dilacerando o velho e fugindo em seguida. - Chris? - Ranko chamou. - Nada. - ele respondeu automaticamente, mesmo sem uma pergunta ter sido feita. - Quer dizer, eu estava olhando. Tentando entender o que houve. - Como a Rei está? - Ranko perguntou, aproximando-se. - Não muito bem. - Chris respondeu. A sacerdotisa recusara-se a falar a respeito. Ela agia como se nada tivesse acontecido, passando todo seu tempo com Usagi, como uma sombra. A situação estava começando a incomodar Chris. Ranko fez que sim, aproximando-se dele e olhando para o mesmo ponto que ele estivera olhando quando chegou. - Não tem nada aí. - ela falou, com um pouco de surpresa. - Haruka limpou ontem cedo. - Chris falou. - Disse que não podíamos arriscar atrair a atenção da polícia. Ela tem razão. - E como você quer entender algo aqui? Chris olhou ao redor, sem saber por onde começar. Todas as suposições que ele fazia passavam rapidamente pela sua cabeça, sem se fixar. Ainda assim, Ranko oferecia uma boa oportunidade para testar a teoria dele. Em silêncio, ele caminhou até a entrada do beco. Ele voltou-se para sua companheira de equipe e indicou que seguisse. Ela o fez. - Me arraste até o local onde o corpo estava. - O quê? - Ranko perguntou. - Me arraste até o local do corpo. - Chris repetiu. - Como quiser. Só me agarre e leve. Ranko olhou para ele por um momento, como se o analisando silenciosamente. Ele se deu conta que ela era, pelo menos, uns vinte centímetros mais baixa que ele e era bem provável que pesasse um pouco mais que a metade que ele. Naquele momento, sua idéia de simulação pareceu ridícula. Ele mal tinha completado esse pensamento quando ela avançou sobre ele, agarrando-o pelo braço e ombro ao mesmo tempo, tentando imobilizá-lo. O choque do ataque súbito impediu que ele reagisse imediatamente, e já tinha sido puxado por uns dois metros quando começou a se debater, fazendo força para se livrar da Dragon Kishi. Ranko, por sua vez, empurrou-o contra a parede, empurrando o joelho dele com o dela e forçando-o a apoiar-se no concreto. Sem base para resistir, ele foi arrastado mais um pouco. Tentando imaginar como o avô de Rei sentira-se, Chris reagiu com violência, girando o corpo e tentando se libertar. Ele foi bem sucedido por um instante, mas Ranko atingiu-o com um golpe rápido na coxa, causando uma explosão de dor. Ela puxou-o por mais alguns metros. Chris mudou sua tática, empurrando-a e tentando se afastar em seguida. Ela, incrivelmente, era forte demais e ele não conseguiu soltar-se. Ainda por cima, ela ganhou mais dois metros com o empurrão dele. Chris não conseguia medir quão perto estava do local do crime, mas supunha já estar quase lá. Ele debateu-se com força, lançando um chute no estômago de Ranko. Ele conseguiu se soltar, e começou a escapar. Ranko avançou com velocidade, mergulhando e agarrando-o entre as pernas. Ele caiu no chão como um saco de batatas. Atordoado, foi alvo fácil para que Ranko, ainda abaixada, o arrastasse até o lugar onde o corpo de Hino fora encontrado. Determinado a não ser derrotado, Chris fez uma última tentativa de se libertar, tentando chutar a Neptune Kishi. Como uma gata, Ranko esquivou-se e deslizou para cima dele, prendendo-o no chão com seu peso, montada na barriga dele e segurando seus pulsos com suas mãos. Por um momento, Chris percebeu como as pernas dela tinham músculos firmes e como o corpo dela era quente. Os olhos azuis dele encontraram os castanhos de Ranko e, por um momento, os dois ficaram imóveis. - Então? - Ranko perguntou, subitamente lembrando Chris do que estavam fazendo. Xingando a si mesmo, ele respondeu: - Se você quisesse me matar, teria me arrastado até aqui? Viu o trabalho que deu? Ranko piscou e se levantou, balançando a cabeça. Distraidamente, ela passou a mão no seu cabelo azulado, claramente um hábito nervoso dela. Chris apenas observou em silêncio, sentado no chão. Ele tentou não pensar no que acontecera nem em estar no exato lugar onde um cadáver fora encontrado. Em silêncio, a jovem Neptune Dragon caminhou até a boca do beco, obviamente fazendo o mesmo que ele fizera antes: tentando reconstituir os eventos. - Não. - ela respondeu, finalmente. - Eu o traria até aqui. Chris piscou. Ela estava apenas três metros dentro do beco, mas já estava completamente coberta da vista de um observador casual. A menos que a pessoa parasse para olhar, não conseguiria vê-la. O Kishi de Saturn se levantou, caminhando até a jovem: - Exato. - Além disso, não sei como eu teria arrastado você sem machucá-lo. - Como assim? - Chris perguntou. - Bem, - ela falou, olhando ao redor. - o espaço é bem pequeno. Você viu quantas vezes você se raspou no parede ou no chão? Chris olhou para si próprio, notando que ela tinha razão. Ele estava com o antebraço ralado, os pulsos com sinais de ter sido apertados, sujeira na sua calça e, claro, um pequeno ferimento no queixo, de quando ele caiu na sua última tentativa de fuga. - Como estava o senhor Hino? - Chris perguntou, olhando para Ranko. - Você lembra? A Kishi apenas balançou a cabeça. - O que fizeram com o corpo? - ela perguntou. - Quem olharia os ferimentos para ver o que fez isso? - Ami. - Chris respondeu, sem sequer ter que pensar. - Onde? - Ranko perguntou. - Ela tem uma das salas de convenção do hotel alugada. Como uma espécie de laboratório. - ele notou o olhar surpreso de Ranko, e sentiu-se na obrigação de defender sua amiga. - Ei, eu também praticamente sou dono de uma das salinhas do hotel. Onde eu estou montando o sistema de segurança da base nova. - ele olhou para o local onde o corpo estivera, depois de novo para Ranko. - Vamos falar com ela. Ami pode nos dizer o que ela viu e não viu, exatamente. - os olhos dele se estreitaram. - Se esse monstro ainda estiver por aqui, nós temos que descobrir como ele é. - Chris não falou, mas ele ainda não descartara a possibilidade de alguém do grupo ser o invasor. Especialmente se o velho não tivesse os ferimentos de um combate... Ele teria sido atraído por alguém familiar. E Chris não tinha apenas as Senshi e os Kishi para investigar, ele percebeu. Todos os familiares eram suspeitos. Minutos depois, os dois estavam aproximando-se da porta que demarcava o "laboratório" de Ami. Era simples e de madeira, obedecendo aos padrões do hotel onde estavam hospedados. Apenas uma placa de "não perturbe" jazia pendurada no trinco. Chris aproximou-se e bateu na porta. Os dois esperaram pacientemente, torcendo para que Ami não demorasse. Alguns segundos se passaram, e o Kishi de Saturno, novamente, bateu na porta, desta vez com um pouco mais de força. Eles aguardaram em vão. - Você tem a chave? - perguntou Ranko. Chris fez que sim, tirando um cartão do seu bolso. Eles tinham concordado, como grupo, que algumas pessoas teriam acesso a todos os cômodos alugados ou utilizados como laboratório. Chris era uma dessas pessoas, assim como Usagi, Rei e Haruka. - Será que ela se importa? - perguntou Ranko. Ela era a mais nova no grupo e mal conhecia as Senshi. Chris permitiu-se um sorriso da atitude dela, e fez que não com a cabeça. Em seguida, ele inseriu a chave no local indicado, e sorriu ao ver a luz verde acender-se. Ele abriu a porta lentamente, enfiando a cabeça antes. A escuridão impedia que ele enxergasse, mas demorou poucos momentos tateando a parede até achar um interruptor. - Eu esperava algo... diferente. - Ranko disse, olhando ao redor. Ami, realmente, não se ateve a nenhum estereótipo de laboratórios ao montar o seu. Não haviam conjuntos de química nem instrumentos de alta tecnologia monitorando os mais diversos experimentos. Na verdade, apenas vários blocos de anotação ou papel impresso, um computador com um cabo de interface para o computador portátil dela e algumas mesas com o que Chris assumia serem tópicos diferentes de análise. Em uma delas, havia uma figura coberta por um lençol branco. Imediatamente, Ranko aproximou-se desta última mesa. Chris começou a seguir, casualmente passando os olhos pelos blocos impressos que cobriam os arredores do computador. Ele piscou, subitamente tendo sua curiosidade despertada. Todos estavam naquele dialeto do japonês usado no Milênio de Prata. Ele pegou o primeiro bloco de papel da pilha e abriu numa página aleatória. Seus olhos se arregalaram quando ele leu sobre quebra de bloqueios de Elementos e viu uma anotação com a letra da Ami, escrito "Minako -- É possível evitar?". Ele voltou à capa: "A Queima e suas Consequências". - Chris? - Ranko chamou. - Estou indo. - ele disse, enfiando o impresso no enorme bolso do seu sobretudo. Ele fez uma nota mental para avisar Ami que pegaria "A Queima" emprestado, e para pedir para olhar que outros tópicos ela achara no seu computador. Aquilo poderia ser útil, especialmente dada a situação deles. Finalmente, ele chegou ao lado de Ranko. - O que foi? Ela apenas apontou para o cadáver. Chris olhou, tentando distanciar do fato que conhecera a pessoa a quem o corpo pertencera. Ele examinou o corpo sem tocá-lo, tentando desviar sua atenção da fenda no lado direito do tórax o máximo possível. - Ele não tem nenhum outro ferimento. - disse Ranko, poupando-o do trabalho de examinar com cuidado. - Nenhum hematoma sequer. - Luna disse que nada humano poderia ter feito isso. - Chris indicou a ferida. - Luna não tem experiência suficiente. - Ranko disse. - Uma arma mal afiada faria esse corte. - ela indicou com o dedo a borda do ferimento. Não era uma linha reta e única, como seria de uma espada afiada. - E houve apenas um corte. Um golpe. Chris olhou novamente para o cadáver, e foi incapaz de deixar de fitar o rosto do avô de Rei. Ele sentiu um pesar no coração. Ao mesmo tempo, seu cérebro trabalhava sem parar, tentando entender o que poderia ter feito aquilo. Ou quem. - Temos que procurar a arma. - Chris falou, mais para si mesmo que para Ranko. - Você acha que foi um de nós? - Ranko falou, subitamente abaixando sua voz e olhando para trás. - Não sei. - Chris respondeu com sinceridade. - Ela pode ter sido abandonada por aqui, também. Se é que foi uma arma. Ranko abriu a boca para responder quando uma voz familiar e baixa interrompeu: - O que vocês pensam que estão fazendo? Chris e Ranko viraram-se lentamente na direção de Hino Rei. A Senshi de Marte estava olhando para eles da porta, sua expressão uma mistura de choque e irritação. Claramente, ela não estava feliz por eles estarem mexendo no corpo do seu avô. Chris a conhecia bem o suficiente para saber que ela estava esperando uma explicação. - Nós estamos... ah... - Ranko começou, sem saber o que dizer. - Investigando. - Chris falou, sua voz firme. - Tentando descobrir o quê fez isso para podermos achá-lo. - ele não mencionou a possibilidade do "quem". Rei abriu a boca para replicar, obviamente insatisfeita com a resposta e ainda descontente com o que ela, aparentemente, percebia como uma violação, mas pareceu mudar de idéia, ficando apenas com uma expressão de irritação. Chris tentou, brevemente, lembrar-se como eram os hábitos funerais dos japoneses e falhou. Ficou momentaneamente na dúvida por que Rei estava brava e decidiu, sabiamente, que não era o melhor momento para confrontá-la. Ele puxou o lençol, cobrindo novamente o corpo do avô Hino, e olhou para Rei, como se esperando pelo que ela ía dizer. A Senshi hesitou por um momento, depois falou: - Usagi pediu para juntar todos nós. Estávamos procurando vocês por toda parte. - ela suspirou. - O assunto é meio sério. Chris sentiu um frio formar-se no fundo do seu estômago e fez que sim, seguindo a kalyriana para fora. Ele ouviu os passos de Ranko acompanhando-o e perguntou-se o que mais poderia ter acontecido. **** Sui estava começando a achar que a missão de LD em vida era torná-lo um alcóolatra. Ou algo próximo a isso devido à forma como ele lhe entregava notícias desse tipo. - Viajar? Onde? Quando? - foram as perguntas que pularam de sua mente para a boca. Erguendo uma sobrancelha, ele observou a face séria do Noble Kishi. - Quem mais vai? - Estive falando com... Juno. - disse ele, a voz um tanto alterada. Sui prontamente observou que não era mais o nome de Makoto, como antes e brevemente perguntou-se sobre o motivo. - Elas precisam de nossa ajuda. Urgente. Sui sentiu uma enxaqueca brotar e viu-se surpreso com a naturalidade com que suas próprias mãos encontravam a garrafa de uísque. Sua atenção, entretanto, voltou a focar nas palavras de seu líder. - Nós voltamos por causa daquela estranha barreira no Japão. - começou LD, fechando os olhos como se não acreditasse em algo. Sui logo o acompanhou com um gole puro da bebida. - Nemesis também não nos deu notícias desde que entrou lá dentro e o que Ma-- Juno me contou, a situação parece ser bem séria. - Nós já estávamos considerando entrar para ter uma idéia do que está acontecendo. Temos inclusive alguns barcos preparados para evacuação de qualquer sobrevivente encontrado. Sua idéia, inclusive. - comentou Sun Noble Kishi, obrigando Mark a ser mais claro. Isto, por outro lado, preocupou Sui pela simples necessidade de ter que fazê-lo. - O que foi que ela disse que o deixou tão chocado? - As Senshi perderam seus poderes. Os Dragon Kishi também. Perdemos, no mínimo, Uranus Dragon e Sailor Pluto. - Pluto? - repetiu o Noble Kishi, filtrando as palavras. Ele piscou os seus olhos, incrédulo ao notar LD concordando com um gesto de cabeça. Por um momento, ele fitou o copo trêmulo em sua mão direita, tentando compreender a gravidade da situação. Não era para menos, pensava ele, que Mark estava tão abalado. Imitando o outro Noble Kishi, Sui cerrou seus olhos, distraidamente largando o copo sobre um criado-mudo. A primeira coisa que lhe veio à mente era o que ele faria se tivesse perdido seus poderes, mas uma segunda e mais intensa observação foi na causa do que teria provocado a perda em primeiro lugar. - O que aconteceu? - murmurou ele, mas logo interrompendo a si próprio. - Não, COMO isso aconteceu? Nesse momento, LD parecia estar brevemente embaraçado. Sui deduziu que ele estivera mais preocupado com o estado de Makoto... ou Juno... ou quem quer que ela fosse do que propriamente nos fatos misteriosos da redoma. O Noble Kishi suspirou, imaginando o que deveria ter passado, e sacudiu levemente a sua cabeça. - Vamos apenas tentar evitar que o mesmo aconteça conosco. - comentou Sui, voltando a se concentrar na tarefa que Mark propunha. - Uranus Dragon. Sailor Pluto. Sabe-se lá quem mais. - resumiu o Noble Kishi, suspirando em seguida. - E as Senshi pediram por nossa ajuda? Mark fez que sim, mas não adicionou nenhum outro comentário. - Que tipo de ajuda? - questionou Sun Noble Kishi. - Sei que não deve ser financeira, nós não iríamos viajar para encontrá-las se fosse esse o caso. O que, exatamente, as Senshi precisam? Sui observou seu líder franzir a testa, claramente tentando se recordar de algum detalhe da conversa. Entretanto, ele ficou surpreso com o que foi dito em seguida. - E isso importa? - perguntou ele, fitando um olhar penetrante em Sui. - As Senshi precisam de ajuda. Seja qual for o tipo, nós temos a obrigação de atender. É o mínimo que devemos fazer. O Noble Kishi sorriu de leve diante da declaração, mas tratou de se explicar antes que Mark se exaltasse. - Não estou dizendo que não devemos ajudar. - falou ele, sacudindo a cabeça. - Apenas que devemos estar preparados para saber que tipo de ajuda estão precisando. Se estão precisando de um lugar para morar ou se estão precisando de apoio moral, as duas coisas são diferentes. Ou até mesmo se estão querendo ajuda para se vingarem. Dependendo da ajuda que estão precisando, teremos que focar nossos recursos para o melhor resultado. Para sua surpresa, LD corou. Sui olhou para seu copo de uísque novamente, ponderando se era o efeito da bebida ou a falta dela. - Erm... não sei ao certo. - confessou o líder dos Noble Kishi. - Tudo o que pude notar era a urgência e o quase desespero na voz de Juno. - Quase desespero? - reforçou a reencarnação de Hatsuhi, curiosidade predominante em sua voz. - Makoto... ela era Juno, Sui. A mesma Juno do Milênio de Prata. O tom de voz, o modo de falar, tudo. - o comentário de Mark sofrendo uma ênfase com seus gestos de mãos. - Naquele momento, foi como se eu estivesse novamente em Emerald Castle. Com Juno. Eu sei quando ela está desesperada, Sui, e ela estava praticamente em pânico. - A situação estava tão ruim assim? - foi a vez de Sui questionar, notando a resposta de LD com um gesto de cabeça. - Você está decidido a ir? Mark simplesmente fez que sim com a cabeça de novo. O CEO das Empresas Sanjouin suspirou em resposta, organizando mentalmente as tarefas que isso adicionavam à sua rotina. Pelo menos, dizia ele a si mesmo, Maboroshi está conosco. - Quando? - disse ele, resignado com a decisão repentina. - O mais rápido possível. Se pudesse, eu já estaria lá. - revelou Mark. Sui já não se surpreendia mais. - Estou preocupado, Sui. - Onde elas estão? - questionou Sui, começando a ser mais objetivo. - E quem mais vai? - Calgary, no Canadá. - respondeu LD, brevemente. - Pensei em ir sozinho, mas sei que vai insistir para que Jessica me acompanhe. A reencarnação de Hatsuhi sorriu, concordando. Apesar de Mark ter dito que ele iria insistir, ambos sabiam que era apenas uma das novas normas que Jupiter Noble Kishi impusera ao grupo. Especialmente depois do ocorrido, nenhum Noble Kishi iria a algum lugar remotamente perigoso sem um outro para acompanhar. Porém, LD estava enganado se apenas iria com Moon Noble Kishi. - Você sabe tão bem quanto eu que não vai conseguir ir até lá acompanhado apenas por Jessica. - disse Sui, sorrindo. - Hmm... tem certeza de que poderá ir junto? - consentiu Lightning Dragon. - Eu sei o quanto trabalho está tendo para gerenciar e produzir recursos com a migração dos draad e o nosso projeto. Sui sacudiu levemente a mão esquerda, enquanto tragava um gole do uísque. Sua mente, entretanto, devia estar fervilhando com as possibilidades, assim como a de LD estaria depois que o choque passasse. Sailor Pluto, repetiu ele em sua mente, ao menos responde a questão dessa estranha redoma. - Acredito que Maboroshi poderá cuidar disso com algumas instruções. - Sui revelou verbalmente. - Vou precisar de pelo menos um dia para deixar as coisas em ordem, e não imagino que Juno ou Usagi estariam nos esperando exatamente agora. - Nisso, um pensamento brotou em sua mente e ele não hesitou em apresentar a LD. - Pode ser interessante para Hypnos ir também, não? Mark piscou seus olhos, claramente revelando que não imaginara na hipótese. Para Sui, entretanto, era tão transparente quanto um cristal. Se Jupiter Noble Kishi estava com tanta pressa e preocupação com Juno, seria igualmente natural esperar o mesmo de Mizuno Ken com sua prima. No mínimo, refletiu ele, isso o ajudará a sair daquela sala. - Eu trato de explicar a situação para ele. - Sui voluntariou prontamente. - Isso vai te deixar livre para a tarefa mais difícil. Como previsto, o jovem draad ergueu uma sobrancelha diante da ênfase. - Mais difícil? - reforçou LD, obviamente tentando imaginar o que seria. Sui não conseguiu evitar de sorrir diante da expressão do líder dos Noble Kishi e fez que sim com a cabeça. - Tentar explicar isto tudo para Samantha, é claro. - revelou ele, rindo. **** A princesa Juno de Júpiter, como toda nobre, jurara fidelidade ao trono Lunar e seus descendentes. Em particular, ela jurara fidelidade à princesa Serenity. Antes de fazê-lo, aos sete anos de idade, tinham lhe explicado o que estava fazendo. Esclarecido o que o símbolo de Júpiter, que brilhava na sua testa às vezes, significava e as responsabilidades que ele trazia. Juno fez seu juramento plenamente consciente do que ele significava e nunca se arrependeu ou voltou atrás. Kino Makoto, a jovem colegial que era sua reencarnação, claramente não tinha tido a mesma sorte. Ela não recebera o treinamento para ser uma Senshi nem teve suas responsabilidades explicadas. Juno tornou-se uma passageira no corpo de Makoto no dia que ela obteve o Sparkling Wide Pressure, e acompanhou todos os atos dela desde então. Ela admitiria, abertamente, o quanto a jovem a impressionara. Havia dominado seus poderes e combatia com toda a tenacidade que uma Senshi devia ter. Juno sentiu a morte de Makoto enfrentando Sailor Galaxia. E sentiu o sofrimento da jovem ao ver o Uranus Dragon morrer no deck do navio, enquanto fugiam de uma batalha perdida, querendo proteger a reencarnação da princesa. Uma coisa que ela nunca entendeu era o porquê da dedicação intensa de Kino Makoto à jovem Tsukino Usagi. A loira era praticamente o oposto de Serenity em muitos aspectos. Mais que isso, apenas a moral pessoal de Makoto a prendia às suas responsabilidades. Naquele momento, sentada ao lado da reencarnação da princesa da Lua, ela entendeu. Ela fez um esforço, lembrando como fora seu encontro com a jovem por quem ela daria a vida. Foi só depois que Makoto abriu mão da sua vida, deixando o seu corpo e sua missão nas suas mãos, que Juno deu-se conta que ser aceita pelas outras Senshi não seria algo imediato. Elas tinham anos de amizade com Makoto e apenas a palavra de Juno que a transição fora voluntária. Depois de ligar para Lightning Dragon, (Mark, as lembranças de Makoto, deixadas para Juno, a corrigiram) ela passou horas e horas pensando em como agir. Quando o Sol nasceu, ela tinha decidido que tentaria se passar por Makoto para as Senshi. Ao menos, até surgir uma oportunidade de explicar a verdade. Ela falaria com LD, pedindo que guardasse seu segredo, e faria o melhor possível para emular Kino Makoto. Com essa decisão em mente, a jovem tinha passado para sua segunda decisão do dia: conhecer Tsukino Usagi. O único pedido que lhe fora feito era de cuidar da loira e Juno iria honrá- lo. Minutos depois, ela bateu na porta do quarto de Usagi, vestindo um robe esmeralda que pareceu-lhe apropriado para o momento. A reencarnação da princesa da Lua atendeu e Juno quase perdeu-se nos olhos azuis dela, tão mais profundos que os de Serenity. Usagi percebeu na hora que algo havia mudado. - Foram os olhos, os brincos e o cabelo. Mako-chan nunca foi tão feliz, nunca deixou de usar seus brincos e nunca soltou o cabelo. - ela lhe diria horas depois. Usagi a convidara para entrar, uma formalidade na sua voz que não combinava com as memórias de Makoto. Juno, claro, obedeceu. As duas sentaram-se no pequeno sofá que havia no quarto, em silêncio, por quase dois minutos. Foi então que Usagi perguntou, sem rodeios, quem ela era e o que fizera com Makoto. Totalmente despreparada, Juno viu-se despejando a verdade: ela era a princesa Juno de Júpiter. Makoto decidira que não queria continuar lutando, mas não conseguia contemplar a possibiliade de um suicídio. Ela não quisera abandonar Usagi. Juno oferecera a possibilidade de assumir a vida de Makoto. - Ela está feliz? - Usagi perguntou, seus olhos prendendo os de Juno. - Eu não sei. - Juno viu-se respondendo, mesmo tendo intencionado mentir que sim. - Acho que sim. - novamente, a verdade. Usagi fez que sim e as duas se colocaram a conversar. A loira perguntou sobre ela e seus sentimentos, sobre seu passado e sobre o quanto sabia das lembranças de Makoto. Havia uma tristeza nos olhos de Usagi, Juno notou, devido à perda de mais uma pessoa querida. Ainda assim, em momento algum, Tsukino Usagi a culpou pelo que houve. Ao contrário, ela a recebeu como uma velha amiga há muito perdida, fazendo o possível para que ela se sentisse bem. As duas passaram o dia todo juntas, conversando em voz baixa e se conhecendo. Durante a tarde, saíram. Usagi dissera que Juno precisava de roupas que combinassem com ela. No final do dia, Juno admitiria abertamente que Usagi era uma pessoa amável e carismática, ao mesmo tempo que muito diferente de Serenity. Mais livre, talvez. - Amanhã, vamos reunir todos e contar o que houve. - Usagi falou no final do dia, logo antes de deixar o quarto de Juno. E Juno encontrou-se enfrentando mais uma noite em claro. As horas se arrastaram e, pouco a pouco, ela percebeu que assumir a vida de Makoto não era o mesmo que voltar à sua. As Senshi não eram as mesmas nem, tampouco, seus aliados. Exceto por LD, uma parte da sua mente sussurrou para ela. Ou, ao menos, foi a impressão que ela ficara com a breve conversa por telefone com ele. Quando a manhã veio, Juno mal tinha dormido. Sentia-se cansada. A própria Usagi batera na sua porta e a ajudara a escolher uma vestimenta para o dia. Juno sentiu-se um pouco estranha, tendo a princesa da Lua agindo como uma dama de companhia, mas cooperou sem reclamar. Uma vez pronta, ela foi conduzida até uma sala de reuniões. Usagi colocou-a sentada na cabeceira e sentou-se à sua direita. Conforme as pessoas íam chegando, rostos familiares e estranhos ao mesmo tempo, todos olhando para ela com surpresa, a princesa de Júpiter sentiu um pânico desmedido formando-se no seu estômago. Ela queria fugir, correr e desaparecer na multidão de pessoas que habitava a Terra. Então, por baixo da mesa, a mão suave e esguia de Usagi pegou a de Juno e apertou. A loira deu um sorriso confiante para ela. E Juno soube, então, que seu juramento como a Sailor Jupiter valeria para Tsukino Usagi tanto quanto valera para a princesa Serenity. - Encontrei os dois. - Hino Rei, a Sailor Mars, disse ao entrar na sala. Atrás dela, Chris Stover, o Saturn Dragon, e Mizusei Ranko, a Neptune Dragon, seguiram. Juno não conseguia deixar de se maravilhar com a presença de todos os guerreiros. Apesar de sem poderes, nenhum virara as costas às suas responsabilidades. - Obrigada, Rei-chan. - a jovem morena fez que sim e sentou-se à direita de Usagi, fitando Juno longamente. A jovem princesa de Júpiter notou a pigmentação avermelhada nos olhos violetas dela. Sangue kalyriano. Usagi observou em silêncio enquanto Chris se sentava na última cadeira disponível, ao lado de Ten'ou Haruka, a Sailor Uranus. - Eu pedi que todos virem aqui porque nós recebemos uma nova pessoa no nosso grupo. - ela abaixou os olhos. - E perdemos outra. Todos ficaram em silêncio. Os numerosos encontros com a morte que o grupo teve recentemente, com certeza, tinha deixado-os sensíveis ao assunto. Juno imaginava que todos ficavam esperando, o tempo todo, a próxima notícia ruim. Ela sabia que era assim que Makoto se sentira. - O que houve com Mako-chan? - Rei perguntou. Juno suspirou. Obviamente, ela não só tinha traços físicos de uma kalyriana como os sentidos deles. Explicava, ao menos, porque o olhar dela foi o com maior escrutínio de todos. Com o canto dos olhos, Juno viu Usagi abrir a boca para responder. A nova princesa da Lua pretendia defendê-la. Os olhos verdes da Senshi de Júpiter, porque era isso que ela era, muito mais que uma princesa, endureceram e ela falou, antes que Usagi pudesse: - Kino Makoto estava cansada. - pela primeira vez, Juno teve consciência de quão diferente a voz de Makoto, quando usada por ela, soava. E como a pronúncia das sílabas era diferente. Ela fora uma tola em achar que poderia enganá-los. - O quê, você abandonou seu nome e passado e se tornou "A Júpiter"? - Chris brincou, como ele fizera na presença de Makoto inúmeras vezes, mas havia um tom de preocupação na sua voz. - Não, Chris-san. - Juno respondeu, testando o nome dele na sua língua. Ela quase o chamou de Sei. - Eu ofereci a ela a chance de... partir. E assumi as responsabilidades dela. - Quem é você? - perguntou Haruka, se levantando. - Se afaste de Usagi, antes que eu... - Você não vai fazer nada, Haruka-san. - Usagi interrompeu, também se levantando, ao mesmo tempo que Juno o fizera. - Como eu disse, nós perdemos alguém, mas ganhamos alguém. - ela olhou ao redor, procurando mais objeções nos olhos dos outros presentes. Juno seguiu o gesto, examinando cada um dos presentes. - Eu dificilmente acho que a perda de Mako-chan possa ser compensada. - Rei falou, fixando seus olhos selvagens nos de Juno. Por um momento, ela lembrou a Senshi de Júpiter de Silver, o Moon Dragon Kishi. Ou Satori Ryu, ela percebeu instantes depois. Novamente, Usagi preparou-se para responder, mas Juno sabia que tinha que fazê-lo. Ela devia proteger a princesa da Lua, não o contrário. Ela apoiou uma mão no ombro da loira, indicando que estava bem, e falou: - Eu não acho que posso substituir Kino Makoto. - Juno disse. - Nem é essa minha intenção. Sei o quanto ela significava para vocês, assim como posso ver o que vocês eram para ela. - a jovem balançou a cabeça tristemente, sentindo o peso dos seus longos cabelos. Ela precisava cortá-los um pouco, para ficar como eram no seu corpo original. No Milênio de Prata. - Quando Makoto decidiu partir, eu me propus a duas coisas. Eu assumiria uma vez mais o manto de Sailor Jupiter, com ou sem poderes, e protegeria Tsukino Usagi com a minha vida. Todos ficaram olhando para ela, atônitos. Juno se deu conta, então, que Makoto nunca falara formal ou eloquentemente antes. Aquilo, provavelmente, estava eliminando quaisquer dúvidas que eles tinham. - Agora eu sei que você não é Mako-chan. - Andrea disse, olhos arregalados. - Sinto que não. - Juno respondeu. - E o que nos garante que você simplesmente não tomou o corpo de Mako-chan? - rosnou Haruka, apoiando as duas mãos na mesa. - Eu sei que o meu fantasminha do passado fica me enchendo a respeito disso de vez em quando. Um silêncio sepulcral seguiu-se. A própria Juno estava chocada. Ela imaginara que era um caso a parte. Ou, no máximo, que apenas ela e Serenity ainda existiam nos corpos das suas encarnações atuais. Os outros, ela pensara, tinham sumido, talvez absorvidos por suas versões mais novas, talvez tendo absorvido-os antes. Ou, simplesmente, tendo deixado de existir. Pela reação de todos, entretanto, aquilo era mais frequente que imaginara. - Haruka-san, Juno... - Usagi hesitou por um momento, mas sua expressão logo firmou-se e ela continuou. - Juno-chan passou ontem o dia todo comigo. Ela não tentou me fazer nada. Eu gosto da ida de Mako-chan tanto quanto você. Provavelmente menos. - ela adicionou, num raro momento de egoísmo. - Mas Juno-chan só ofereceu para Mako-chan o descanso que ela queria e merecia. - os olhos azuis da princesa moveram-se, varrendo todos presentes. - Se algum de vocês quiser aceitar a mesma proposta de seus eus anteriores, façam. Rei e Ami sabem que tudo que eu sempre quis para vocês... todos vocês... é que vivessem uma vida em paz. - ela olhou para Rei, que baixou sua cabeça, e Ami, que concordou com um sorriso. Usagi continuou fitando todos na mesa, um por um. - Juno-chan está numa situação difícil. Ela perdeu todo mundo que conhecia. Mais que isso, tudo que conhecia. Lugares e pessoas. E agora, assumiu de novo uma responsabilidade que não era mais sua. Por que ela assumiu, eu não sei, mas ela deu a Mako-chan o que eu nunca pude. - ela finalmente retornou os olhos para Haruka, encarando-a sem recuar. - Paz. Juno soltou o fôlego que estivera prendendo, percebendo que não respirava há segundos. Ela sentiu algo familiar no seu rosto e se deu conta, ao passar a mão delicadamente, que estava chorando. Ela nunca imaginou que Usagi a defenderia assim. Nunca pensou que, depois de tomar Makoto dela, a princesa fosse continuar protegendo-a a ira dos seus companheiros de equipe. Haruka, atônita, abriu e fechou a boca várias vezes, obviamente incerta de como reagir. Finalmente, Kaiou Michiru, a Sailor Neptune, apoiou uma mão no ombro de sua colega, indicando que sentasse. Após um instante de resistência, a Senshi de Urano o fez. Juno quase permitiu que um sorriso surgisse nos seus lábios, feliz que algumas coisas não haviam mudado. - Desculpe. - foi Rei quem disse, quebrando o silêncio. - Eu não posso prometer que vou conseguir aceitá-la tão facilmente quanto Usagi, - ela olhou para a princesa, e Juno viu a sombra de um sorriso surgir nos lábios da Senshi de Marte. O sentimento que ele carregava era algo que Juno nunca vira na encarnação passada de Rei. - mas eu vou tentar. - sem dizer mais nada, a kalyriana aproximou- se. Juno ofereceu a mão, mas viu-se abraçada pela Senshi. Chocada, não reagiu por um momento. Então, lentamente, retornou o abraço, sentindo lágrimas descendo. Pouco depois, Mizuno Ami juntou-se ao grupo, assim como Usagi. Então, Juno também entendeu como aquelas meninas, jovens e inexperientes, triunfaram onde a rainha Serenity, com todo seu domínio sobre o Ginzuishou e seu exército invencível, falhara. Elas se amavam tanto assim. Sentindo-se acolhida, Juno apertou mais o seu abraço, enterrou o rosto no ombro de uma das Senshi, sem se importar bem em qual, e chorou pela morte das suas companheiras e de sua encarnação futura. **** Rei respirou fundo, sentindo a congestão das suas vias nasais. Ela ergueu o rosto, finalmente olhando para as suas quatro companheiras de equipe com um pequeno sorriso. Não seria fácil aceitar a perda de Minako e Makoto ou a chegada de Juno, mas ela tentaria. Usagi, como sempre, falava com sabedoria quando o assunto era relacionado ao coração. Mako-chan finalmente poderia descansar e deixar para trás aquela vida de luta. Por um momento, Fihar, sua encarnação passada, pareceu tentar dizer algo para ela. Como sempre, Rei ignorou-a. Os olhos dela fitaram o rosto de Usagi. No fundo, ela sabia que nunca poderia deixar Usagi. Ela notou que Ami estava folgando o seu abraço, afastando-se do grupo. Rei piscou e olhou ao redor, notando que as quatro estava sozinhas na sala. O resto do grupo já tinha partido, obviamente não querendo invadir no momento íntimo delas. Rei começou a recuar, quando Usagi agarrou-a com força, enterrando o rosto no ombro dela. Surpresa apenas por um instante, ela permitiu-se um sorriso gentil e envolveu a loira em um abraço. Ela sabia, instintivamente, que Usagi estava chorando por Makoto, sentindo a perda dela. Ela fitou Juno por um momento, encontrando um olhar curioso no rosto dela. Provavelmente não sabia o que pensar da intimidade que Rei estava demonstrando com a princesa da Lua. - Eu preciso voltar ao meu trabalho. - Ami falou, olhando para Rei e Usagi com um pequeno sorriso. - É bom ver vocês duas sem brigar. - Nós temos que aprender a dar valor ao que importa. - Rei respondeu. Instantaneamente, ela sentiu os braços de Usagi apertarem-na com mais força. - Tudo aqui é tão diferente. - Juno falou, admirada. - Eu posso ver as memórias de Makoto, mas nada se compara a de fato viver nessa era. - Imagino. - disse Ami. - Eu tenho um pouco de curiosidade sobre algumas coisas específicas do Milênio de Prata. Talvez nós pudéssemos... - Quando quiser! - disse Juno, soando empolgada, feliz e aliviada ao mesmo tempo. Rei tinha que admitir, ela realmente queria se encaixar no grupo. - Acredito que agora possa ser uma boa hora. - disse Ami. - E eu estou com fome. - murmurou Usagi, erguendo o rosto e olhando ao redor com olhos vermelhos. Rei sorriu. Algumas coisas nunca mudariam. - Temo que essa seja uma habilidade que não herdei. - desculpou-se Juno. Rei subitamente sentiu raiva da jovem, e decidiu que devia falar o que pensava: - Não tente ser Mako-chan. Ela não é substituível. - ao ver a expressão de Juno mudar, Rei continuou. - Seja você mesma. É melhor para nós. Juno pareceu chocada por um momento, como se pensando em como reagir, mas rapidamente permitiu-se um largo e satisfeito sorriso, fazendo que sim em seguida. Então, elas ouviram a expressão de susto de Ami. Reagindo por instinto, Rei empurrou Usagi para trás de si e colocou-se em guarda. Distantemente, ela notou que Juno fazia o mesmo à sua esquerda, preparando-se para combater o que quer que tivesse chegado. - Estamos interrompendo algo? - uma voz que Rei não ouvia há muito tempo falou. Ela relaxou sua guarda. - Shuurai! - Juno falou, abrindo um largo sorriso. Mark Kasen, vestindo uma calça jeans folgada e uma camisa preta, apenas olhou para a figura que o cumprimentava, sem reagir. Os olhos de Rei estreitaram- se. Aparentemente, fora Juno quem chamara os Noble Kishi, e já havia falado para eles sobre o que houve com Makoto. Atrás dele, havia uma jovem com longos cabelos negros e olhos azuis. Ela vestia uma calça social longa e azul, saltos altos e uma camisa de seda de muito bom gosto. Apenas observou, sem dizer nada. Era como se fosse uma guarda-costas. - Arashi Sui. É um prazer. - Sui falou, chamando a atenção de Rei para o rapaz atrás de Mark. Ele vestia um caro terno Armani, completo com camisa social e gravata por baixo. Duas coisas nele chamaram a atenção de Rei imediatamente: a bengala que ele usava para apoiar o seu peso no lado direito, revelando que ele possuía algum ferimento naquela perna, e que o único olho dele, o esquerdo, era vermelho como um rubi. O outro estava coberto por um tapa-olho negro. Franzindo a testa, Rei tentou sentí-lo com sua ligação, certa que isso revelaria se ele fosse kalyriano. Não conseguiu tirar uma decisão conclusiva da sua análise. - O prazer é nosso. - Rei respondeu, tão neutramente quanto o jovem falara. Mizuno Ken estava abraçando Ami, obviamente aliviado em vê-la bem. Ami retornava o gesto, ainda que com um pouco de reserva. Rei entendia perfeitamente a posição dela. Ainda não haviam conversado com os Noble Kishi e, sabendo que enfrentavam uma versão de Lucifer, havia um risco do grupo decidir aliar-se a ele. Finalmente, viu que Usagi estava ajoelhada. A razão era uma menina de sete ou oito anos, com longos cabelos cacheados e dourados e olhos castanhos. Ela parecia estar se escondendo atrás das pernas de Mark, espiando a princesa da Lua com desconfiança. Usagi sorriu: - Eu sou Usagi. Qual é o seu nome? A menina continuou olhando em silêncio, quase encolhendo-se atrás do seu esconderijo. - Você pode falar com ela. - Mark falou, sorrindo para a criança. - Usagi é a princesa da Lua. - As lendas não falam muito bem dela. - a menina falou. Mark ficou vermelho e Usagi riu: - Eu não sou como as lendas, então. - ela respondeu, sem se abalar. - Como é o seu nome? - Samantha. - ela finalmente respondeu, com um ar de importância. - É um prazer, Samantha. - Usagi olhou para cima, e sorriu para Mark. - E obrigada por vir, Mark-kun. - É o mínimo que tínhamos que fazer, alteza. - Mark respondeu, curvando-se um pouco. Usagi se levantou, rindo e balançando a mão num gesto universal de quem ficara embaraçada. Rei sentiu um sorriso esboçar-se no seu rosto. Era impressionante como Usagi conseguia desarmar, sem querer, qualquer formalidade. - Vocês querem tomar alguma coisa? Já comeram? - Usagi perguntou, ansiosa. Ela olhou ao redor. - Acho que temos alguns rostos novos aí. Nós também. - ela lançou um olhar para Ami. Rei sorriu. Usagi a conhecia bem. Ela nunca a deixaria a sós com pessoas que não via há tempos. Mesmo os Noble Kishi. - Ami-chan? Você pode chamar os outros? - ela olhou para o relógio, depois para a Senshi de Mercúrio. - Acho que podemos conversar enquanto comemos, que acham? É um pouco cedo para o almoço, mas... - Claro, Usagi-chan. - Ami interrompeu, com um sorriso. - Eu vou com ela. - Ken voluntariou, subitamente. - Faz tempo que eu não vejo minha priminha... Ami lançou um sorriso para ele, e saiu da sala. Ken a seguiu em silêncio. - Faz tempo, Mark-kun. - Usagi comentou. - Como você está? E os outros? Mark olhou ao redor, e Rei percebeu que ele provavelmente se perguntava a mesma coisa a respeito delas. Ele respondeu: - Ocupados. Algumas coisas não terminaram bem. Leo se foi. Por mais que Fihar tivesse ficado chocada com a notícia, no fundo da mente de Rei, a sacerdotisa levou a notícia friamente. Mais uma pessoa conhecida que se fora. - Leo? - perguntou Juno. - Mars Noble Kishi. - respondeu Sui. Juno fez que sim, reconhecendo o título: - Sinto muito. - Todos nós sentimos. - disse Mark. - Ele não foi o único. As Outer Noble Kishi também. E Earth Noble Kishi. - E vocês? - falou Sui, subitamente. - Como estão? - Sem poderes. - Juno respondeu. - Enfrentando um inimigo terrível. - Usagi disse, soando cansada. - E também tivemos perdas. - disse Rei, finalmente. - Sailor Pluto. Uranus Dragon. Os lábios de Sui se comprimiram numa linha fina: - Como foi que Sailor Pluto foi morrer? - É uma longa história. - respondeu Rei. - Nós temos tempo. - disse Sui. - Vamos comer? - interrompeu Usagi, subitamente. - Ami-chan deve ter juntado todos no restaurante, acho que é um bom lugar para conversarmos. - É uma conversa de perder o apetite. - Rei falou, sabendo que soava amarga. Usagi lançou-lhe um olhar fulminante: - É uma conversa onde precisamos nos sentir bem para falar. - ela corrigiu. - Não adianta fugirmos dos fatos. - ela olhou para todos, sorriu, e saiu pela porta. Rei soltou um suspiro, e seguiu. A caminhada pelos corredores do hotel foi silenciosa. Internamente, Rei se perguntava o quê e quanto dizer. Revelar tudo que houve? Até mesmo a parte do Dark Angel? Os Noble Kishi, também, estavam passando por uma fase ruim, pelo visto. Rei não conhecera as Outer Noble Kishi, e mesmo pensando no Milênio de Prata, tinha apenas vagas lembranças de tê-las visto em um evento ou outro. Para ela, fora uma perda estratégica, mas não havia carga emocional nenhuma associada à notícia. Mesmo Leo era apenas um conhecido para Rei na sua vida atual. E as lembranças que tinha dele pareciam de outra vida, pertencentes a outra pessoa. Ela se perguntou se voltaria ao seu templo algum dia. Tudo parecia um sonho ou uma lembrança há muito perdida. - Chegamos! - anunciou Usagi, com certo ânimo. Ela empurrou as portas do restaurante. Imediatamente, o maître conduziu o grupo a uma sala exclusiva. Ami tinha agido rápido. Chris, Ranko, Andrea, Hotaru, Michiru e Haruka já estava sentados. Rei não estava vendo Luna ou Artemis. Ami provavelmente não os encontrara. Em poucos momentos, o grupo sentou-se. Rei notou que houve um agrupamento, quase uma divisão, na mesa. De um lado, as Senshi e os Dragon Kishi. Do outro, os Noble Kishi. Ela lançou um olhar para a princesa da Lua, e notou uma expressão de desaprovação no arranjo. Era óbvio que ela queria que todos tratassem uns aos outros como velhos amigos. Dada a atual situação dos grupos, era improvável que acontecesse. - Bem. - Haruka disse, cruzando os braços. - Os Noble Kishi. Rei quase sentiu a desaprovação de Usagi. - Você deve ser Ten'ou Haruka, a Sailor Uranus. - respondeu Sui, com um sorriso frio e cortês. - Sua reputação a precede. Eu sou Arashi Sui, o Sun Noble Kishi. - Arashi Sui? - Chris perguntou, repentinamente. - Das Empresas Sanjouin? - Sui piscou, e fez que sim. Rei imaginou que não esperava encontrar um Dragon Kishi interessado em política corporativa. Ela própria estava um pouco surpresa com Chris. Haruka e Michiru olharam para Chris com certa reprovação. Ele logo assumiu um tom defensivo: - O quê? Ele é o CEO da empresa de tecnologia com os maiores avanços dos últimos anos. Reergueu ela dos escombros financeiros para torná-la uma líder mundial na área! Posso expressar minha admiração? Rei notou que Sui corou levemente, mas manteve-se em silêncio. - Creio que nos apresentarmos seja, de fato, uma boa idéia. - disse Juno, antes que Haruka respondesse para Chris. Rei notou que a Senshi de Júpiter já começara a compreender as dinâmicas do grupo. - Eu sou Juno, a Sailor Jupiter. Minha história pode esperar um pouco. - Chris Stover, o Saturn Dragon. - disse Chris, que estava sentado ao lado de Juno. Aparentemente, ele aproveitara para impôr a ordem das apresentações. Subitamente, Rei se deu conta que não sentara sequer perto de Chris. - E dá para sentir as boas vibrações desse grupo todo. E, um a um, cada membro do grupo foi se apresentando, seguindo o sentido horário que Chris estabalecera. Rei acompanhou cada apresentação, notando que a tensão na mesa era grande. Na verdade, as únicas pessoas que estavam conversando em voz baixa sobre amenidades eram Hotaru e Samantha. Por algum motivo, as duas meninas pareciam ter criado uma amizade quase instantânea. - Hotaru-chan? - Michiru falou, subitamente. - Por que você não vai mostrar o seu quarto para sua amiga? Rei notou o olhar silencioso que a pequena loira lançou na direção de Mark, e o aceno positivo da cabeça dele. As duas se levantaram e saíram, obviamente se desinteressando pela conversa. Os olhos de Rei repousaram em Ranko por um momento, e ela percebeu como maturidade era uma consequência da vida que as pessoas levavam. Hotaru e Ranko tinham a mesma idade, mas a diferença de postura era imensa. Talvez, pensou Rei, fosse por que o grupo continuava tratando Hotaru como se ela tivesse doze anos. Como tratavam Chibi Usa. Ao lembrar da futura filha de Usagi, Rei sentiu um aperto no coração. Será que ainda veriam ela? - Bem. - Sui falou, pegando um pedaço de pão e partindo-o. - Vamos aos negócios, então? - Certamente. - Haruka disse, falando antes que Usagi pudesse terminar de abrir a boca. Rei olhou para Sui, vendo o um olho bom dele estreitar-se como se aceitando um desafio. - Vocês já sabem que o Japão está cercado por aquela redoma. - É um dos motivos que estamos por aqui. - Sui respondeu, com um sorriso. - O que vocês não sabem é por que a redoma está lá. - Haruka continuou. - Nós fomos atacados por um novo inimigo. - Michiru falou, naquele tom de voz sério e misterioso que usava para aumentar a importância das coisas. Rei se lembrava claramente de quando Michiru falara, exatamente com aquele mesmo tom de voz, com as Inner Senshi. Quando estavam enfrentando as Witches 5. Subitamente, Rei percebeu que se recordaria das batalhas anteriores como se fossem bons tempos. As coisas pareceram mais simples naquela época. Ou eram mais simples. A Senshi de Marte foi arrancada de seus pensamentos pela voz de Michiru, que continuou. - Esse novo inimigo foi extremamente focado nas suas estratégias. Ele nos dividiu, atacando-nos um por um, e nos levando os poderes. - Eles usaram as Wands para alimentar um portal interdimensional, por onde começaram a invasão. - Ami comentou, sua voz baixa. - Interdimensional? - repetiu Ken, sua voz subitamente curiosa. Haruka, no entanto, falou antes que qualquer um dos presentes pudesse responder. Rei podia notar, claramente, que ela achava que pessoas demais estavam presentes. Provavelmente queria poder nos mandar para nossos quartos, como fez com Hotaru, pensou Rei amargamente. - Setsuna sacrificou sua vida para erguer a barreira que cerca Tóquio. - disse Haruka. - Eu não estava presente, mas parece que vai prender os invasores lá, enquanto permite que nós passemos sem problemas. - "Nós", as Senshi, ou "nós", humanos? - perguntou Jessica. Rei percebeu que fora uma das primeiras vezes que ela falara. - Humanos. - Haruka assegurou-a, com um sorriso, que desapareceu em seguida. - Não que muitos tenham tido chance de passar. - Como assim? - perguntou Sui, inclinando-se para frente. Haruka espelhou o gesto: - Não creio que muitas pessoas tenham conseguido escapar. O exército invasor era mais forte que qualquer inimigo que enfrentamos. A cidade provavelmente foi dominada em questão de horas. Sui fez que sim, encostando-se na sua cadeira, com um ar pensativo. Ele serviu-se de uma xícara de chá com a prática de um gesto quase inconsciente. Rei percebeu que ele devia tomar muito chá. Ou talvez associasse o ato de beber algo com negociações ou discussões. Não era incomum. - E o que querem? Que nós salvemos essas pessoas? - Sui perguntou. - Claro. - Haruka respondeu, com facilidade. O sorriso dela havia voltado. Ninguém mais na mesa atrevia-se a falar, fascinados pelo duelo verbal entre os dois. Ou quase todos, Rei pensou, olhando para Usagi com o canto dos olhos. Uma expressão cada vez mais perturbada cobria as feições da princesa. - Deixe-me ver, então. - Sui falou, também sorrindo. - Vocês querem que nós ataquemos um número indeterminado, possivelmente infinito se possuem um portal para seu lar aberto, de invasores que, em pequeno número, tinha derrotado nove Senshi, assassinando a mais antiga e habilidosa de vocês, e quatro Dragon Kishi? - Dez Dragon Kishi. - Chris corrigiu. Todos olharam para ele. Ele piscou, como sem entender. - São dez no total. Seis Inner Dragon Kishi, quatro Outer. - Dez. - Sui repetiu. - Dezenove de vocês... - Vinte. - dessa vez foi Ken quem interrompeu. - Mamoru também. - Onde estão eles? - Sui pergutou, subitamente. - Endymion e os Inner Dragon Kishi? - ele lançou um rápido olhar ao redor da mesa, como se verificando algo, depois completou. - E Sailor Venus? Ninguém respondeu. Rei respirou fundo, preparando-se para falar a verdade, dizer que achavam que Sailor Venus tinha morrido, que não sabiam onde os Dragon Kishi e Mamoru estavam, quando foi interrompida, novamente, por Haruka: - Em Tóquio, claro. - a voz da Senshi de Urano era leve. - Por quê? - perguntou Sui. Haruka hesitou por um momento, mas respondeu com tamanha convicção, que Rei teria sido convencida se não soubesse da verdade: - Tentando recuperar os nossos poderes. - Pensei que eles, também, tinham perdido seus poderes. - falou Ken, friamente. - Nem todos. - Haruka respondeu. - E por que precisam de nós? - Sui indagou, seu tom de voz perdendo amabilidade que possuíra até então. - Se eles estão lá, a situação deve se resolver em pouco tempo. - Não temos certeza de como estão. - Michiru falou, cobrindo a hesitação de Haruka com perfeição. Rei tinha que admitir que as duas trabalhavam como um par perfeito. Era como se pudessem ler os pensamentos uma da outra. - Mesmo? Comunicadores? Nada? - Sui perguntou. Rei tentara seu comunicador incansavelmente. Nunca obtera uma resposta sequer. Ela olhou para Haruka e Michiru. As duas mantinham suas feições perfeitamente guardadas, como se estivessem jogando pôquer. - Nada. - Haruka respondeu. - Veja por esse lado: se você estivesse atolado até o joelho em monstros, provavelmente não... - CHEGA! - Usagi gritou, se levantando