Bishoujo Senshi Sailormoon e associados é de direito da Kodansha e de Takeuchi Naoko. Sailor Moon é da Toei e, no momento, não está licenciado nos EUA. Essa obra não tem fins comerciais. Star Knights: Snow por Henrique "Ranma" Loyola A chuva fina que caía do céu naquela noite parecia não condizer com o bafo que erguia-se da enorme cidade abaixo dos seus pés. O concreto que cobria o chão por quilômetros fora esquentado pelo Sol que brilhou forte durante todo o dia e a água gerava um choque térmico assim que atingia o solo. Um bafo, portanto. subia até os céus, no sentido contrário às gotas que caiam. No topo de um dos mais famosos arranha-céus da cidade, uma figura solitária parecia não se incomdar nem com a água nem com o calor. Ele permanecia parado, como uma estátua, equilibrando-se na ponta da enorme antena que erguia- se do telhado do Edifício Altino Arantes, no coração da cidade de São Paulo. Um relâmpago cortou os céus, mas o jovem sequer se mexeu. Olhando para baixo, seus olhos negros examinavam a metrópole que, mesmo naquele dia único no ano, permanecia viva e movimentada. Não tanto quanto normalmente, ele sabia, mas o suficiente para que os carros fluíssem como sangue pelas ruas iluminadas. Ele suspirou. Na sua mente, as palavras que trocara com uma das poucas pessoas que amara na sua vida. Ele podia enxergar, com clareza, a fraqueza dos movimentos dela, os movimentos lentos dos olhos. Agora, ele examinava a cidade. Observava a vida dos que devia proteger, sentindo mais desconexo que nunca da sua própria humanidade. A água já tinha entrado na sua armadura, molhando-o por completo, mas o jovem não se importava. Ele dificilmente teria qualquer problema com aquilo. Ele não era humano. E, sua mente completou com um tom sarcástico, você se torna cada vez menos. Ele fechou os olhos, vendo mão frágeis e enrugadas por trás das suas pálpebras. Um sorriso fraco nos lábios da velha que ele estivera observando, um sinal que ela estava feliz em vê-lo. Abrindo os olhos, o guerreiro acompanhou o trajeto de um carro, observando com curiosidade enquanto ele fazia curvas fechadas para mudar seu percurso e costurava pelo trânsito da cidade. Ele pensou, brevemente, em saltar, em assustar o motorista e forçá-lo a dirigir com cautela. Ainda assim, não o fez. Não era assunto seu e ele sabia que não podia começar a se envolver com cada pequena contravenção que presenciasse. Novamente, um relâmpago. Novamente, ele encontrou-se lembrando do seu encontro derradeiro com a sua avó. Ele entrara no quarto, disfarçado de humano, sorrindo para ela. Ela o havia criado, de certa forma. Fora um exemplo em moral, fora um porto seguro durante a turbulenta vida em seu lar. Quando tudo parecia estar acabando, quando ele se sentia mais só, ela sempre oferecia um espaço na casa dela. Sempre uma cama quente, um lanche no meio da noite, um sorriso e uma palavra de compreensão. Olhando para ela daquele jeito lhe doía mais que o braço que quebrara pouco tempo antes. Mais que os inúmeros cortes e ferimentos que sofrera no cumprimento do seu dever. Seus olhos haviam percorrido rapidamente o corpo dela e ele soube, imediatamente, que o fim estava próximo. Dias, horas... talvez minutos. Ainda assim, ele colocou um sorriso forte no rosto e encarou os olhos sábios da velha sem deixar nada transparecer. Tolo. Ela era maior que ele, mais experiente. Ela sabia que ele sabia. Como não saberia? Todos os seus cabelos haviam deixado seu corpo, todos os seus músculos tinham definhado a uma não-existência. Ela era apenas ossos e pele enrugada, praticamente morta em vida. Exceto, ele lembrou, pelos olhos. Seus olhos, apesar de não se mover com a mesma velocidade e agilidade que ele lembrava, continuavam cheios da sabedora, brilho e bondade que sempre permearam sua juventude. Verdes e claros, totalmente diferentes dos do guerreiro, eles eram um ponto familiar na sua vida. Ele respirou fundo, subitamente de volta ao topo do edifício. Ao aspirar o ar, um leve engasgo o surpreendeu. Ele fechou os olhos, controlando seus sentimentos, e abriu-os devagar. As luzes da cidade, como sempre acontecia naquela época do ano, estavam mais fortes que o normal, salpicadas de dourados, verdes e vermelhos. Era Natal. Ele planejara sua visita ao seu lar desde o meio do ano, sabendo que devia satisfações à sua família. Que ele abandonara para lutar. E, naquele momento, ele se odiava por ter viajado apenas para prestar contas. Ele sentia-se mal por não ter desejado voltar, conversar. Por não ter estado lá naquele último ano da vida da velha. Ele sentia-se um traídor, de certa forma. Nos momentos derradeiros e difíceis da vida dela, ele esteve ausente. Por boas razões, claro, mas não foi ele próprio que pensou, quando a nave dos seus inimigos esmagou um número infindável de pessoas, que ser herói era colocar a vida de cada um acima da de todos? E, ainda assim, ela não o odiou por isso. Ao contrário. Seus olhos, focados nas luzes da Avenida Paulista, não enxergavam aquelas cores, mas viam o mesmo quarto de hospital que ele visitara horas antes. A velha, sorrindo, perguntou como ele estava. Ele mentiu, dizendo que estava bem. Ele sentia-se mal. Mal por não estar com ela, mal por não ter estado com ela. Mal pela traição a qual fora submetido pouco tempo antes. Mal por não ser reconhecido pelos seus feitos, exceto por pouquíssimos. Mal por ser incapaz de derrotar a doença que consumia, dia a dia, o corpo de alguém que ele amava. Ela, parecendo ler sua mente, sorriu e balançou a cabeça, dizendo que sentiu saudades. Falou, com dificuldade, que ele sempre foi o favorito dela, o mais promissor. Entre todos os filhos dos seus filhos, ela o achou o mais especial. Disse que sempre viu algo único nele. Ele sorriu para ela, dizendo que não era nada demais. Ela falou, então, que sabia que não era o caso. Era velha, mas não senil e muito menos estúpida. Disse que assistia televisão, que viu as histórias que contavam de guerras sem proporção no Canadá, no Japão. Ele ficou sem palavras, sem saber o que falar. Mesmo no topo da torre, o coração dele ainda estava disparado, sentindo seu segredo sendo exposto e revelado, dissecado por uma senhora em seus momentos finais. Sua mente pensara em quantas pessoas poderiam ter feito a conexão e ele se odiava por isso. Sabia que era uma exclusividade daquele ser moribundo, desprovido do seu corpo e presa às atividades intelectuais e sensoriais. Uma lágrima rebelde escapou dos olhos do jovem, escorrendo por seu rosto misturada à água da chuva. Ele forçosamente esfregou-a com sua mão direita, voltando o rosto para cima numa tentativa vã de impedir que outras fugissem ao seu controle. As gotas que caiam do céu golpearam sua face sem dó e ele sentiu o desejo de chorar desaparecer, aproveitando as sensações que a garoa trazia. Olhando para o negrume da noite, para as nuvens que perpetuamente cobriam aquela cidade, o guerreiro viu-se de volta no quarto do hospital. Ele tentou mentir, tentou dizer que ela enganara-se. Que ele era apenas um estudante, um menino. A expressão da velha, entretanto, tinha se tornado uma de desaprovação. Ela disse que não gostava quando mentiam para ela. Disse que conhecia o jovem, que conhecia seu coração. Vira ele crescer. Surgir como um rebendo e tornar-se um homem. Disse que o coração dele não teria permitido que ele esquecesse a família e amigos de forma tão absoluta, não teria deixado que ele jogasse fora o amor que sentia por todos. Ela falou, como em confidência, que as notícias do rompimento dele e da cantora foram o maior sinal de todos. O garoto apenas observou, sem saber como reagir. A velha, com um sorriso, perguntou novamente se era ele quem combatia aqueles seres estranhos e malignos. Perguntou se ele lutava pelo bem de todos. Ele, sem saber o que mais falar, respondeu com a verdade. A velha sorriu, então. Seu rosto se iluminou com orgulho e amor e ela disse que não se incomodava de ter passado sozinha pela doença. Disse que ele fizera a vida dela ter sentido e que ela tinha honra de ter ajudado a moldar tal figura. Ele, sem jeito, disse que não era nada demais. A senhora balançou a cabeça, informando-o que ele era muito mais que ela podia ser. Ele era um protetor, um anjo. Ela, então, perguntou se ele teve dúvidas. Ele respondeu que sim. A senhora, então, disse que dúvidas eram parte da vida mas que ele nunca devia esquecer-se do que era e de onde veio. Devia sempre lembrar de por que lutava e de como era por algo maior que ele próprio. Ela, então, agradeceu por ele a ter protegido por esse ano. Ele disse que não fez nada demais. Ela riu, dizendo que ele fizera mais que todos. Disse que dava a oportunidade para que todos começassem de novo, um dia por vez. Disse que postergava por mais uma noite o fim da vida de cada ser, que dava a eles a oportunidade de remediar o mal que tinham feito. Uma tosse terrível tomara a mulher, então, e ele moveu-se com velocidade para estar ao seu lado. Um novo relâmpago e trovão. O som do estrondo lembrava a ele muito do ruído do pulmão da senhora. Lembrava o som da morte chegando. A velha, muito mais fraca que antes, levantou os olhos e pediu, então, que ele a mostrasse. Ele o fez. Luz azul o envolveu e, instantes depois, ele vestia sua resplendorosa armadura cerúlea, espada na cintura e marcas de poder no rosto. A velha ficou olhando para ele com orgulho e amor por um longo momento. Uma seriedade terrível tomou as feições dela, e ela pediu: - Você me promete defender os mais fracos? Proteger os que não podem defender a si próprios? Jura ser uma luz de esperança nos momentos que parecem ser finais? Ele respondeu que sim, com mais sinceridade que respondera qualquer outra coisa na sua vida. Ela sorriu, agradeceu a ele e a Deus, e se foi. O jovem guerreiro avançou um passo na direção dela, pensando em fazer algo. Mas o aparelho ao qual ela estava ligada começou a soltar um assobio constante e agudo, indicando que o que ele via não passava de uma casca onde a sua avó não mais estava. Ele ouviu passos no corredor. Correu, então, para a janela e lançou-se na noite. E, subitamente, ele estava novamente no topo da torre, acima do mundo e das pessoas, abaixo dos céus. Acima e alheio, ele pensou, mas não melhor. Acima para vigiar, abaixo como servo. Seus olhos voltaram-se para aquela cidade, para aquele domínio. Ele lembrou-se da velha que lhe ensinara tanto na sua vida e sorriu. Ela sempre lhe disse que sonhava com a neve no Natal, como nas lendas que costumava ler para ele quando criança. Talvez, ele pensou, seja a hora de oferecer uma nova lenda para essas pessoas. Um feixe de esperança nas trevas, um sinal de que existe algo que quer preservar suas vidas e sua inocência. Ele ergueu os braços e fechou os olhos, concentrando seu poder. Ele sentiu ventos gelados ecoarem por dentro do seu corpo, como sempre acontecia, e se esvaírem por suas mãos. As gotas da garoa, então, se tornaram flocos de neve. Ele ficou observando as pequenas esculturas de gelo caírem do céu, e sorriu ao ver os carros pararem e as pessoas deixarem suas casa, apontando para o alto e vislumbrando algo que acharam que nunca veriam. Mercury Knight, então, saltou do topo do prédio, sua mente fixa em novos começos e novas antigas promessas. Fim. Nota do Autor Essa é uma das quatro histórias que eu sempre quis escrever a respeito de cada um dos Star Knights. Cada uma delas associada a uma data festiva, cada uma um breve estudo de personagem e de suas motivações. Essa obra é particularmente especial para mim porque a avó de Hg é baseada na minha própria. Muito que ela significa para ele vem dos meus sentimentos. Quando eu concebi essa história, ela já sofria com o câncer que lhe tomaria a vida. Ela lutou por bravos dez anos contra a doença e teve seu merecido descanso no final. É um pouco irônico, para mim, que esse conto só tenha visto a luz do dia depois que o duelo dela com a morte já tinha terminado. Já faz mais de um ano desde que ela deixou esse mundo, mas eu, até hoje, sinto muito a sua falta.